17/08/2011
Cresce o número de evangélicos
sem ligação com igreja
Especialistas dizem que processo pode ser análogo ao de quem
se identifica como 'católico não praticante'
- Pesquisa mostra que, entre 2003 e 2009, fatia de fiéis que
dizem não ter vínculo institucional saltou de 4% para
14%
ANTÔNIO GOIS
DO RIO DE JANEIRO
HÉLIO SCHWARTSMAN
ARTICULISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO
Verônica de Oliveira, 31, foi batizada católica
e vai à missa aos domingos. No entanto, moradora do morro Santa
Marta, no Rio, é vista com frequência também nos
cultos das igrejas evangélicas Deus é Amor e Nova Vida.
Quando questionada sobre sua filiação, dispara:
"Nem eu sei explicar direito. Acho que Deus
é um só".
Em cada igreja, ela gosta de uma característica. Na Católica,
são os folhetos distribuídos na missa. Na Deus é
Amor, "um pastor que fala uma língua meio doida". Na
Nova Vida, aprecia o fato de lerem bastante a Bíblia.
Mais do que trair hesitações teológicas, casos
como o de Verônica, de "religiosos genéricos",
que não se prendem a uma denominação, crescem nas
estatísticas.
Um bom indício do fenômeno surge nos dados sobre religião
da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), do IBGE, que pesquisou
o tema em 2003 e 2009.
No período, só entre evangélicos, a fatia dos que
se disseram sem vínculo institucional foi de 4% para 14% - um
salto de mais de 4 milhões de pessoas.
Entram nesse balaio, além de multievangélicos como Verônica,
pessoas que não se sentem ligadas a nenhuma igreja específica,
mas não deixaram de considerar-se evangélicos, em processo
análogo ao dos chamados "católicos não praticantes".
A intensidade exata do fenômeno só será conhecida
quando saírem dados de religião do Censo de 2010. No entanto,
para especialistas consultados pela Folha, a pesquisa, feita a partir
de amostra de 56 mil entrevistas, é suficiente para dar boas
pistas do movimento.
O pesquisador Ricardo Mariano, da PUC-RS, reconhece que vem ocorrendo
aumento de protestantes e pentecostais sem vínculos institucionais,
ainda que ele tenha dúvidas se o crescimento foi mesmo tão
intenso quanto o revelado pelo IBGE.
INDIVIDUALISMO
Para ele, a desinstitucionalização é resultado
do individualismo e da busca de autonomia diante de instituições
que defendem valores extemporâneos e exigem elevados custos de
seus filiados.
De acordo com o professor, parte dos evangélicos adota o "Believing
without belonging" (crer sem pertencer), expressão cunhada
pela socióloga britânica Grace Davie sobre o esvaziamento
das igrejas ao mesmo tempo em que se mantêm as crenças
religiosas na Europa Ocidental.
Para a antropóloga Regina Novaes, uma pergunta que a pesquisa
levanta é se este "evangélico genérico"
tem semelhanças com o católico não praticante.
Para ela, "ambos usufruem de rituais e serviços religiosos
mas se sentem livres para ir e vir".
Diana Lima, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos, levanta
outra hipótese:
"Minha suspeita é que as distinções denominacionais
talvez não façam para a população o mesmo
sentido que fazem para religiosos e cientistas sociais. Tendo um Jesus
Cristo ali para iluminar o ambiente, está tudo certo".
Os dados do IBGE também confirmam tendências registradas
na década passada, como a queda da proporção de
católicos e protestantes históricos e alta dos sem religião
e neopentecostais.
No caso dos sem religião, eles foram de 5,1% da população
para 6,7%. Embora a categoria seja em geral identificada com ateus e
agnósticos, pode incluir quem migra de uma fé para outra
ou criou seu próprio "blend" de crenças - o
que reforça a tese da desinstitucionalização.
Para o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, do
IBGE, o que está ocorrendo é um processo de democratização
religiosa, "com todos os problemas da democracia".
O maior perdedor é a Igreja Católica, que ficou sem seu
monopólio. Segundo Alves, ela vai ceder mais terreno, porque
os católicos se concentram nas parcelas de menor dinamismo demográfico.
Já os evangélicos ainda vão crescer muito, garante
o demógrafo, pois ganham entre as parcelas da população
que têm maior fecundidade.
Outro dado interessante da POF é que aumentou o número
dos que declararam uma religião não identificada pelos
pesquisadores, o que indica que na década passada mais igrejas
surgiram e passaram a disputar o "supermercado da fé",
na expressão depreciativa utilizada pelo papa Bento 16.
Por ser amplo, o levantamento permite também identificar, denominação
por denominação, o tamanho de cada igreja.
A Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, registrou queda de
24% no número de fiéis. O recuo pode estar relacionado
com a criação de igrejas dissidentes.
Ao analisar os números, porém, os pesquisadores consultados
dizem que é preciso esperar o Censo para confirmar esse movimento.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po1508201102.htm