12/10/2011
Dolores Bacelar, médium que permaneceu sob o anonimato por muitos
anos e sua história,
por Izabel Vitusso
Dolores Bacelar dedicou grande parte da vida em
prol da doutrina espírita. Psicografou diversos títulos,
auxiliou instituições de caridade e, por opção,
permaneceu praticamente no anonimato
Pelo menos dentre os espíritas mais antigos, vai ser difícil
encontrar alguém que não tenha lido ou ouvido falar em
A mansão Renoir. Um romance espírita psicografado que
se tornou um clássico, pelo enredo, qualidade literária
e enquadramento doutrinário.
Porém, sobre a médium psicógrafa,
Dolores Bacelar, é difícil dizer a mesma coisa. Por um
simples motivo. Ela seguiu à risca a orientação
que recebera de Alfredo, um dos espíritos responsáveis
pela orientação da médium: que ela se mantivesse
na discrição. Dolores fez mais do que isso; manteve-se
quase no anonimato.
Nascida em 10 de novembro de 1914, era sobrinha de
tio com fortes vínculos com a Igreja – o monsenhor Francisco
Apolônio Jorge Sales. Estudou por seis anos em colégio
de irmandades. Assim que se casou, mudou-se de Pernambuco para o Rio
de Janeiro. E foi lá, alguns anos depois, já com três
de seus quatro filhos, que a mediunidade de Maria Dolores de Araújo
Bacelar começou a dar seus primeiros sinais, poucos anos antes
de a cidade maravilhosa se despedir da década de 40.

Dolores e seu marido
Potencial mediúnico
Assustar-se e gritar com pedestres nas vias públicas,
por achar que estavam prestes a ser atropelados, era fato corriqueiro
para a médium. Na verdade, o que Dolores via eram os espíritos
transitando – essa foi a causa de ter sido aconselhada pelo espírito
Alfredo para que não se aventurasse no volante.
Levada a uma casa espírita, no Rio de Janeiro,
conheceu Ismael Gomes Braga, que imediatamente percebeu o potencial
mediúnico a ser colocado em ação. Tendo ao lado
o esposo, Luiz Gonzaga da Silveira Bacelar, Dolores não apenas
abriu a vertente das diversas sensibilidades mediúnicas, como
também trabalhou extenuadamente pela divulgação
do epiritismo. Primeiro foi na Casa Espírita do Coração,
em Ipanema, RJ. Mais tarde, fundou com o esposo mais duas instituições
de assistência: a Sociedade Espírita Seara dos Filhos de
Deus, em Copacabana, transferida depois para Botafogo, ainda em atividade;
e a Casa Assistencial Lar Amigo, destinada ao amparo de meninas órfãs.
Mesmo com a grande importância dada ao trabalho assistencial,
Dolores dedicou-se atenção especial à família.
“Mamãe sempre foi muito dedicada ao lar. Colocava a família
como prioridade. Ela dizia que Deus havia lhe dado primeiro os filhos
e a mediunidade veio depois”, revelou Rômulo Bacelar, o
segundo filho do casal, além de Fernando Antonio, Ana Cristina
e Primavera.
Apoio aos órfãos
Devolver a dignidade ao ser humano era o que a médium discreta
perseguia em suas frentes de trabalho. Tanto que não faltou o
seu apoio ao coronel Jaime Rolemberg de Lima, quando pensou em implantar
a unidade para atendimento às famílias carentes, no Lar
Fabiano de Cristo, em Copacabana, que recebeu o nome de Casa de Alfredo.
Quando ficou viúva, em 1988, Dolores estava com 74 anos; era
já avó de oito netos, mas se sentia em forma para assumir
mais trabalho. Há anos realizando atividades com crianças
órfãs no Lar Amigo, ela ainda aceitou a presidência
da Sociedade Espírita Seara dos Servos de Deus.
Trabalhar junto a crianças órfãs era algo que lhe
atraía. Talvez tenha sido esse o motivo que a levou, em 1980,
a visitar o Lar da Criança Emmanuel – primeira instituição
de assistência fundada em São Bernardo do Campo, SP –
pelos espíritas Ismael Sgrignolli, Raymundo Espelho, Manoel Romero,
José Corrêa e outros.
Ao conhecer o trabalho da entidade, onde fora levada pelo escritor Jorge
Rizzini, a médium manifestou interesse imediato em ceder àquelas
crianças os direitos autorais de todas as obras por ela psicografadas.
Entre as razões que levaram Dolores a tal gesto, permanecia a
idéia de sempre vincular seu trabalho, principalmente a psicografia,
à assistência da criança carente.
Foi então que o romance A mansão Renoir – que narra
a história de transformação ocorrida em uma importante
família de descendência francesa –, ganhou, em 1980,
forma e público, por meio da própria editora vinculada
ao Lar Emmanuel, a Correio Fraterno, fundada em 1967.

Dolores ao centro abraçada com Jorge Rizzini
Instrumento do bem
Além de A mansão Renoir,
Dolores Bacelar recebeu pela psicografia inconsciente mais nove livros:
A Canção do destino, Novos cânticos, A rosa imortal
e À sombra do olmeiro, e a série Às Margens do
Eufrates da qual fazem parte as obras: O alvorecer da espiritualidade,
Guardiães da verdade, Veladores da luz, O Vôo do pássaro
azul e o último, Jonathan, o pastor. Todos assinados por Espíritos
com perfil semelhante ao da médium, que preferem se revelar pelas
obras, e não pelo nome. Assinam simplesmente como: Um Jardineiro,
Josepho ou Alfredo.
“Apesar de ter a mediunidade totalmente inconsciente,
mamãe sabia o teor do trabalho que psicografaria. Os Espíritos
apresentavam o livro antes a ela”, contou Rômulo –
com quem Dolores viveu nos últimos tempos. “De todos
os livros que recebera, À sombra do olmeiro, de autoria do
Espírito Um Jardineiro, era a obra de que ela mais gostava.
Adorava também a série Às margens do Eufrates”,
finalizou.
Afetiva, Dolores transmitia seu carinho aos amigos
que fizera ao longo dos anos, trocando cartas com os mais distantes
– como os amigos do Correio Fraterno e também com o médium
Chico Xavier –, e mostrando a suavidade de sua presença
aos mais próximos. Dolores veio a desencarnar, no dia 6 de outubro
de 2006, por causas naturais, poucos dias antes de completar 92 anos,
no Rio de Janeiro. Dois meses depois, sua presença em Espírito,
já foi sentida entre os familiares, no Rio de Janeiro e São
Paulo, onde ela deixou uma mensagem, que lembram as expressões
de sua preferência:
“A mão que antes fere, hoje ilumina.
A arma que desfere para o mal, hoje se transforma em instrumento do
bem. Cada sonho despetalado transforma-se em sementes que irão
germinar. E só o amor é capaz de encubar toda semente
lançada à terra. Assim são as palavras que consolam,
regadas pelo sentimento”, pelo espírito de Dolores Bacelar.
Fonte: http://correiofraterno.com.br/nossas-secoes/15-baudememorias/725-ilustre-desconhecida
http://correiofraterno.com.br/livros/mansaorenoir