Nem tudo é depressão; você pode apenas estar triste
02/07/2011
Em artigo para para o UOL, Daniela
Venerado trata da tristeza e da diferença dessa para a depressão
DANIELA VENERANDO
Colaboração para o UOL
A tristeza é um sentimento normal e não
deve ser tratada como uma doença
Tristeza não é depressão,
mas muita gente está transformando esse sentimento tão
comum em doença. Quem não conhece, nos dias de hoje, uma
pessoa deprimida? Segundo a Organização Mundial da Saúde
(OMS), a depressão já é a principal causa de incapacidade
de trabalhar em pessoas que têm entre 15 e 44 anos. É claro
que a doença atinge muita gente, mas é importante saber
diferenciar um caso e outro. Afinal, ficar triste é natural,
faz parte da vida e não precisa de tratamento médico.
No livro "A Tristeza Perdida –
Como a Psiquiatria Transformou a Depressão em Moda" (Editora
Summus), os autores Allan V. Horwitz e Jerome C. Wakefield levantam
a questão, que teve início em 1980, quando a Associação
Americana de Psiquiatria lançou uma nova versão do manual
de diagnósticos, que hoje está na quarta versão.
Segundo os autores, o diagnóstico
para distúrbios mentais se tornou generalista. Se alguém
apresentar cinco sintomas de uma lista, é considerado depressivo.
Para eles, no entanto, os médicos não se preocupam em
questionar as circunstâncias. Dessa forma, a tristeza pode ser
encarada como uma doença, que precisa ser tratada com antidepressivos,
dando a impressão perigosa de que os medicamentos são
a solução para todos os males.
TRISTEZA E DEPRESSÃO
A tristeza é um sentimento natural
e espontâneo, parte inerente da condição humana.
É uma resposta normal às frustrações e perdas,
como uma demissão no emprego, o fora do namorado, uma discussão,
entre inúmeros motivos. O tempo que a pessoa ficará triste
depende da importância do fato. No entanto, ela é passageira.
A depressão pode surgir até sem razão específica.
O indivíduo se sente infeliz na maior parte do tempo, torna-se
mais ansioso ou irritado do que o normal, perde a capacidade de apreciar
situações prazerosas, deixa de conviver com amigos e familiares,
apresenta perda de concentração, pode ter ganho excessivo
de peso e sentir dores pelo corpo. Nesse caso, é preciso procurar
um médico. O quadro requer tratamento, diferentemente da tristeza
-um sentimento importante e que precisa ser vivido.

CURA INSTANTÂNEA
Vivemos em uma cultura imediatista, com o desejo de resolver os problemas
rapidamente e, de preferência, sem dor. "Infelizmente, todos
os nossos sentimentos e comportamentos são orquestrados pelo
consumo", afirma Dulce Critelli, coordenadora do Existentia - Centro
de Orientação e Estudos da Condição Humana.
"Assim, tristezas são tratadas como fome: se você
saciar, passa. O incômodo, a dor, o mal-estar devem ser extirpados
por não ser algo prazeroso. É assim que acabamos chamando
a tristeza de depressão e caímos facilmente nos antidepressivos."
Para a psiquiatra Elisabeth Sene-Costa, autora de "Universo da
Depressão" (Editora Ágora), muitas pessoas fazem
uma interpretação errada da tristeza. "Elas acham
que ao ficarem tristes podem cair em uma depressão. Não
admitir a tristeza é um mecanismo de defesa. Para solucionar
logo o problema, vão aos consultórios em busca de uma
pílula mágica. Isso é um equívoco enorme",
diz Elisabeth.

USO DE REMÉDIOS
Os números comprovam que a população procura cada
vez mais os remédios. A venda de medicamentos antidepressivos
e estabilizadores do humor cresceu 44,8% no Brasil de 2006 a 2009, segundo
o instituto de pesquisa IMS Health.
Nos Estados Unidos, mais de 164 milhões de receitas para depressão
foram prescritas em 2008, de acordo com um estudo feito por pesquisadores
das universidades de Columbia e Pensilvânia. "Nesse mundo
competitivo, a tristeza é vista como um sinal de fraqueza. Quando,
na verdade, é o contrário. O sentimento fortalece e, quem
não o sente, fica frágil", explica a psicóloga
Irene Cardotti.
Para ela, quem usa antidepressivo sem necessidade não enxerga
que a felicidade artificial mina totalmente o impulso de mudança.
E, pior, sem aprender a lidar com os próprios problemas. Antes
de partir para um remédio, o melhor a fazer é conversar
com amigos e parentes. A terapia também pode ajudar, especialmente,
nos casos em que a tristeza se prolonga. “Nossa cultura atual
identifica boa vida com felicidade e felicidade com mero prazer. Esse
sentimento nem sempre é conquistado através do prazer.
Muito pelo contrário: na maioria das vezes, a felicidade é
resultado de um boa e longa batalha", diz Dulce Critelli, coordenadora
do Existentia - Centro de Orientação e Estudos da Condição
Humana.
A IMPORTÂNCIA DA TRISTEZA
Ninguém deseja a tristeza. Ela dói, não é
agradável, mas é importante, faz parte da vida e nos fortalece.
"Ao deixarmos esse sentimento fluir, elaboramos nossa perdas. Damos
a chance de nos reorganizarmos internamente e superar a fase de maneira
saudável”, explica a psicóloga Irene Cardotti. O
lado positivo é que podemos rever defeitos e analisar consequências
de nossos atos e, dessa forma, encontrar força e equilíbrio
e para retomar o ritmo normal de vida.
"É preciso encarar conflitos e situações
ruins com mais serenidade. É através do sofrimento que
desenvolvemos a maturidade", afirma o psicólogo Mauro Godoy,
especializado em Psicologia Analítica e Antropologia. Por isso,
quando a tristeza chega, em vez de tentar mandá-la embora, é
melhor perceber o que ela tem a ensinar.
“O mais comum é acreditar que não tivemos participação
nenhuma na construção dessa perda, mas não é
verdade", explica Dulce Critelli, coordenadora do Existentia -
Centro de Orientação e Estudos da Condição
Humana. Ao levar um fora em um relacionamento, por exemplo, o abandonado
pode ter uma parcela de culpa, sim. "Pode ter sido falta de cuidado
e carinho, não ter se preparado o suficiente, ter sido teimoso,
entre outras tantas possibilidades”, diz Dulce. Ao admitir erros,
encontramos a melhor resposta para que situações semelhantes
não se repitam.
Fonte: http://estilo.uol.com.br/comportamento/ultimas-noticias/2011/06/29/nem-tudo-e-depressao-voce-pode-apenas-estar-triste.htm