17/04/2011
Neozelandês mostrou que, fora do continente, diversidade de fonemas
vai ficando mais baixa. Padrão casa de forma quase perfeita com
o que a genética mostra sobre as origens da humanidade moderna.
REINALDO JOSÉ LOPES / EDITOR
DE CIÊNCIA
GIULIANA MIRANDA / DA FOLHA DE SÃO
PAULO
O continente africano, além de berço da espécie
humana, também teria sido o local em que um idioma de verdade,
com gramática e vocabulário complexos, foi falado pela
primeira vez na história.
A ideia está sendo defendida em um novo estudo, que analisou
mais de 500 línguas de todas as partes do mundo em busca do caminho
que a "invenção" da linguagem teria seguido
planeta afora.
Segundo o trabalho, publicado nesta semana na revista americana "Science",
a variedade de fonemas ""a menor unidade sonora, que permite
a diferenciação entre as palavras"" altera-se
conforme a localização geográfica.
A maior quantidade de fonemas se concentra no seria o "marco zero"
das línguas, o centro-sul da África.
Conforme os idiomas vão se afastando dessa aparente fonte comum,
eles vão ficando empobrecidos em fonemas - com menos tipos de
vogais, consoantes e tons (variantes "musicais" das sílabas,
comuns em línguas como o chinês, por exemplo).
COISA VIVA
O autor da pesquisa, Quentin Atkinson, da Universidade de Auckland (Nova
Zelândia), aparentemente está construindo a carreira com
base na ideia de que línguas podem funcionar de forma idêntica
a coisas vivas.
Na década passada, ele usou métodos normalmente utilizados
para estudar o parentesco evolutivo entre seres vivos para propor uma
data para a origem das línguas indo-europeias ""basicamente
quase todas as línguas da Europa mais as de regiões como
Índia, Paquistão e Irã.
Nesse estudo, ele estimou que esse tronco de línguas "brotou"
pela primeira vez há 9.000 anos. Isso poderia ligá-las
à expansão de agricultores da atual Turquia rumo à
Europa, substituindo os antigos habitantes da região.
"É muito interessante, entre outras coisas porque muitos
linguistas históricos aqui no Brasil, que estudam línguas
indígenas, ainda não aplicam essas ideias à expansão
de povos no passado", diz o geneticista Fabrício Rodrigues
dos Santos, da UFMG.
Segundo Atkinson, uma coisa já sabida é que, quanto maior
a população que fala uma língua, maior o número
de fonemas de dita cuja. Mas isso não significa que o chinês
seja automaticamente a língua mais rica em fonemas do planeta.
Faz muita diferença também o tempo que uma população
grande fala certo idioma -e nesse quesito a África parece ser
imbatível, já que seres humanos modernos habitam o continente
há bem mais tempo.
O padrão, além do mais, bate com o da genética
-os africanos também são geneticamente mais diversificados
que o resto da humanidade. "E, de fato, eles possuem fonemas como
os que envolvem cliques [estalos], aparentemente únicos",
diz Santos.
Atkinson usa os dados para propor um único "eureca"
linguístico há uns 70 mil anos na África, que teria,
inclusive, uma associação com os primeiros indícios
de arte e adornos corporais, também datados dessa época.
Segundo essa visão, a linguagem complexa teria sido uma das ferramentas
centrais para que a humanidade moderna avançassem pelos continentes
e acabasse suplantando, de algum modo, hominídeos como os neandertais
da atual Europa.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1504201102.htm
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