03/06/2011
Psicóloga explica sua
trajetória na área de inclusão social e como criou
uma cooperativa de jovens com deficiência intelectual e de comunidade
na Vila Prudente, em São Paulo
por Susana Sarmiento
Há mais de 10 anos Rosana Cardoso Sanjuliano
Tozato atua na inclusão de pessoas com deficiência intelectual.
Integrante da Rede
Social Vila Prudente, ela conquistou recentemente o Prêmio
Sebrae Mulher de Negócios (PSMN), pela iniciativa de geração
de renda a jovens com deficiência intelectual e moradores da favela
Vila Prudente. Reconhecida na categoria negócios coletivos nas
etapas estadual e regional, ela também recebeu uma homenagem
na área de responsabilidade social. Hoje ela concorre à
disputa nacional, que acontecerá em Brasília.
Quando adolescente Rosana atuava em grupos de jovens de sua igreja
e ajudava famílias que viviam em cortiços. Optou estudar
psicologia, não se identificou com a área clínica
nem organizacional. Queria algo na educação, especificamente
na inclusão social. “No começo tive que atuar na
área de clínica para me ajudar a realizar meu sonho: abrir
uma entidade para trabalhar com pessoas com deficiência intelectual.
Trabalhei um ano em uma instituição que atendia esse público
e lá vi que era com isso que queria trabalhar”, recorda-se.
Decidida a colaborar com a educação desse segmento, Rosana
abriu a ONG
A Nossa Escola em 1988. Para conseguir financiar a entidade, trabalhava
em uma clínica ao mesmo tempo. No início recebeu ajuda
de uma imobiliária que pagava os primeiros meses de aluguel de
uma casa no bairro da Vila Prudente, zona leste de São Paulo.
As contas foram aumentando e conseguiu parceria com o Círculo
de Trabalhadores Cristãos de Vila Prudente, em 1989, entidade
que presta assistência para a comunidade, para a direção
administrativa e financeira.
Setor3 entrevistou Rosana para explicar trajetória da entidade,
a metodologia criada, a formação e expectativas da Nossa
CooperArte - Cooperativa Social de Produção dos Jovens
Especiais Artesões de São Paulo, uma cooperativa formada
por jovens com deficiência intelectual com moradores da favela
Vila Prudente.
Acompanhe:
Portal Setor3- De que forma você se dedicou na
formação da ONG A Nossa Escola?
Rosana Cardoso Sanjuliano Tozato- Antes do apoio administrativo e financeiro
do Círculo de Trabalhadores Cristãos de Vila Prudente,
tinha que atuar em diferentes frentes da entidade. Abri sem capital
e contei com apoio inicial da imobiliária da casa alugada para
entidade, que se comoveu com o trabalho e se ofereceu a pagar os primeiros
meses de aluguel. Quando fui conversar com Círculo e fechei o
apoio, recebi muita crítica, por eu ter criado a iniciativa e
me tornar “empregada”. O filho era meu, mas se ele cria
melhor, por que não destinar a iniciativa? Tive a humildade de
passar a administração. Eles compraram o terreno atual
da entidade, construíram as salas e todos os espaços que
fazemos atividades com os jovens. Conseguimos alavancar. Tive a oportunidade
de me dedicar aos estudos sobre educação a pessoas com
deficiência intelectual. Participei de diversas oficinas e capacitações
por toda São Paulo. Queria desenvolver atividades pedagógicas
interessantes.
Portal Setor3- Você comentou que a entidade desenvolveu
e atua com uma metodologia própria. Explique.
RCST- A gente trabalha no tempo deles. O processo de alfabetização
do deficiente é diferente, mais lento. Temos pré-requisitos
para avaliarmos o estágio. Algumas questões são
importantes pontuarmos durante o processo de alfabetização,
como explicar o que é o lado direito e esquerdo. Fica mais fácil
para eles entenderem a letra que vem antes e a posterior. Parece uma
coisa simples, mas eles não têm muito referência
de lateralidade. Outro ponto é a consciência de quantidade.
Uma coisa é contar até 10. Outra é saber a noção
da quantidade até 10, o que geralmente precisamos trabalhar.
Seguimos alguns teóricos que defendem as fases da criança,
como o Jean Piaget,e Emilia Ferreiro, psicolinguista argentina, sobre
a questão do espaço e do processo de alfabetização.
É todo um caminho: da criança iniciando com riscos, depois
passa a desenhar e fazer círculos para o que chamamos de garatujas.
Ela vai para as letras esquisitas, depois constrói com melhor
formato e identifica os sons e ingressa na ordem alfabética.
Ela começa a evoluir e atinge um grau para começar ser
alfabetizado, antes trabalhamos uma série de requisitos. Costumamos
desenvolver uma ficha para cada aluno e preencher as lacunas que precisamos
trabalhar para conseguirmos alfabetizá-los. Atuamos como facilitadores
desse processo.
Cada sala tem esse sistema. Cada aluno possui seu relatório.
Temos professores preparados para atendê-los. Às vezes
em uma turma, temos três níveis diferentes de conhecimentos.
Por exemplo, para um aluno, precisamos focar mais na questão
da seriação, do conhecimento de tamanho: do menor para
o maior. Ou seja, você entra novamente na questão dos números.
Outros já estão na fase de garatuja, outros já
desenham bem as letras. Nesse caso a professora precisa ter três
planejamentos de aula. Temos um trabalho muito maior que uma escola
regular. Das turmas dos mais novos, reunimos aproximadamente sete alunos.
Entre os maiores, atendemos em cada sala até 15.
Portal Setor3- Quais cursos te ajudaram a desenvolver
mais o projeto?
RCST- Em 2000, o Círculo passou por problemas financeiros e,
consequentemente, fomos afetados. Os próprios pais das crianças
e dos jovens matriculados na A Nossa Escola criaram a Associação
Nossa Escola e ajudaram a captar recursos por meio de eventos. Eu optei
para caminhar em outra direção: a capacitação.
Soube dos cursos na área do terceiro setor no Senac Penha e fiz
vários. Lá aprendi tudo, de captar recursos a elaborar
projetos. Lembro até hoje que os professores falavam a importância
de primeiro arrumar a entidade para depois buscar parceiros. Os cursos
do Senac São Paulo possibilitaram ver o profissionalismo do terceiro
setor. O grande aprendizado foi passar do assistencialismo para o profissionalismo.
Transparência é outra questão muito discutida nesses
cursos. Sempre é importante deixar claro os investimentos, a
importância do trabalho que a gente faz e como desenvolvemos.
Fui uma das primeiras integrantes da Rede Social Vila Prudente. Hoje
atende cerca de 30 pessoas. Se eu precisar de alguma coisa, ligo para
a equipe dessa rede. Às vezes chega uma doação
e sei que não usarei, encaminho para outra entidade da rede.
É um intercâmbio.
Portal Setor3 – Quando surgiu a ideia da CooperArte?
RCST- Ela surgiu em 2007. Fui numa feira promovida pela área
de sustentabilidade do Banco do Brasil. Lá vi que eles apoiavam
ações em diferentes segmentos. Levei um grupo de gerentes
do Banco do Brasil para uma das reuniões da Rede Social Vila
Prudente. A ideia é que cada gerente tem que assumir um projeto
social que desenvolva ações na área de desenvolvimento
regional. Eles apoiam ações que geram trabalha e renda.
Ele pega o projeto social, vai para a superintendência. Se aprovado,
fecha parceria. Na verdade, esse tipo de apoio abre portas, não
dá dinheiro diretamente. Fui atrás do apoio deles. Um
dos gerentes veio aqui e conheceu nosso trabalho. Fizemos o projeto
e enviamos. Ele me questionou sobre uma atividade que gerasse renda
e pontuou a necessidade da criação de uma cooperativa.
Na verdade, ele trouxe uma solução para uma questão.
Nós capacitávamos por meio de várias atividades
as pessoas com deficiência mental.
Conseguimos incluir parte no mercado de trabalho. Hoje temos 23 trabalhando
em diferentes setores, como hospitais, drogarias e universidades. Além
de capacitar esse jovem, também nos preocupamos em sensibilizar
a equipe das empresas que empregam. Só havia alunos que não
conseguia empregá-los por problemas de mobilização,
de saúde, entre outros fatores. Quando o gerente comentou da
necessidade da criação de uma cooperativa, apareceu uma
luz para essa questão.
Portal Setor3- Como surgiu a ideia de unir jovens com
deficiência intelectual com moradores da favela Vila Prudente?
RCST- Começamos a desenvolver o projeto da cooperativa em 2007.
No ano seguinte ficamos focados na elaboração do estatuto,
a equipe se reunia uma vez por semana para desenvolver esse tipo de
documento. Durante a elaboração desse documento, fui novamente
questionada sobre a entrega de encomendas de grandes quantidades e falei
que iria respeitar o ritmo dos jovens com deficiência. Sempre
trabalhei dessa forma, não era agora que iria mudar. Vi que não
era uma ação da entidade, mas sim uma iniciativa de gerar
renda, comércio. Tive a ideia de reunir jovens com deficiência,
os alunos da Nossa Escola, e os moradores da favela Vila Prudente. Todos
ficaram com receio de não dar certo. Está surtindo resultados.
No início testaríamos essa ideia por seis meses. Contei
com apoio das assistentes sociais do Círculo no processo de seleção
dos jovens que integrariam a cooperativa.
Por meio do presidente da associação dos moradores da
comunidade, conseguimos promover alguns encontros e explicar a proposta
da CooperArte. Lá tive a oportunidade de conhecer outra realidade.
Organizamos e promovemos cursos de cidadania aos pais dos jovens que
participariam da cooperativa. Trabalhamos e sensibilizamos os dois lados,
a equipe da A Nossa Escola e os alunos por meio de trabalhos com temas
relacionados à cidadania e, na comunidade, fazíamos palestras
duas vezes por semana. Os meses de fevereiro e março foram focados
nisso. No dia 6/4/2009, aconteceu a integração. Os jovens
de manhã estão na escola e à tarde trabalham na
cooperativa. Hoje é possível dizer que eles sabem ver
as diferenças e os potenciais de cada um. A convivência
é tranqüila e sadia, inclusive os jovens da comunidade começaram
a abordar mais a questão de deficiência em seus trabalhos
escolares.
Portal Setor3- Qual é a expectativa para esse
ano?
RCST- Hoje oferecemos cerca de 10 produtos. Ficamos mais na linha de
sabonetes e blocos recicláveis. Meu sonho é entrar em
uma Tok Stock, Etna, Pão de Açúcar – na parte
em que vende produtos de cooperativas. O foco para este ano é
incluir nosso produtos no mercado.
Blog da CooperArte
http://nossacooperarte.blogspot.com/
Após as capacitações, Rosana
ressalta a importância do profissionalismo
nas iniciativas sociais
Sabonetes são um dos produtos da CooperArte
Outro produto forte da cooperativa são os
blocos de risque rabisque
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