20/01/2011
Cientista afirma ter teletransportado
moléculas de DNA
Com informações da New Scientist - 17/01/2011
Teletransporte de DNA
Seu nome é Luc Montagnier e sua biografia
pode ser resumida a um feito único: ele ganhou o Prêmio
Nobel de Medicina em 2008, por ajudar a demonstrar a conexão
entre o HIV e a AIDS. Montagnier agora está sacudindo as bases
do mundo acadêmico com uma alegação absolutamente
inesperada: ele afirma ter "teletransportado" as informações
de moléculas de DNA.
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O experimento mostraria que uma molécula de DNA pode
transmitir as informações que contém, por
meio de campos eletromagnéticos, para células
distantes e até mesmo para a água.
[Imagem: Site Inovação Tecnológica/Konrad
Summers/Projeto Genoma Humano]
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"Se os resultados estiverem corretos," comentou
Jeff Reimers, químico da Universidade de Sidnei, na Austrália,
"isso será um dos experimentos mais significativos feitos
nos últimos 90 anos, e exigirá uma reavaliação
de todo o quadro conceitual da química moderna."
Nesta altura dos acontecimentos, a expressão
"se os resultados estiverem corretos" está tendo mais
ênfase entre os outros cientistas do que o alegado teletransporte
de DNA, que poderá ter um impacto, na verdade, muito além
da química.
O problema é que o artigo ainda não foi
aceito para publicação por uma revista revisada pelos
pares de Montagnier.
E, a julgar pela recente controvérsia de uma
bactéria com jeitão alienígena, anunciada com estardalhaço
pela NASA e depois largamente contestada por outros cientistas, o processo
de avaliação desse artigo deverá levar mais tempo
do que o normal.
Teletransporte quântico
Montagnier e seus colegas alegam ter feito um experimento que mostra
que uma molécula de DNA pode transmitir as informações
que contém, por meio de campos eletromagnéticos, para
células distantes e até mesmo para a água.
Mais do que isso, o Prêmio Nobel afirma que enzimas podem tomar
esse "carimbo" remoto de DNA por um DNA real, copiando-o para
produzir a coisa real - o que faria do experimento uma espécie
de teletransporte quântico da molécula de DNA.
O experimento consiste em dois tubos de ensaio, próximos mas
separados fisicamente, colocados dentro de uma bobina de cobre, sujeitos
a um campo eletromagnético fraco de frequência extremamente
baixa, de apenas 7 hertz.
O conjunto é isolado do campo magnético natural da Terra,
para evitar interferências.
O primeiro tubo contém um fragmento de DNA com cerca de 100
pares de base. O segundo tubo contém água pura.
Depois de um período que variou de 16 a 18 horas, o conteúdo
dos dois tubos de ensaio foram submetidos à reação
em cadeia da polimerase (PCR), o método rotineiramente usado
para amplificar quantidades traço de DNA, usando enzimas para
fazer inúmeras cópias do material original.
Foi aí que o mais surpreendente aconteceu: o fragmento de DNA
foi aparentemente recuperado dos dois tubos de ensaio, incluindo aquele
que só deveria conter água.
A maldição da diluição
Para incomodar ainda mais os cientistas mais conservadores, aqueles
que se incomodam com resultados controversos, e que geralmente se colocam
prontamente contra qualquer nova descoberta que possa abalar o "edifício
da ciência", o DNA somente é teletransportado com
sucesso depois que a solução original de DNA passa por
diversos ciclos de diluição.
Diluição lembra homeopatia, e "cientistas céticos"
- o termo é absolutamente sem sentido, mas há vários
acadêmicos que se autodenominam assim -, cientistas céticos
odeiam a homeopatia, argumentando que ela não possui bases científicas,
e trabalham duro para desacreditá-la.
No experimento de teletransporte, em cada ciclo, a amostra original,
do tubo número 1, foi diluída 10 vezes, e o DNA fantasma,
do tubo número 2, só pode ser recuperado quando a amostra
original é diluída entre sete e 12 vezes.
O teletransporte não funcionou nas super diluições
usadas na homeopatia.
Vários cientistas ouvidos pela revista britânica New Scientist
mostraram-se céticos quanto aos resultados.
Mas é difícil imaginar que a equipe de um pesquisador
agraciado com o Prêmio Nobel seja ingênua a ponto de divulgar
uma pesquisa tão controversa sem tomar todos os cuidados metodológicos
necessários.
Ondas eletromagnéticas do DNA
Segundo o rascunho do artigo, os físicos da equipe sugerem que
o DNA emite ondas eletromagnéticas de baixa frequência,
que transmitem a estrutura da molécula para a água.
Essa estrutura, alegam eles, é preservada e amplificada por
meio de efeitos de coerência quântica. Como a estrutura
imita o formato do DNA original, as enzimas do processo PCR tomam-na
pelo próprio DNA e, de alguma forma, usam-na como modelo para
construir moléculas que coincidem com o DNA transmitido.
Mas se Montagnier e seus colegas não conseguiram de fato fazer
o teletransporte do DNA, então o que eles descobriram?
"Os experimentos biológicos parecem intrigantes, e eu não
posso desacreditá-los," disse Greg Scholes, da Universidade
de Toronto, no Canadá, que demonstrou no ano passado que os efeitos
quânticos ocorrem em plantas.
Klaus Gerwert, da Universidade Ruhr, na Alemanha, que estuda as interações
entre a água e as moléculas biológicas, mostra
preocupação quanto à persistência do fenômeno:
"É difícil entender como a informação
pode ser armazenada na água em uma escala de tempo maior do que
picossegundos."
Memória da água
Em 1988, o cientista francês Jacques Benveniste publicou um artigo
na revista Nature, onde ele e seus colegas afirmavam demonstrar que
a água tinha memória.
Em seu experimento, a atividade de anticorpos humanos era retida em
soluções tão diluídas que não poderiam
conter quaisquer moléculas de anticorpos - o que estatisticamente
também ocorre na homeopatia.
Frente a um enorme ceticismo, a revista convocou um "caçador
de mitos" para averiguar a questão, que concluiu que os
resultados eram "uma ilusão", gerada por um experimento
mal projetado.
Em 1991, Benveniste repetiu seu experimento sob condições
duplo cego e obteve novamente os resultados que demonstraram inicialmente
a alegada "memória da água".
Contudo, nem a Nature e nem a Science aceitaram o novo artigo para
publicação.
Desacreditado, o pesquisador foi expulso de seu instituto sob a alegação
de haver manchado a reputação da instituição.
Benveniste morreu em 2004.
Única saída
O que se espera agora é que o experimento de Montagnier e seus
colegas seja avaliado pelos seus pares com a isenção necessária
- sem ser condenado previamente, sobretudo por conter a palavra maldita
- "diluição".
Para isso, um único caminho pode ser trilhado: laboratórios
independentes devem repetir os experimentos e checar os resultados.
Bibliografia:
DNA waves and water
L. Montagnier, J. Aissa, E. Del Giudice, C. Lavallee, A. Tedeschi, G.
Vitiello
Nature
23 Dec 2010
Vol.: 333, 816 - 818
DOI: 10.1038/333816a0
http://arxiv.org/abs/1012.5166
Human basophil degranulation triggered by very dilute antiserum against
IgE
E. Davenas, F. Beauvais, J. Amara, M. Oberbaum, B. Robinzon, A. Miadonnai,
A. Tedeschi, B. Pomeranz, P. Fortner, P. Belon, J. Sainte-Laudy, B.
Poitevin, J. Benveniste
Nature
30 June 1988

O fragmento de DNA foi aparentemente recuperado
dos
dois tubos de ensaio, incluindo aquele que só deveria conter
água.
[Imagem: Montagnier et al.]
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