10/10/2011
Por PATRICIA COHEN
O economista premiado com o Nobel, Robert W. Fogel, e um grupo de seus
colegas vêm pesquisando assiduamente, há quase três
décadas, o que as dimensões e a forma do corpo humano
revelam sobre as mudanças econômicas e sociais advindas
ao longo da história. Sua pesquisa deu origem não apenas
a um novo filão de estudos históricos, mas também
a uma teoria provocante segundo a qual a tecnologia acelerou a evolução
humana de maneira inusitada ao longo dos últimos cem anos.
Neste mês de maio de 2011, poucas semanas antes do 85° aniversário
de Fogel, a editora Cambridge University Press vai publicar uma obra
que vai coroar a pesquisa: "The Changing Body: Health,
Nutrition, and Human Development in the Western World Since 1700"
(o corpo em transformação: saúde, nutrição
e desenvolvimento humano no mundo ocidental desde 1700). O
livro resume o trabalho de dezenas de pesquisadores em um dos projetos
mais ambiciosos já empreendidos no estudo da história
econômica.
Fogel e seus coautores, Roderick Floud, Bernard Harris e Sok Chul Hong,
afirmam que "na maior parte do mundo, mas não em todas as
partes, o tamanho, o formato e a longevidade do corpo humano mudaram
de modo mais substancial e muito mais rápido nos últimos
três séculos do que ao longo de muitos milênios anteriores".
Além disso, escrevem, essa alteração se deu em
um período de tempo "minúsculo, pelos padrões
da evolução darwiniana".
Movida por avanços na produção de alimentos e na
saúde pública, essa chamada "evolução
tecnofisiológica" superou de tal maneira o ritmo da evolução
tradicional, argumentam os autores, que os humanos de hoje se diferenciam
não apenas de todas as outras espécies, mas também
de todas as gerações anteriores de Homo sapiens.
"Não sei se existe na história humana uma história
mais importante que a dos avanços na saúde, que incluem
altura, peso, deficiência e longevidade", disse Samuel
H. Preston, um dos demógrafos mais respeitados do mundo e sociólogo
na Universidade da Pensilvânia. Sem os avanços conquistados
no século 20 na nutrição, no saneamento e na
medicina, apenas cerca de metade da população americana
atual estaria viva hoje, segundo ele.
Na Europa, na época da Revolução Francesa, um
francês de 30 anos pesava em média cerca de 50 quilos,
contra 77 em média hoje. Na Noruega, um homem médio de
22 anos media 179 centímetros no final do século 20, 14
centímetros a mais que a média do final do século
18, 165 centímetros.
Angus Deaton, economista da Universidade Princeton, diz que também
admira o trabalho de Fogel, mas vê com ceticismo a ênfase
sobre a nutrição, além de algumas das conclusões
às quais os pesquisadores chegaram com base na altura dos humanos.
"Não entendemos realmente porque adultos e crianças
africanos são tão mais altos que adultos e crianças
indianos, mas não pode ser em função de sua renda,
já que os indianos são muito mais ricos", disse ele.
Mas "The Changing Body" é repleto
de gráficos e tabelas de estatísticas que incluem as alturas
de meninas na Alemanha e Croácia, a energia calórica derivada
de batatas, peixes e vinho, e os volumes anuais médios de grãos
e carnes consumidos por viúvas do condado de Middlesex, no Massachusetts,
entre 1654 e 1799.
O argumento básico é bastante simples: que a saúde
e nutrição de mães gestantes e seus filhos contribuem
para a força e longevidade da geração seguinte.
Se os bebês forem privados de nutrição suficiente
durante a gestação e na primeira infância, serão
mais frágeis e mais vulneráveis a doenças mais
tarde na vida. Esses adultos enfraquecidos irão, por sua vez,
gerar filhos mais fracos, em uma espiral que se autorreforça.
O corpo humano é tremendamente flexível e responsivo,
disse Fogel, fato que o enche de confiança na ideia de que "a
tendência em direção a corpos maiores e vidas mais
longas vai continuar no futuro".