Obra do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis
aborda futuro das interações entre cérebro e computadores
26/06/2011
Máquina
não simulará mente, diz cientista
Obra do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis
aborda futuro das interações entre cérebro e computadores
- Para o pesquisador, arquitetura do órgão humano cria
barreira intransponível para copiá-lo digitalmente

Miguel Nicolelis fala durante o evento Fronteiras
do pensamento em sua edição do ano passado, em Porto Alegre
- Fábio Berriel - 3.mai.2010/Folhapress
Reportagem do jornal
Folha de São Paulo
REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE CIÊNCIA E SAÚDE
O neurocientista Miguel Nicolelis, ele
próprio um futurologista de mão cheia, só não
tem paciência com um tipo de ideia futurista: a de que os computadores
acabarão desenvolvendo uma mente que replicaria a do homem.
"O cérebro humano não
é computável, não dá para simulá-lo
com um algoritmo [lista de expressões matemáticas]",
diz Nicolelis.
Ele se arrisca a prever que nenhum avanço
teórico ou tecnológico vai mudar isso. "É
quase como a velocidade da luz na física", compara: um limite
que, por definição, não pode ser ultrapassado.
Em "Muito Além do Nosso Eu", livro de divulgação
científica do pesquisador que está chegando agora ao Brasil,
Nicolelis explica o porquê: o cérebro, diz ele, tem um
ponto de vista, diferentemente das máquinas de silício.
Para o brasileiro, o órgão cria ativamente o mundo que
percebemos, em vez de recebê-lo passivamente pelos sentidos. Estaria
mais para simulador de realidade virtual do que para câmera digital.
ANDAR DA MENTE
O paulistano de 50 anos e palmeirense roxo, líder do Instituto
Internacional de Neurociências de Natal, participa na próxima
quarta-feira do projeto Fronteiras do Pensamento, em São Paulo.
Na obra, ele volta a detalhar seu antigo sonho: fazer um paraplégico
voltar a andar usando apenas a força do pensamento.
O desejo pode virar realidade graças às chamadas interfaces
cérebro-máquina, uma tecnologia que ele ajudou a desenvolver.
Nesse tipo de sistema, é possível "ler" a atividade
elétrica de dezenas ou centenas de neurônios e traduzir
esses sinais em instruções para mexer um membro robótico,
ou mesmo, em tese, um exoesqueleto robotizado inteiro.
Formas embrionárias do conceito já funcionaram em ratos,
macacos e humanos. Nicolelis, contudo, acha que é possível
ir além. Nada impede que pessoas normais estendam o alcance de
seus sentidos se conectando à distância com máquinas.
Conforme as interfaces forem se tornando menos desajeitadas e invasivas,
ele e seus colegas apostam que será possível conectar
diretamente a mente de duas ou mais pessoas. Nasceria assim a "brainet",
uma versão cerebral da internet.
Ideias ousadas desse tipo estão por toda parte no livro, e Nicolelis
reconhece sua predileção por forçar um pouco os
limites de seu campo.
Um dos problemas da ciência atual, afirma, é que as pessoas
começaram a se contentar com "avanços pequenos, passos
muito miúdos".
"A coisa passou a ser um jogo de
sobrevivência, enquanto devia ser um jogo de risco, até
porque virou um negócio enorme. Perdeu-se muito do romantismo",
diz ele.
Ele vê avanços na ciência
brasileira dos últimos anos, mas alerta para o fato de que índices
de produtividade, como número de artigos publicados por cientistas,
podem não significar grande coisa.
"É um grande problema avaliar
produção científica da mesma maneira que se avalia
produção econômica. Tem gente que publica um único
trabalho na vida, mas esse trabalho faz toda a diferença. Nesse
sentido, a ciência está muito mais próxima da
arte", afirma o pesquisador.