16/08/2011
Raul Teixeira analisa a questão
do conteúdo "racista" no livro Obras Póstumas,
de Allan Kardec
Uma ação popular, baseada
na existência de conteúdo racista no livro Obras Póstumas,
de Allan Kardec, solicitou à justiça o recolhimento do
citado livro. O magistrado que julgou a ação não
acatou o pedido. Como se pode analisar essa e outras acusações
de mesmo teor em textos kardequianos?
Raul Teixeira:
É uma consequência muito clara da deformação
de muitas mentalidades, que saem das nossas escolas, das nossas universidades,
e que passam a reger a vida coletiva, a vida social, ficando todos nós
à mercê das suas incoerências e, às vezes,
das suas inconsequências.
Na década de 1980, o notabilíssimo Paulo Freire, em seu
livro Ação cultural para a liberdade e outros escritos,
teve ocasião de apresentar um texto de grandíssima importância
para a formação de qualquer intelectual: Considerações
em torno do ato de estudar.
No referido texto, ensina Freire:
Estudar é, realmente, um trabalho difícil. Exige de
quem o faz uma postura crítica, sistemática. Exige uma
disciplina intelectual que não se ganha a não ser praticando-a.
E, mais adiante, explicita Paulo Freire:
O ato de estudar é o de assumir uma relação
de diálogo com o autor do texto, cuja mediação
se encontra nos temas de que ele trata. Esta relação
dialógica implica na percepção do condicionamento
histórico-sociológico (é meu o destaque) e ideológico
do autor, nem sempre o mesmo do leitor.
Quando se sabe, pois, estudar, não se pode ler um texto de outra
época, de outro contexto cultural e pessoas que também
tinham liberdade de pensar – condicionamento histórico,
sociológico e ideológico – como nosso gosto, nossa
cultura ou ideologia atuais. Será necessário, a fim de
entendê-lo em sua magnitude, identificar em que contexto foi elaborado,
o que se passava em termos sociais, políticos, religiosos e econômicos,
enfim, em sua contextualização histórica. É
como quem estuda um osso, numa escavação arqueológica.
Há que se encontrar tudo o que esteve em torno daquele fenômeno,
a fim de que se lhe possa atribuir o valor a ou b. Sem esses cuidados
tudo não passaria de uma aberração.
Para que alguma ação popular ou individual solicitasse
à Justiça o recolhimento de qualquer texto espírita,
teria que solicitar antes à mesma Justiça o recolhimento
de todos os exemplares da Bíblia (nela o Senhor manda até
que se exterminem povos os inimigos, os de outras etnias ou crenças...
e tudo parece normal, aceitável e... divino); teriam que ser
recolhidos as reedições de A República, do notável
Platão, uma vez que para ele, à época, a escravidão
era um direito do escravista, por isso normal, e assim por diante.
Bom é quando se encontra um magistrado que tenha tido boa escolaridade,
que se preparou para a sua missão e por isso é dotado
de bom-senso, sem o espírito seitista, sem parti pris, e que,
assim, consegue dar bons desfechos a questões balofas, quanto
é a de se desejar cassar qualquer literatura de outras épocas,
de outras culturas e de autores que não são obrigados
a pensar como nós.
Quanto aos espíritas, sinceros e honestos para com a Causa professada,
cabe-nos cada vez mais e melhor estudar o Espiritismo, a fim de compreender
o seu caráter univérsico, onde não se admite preconceito
de nenhum modo, nem de credo, de etnia, de orientação
sexual, de nível socioeconômico, menos ainda da cor da
pele.
Vale considerar, por fim, que, sendo o livro Obras Póstumas,
como o nome indica, publicado após a desencarnação
de Allan Kardec, em 1890, tendo seus amigos reunido muitos textos que
encontraram e os havendo publicado em nome do insigne falecido, quem
pode garantir que tenha sido ele escrito pelo Codificador? Quem pode
entender os motivos que levaram Kardec a não tê-lo publicado
nem jamais haver tangido essa questão nas obras da Codificação
Espírita?
De qualquer modo, propor o recolhimento de uma obra literária
do séc. XIX, alegando algum conteúdo racista, como se
pretendeu fazer com textos de Monteiro Lobato e do referido livro kardequiano,
é, para dizer o mínimo, uma maldosa ingenuidade, num país
com tantas e graves arbitrariedades sociais contra minorias, contra
o que vemos muito poucas vozes se levantando para propor reformas ou
cassações dos decretos ou das leis que lhes dão
respaldo.
Quanto aos verdadeiros e valorosos espíritas, que avancem caminho
afora, por meio de uma vida de dignidade e de alegria, certos de que,
como asseverou o Espírito de Verdade a Allan Kardec, em O
Livro dos Espíritos, perg. 798, sobre se o Espiritismo se
tornaria crença comum:
Certamente que se tornará crença geral e marcará
nova era na história da humanidade, porque está na natureza
e chegou o tempo em que ocupará lugar entre os conhecimentos
humanos. Terá, no entanto, que sustentar grandes lutas, mais
contra o interesse do que contra a convicção, porquanto
não há como dissimular a existência de pessoas
interessadas em combatê-lo, umas por amor-próprio, outras
por causas inteiramente materiais.
Entrevista concedida a revista O CONSOLADOR em 29 de junho de 2011
Fonte: http://www.oconsolador.com.br/ano5/220/raulteixeiraresponde.html