17/08/2011
O
website "Inovação Tecnológica" publicou
uma reportagem sobre fragmentos de DNA encontrados em um meteorito e
a sua relação com a busca da NASA pela origem da vida
por Agostinho Rosa
Talvez nenhum outro indicador mostre tão
claramente o desespero da NASA pela sobrevivência enquanto instituição
quanto as suas recentes "revelações científicas"
bombásticas, sempre feitas em conferências anunciadas previamente
a jornalistas do mundo inteiro.
Acostumados a décadas de seriedade e estudos de ponta financiados
pela agência norte-americana, vários jornalistas não
têm tido o cuidado necessário para separar os novos frutos
dos "frutos recauchutados" e dos "possíveis-frutos-se-vocês-nos-derem-dinheiro-para-plantar-as-árvores".
Essa ansiedade pela mostra de resultados tem levado a NASA a promover
anúncios de "descobertas científicas" altamente
polêmicas, seguidamente questionadas por vários grupos
que não participam das pesquisas.
Foi assim com a bactéria alienígena que respira arsênio,
com as seguidas "descobertas" de água na Lua em volumes
que chegaram a ser comparados aos oceanos da Terra, e com as seguidas
"descobertas" de água em Marte, que têm acontecido
cerca de duas vezes por ano. A mais recente se baseia em sinais geológicos
de uma provável água que escorreria a temperaturas bem
abaixo de zero.
Agora foi a vez de uma nova descoberta de componentes de uma molécula
de DNA em meteoritos.
Ora, os chamados "blocos elementares" de uma molécula
de DNA têm sido encontrados em meteoritos desde os anos 1960.
O mérito deste novo estudo é que os cientistas juntaram
dois argumentos para descartar que o meteorito tenha sido contaminado
depois de ter caído na Terra. Então, será que os
anúncios anteriores não deveriam ter sido levados tão
a sério?
Isso importa pouco agora, já que, ao que parece, desta vez a
NASA teve mais cautela com o "estardalhaço" e se baseou
em um estudo muito cuidadoso. Mesmo o anúncio foi cauteloso:
"Pesquisa da NASA mostra que elementos básicos do DNA podem
ser feitos no espaço."
Seria admirável se não pudesse - estatisticamente seria
algo praticamente indefensável - mas a comprovação
experimental é essencial para que os cientistas possam avançar
em suas teorias e embasar novas pesquisas. Não há qualquer
crítica aqui. Há muitas críticas, porém,
para a forma como muitos órgãos de imprensa "traduziram"
o estudo, simplesmente colocando as conclusões do estudo de forma
taxativa demais - o que, de resto, não é culpa da NASA.

O mérito deste novo estudo é que
os cientistas juntaram dois fortes
argumentos para descartar que o meteorito tenha sido contaminado depois
de ter caído na Terra.
Então, será que os anúncios anteriores não
deveriam ter sido levados tão a sério?
[Imagem: NASA/Chris Smith]
Pesquisas sobre a origem da vida
Mas talvez seja melhor esquecer o marketing e o desejo de chamar a
atenção e nos concentrarmos em algo que o episódio
traz à tona e que merece nossa atenção.
E esse algo é o caminho que vem tomando a busca pelas explicações
da origem da vida.
Em termos puramente experimentais, a vida sempre foi um estorvo para
a ciência, se parecendo mais com uma anomalia contaminando um
sistema mecanicamente muito bem engrenado.
Ora, o trabalho dos cientistas consiste em explicar os fenômenos
usando as ferramentas de que dispõem. É mais ou menos
como se o desconhecido tivesse que ser explicado com base no conhecido,
um problema de lógica que tem encantado e desencantado gerações
de filósofos da ciência. Contudo, as explicações
mecanicistas para a vida relutam em engatar em qualquer engrenagem já
bem compreendida.
É por isto que a explicação para uma origem extraterrestre
da vida vem tanto a calhar. A procura pela origem da vida é um
campo de pesquisa que vem sendo deixado praticamente de lado. Por ser
complexo demais, talvez seja melhor abordá-lo aos poucos, estudando
seus "blocos básicos" um a um, na esperança
de que o conhecimento das partes possa dar algum insight sobre a composição
do todo.
Ora, se pudermos dizer que a vida veio do espaço, isso nos dá
um tempo precioso, já que o nosso acesso ao espaço é
limitado demais para qualquer pesquisa que se queira séria. Isso
tiraria de pauta qualquer necessidade de entendimento da origem da vida
aqui na Terra, até hoje às voltas com uma incômoda
teoria da geração espontânea, ou abiogênese.
Aparentemente, os experimentos de Francesco Redi, feitos em 1668, não
valem quando se considera um espaço grande o suficiente - como
a Terra - em um tempo longo o suficiente - tudo parece possível
desde que você possa lançar mão do largamente usado
"argumento científico" dos "ao longo de milhões
de anos".
A ciência acadêmica vem tentando escapar do geocentrismo
há séculos. Contudo, embora intuitivamente não
haja nenhum elemento para embasar argumentos de uma pretensa exclusividade
terráquea da vida, os acadêmicos só admitirão
a vida fora da Terra quando puderem examiná-la. Isso tem levado
a posturas ultra-conservadoras em vários campos de pesquisa,
mas é difícil imaginar uma prática alternativa
que seja também capaz de "defender" a ciência
contra uma enxurrada de achismos e palpites, por mais bem-intencionados
que sejam.
Mas é importante perceber que não há uma relação
causal entre encontrar "blocos básicos" da vida em
um cometa ou meteorito e a atribuição da origem da vida
na Terra a esses corpos celestes.
O que se demonstrou experimentalmente até agora é que
elementos moleculares presentes nos organismos vivos podem surgir em
qualquer lugar, inclusive aqui na Terra. O jeito usual de falar - elementos
básicos da vida se originam no espaço - contrapõe
o espaço à Terra, como se a Terra não fizesse parte
desse espaço - provavelmente ainda um resquício das eras
de geocentrismo.
Cientistas deram uma explicação para
a estranha quiralidade
da vida usando um ambiente pré-biótico terrestre.
[Imagem: Jason Hein]
Pré-vida
Por uma daquelas coincidências admiráveis, mas muito comuns
no mundo da ciência, no dia anterior ao anúncio da pesquisa
da NASA, a revista Nature Chemistry publicou um artigo que apresenta
uma solução para o longo debate sobre a quiralidade das
moléculas biológicas, essencial para o reconhecimento
molecular e os processos de replicação, ambos, por sua
vez, essenciais para a origem da vida.
Tudo acontecendo aqui na Terra, o grupo da Universidade da Califórnia,
campus de Merced, mostrou uma rota para sintetização dos
tais blocos básicos da vida por meio de uma combinação
relativamente simples de açúcares e aminoácidos,
em um ambiente pré-biótico.
As moléculas biológicas, como o RNA e as proteínas,
podem existir em formas distintas, chamadas enantiômeros. O que
ninguém conseguiu explicar até agora é por que
uma dessas formas, justamente a forma que é necessária
para a vida, se tornou predominante.
Os cientistas demonstraram que as reações químicas
abióticas podem gerar a forma natural dos precursores do RNA
- a forma presente nos seres vivos - pela inclusão de aminoácidos
simples.
O enantiômero natural dos precursores do RNA formou uma estrutura
cristalina visível a olho nu, que pode potencialmente permanecer
estável até que se coloquem as condições
para que eles se transmutem em RNA ("ao longo de milhões
de anos", como é usual nesses casos).
Aliás, esse mecanismo elusivo, chamado "ao longo de milhões
de anos", tem sustentado algumas das teorias científicas
mais bem-sucedidas de todos os tempos, da evolução biológica
à formação das estrelas - ao longo de suficientes
milhões de anos, espécies vivas se transformam em outras
espécies e nuvens moleculares espalhadas pelo cosmos se juntam,
igualmente movidas pelos milhões de anos, para formar estrelas.
Mágico, não? Sem dúvida fala muito ao coração,
mas não é o bastante para o intelecto.
Resumindo, os cientistas demonstraram que é possível
que um ambiente pré-biótico terrestre gere preferencialmente
as moléculas necessárias para a vida - outros cientistas
já haviam tentado explicar a quiralidade da vida com base nos
meteoritos.
Assim, os tais blocos básicos da vida podem se originar tanto
lá como cá. Mas, por conveniência, vamos considerar
que eles se originaram lá e vieram para cá, e assim poderemos
continuar deixando o assunto - a origem da vida - a cargo dos filósofos.
A próxima discussão lógica seria considerar se,
e como, esses blocos, emergindo onde quer que seja, se unem para formar
a vida. Mas aí já é querer exigir da ciência
acadêmica algo que ela não pode dar.
DNA e meteoritos
Voltando à NASA e aos meteoritos, é preciso destacar
que o que os cientistas descobriram foram compostos - adenina e guanina
- que também estão presentes nas complicadas cadeias de
DNA.
O mérito deste novo estudo é que os cientistas juntaram
dois argumentos para descartar que o meteorito tenha sido contaminado
depois de ter caído na Terra.
O primeiro desses argumentos foi a identificação, no
meteorito, de três moléculas chamadas análogos de
nucleobases - elas têm o mesmo núcleo molecular de uma
nucleobase, mas têm estruturas adicionadas ou faltantes.
Esses análogos são purina, 2,6-diaminopurina, and 6,8-diaminopurina.
Estas duas últimas quase nunca aparecem associadas com a química
da vida na Terra.
"Você não deveria esperar encontrar esses análogos
de nucleobases se a contaminação pela vida terrestre fosse
a fonte [das moléculas], porque elas não são usadas
pela biologia, a não ser um relato de uma 2,6-diaminopurina ocorrendo
em um vírus (cianofago S-2L)," disse Michael Callahan, astrobiólogo
da NASA, que não participou do estudo.
O segundo argumento contra a hipótese da contaminação
terrestre veio da análise de um bloco de gelo de oito quilogramas,
coletado na Antártica, de onde também saiu a maioria dos
meteoritos usados no estudo.
Apesar de o bloco de gelo não ter sido coletado juntamente com
nenhum dos meteoritos, as análises mostraram que as quantidades
de nucleobases encontradas no gelo antártico são muito
inferiores às encontradas nos meteoritos. Além disso,
o gelo não continha nenhum dos análogos de nucleobases.
Logo, consideram os cientistas, os meteoritos não poderiam ter
sido contaminados pelo gelo antártico.
Bibliografia:
Detection and formation scenario of citric acid, pyruvic acid, and
other possible metabolism precursors in carbonaceous meteorites
George Cooper, Chris Reed, Dang Nguyen, Malika Carter, Yi Wang
Proceedings of the National Academy of Sciences
August 8, 2011
Vol.: Published online before
DOI: 10.1073/pnas.1105715108
A route to enantiopure RNA precursors from nearly racemic starting
materials
Jason E. Hein, Eric Tse, Donna G. Blackmond
Nature Chemistry
07/08/2011
Vol.: Advance online publication
DOI: 10.1038/NCHEM.1108
Fonte: http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=fragmentos-dna-meteorito-origem-vida