09/05/2011
Técnica está sendo usada em pacientes com derrame, mal
de Parkinson, esclerose múltipla e fibromialgia - Tratamento
ainda é experimental; efeitos colaterais temporários incluem
tontura e alterações na visão
MARIANA VERSOLATO
DA FOLHA DE SÃO PAULO
Para aliviar dores crônicas que não melhoram
com remédios, o Hospital das Clínicas de São Paulo
está testando um tratamento com estimulação magnética.
Uma bobina que gera um campo eletromagnético é apoiada
na cabeça do paciente. O aparelho estimula áreas do cérebro
ligadas à dor e à liberação de substâncias
produzidas pelo próprio corpo que têm efeito analgésico.
A técnica, não invasiva e indolor, é indicada para
dores neuropáticas, que atingem 7% da população.
Quando se torce o pé, por exemplo, o nervo saudável leva
a informação da dor para o cérebro. Na dor neuropática,
a lesão é no próprio nervo. A sensação
pode ser de queimação, formigamento ou pontadas. É
o caso de dores causadas por mal de Parkinson, esclerose múltipla,
fibromialgia, diabetes e quimioterapia, em pacientes com câncer.
De acordo com Daniel Ciampi, neurologista e coordenador do grupo de
dor clínica do HC, mais de 500 pacientes já foram submetidos
à estimulação.
MENOS REMÉDIOS
Um estudo do grupo, publicado on-line no periódico "Pain",
mostrou a eficácia da técnica para dor de fibromialgia.
A pesquisa avaliou 40 pessoas por seis meses.
Para Pedro Schestatsky, chefe do comitê europeu de dor da Sociedade
Europeia de Neurologia, não há dúvidas sobre os
benefícios da estimulação magnética.
"Não é mais 'achismo'. Os benefícios já
foram provados em estudos muito bem feitos pelo mundo", afirma.
Uma vantagem da técnica, diz ele, é a redução
do número de remédios para pacientes que já tomam
outras medicações, como diabéticos.
A estimulação também pode ajudar quem não
tem bons resultados com remédios. Ciampi afirma que 25% dos pacientes
com dores crônicas neuropáticas não respondem aos
medicamentos (antidepressivos e antiepilépticos). O neurologista
afirma que a técnica, ainda experimental, deve ser aprovada pelo
CFM (Conselho Federal de Medicina) ainda neste mês.
RESSALVAS
Estudos apontam que a estimulação transcraniana pode causar
dor de cabeça e, mais raramente, epilepsia. Segundo Marcos Vidal
Dourado, pesquisador do departamento de neurologia da Unifesp, o tratamento
pode causar efeitos colaterais temporários, como tontura e visão
com pontos luminosos.
"Deve-se aguardar mais estudos para esclarecer as aplicações
da técnica e dar mais segurança aos pacientes." Ciampi
afirma que 60% dos pacientes têm benefícios.
O auxiliar de expedição Djair Rosendo da Silva, 46, espera
estar em breve dentro do grupo beneficiado.
Há 22 anos ele sofre com uma dor constante no lado esquerdo do
rosto. Começou a fazer a estimulação nesta semana.
"Uso medicação há 12 anos, mas não
adianta muito", conta."Os médicos já estavam
meio perdidos comigo, sem saber o fazer. Agora, espero que melhore."
Método é diferente do usado
no eletrochoque
Estimulação magnética no cérebro não
deve ser confundida com eletrochoque ou eletroconvulsoterapia, ainda
que as duas técnicas possam ser usadas para depressão.
A eletroconvulsoterapia é indicada quando o paciente não
responde aos remédios ou se a depressão é severa.
Nessa técnica, a pessoa recebe anestesia geral. Os eletrodos
induzem uma corrente elétrica no cérebro que provoca a
convulsão, alterando os níveis de neurotransmissores como
a serotonina e a dopamina.
Já a estimulação magnética é indolor
e não requer anestesia. O paciente fica acordado durante a sessão.
Segundo o neurologista Pedro Schestatsky, a estimulação
magnética "nasceu" para tratar depressão, mas
o eletrochoque acabou sendo mais usado para esse fim.
Para Marcos Vidal Dourado, pesquisador da Unifesp, a eletroconvulsoterapia
tem efeito antidepressivo mais eficiente, apesar de efeitos cognitivos
indesejáveis, como perda de memória. Já Schestatsky
diz que as duas têm a mesma eficácia.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd0505201101.htm
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