08/06/2011
Solidão coletiva - Reportagem do
jornal Folha de São Paulo, no dia 24 de maio de 2011, apresentou
novos estudos sobre a solidão
por GUILHERME GENESTRETI
DA FOLHA DE SÃO PAULO
Mais que escolha afinada com o individualismo
dominante, a solidão é doença, dizem estudos
novos segundo os quais estamos vivendo uma epidemia
Solidão virou epidemia. Há mais casas habitadas por uma
única pessoa e estamos confiando menos uns nos outros, dizem
as pesquisas.
Ainda assim, está cada vez mais difícil ficar sozinho.
Basta um clique, e centenas de amigos invadem nossos computadores nas
redes sociais.
Estar imerso na internet ou ser rodeado de parentes não muda
o quadro "epidêmico", diz o psicólogo americano
John T. Cacioppo, que é diretor do Centro de Neurociência
Cognitiva e Social da Universidade de Chicago (EUA).
Ele é autor de "Solidão - A Natureza Humana
e a Necessidade de Vínculo Social" (Ed. Record),
livro que reúne quase 20 anos de suas pesquisas sobre o tema.
O mote é o seguinte: a espécie humana evoluiu graças
às relações entre os indivíduos e ao apoio
mútuo ao longo do tempo. A solidão vai na direção
contrária à da evolução.
"Ela é como a dor ou a fome. É sinal de que algo
não vai bem e que precisamos reforçar os vínculos
sociais", afirmou Cacioppo à Folha, por telefone.
Os estudos que o autor conduziu, com estudantes da Universidade do
Estado de Ohio (EUA) e um grupo de adultos mais velhos, apontaram que
os solitários têm uma qualidade de sono pior do que os
demais e estão mais propensos a doenças cardiovasculares
e infecciosas.
A explicação também tem um quê darwinista:
"A solidão crônica coloca a pessoa em estado de
alerta constante, porque ela tem que se defender sozinha", diz.
Como resultado, o solitário passa mais tempo com altas concentrações
de cortisol, hormônio ligado ao estresse.
O psicoterapeuta Roberto Golgkorn, que também escreveu um livro
sobre o tema, "Solidão Nunca Mais"
(Ed. Bertrand Brasil), concorda com o colega. Para ele, uma sociedade
sem troca de afetos não consegue evoluir.
"Deve haver um fio que costure a identidade de todos, como
em um formigueiro, que mais parece um organismo, enquanto as formigas
são as células", diz.
SÓ NA MULTIDÃO
A atriz Maristela Vanini, 39, diz que sabe o que é ser solitária
na companhia dos outros. Desde os cinco anos, quando ouvia discos do
Carpenters em seu quarto, ela afirma se sentir só.
Ela mora com os pais, que a apoiam.
"Mas me sinto incompreendida. Em casa não se fala sobre
sentimentos."
Seus pais não viram a primeira vez em que ela subiu em um palco
como profissional, dez anos atrás.
"Eu cheguei toda animada para contar aquela emoção,
mas estavam todos dormindo. Solidão não é opção",
diz.
Para o psiquiatra Geraldo Massaro, nem toda solidão é
negativa.
"A pessoa pode sair enriquecida da solidão, mesmo com
sofrimento. Ela pode refletir sobre a própria vida, amadurecer."
Para o vendedor de livros Leonardo Minduri, 35, a solidão é
"nobre".
"Estou na sociedade por obrigação. Se eu tivesse
outra opção, estaria na montanha, isolado", conta
ele, que se diz um eremita urbano.
Há cerca de dois anos, Minduri juntou dinheiro, colocou barraca
e fogareiro na mochila e caiu na estrada.
Alternando entre ônibus e carona, ele partiu de Belo Horizonte,
onde mora, e foi até Punta Arenas, no Chile. Com Minduri, só
embarcaram livros: Rimbaud, Nietzsche, Schopenhauer e Fernando Pessoa.
"Prefiro a companhia deles do que a das pessoas", afirma.
Depois de seis meses vagando, Minduri começou a trocar mensagens
com uma moça que conheceu pela internet. Hoje, eles namoram.
Mas ela vive a 150 km de distância dele.
CANTO SAGRADO
Orlando Colacioppo, 45, mora há duas décadas sozinho no
centro de São Paulo. Ele diz não sentir falta de ter alguém
com quem desabafar em casa.
"Para discutir os problemas, existem os amigos e os botecos."
O caso dele tem respaldo estatístico. Nos últimos 20
anos, segundo o IBGE, o número de casas habitadas por uma única
pessoa passou de 7% para 12% no Brasil.
"Quanto mais convivência, mais atrito. Eu quero é
curtir meu isolamento, no meu canto sagrado", afirma Orlando.
O designer já dividiu o apartamento com uma namorada por dois
anos, mas diz que repetir a experiência seria difícil.
"Se eu cair de amores, espero que ela tenha uma casa só
dela."
REDES SOCIAIS
Compensar solidão física com centenas de amigos no Facebook
não resolve, segundo o psicólogo Cacioppo.
"É como tentar matar a fome com aperitivo", compara.
"A interação ali é eletrônica, a pessoa
não é parte da vivência do amigo."
Para Sherry Turkle, psicóloga e professora do Massachusetts
Institute of Technology (EUA), muitos optam pelos relacionamentos na
rede por medo de contato íntimo.
"Estar conectado dá a ilusão de termos companhia
sem as demandas de uma amizade", disse ela à Folha.
Segundo Turkle, autora do livro "Alone Together", lançado
no início do ano, nos EUA, a tecnologia mudou a nossa experiência
de solidão.
"Para fazer uma reflexão, precisamos 'postar' nosso
pensamento. Assim, não cultivamos a capacidade de ficar sozinhos,
de refletir por nós mesmos."
Jelson Oliveira, professor de filosofia da PUC do Paraná, concorda.
"Não sabemos mais ficar sozinhos e buscamos nos ocupar
a toda hora, como se ficar sozinho fosse perda de tempo. Ocupamos
o silêncio com o barulho".
Colaborou IARA BIDERMAN
SOLIDÃO
AUTORES John T. Cacioppo e William Patrick
EDITORA Record
QUANTO R$ 52,90 (336 págs.)
CORPO SÓ
Alterações biológicas causadas pela solidão,
segundo John T. Cacioppo
- Sono Pessoas solitárias demoram mais a pegar no sono e sentem
mais fadiga, comprometendo a regulação metabólica,
neural e hormonal
- Cérebro Isolamento afeta as funções comandadas
pelos lóbulos frontais, como o controle dos impulsos, a resolução
de problemas e a aderência às normas sociais
- Comportamento Solitários são mais predispostos a sofrer
de timidez, raiva, ansiedade, hostilidade, pessimismo e baixa autoestima
- Estresse Dias solitários aumentam a concentração
de cortisol, hormônio do estresse
- Sistema imunológico O corpo dos solitários apresenta
menor resistência imunológica, tornando-os mais suscetíveis
a infecções
- Doenças cardiovasculares Quanto maior a solidão, maior
a resistência periférica total nos vasos sanguíneos,
o que força o músculo do coração a trabalhar
mais e aumenta a pressão arterial
Fonte: John T. Cacioppo e William Patrick, "Solidão",
2010
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