24/07/2011
Crenças e preconceitos moldam reação das
pessoas a prazer e dor - Paul Bloom, professor do Departamento de Psicologia
da Universidade Yale (EUA), quer entender por que o conhecimento e as
nossas crenças interferem na forma como sentimos prazer, seja
ao beber um vinho, ver uma obra de arte ou fazer sexo.
por VAGUINALDO MARINHEIRO / FOLHA DE SÃO
PAULO
ENTREVISTA PAUL BLOOM
Crenças e preconceitos moldam reação
das pessoas a prazer e dor
UM VINHO BARATO COM RÓTULO DE BEBIDA CARA PARECE
SER MAIS GOSTOSO, DIZ PSICÓLOGO, ASSIM COMO O MESMO CHEIRO PODE
SER AGRADÁVEL OU NOJENTO DEPENDENDO DO CONTEXTO EM QUE É
ENCONTRADO POR DIFERENTES PESSOAS

O psicólogo Paul Bloom, professor
da Universidade Yale, durante palestra
foto de - James Duncan Davidson/TED
Paul Bloom, professor do Departamento de Psicologia da Universidade
Yale (EUA), quer entender por que o conhecimento e as nossas crenças
interferem na forma como sentimos prazer, seja ao beber um vinho, ver
uma obra de arte ou fazer sexo.
Autor do livro "How Pleasure Works" (Como o Prazer Funciona),
Bloom diz que, ao sentirmos prazer, respondemos a coisas mais profundas
do que gosto, cheiro ou aparência. Na verdade, diz, nosso prazer
é guiado pelo que sabemos, ou julgamos saber, sobre o objeto
ou a pessoa com os quais interagimos.
"Mesmo
nos prazeres mais animais, somos influenciados por aquilo em que acreditamos",
diz o pesquisador.
Bloom,
47, também estuda o comportamento moral de bebês e diz
que a crença de que todas as crianças são anjos
está errada.
"São
humanos como eu ou você. Têm impulsos bons e maus."
O psicólogo,
cuja disciplina de introdução à psicologia está
disponível de graça para download (oyc.yale.edu/psychology/introduction-to-psychology),
esteve na semana passada em Edimburgo, onde participou da TEDGlobal,
série de palestras sobre inovação.
Após falar para uma plateia de 850 pessoas, ele conversou com
a Folha. Confira os melhores trechos da conversa abaixo.
Folha - Como o prazer funciona? O que afeta a forma como apreciamos
as coisas?
Paul Bloom - Ao obter prazer, não respondemos apenas aos aspectos
superficiais de um objeto ou pessoa, como gosto, cheiro, aparência.
Nosso prazer é afetado pelo conhecimento e pelas crenças
que temos. Por exemplo, se achamos que um vinho é caro, teremos
mais prazer em tomá-lo. No caso da pintura, você pode amar
um quadro se acredita que é um Picasso ou um Chagall e não
dá a mínima se pensa que é uma falsificação.
Mesmo que o original e a cópia sejam iguais.
No caso das pessoas, juntamos à aparência outros fatores
que julgamos conhecer sobre elas, que podem ser idade, vida profissional
etc.
E com relação à comida? Por que uma pessoa
gosta de queijo e outra não?
Queijo é um bom exemplo. Muitos têm cheiro muito forte.
Se você disser a alguém que o cheiro que está sentindo
é de um animal, ela ficará enojada. Mas se disser que
é de um queijo, e que ele é caro, a pessoa pode salivar.
Como é esse processo dentro do cérebro?
Ninguém sabe. Sabemos pouco sobre o que acontece no cérebro.
Mas o conhecimento direciona nossas sensações de uma forma
que sejam prazerosas ou não.
É possível ensinar alguém a ter prazer?
Fazemos isso o tempo todo por meio da educação. Poucas
crianças apreciam, a princípio, música clássica.
Mas algumas desenvolvem o gosto por esse tipo de música. Ninguém
nasce com apreço por arte moderna.
É possível controlar esse sistema de prazeres?
Depende. Eu não gosto de queijo. Nada me faz gostar de queijo.
Por outro lado, se você quer mesmo desenvolver o gosto por algo,
a melhor maneira é adquirir conhecimento sobre essa coisa.
Por exemplo, pegue uma pessoa que gosta de música clássica
e não goste de rap. Mas essa pessoa, por alguma razão,
quer gostar de rap. O melhor caminho é pesquisar, aprender sobre
esse movimento cultural.
E os prazeres sexuais, são inatos ou desenvolvidos?
O ser humano, como todos os animais que dependem de reprodução,
tem desejo sexual. Mas sexo é outro exemplo interessante de como
o conhecimento e as crenças definem o desejo, o prazer.
Imagine um homem heterossexual vendo um vulto nu à distância.
Se ele acreditar que é uma estrela de cinema, uma modelo, ficará
muito excitado. Mas se de repente pensar que é um homem, ou sua
mãe, sua irmã, sua filha, o desejo, a excitação,
acabará imediatamente.
É possível separar o que já apreciamos
ao nascer de prazeres desenvolvidos depois?
Sim. O gosto por açúcar, por exemplo, que já aparece
em bebês, aparentemente é algo inato. Já o gosto
por música clássica é adquirido.
Muitos dos prazeres e desprazeres originais estão relacionados
com a evolução, com coisas boas do ponto de vista animal.
Por exemplo, animais não gostam de bater a cabeça na parede,
porque machuca. Já humanos adultos podem desenvolver prazeres
que não estejam ligados ao bem-estar. O masoquismo é um
desses casos.
O senhor diz que há a mesma relação entre
conhecimento e dor. É possível, então, ensinar
alguém a tolerar a dor ou sentir menos dor?
Não há dúvidas de que a dor é influenciada
pelo conhecimento. Pesquisas mostram que sentimos mais dor se soubermos
que a pessoa que nos causa essa dor o faz de propósito.
Por outro lado, há o caso de atletas. Corri uma maratona há
alguns anos e senti muita dor, mas sabia por que estava doendo. Porém,
suponha que tivesse acordado um dia com as mesmas dores. Seria muito
mais intolerável, porque desconheceria a causa.
O senhor também estuda bebês e moralidade. O que
já descobriu?
Que mesmo bebês de seis meses fazem escolhas baseadas em conceitos
morais. Preferem, por exemplo, pessoas que são amigáveis.
Em outros institutos de pesquisa, já mostraram que bebês
não gostam de ver pessoas sendo agredidas ou feridas, e que,
se já têm mobilidade, tentam ajudar.
Muitos defendem que a moral está relacionada com conceitos
religiosos. A pesquisa desmente isso?
Já sabemos que a moral não está diretamente ligada
a religiões. Os ateus não são piores que os religiosos.
O conceito de [Fyodor] Dostoiévski, a ideia de que, se não
houvesse Deus, tudo seria permitido, é completamente falso. O
fato de uma pessoa não crer em Deus não faz dela um assassino.
frases
"Ao obter prazer, não respondemos apenas aos aspectos superficiais
de um objeto ou uma pessoa, como gosto e aparência. Nosso prazer
é afetado pelo conhecimento e pelas crenças que temos.
Por exemplo, se achamos que um vinho é caro, teremos mais prazer"
"Mesmo bebês de seis meses fazem escolhas baseadas em conceitos
morais. Preferem, por exemplo, pessoas que são amigáveis.
Já mostraram que bebês não gostam de ver pessoas
sendo agredidas ou feridas, e que, se já têm mobilidade,
tentam ajudar"
"Já sabemos que a moral não está diretamente
ligada a religiões. Os ateus não são piores que
os religiosos. O conceito de Dostoiévski, de que, se não
houvesse Deus, tudo seria permitido, não é verdade. Uma
pessoa não acreditar em Deus não faz dela um estuprador,
um assassino"
RAIO-X
NOME
Paul Bloom
NASCIMENTO
24 de dezembro de 1963 em Montreal, no Canadá
FORMAÇÃO
Graduação em psicologia na Universidade McGill (Canadá)
e doutorado no MIT (Estados Unidos)
LIVRO MAIS RECENTE
"How Pleasure Works"