12/10/2011
Língua portuguesa esconde ciência nacional
- Maioria das pesquisas brasileiras publicadas
em revistas locais não tem versão em inglês, o que
reduz a visibilidade - Número de citações por artigo
dobra quando texto está em inglês; escolha do idioma da
revista é 'editorial', diz especialista
SABINE RIGHETTI
DA FOLHA DE SÃO PAULO
O Brasil é o 13º país na lista dos que mais publicam
artigos científicos. Mas, quando o assunto é quantas vezes
cada texto é citado por outros pesquisadores, o país vai
mal.
Isso acontece principalmente por um motivo: 60% dos artigos publicados
por aqui estão em português.
E, diferentemente de países como a Espanha, boa parte dos cientistas
daqui prefere publicar em revistas brasileiras.
A questão foi levantada em um evento da Fapesp (Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), realizado
na sexta-feira passada, que discutiu o desempenho dos periódicos
brasileiros.
O interesse da Fapesp pelo assunto é claro: não adianta
financiar as pesquisas se ninguém repercutir os resultados dos
trabalhos.
"Precisamos pensar quais artigos devemos publicar só
em português, só em inglês e quais devem estar
nas duas línguas", disse Abel Packer, coordenador operacional
do SciELO -base que reúne revistas científicas com acesso
aberto na internet.
PIOR NAS HUMANAS
Em áreas como linguística, letras, artes e ciências
sociais aplicadas a situação é pior.
Além dos artigos majoritariamente em língua portuguesa,
cerca de 65% dos resultados de pesquisas nessas disciplinas estão
em livros -que também estão em português.
"Mas em áreas como a linguística pode não
fazer tanto sentido publicar em outro idioma", diz Packer. "O
ideal, claro, seria que todas as revistas tivessem também uma
versão em inglês. Mas isso teria um custo muito alto",
completa.
Hoje, o governo gasta cerca de R$ 5 milhões anuais com as revistas
nacionais. Mas para Luís Reynaldo Alleoni, editor da "Scientia
Agrícola", da USP de Piracicaba, "passar as revistas
brasileiras para a língua inglesa é um caminho sem volta."
O periódico está em inglês desde 2003. Com isso,
as citações aumentaram, e o número de artigos de
cientistas estrangeiros passou de 5%, em 2002, para 11% em 2010.
Parcerias também aumentam o impacto dos artigos. As citações
dos estudos nacionais crescem 50% quando os trabalhos são feitos
em colaboração internacional.
Para Rogério Meneghini, coordenador científico do SciELO,
há uma espécie de "transferência do impacto"
do artigo quando uma instituição brasileira publica um
trabalho com outra estrangeira mais renomada.
"Mas, além de ter pouca colaboração entre
países, o Brasil tem um número pequeno de artigos produzidos
entre as próprias instituições nacionais",
diz Meneghini.
O SciELO recomenda, cada vez mais, que as revistas nacionais estejam
em inglês.
"Mas a escolha do idioma ainda é uma decisão editorial
da revista", conclui Packer.
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