20/01/2011
Há um novo jornal de estudo antropológicos
cujo objetivo é "fornecer uma plataforma para a disseminação
de novas pesquisas e idéias concernentes à abordagens
antropológicas para o estudo de crenças paranormais, associadas
à prática ou aos fenômenos". Tem como base
pesquisadores ligados à Universidade de Bristol na Inglaterra
(em particular o editor é Jack Hunter).
Parece estar havendo um renascimento da pesquisa psíquica na
Inglaterra. Em paralelo com a crescente onda de descristianização
(vejam o sucesso de Richard Dawkins), já vários grupos
engajados em um retorno ao espiritualismo.
Chama a atenção o trabalho de E. Turner: (2006). "Advances
in the Study of Spirit Experience: Drawing Together Many Threads."
Anthropology of Consciousness 17(2): 33-61. Há uma corrente de
antropologistas que começam a tratar os Espíritos como
'metodologicamente reais'.

paranthropology.weebly.com
Entre dois mundos
Várias vezes antropologistas testemunham rituais de Espíritos,
e várias vezes exegetas indígenas tentam explicar que
os Espíritos estão presentes...Mas, antropologistas resolvem
sempre interpretar tudo de forma diferente. Nós, antropologistas,
precisamos treinamento para ver o que os Nativos vêem.
Edith Turner (1993). "The reality of Spirits: A Tabooed or Permitted
Field of Study?" Anthropology of Conssciousness 4(1): 9-12.
por Ademir Xavier -
http://eradoespirito.blogspot.com/2011/01/novo-jornal-de-estudos-antropologicos.html
No que segue abaixo, o que está em
azul são textos de J. Hunter que Ademir Xavier comenta mais abaixo:
Por J. Hunter (Universidade de Bristol, UK)
Bem vindos à primeira edição de 'Paranthropoloy:
Journal of Anthopological Approaches to the Paranormal". Essa jornal
tem como objetivo básico fornecer uma plataforma para a disseminação
de novas pesquisas e idéias concernentes à abordagens
antropológicas para o estudo de crenças paranormais, associadas
à prática ou aos fenômenos. Embora a ênfase
do jornal seja uma abordagem antropológica, ele também
se ramificará em outras disciplinas - psicologia, parapsicologia,
sociologia, folclore, história - como um meio de explorar a maneira
como tais metodologias teóricas lançam luz sobre o paranormal.
Antropologia e Paranormal: qual é a questão?
Há muitas razões para uma abordagem antropológica
como estudo do paranormal. Não só a antropologia fornece
uma metodologia promissora para a elucidação e compreensão
do paranormal, como também o paranormal se apresenta como um
aportunidade para que teorias e técnicas antropológicas
sejam testadas e expandidas.
A idéia que métodos antropológicos
sejam apropriados para o estudo de fenômenos paranormais não
é nova. Escrevendo ainda no Século 19, o acadêmico
escocês Andrew Lang (1844-1912), apresentou o método antropológico
aos membros da Sociedade de Pesquisa Psíquica (SPR). Lang achou
incrível que a SPR tenha, por qualquer razão, se recusado
a comentar sobre experiências psíquicas na literatura antropológica
e, semelhantemente, que a antropologia da época estivesse super
interessada no tipo de pesquisa feita pela SPR. Lang (1996) expressou
a opinião que ambos os conjuntos de dados (antropológicos
e psíquicos) seriam melhor compreendidos se fizessem referência
mútua, ao invés de serem tomados como eventos separados
e descorrelacionados.
Métodos antropológicos, em particular
participação etnográfica, podem resultar em uma
compreensão aprimorada dos mecanismos sociais, psicológicos
e espirituais que envolvem as manifestações do paranormal,
fatores que podem adicionar uma compreensão mais profunda do
tipo de fenômenos estudados por parapsicológos. A pesquisa
parapsicológica tende a assumir que efeitos paranormais só
podem ser replicados no laboratório sem consideração
à maneira como tais efeitos tem sido tradicionalmente produzidos.
De fato, Frederic Myers, um dos fundadores da SPR, afirmou que um dos
objetivos da pesquisa psíquicas seria o estudo de fenômenos
psíquicos ostensivos sem uma...
...análise da tradição,
ou sem qualquer manipulação metafísica, mas simplesmente
experimentação e observação - pela simples
aplicação aos fenômenos dentro de nós e
ao redor de nós, dos métodos de pesquisa exata, deliberada
e desapaixonadamente, que serviram de base para o conhecimento do
mundo que podemos ver e tocar." (citado por Gauld, 1983, xi)
Tal abordagem altamente racional,
positivista e empírica tornou-se a pedra fundamental da parapsicologia
moderna e deve, possivelmente, explicar as evidências relativamente
inexpressivas que essa disciplina tem conseguido se comparada aos fenômenos
extravagantes registrados na literatura etnográfica: é
simplesmente um abordagem que desconsidera a tradição
mágica. De Martino (1972), por exemplo, lista um número
grande de fenômenos paranormais ostensivos (clarividência,
precognição, experiências fora do corpo, psicocinese,
fire-walkings etc) testemunhados por etnógrafos em partes diferentes
do mundo, e compara o jeito com que etnógrafos registra tais
ocorrências (i. e., dentro de um contexto particular histórico,
social, cultura, mitológico e cosmológico) com o jeito
como parapsicólogos fazem o mesmo. Assim ele escreve sobre a
parapsicologia:
Ocorre um quase que total redução
do estímulo histórico que está em ação
nas ocorrências espontâneas de tais fenômenos. Assim,
no laboratório, o drama do homem desencarnado (dying man) que
reaparece... para um parente ou amigo - é substituido (reduzido)
a um experimento de repetição - tenta-se transmitir
à mente do sujeito a imagem de uma carta de baralho escolhida
aleatoriamente. (1973, p. 46)
A proposta do jornal de Parantropologia é inovadora para a nossa
época e parte da necessidade de se avaliar a quantidade enorme
de evidências etnográficas e históricas para fenômenos
psíquicos. De fato, poderíamos dizer que a verdadeira
pesquisa psíquica deve se iniciar com a antropologia e não
na proposta de laboratórios de parapsicologia. Por que? Porque
a Antropologia procura modelos para o fenômeno humano (tanto moderno
como primitivo) sem eliminar nada deles que lhes seja característico.
Embora esses fenômenos sejam interpretados dentro de concepções
restritas que eliminam o transcendente, a proposta da Paranthropology
é justamente iniciar ou propor modelos antropológicos
onde a existência do transcendente não possa ser descartada.
O horror à idéia da sobrevivência e as concepções
espiritualistas fez surgir a pesquisa parapapsicológica com proposta
supostamente científica e certamente fechada às observações
que ocorram fora dos recintos de laboratórios (veja a citação
de F. Myers acima). Essa decisão foi tomada sem prestar atenção
ao fato de que existem fenômenos naturais que não podem
ser reproduzidos em laboratório, ou mesmo que a exigência
de repetibilidade em laboratórias torna restritiva as condições
de ocorrência, ou seja, resultam em interferências destrutivas
no fenômeno.
Há uma crença generalizada de que só existe ciência
se os fenômenos puderem ser repetidos em laboratório. A
constatação de De Martino, embora interpretada como uma
observação quanto à eliminação de
estímulos históricos, reflete a eliminação
de quase todos os estímulos possíveis necessários
para as ocorrências psíquicas. A que se reduz então
os testes parapsicológicos 'rigorosos'? A medidas de coincidência
de leitura de carta por 'sujets' ou outros sinais gerados por computador,
ou por fontes radioativas. Com isso, espera-se medir correlações
que lançem luz à existência de precognição
ou retrocognição, sem se postular nenhum mecanismo para
que isso ocorra, a menos da existência de Super Psi, ou a existência
de indivíduos dotados de percepção quase que onisciente
(tanto no espaço como no tempo). O Super psi nasce como uma explicação
naturalmente fora do escopo de qualquer teste, já que ele, por
definição, associa à mente determinadas características
que tornam muito difícil a 'contra prova' ou o processo do 'falsificacionismo'
no sentido proposto pelo Filósofo Karl Popper. Em outras palavras,
ao se assumir Super Spsi fica muito difícil a proposição
de uma observação onde Super Psi possa ser 'falsificado'
ou demonstrado como não existente. Logo, as teorias de Super
Psi são suspeitas do ponto de vista epistemológico.
Mas Super psi tornou-se um mecanismo de crença de céticos
moderados que, não aceitando a idéia da sobrevivência,
não podem deixar de aceitar a existência dos fenômenos.
Ai entra a necessidade de estudos Antropológicos que podem:
Mais recenemente, entretanto, teóricos tem
argumentado em favor de tratar tais crenças tal como os nativos
o fazem. Edith Turner (1993, 1998, 2006) tem se colocado favorável
a essa perspectiva, especialmente em termos de interpretar a crença
na existência e atuação dos Espíritos no
campo. Outros antropologistas tem também considerado os Espíritos
seriamente, mesmo que não no nível ontológico real:
por exemplo, Nils Bubandt (2009) explorou a atuação política
de Espíritos que se comunicam com médiums 'possuídos'
em Norte Maluku - tratando-os como metodologicamente reais. Aqui vemos
a noção antropológica da ação consciente
expandida para incluir outras formas de personalidade.
Por que isso é importante? Porque não é possível
fazer avançar o conhecimento antropológico ao se desconsiderar
a opinião dos nativos tais como elas se apresentem. Esperamos,
assim, que uma nova era no conhecimento da verdadeira natureza do Homem
se inicia a partir da adoção dessa postura mais aberta.
Referências
Bubandt, N. (2009). “Interview with an Ancestor:
Spirits as Informants and the Politics of Spirit Possession in North
Maluku.” Ethnography 10(3): 291-316.
De Martino, E. (1972). “Magic: Primitive and Modern”. London:
Tom Stacey Ltd.
Lang, A. (1896). “Cock Lane and Common Sense.” London: Green
& Co.
Turner, E. (1993). “The Reality of Spirits: A Tabooed or Permitted
Field of Study?” Anthropology of Consciousness 4(1): 9-12.
Turner, E. (1998). “Experiencing Ritual”. Philadelphia:
University of Pennsylvania Press.
Turner, E. (2006). “Advances in the Study of Spirit Experience:
Drawing Together Many Threads.” Anthropology of Consciousness
17(2): 33-61.
Fonte: http://eradoespirito.blogspot.com/2011/01/novo-jornal-de-estudos-antropologicos.html
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