14/06/2011
Por CLAUDIA DREIFUS/FOLHA DE SÃO
PAULO
A neurocientista cognitiva Ellen Bialystok passou quase 40 anos estudando
como o bilinguismo aguça a mente. A doutora Bialystok, 62, uma
destacada professora de pesquisa de psicologia na Universidade York
em Toronto (Canadá), recebeu o prêmio Killam, de US$ 100
mil, no ano passado por suas contribuições para a ciência
social. Leia abaixo uma versão editada de nossa conversa.
A pesquisa encontrou uma grande diferença na
maneira como as crianças monolíngues e bilíngues
processavam a linguagem
P.Por que a senhora começou a estudar o bilinguismo?
R.Quando terminei a graduação, em 1976, havia falta de
empregos no Canadá para doutores. O único cargo que encontrei
foi em um projeto de pesquisa que estudava a aquisição
de uma segunda língua por escolares. Não era minha área.
Mas era bastante próxima.
P.E o que exatamente a senhora encontrou nesse caminho inesperado?
R.Enquanto fazíamos nossa pesquisa, vimos uma grande diferença
na maneira como as crianças monolíngues e bilíngues
processavam a linguagem. Se você desse a crianças de cinco
e seis anos problemas de linguagem para resolver, as crianças
monolíngues e bilíngues sabiam mais ou menos a mesma quantidade
de língua. Mas, em uma questão, havia uma diferença.
Perguntamos a todas as crianças se uma certa frase ilógica
estava gramaticalmente correta: "As maçãs crescem
dos narizes". As crianças monolíngues não
conseguiam responder. Elas diziam: "Isso é besteira"
e empacavam. Mas as crianças bilíngues, em suas próprias
palavras, diziam: "É besteira, mas é gramaticalmente
correto". Descobrimos que as bilíngues manifestavam um sistema
cognitivo capaz de abordar a informação importante e ignorar
a menos importante.
P.Como isso funciona?
R.Existe um sistema em nosso cérebro, o sistema de controle executivo.
É um gerente. Seu trabalho é mantê-lo enfocado no
que é relevante, enquanto ignora distrações. É
o que torna possível você manter duas coisas diferentes
na mente ao mesmo tempo e mudar entre elas. Se você tem duas línguas
e usa esses idiomas regularmente, o modo como as redes do cérebro
funcionam é: cada vez que você fala, as duas línguas
aparecem, e o sistema de controle executivo tem de organizar tudo e
dar conta do que é relevante no momento. Portanto, os bilíngues
usam mais esse sistema, e esse uso regular torna o sistema mais eficiente.
P.Uma das suas últimas descobertas surpreendentes é
que o bilinguismo ajuda a evitar os sintomas do Alzheimer.
R.Os adultos mais velhos bilíngues se saíram melhor que
os monolíngues em tarefas de controle executivo. Examinamos os
registros médicos de 400 pacientes de Alzheimer. Em média,
os bilíngues mostraram sintomas de Alzheimer cinco ou seis anos
mais tarde do que aqueles que falavam só uma língua. Isso
não significa que os bilíngues não tivessem Alzheimer.
Significa que, conforme a doença se enraizava em seus cérebros,
eles conseguiam continuar funcionando em um nível mais alto.
P.O bilinguismo ajudaria em multitarefas?
R.Sim, as multitarefas são uma das coisas que o sistema de controle
executivo manipula.
P.Muitos imigrantes preferem não ensinar a seus filhos
sua língua nativa. Isso é bom?
R.Existem dois motivos principais para que as pessoas transmitam sua
herança linguística para os filhos. Primeiro, ela conecta
as crianças com seus ancestrais. A segunda é minha pesquisa:
o bilinguismo é bom para a pessoa. Torna o cérebro mais
forte. É exercício para o cérebro.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny1306201115.htm
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