30/09/2011
Valor OnLine - 23/08/2011
Antes restritos aos espaços mais discretos
das grandes livrarias, os livros religiosos conquistaram o paraíso
das vitrines. Grandes editoras brasileiras se renderam não somente
ao tema, mas também a autores que são padres. A religião
é o segmento que mais cresceu entre 2009 e 2010, a ponto de figurarem
em listas à parte dos demais gêneros. A partir do surpreendente
desempenho de 'Ágape' (Globo Livros, R$ 19), do padre Marcelo
Rossi, que desde agosto de 2010 vendeu mais de 4 milhões de exemplares,
os títulos assinados por padres migraram para a lista de vendas
gerais.
Em 2010, foram vendidos no país 437,9 milhões de livros,
sendo 202,6 milhões didáticos e 74 milhões religiosos.
No entanto, quando se compara a variação entre 2009 e
2010 em total de exemplares vendidos, os religiosos ganham (aumento
de 17,3% contra 15,42% dos didáticos). A pesquisa 'O Comportamento
do Setor Editorial Brasileiro', divulgada pelo Sindicato Nacional de
Editores de Livros e pela Câmara Brasileira do Livro, é
respondida diretamente pelas editoras, que definem o gênero do
que produzem.
Segundo alguns editores, a autoajuda seria a melhor classificação
para esses livros, que apontam os ensinamentos de Cristo como resposta
para as angústias humanas. A presidente do Sindicato Nacional
de Editores de Livros (Snel), Sônia Jardim, afirma que as segmentações
são ditadas pela comercialização. 'Até hoje
nada se compara ao sucesso de ?Ágape', que fica na fronteira
entre o religioso e obras gerais, onde os livros inspiracionais se encaixam.
Em um país de população majoritariamente católica,
em um momento em que se busca alguma explicação para as
coisas da vida, a religião preenche essa demanda', diz Jardim.
Para o mercado, o interesse pelos livros escritos por padres indica
um aumento no consumo. 'São pessoas que não costumavam
comprar livros. Muitos vieram justamente pelas mãos do padre
Marcelo. Então, eles adquirem um livro do padre e, a partir daí,
outros títulos', acredita Sônia.
Impulsionados pelas vendas de 'Ágape', os livros dos padres Reginaldo
Manzotti e Juarez de Castro ganharam tiragens iniciais acima de 20 mil
exemplares, o que, no mercado brasileiro, geralmente se reserva a best-sellers
ou a autores consagrados. Livros de escritores brasileiros iniciantes
não religiosos costumam ter tiragem inicial de 3 mil exemplares.
O precursor da onda editorial católica, o padre Fábio
de Mello, depois de 60 semanas na lista e 2 milhões de cópias
vendidas de 'Cartas entre Amigos' (Globo Livros R$ 34,90), que assina
com Gabriel Chalita, entrega o manuscrito de outro livro epistolar para
a Planeta. Desta vez, totalmente ficcional, trará como protagonistas
um jovem e um professor de filosofia aposentado, tratando dos dilemas
existenciais em linguagem acessível, informa a diretora editorial
da Planeta, Soraia Reis.
'Todos esses sacerdotes sabem aliar o profundo conhecimento acadêmico
e espiritual com a experiência da abordagem humana. Eles estão
buscando ajudar e atender o próximo, dentro da prática
religiosa, mas de uma forma pouco impositiva e tocante', diz Soraia.
Uma reflexão sobre passagens bíblicas, 'Ágape'
não apenas se tornou o livro de maior venda de um autor brasileiro
em curto espaço de tempo, mas inverteu a procura por títulos
religiosos no País. Até então, eram os livros espíritas
que encabeçavam as listas do segmento religioso. A estabilidade
financeira e a expansão da classe média também
contribuíram para o sucesso dos padres-escritores.
'Percebemos uma leva de consumidores provenientes da nova classe média.
O interesse por questões espirituais sempre atraiu a atenção
dos leitores. Já houve momentos em que livros de temáticas
espíritas despontaram em vendas. Os livros evangélicos,
geralmente, são vendidos nas igrejas e nem entram nas listas
dos mais vendidos, assim como a Bíblia, ainda hoje o livro mais
vendido de todos os tempos', afirma Sônia Jardim.
'Reconhecemos a tendência e fomos atrás de um autor que
tivesse empatia com o público. Na semana de lançamento,
os grandes clientes, as livrarias e magazines já estavam fazendo
reposição de exemplares, o que nos levou a planejar uma
segunda edição antes do fim do ano', conta Pedro de Almeida,
editor da Lua de Papel, que em junho lançou 'As Chaves da Perseverança'
(R$ 19,90), do padre Juarez de Castro, com uma tiragem inicial de 50
mil exemplares.
A visibilidade do padre Marcelo Rossi garantiu a tiragem inicial de
250 mil exemplares de seu primeiro livro. 'Os padres midiáticos
são referências fora do meio católico e, por isso,
planejamos uma ampla distribuição de ?Ágape'. A
expectativa de venda era 1 milhão de cópias, queríamos
atender à demanda imediata. Acabamos surpreendidos pela resposta
do público, motivado por uma eficiente propaganda boca-a-boca',
lembra o diretor da Globo, Mauro Palermo, que, cauteloso, estima a permanência
do livro nas listas de mais vendidos até o fim deste ano. 'Romances
demonstram sobrevida maior, mas existem casos de long-sellers em autoajuda,
atravessando tendências sem sinais de saturação',
observa.
Estrelas pop
O padre Marcelo Rossi sofre com um início de tendinite por assinar
muitos autógrafos em um período de dez meses. 'Já
escrevi mais de 230 mil dedicatórias e não apenas para
católicos: 15% dos que me abordam são evangélicos
e mais uns 15% se declaram espíritas. Só não recebi
pedidos de judeus ou muçulmanos', conta o padre, que não
sabe se terá tempo para investir em sua carreira literária.
'Provavelmente este será meu único livro, porque eu só
o escrevi quando fiquei meses em casa, me recuperando de uma cirurgia',
conta Rossi.
Os quatro padres que despontaram nas listas de mais vendidos têm
status de estrelas pop entre os fiéis católicos, reunindo
multidões em apresentações musicais ou em celebrações
religiosas. As agendas são concorridas: Marcelo Rossi, Juarez
de Castro e Reginaldo Manzotti fazem programas diários em emissoras
de rádio de alcance nacional e aparições semanais
em televisão, além de reservarem dias para ouvirem os
fieis em confissão, enquanto Fábio de Mello é um
cantor de sucesso no meio religioso. Com oito livros publicados, ele
não pretende levar seus leitores à conversão, mas
estimulá-lo a refletir, 'algo que as religiões, muitas
vezes, negligenciam'. Para Juarez de Castro, os padres escritores do
Brasil seguem uma trilha aberta pelos evangélicos e pelos autores
de autoajuda.
'Nossos irmãos evangélicos já fazem isso há
tempos, e muito bem. Também tivemos padres escritores, como o
Michel Quoist, que não se limitava aos temas da Igreja. A autoajuda
se serve totalmente dos ensinamentos de Cristo. ?O Segredo' tem 2 mil
anos, e é Jesus falando. ?O Monge e o Executivo' é São
Paulo, do começo ao fim. Paulo Coelho sempre usa o Evangelho
em seus livros', diz Juarez de Castro.
Autor de três livros, entre eles '20 Passos para a Paz Interior'
(Agir, R$ 29,90), o padre Reginaldo Manzotti quer atingir o 'católico
turista', que se afastou da fé por sentir dificuldade até
em ler a Bíblia. 'Não se trata de uma cruzada santa contra
o avanço evangélico. Estamos usando a era digital em prol
da verdade, para levar a palavra de Deus a quem não tem conhecimento
eclesiástico, aos que não fizeram faculdade', diz Manzotti.