12/10/2011
O caçador de Reencarnados - Erlendur Haraldsson
-
Quem é o psicólogo islandês
que há três décadas viaja à procura de crianças
que relatam experiências de vidas passadas
por Fausto Salvadori

Crédito:
Sam Hart
Erlendur Haraldsson adora conversar com crianças. Tanto que o
psicólogo islandês de 78 anos já encarou mais de
nove viagens ao Sri Lanka e outras seis vezes até o Líbano
só para ouvir as histórias que os pequenos do outro lado
do mundo poderiam lhe contar. Nada de brincadeiras ou travessuras, o
que há de comum nos relatos dessas vozes infantis é uma
narrativa direta: como elas morreram.
Carbonizadas, vítimas de homicídio, afogadas: boa parte
das crianças ouvidas por Haraldsson é capaz de narrar,
detalhe a detalhe, histórias de mortes violentas que teriam sofrido
em outras encarnações. É o caso de Purnima Ekanayake,
garota que o pesquisador conheceu quando tinha nove anos, na década
de 90, em Bakamuna, um vilarejo do Sri Lanka. Purnima, uma “menina
linda e encantadora”, melhor aluna da classe, aos três anos
começou a contar aos pais sobre uma outra existência que
teria vivido antes de nascer. Um dia, ao ver a mãe aborrecida
por conta de um acidente de carro, comentou: “Não ligue
para isso, mamãe. Eu vim para você depois de um acidente.
Tinha um monte de ferro no meu corpo”.
A menina começou a contar histórias detalhadas sobre
uma vida anterior, na qual teria sido um homem, funcionário de
uma fábrica de incenso. Relatou a localização da
fábrica, o nome da antiga mãe, deu detalhes sobre o número
de irmãos, as marcas de incenso que eram produzidas, os carros
da família, a escola... Seguindo as indicações,
seus pais chegaram à família de Jinadasa Perera, fabricante
de incensos que morrera atropelado por um ônibus dois anos antes
de Purnima nascer.
“Este é Wijisiri, meu cunhado”, foi o que a menina,
sem nunca tê-lo visto antes, disse ao entrar na antiga indústria
de incenso, a 230 quilômetros da sua casa, segundo testemunhas
entrevistadas por Haraldsson. A menina ainda olhou para as embalagens
e perguntou: “Vocês mudaram a cor?”. A cor das embalagens
havia sido alterada logo após a morte de Jinadasa. Ao analisar
as informações dadas por Purnima antes desse encontro,
Haraldsson concluiu que os relatos se encaixavam no perfil do morto.
E foi além. Vasculhando os registros da necropsia de Jinadasa,
apurou que o atropelamento havia ferido o fabricante de incenso no lado
esquerdo do abdome — mesmo local onde o corpo da menina Purnima
exibia manchas brancas de nascença.
Três décadas de reencarnação
Longe de ser exceção, histórias como a de Purnima
são uma constante na vida do islandês. Haraldsson viu o
que restou dos seus cabelos embranquecer enquanto trocava o frio de
sua terra natal pelo calor de vilarejos e cidades densamente povoadas
do terceiro mundo. O Ph.D. em psicologia e professor emérito
da Universidade da Islândia passou as últimas três
décadas colecionando histórias de crianças sobre
vidas passadas. Foram exatas 94 investigações sobre essas
narrativas no Líbano e no Sri Lanka, países onde os relatos
são mais numerosos, provavelmente por conta da religião
— o budismo, no Sri Lanka, e, no caso do Líbano, o drusismo,
uma religião de influência islâmica que acredita
na reencarnação.
Haraldsson identificou um padrão nessas narrativas. Na maioria
dos casos, elas aparecem entre 2 e 5 anos e são comuns os relatos
de morte violenta. Algumas das crianças pedem para conhecer os
familiares da suposta outra vida. Outras, vão além. “Vocês
não são meus pais de verdade” foi o que Dilukshi
Nissanka passou a dizer desde que tinha três anos, para a tristeza
de sua família, em Veyangoda, no Sri Lanka. A menina insistia
em rever sua “outra mãe”, dizendo que seu nome verdadeiro
era Shiromi e que havia se afogado num rio. Depois que a história
foi publicada num jornal local (casos de reencarnação
fazem tanto sucesso na imprensa popular do Sri Lanka como as mulheres-fruta
nos nossos tabloides), os pais da garota foram contatados por uma família
de outra cidade: eles contaram que, anos antes, a família havia
perdido uma filha chamada Shiromi, afogada em um rio. Examinando declarações
da garota antes do encontro entre as famílias, Haraldsson constatou
que Dilukshi acertara várias informações sobre
a família de Shiromi, como a região em que viviam, o número
de filhos e a paisagem local.
Coincidência?
Histórias assim impressionam, mas será que não
podem ser explicadas apenas como coincidência? Foi a pergunta
que Galileu fez para Haraldsson quando o caçador de reencarnados
esteve no Brasil, em setembro, participando do I Simpósio Internacional
Explorando as Fronteiras da Relação Mente-Cérebro.
“Pode ser coincidência, sim”, diz o pesquisador. Para
logo em seguida acrescentar pausadamente, em tom didático de
professor universitário: “Mas há alguns casos em
que isso é altamente improvável”.
Apesar de apontar evidências que considera fortes, Haraldsson
evita especular sobre se a reencarnação existe ou não
em seus estudos. Prefere apresentar os fatos e deixar as interpretações
para quem lê. “Sou um pesquisador empírico”,
afirma. “Você pode encontrar uma grande correlação
entre o que uma criança conta e a vida de alguém que morreu.
Isto é um fato. O que significa já é outra questão.”
Haraldsson chegou a testar a hipótese de que os relatos poderiam
ser explicados por questões como necessidade de chamar atenção
ou transtornos mentais. Mas isso, de acordo com o psicanalista, não
é o tipo de coisa que Freud explica. O islandês aplicou
testes psicológicos em dois grupos de 30 crianças libanesas,
um dos quais dizia se lembrar de outras vidas. O estudo não encontrou
diferenças significativas, exceto em um ponto: as crianças
que relatavam vida anterior tinham sintomas de estresse pós-traumático.
Isso pode ser explicado pelo fato de que 80% delas contavam ter passado
por mortes violentas. Real ou imaginário, um acidente mortal
ou um homicídio são lembranças difíceis
para a mente de uma criança.
Método
Mesmo lidando com fenômenos estranhos, o islandês busca
seguir a metodologia científica. Seu método dá
preferência a fontes que ouviram em primeira mão as declarações
espontâneas das crianças, como pais, avós, irmãos
e amigos. Para garantir a precisão e flagrar contradições,
as testemunhas são entrevistadas mais de uma vez, separadas umas
das outras. Entrevistas com a própria criança são
feitas depois, para evitar que o pequeno diga o que o entrevistado quer
ouvir. Feito isso, o psicólogo assume papel de detetive. Com
a ajuda de colaboradores locais, como jornalistas e religiosos, busca
identificar pessoas mortas com histórias que se encaixem no que
as crianças contaram. Na última fase, procura os registros
da necropsia do morto (se houver) e analisa se há correspondência
entre possíveis ferimentos e eventuais marcas de nascença.
Aplicar esse método significa chegar a informações
consistentes em pouquíssimos casos. Na maioria das vezes, não
é possível levantar correlação significativa
entre os relatos e o que de fato ocorreu. A maior parte do trabalho
de investigação de 30 anos do pesquisador acaba mesmo
sendo descartada. “No Sri Lanka, apenas 10% dos casos apresentam
evidências fortes; no Líbano, entre 20% e 30%.” O
aparente rigor e seus quase 100 artigos publicados não impedem,
contudo, que o tema de pesquisa de Haraldsson seja visto como marginal.
Se duvidar, é só perguntar a ele como a comunidade científica
tradicional reage a seus estudos. A resposta é simples e serena:
“Não há reação. Eles apenas não
leem”.
Fonte:
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,ERT181092-17773,00.html