02/10/2011
PERDÃO, ERREI
Kathryn Schulz
- Autora americana reúne provas de que a mente humana é
programada para falhar
POR GUILHERME GENESTRETI
DA FOLHA DE SÃO PAULO
Errar é natural, acertar é
raro. Apesar disso, tratamos nossas escorregadas como exceções,
diz Kathryn Schulz, autora de "Por que Erramos?", publicado
neste ano aqui e um dos melhores livros de 2010, segundo a revista "Publishers
Weekly".
Perdão, Errei ! - Kathryn Schulz mostra que humano, mesmo, é
não assumir o erro - gesto mais nefasto do que o erro em
si. Pagamos um preço alto pela inabilidade em lidar com as falhas.
(...) Errar é natural, acertar é raro. Apesar disso, tratamos
nossas escorregadas como exceções, diz
Folha - Por que é
tão difícil admitir um erro?
Kathryn Schulz
- Porque acreditamos que estar errado é ser inferior. E porque,
para admitir, precisamos perceber o erro. Se você se apega a uma
crença, é difícil ver a evidência contrária
e reconhecer que está equivocado. Se é capaz de reconhecer
o erro, o próximo passo é admiti-lo publicamente, o que
envolve outras apostas: serei humilhado, as pessoas aceitarão
o erro, terei de pagar por isso?
Por razões culturais, associamos erro a estupidez, irresponsabilidade,
preguiça ou falta de esforço. Nos sentimos idiotas quando
erramos.
Algumas culturas lidam melhor com o erro?
A cultura ocidental tem uma relação ambígua com
isso: somos intolerantes com os erros dos políticos, mas temos
tolerância maior do que o Japão, por exemplo, para erros
cometidos por alunos.
Por que erramos?
Em primeiro lugar, porque acreditamos muito nos nossos sentidos. E eles
falham. Algumas informações parecem evidentes, mas são
falsas. É o caso das ilusões de óptica e da cegueira
automática - ficamos com a atenção tão
focada em um objeto que não prestamos atenção ao
redor.
A mente aplica truques. Nossa memória falha e acreditamos nela,
achando que a mente reflete o mundo como ele é. Também
erramos porque erguemos crenças influenciados pelos outros. Somos
ludibriados involuntariamente por família, comunidade. Tiramos
conclusões com base em um conjunto confuso de informações.
Como aproveitar um erro?
Aprendemos mais com os erros do que com os acertos. É bom acertar,
ótimo para o ego, nossa sobrevivência depende de conclusões
corretas sobre o mundo. Mas estar certo não é um processo
de aprendizado, é um processo de reforço. Você não
registra muita informação em estar certo a respeito de
algo. Já quando percebe que está errado é forçado
a recuar e a reconstruir a ordem dos fatos, o que te permite aprender.
E por que nos sentimos tão bem com os
erros dos outros?
Somos sádicos. Ficamos aliviados com o fato de que é o
outro. Algo como: "Ufa, poderia ter sido eu, mas foi você".
É uma forma de reforçar nosso ego, de nos protegermos
da dor de estar errado.
No livro, você diz que a atitude diante
do erro pode ser pior do que o erro em si. Por quê?
A maioria dos erros não é catastrófica, não
afeta de maneira grave as relações. Errar um caminho,
uma estrada certa, por exemplo, pode ser irritante, mas pior é
alguém ficar insistindo que está certo para não
admitir o erro. Começa uma briga ridícula por competição.
O que acaba com uma relação é a insistência
de um em provar que está certo, não o erro em si.
Tudo pode ser perdoado?
Se algo é mesmo um erro, a pessoa deve ser perdoada. Mas há
situações em que há negligência. É
o caso de quem não fez seu trabalho direito ou cometeu fraude
ou teve intenção de prejudicar outra pessoa. Se um erro
sem intenção lesou alguém, precisa haver perdão.
Negligência é outra coisa.
Mas alguns erros são fatais...
Não dá para acabar com os erros. Podemos estar errados
até sobre o que é o certo e não conseguir distingui-lo
do que é estar errado. E se colocarmos a culpa em indivíduos
não chegamos a lugar algum. Vamos dizer que há uma enfermeira
que dá a medicação errada a um paciente. É
terrível, faz sentido que as pessoas culpem a enfermeira. Mas
a pergunta é: por que ela cometeu o erro? Se ela não estava
drogada nem pretendia matar, você tem que analisar outras evidências.
Talvez a medicação fosse quase idêntica à
certa. E se ela só tinha 30 minutos para cuidar de 30 pacientes?
A solução é resolver a questão no nível
do sistema. Culpar indivíduos nunca vai resolver. É impossível
contratar a enfermeira perfeita, mas é possível aperfeiçoar
o sistema para que os erros, que são inevitáveis, não
causem um mal.

A jornalista Kathryn Schulz, 36, autora de "Por
que Erramos"
Foto : Michael Polito/Divulgação

POR QUE ERRAMOS?
Autor: SCHULZ, KATHRYN
Tradutor: MARIA ALBERTINA
Editora: LAROUSSE DO BRASIL
ISBN: 8576358603
ISBN-13: 9788576358602
Idioma: Livro em português
Encadernação: Brochura
Dimensão: 23 x 15,7 cm
Edição: 1ª
Ano de Lançamento: 2011
Número de páginas: 368