10/01/2011
Paloma Oliveto
Correio Braziliense-31.12.2010
Pesquisa publicada no Journal of Psichology
sugere que o ser humano é capaz de predizer o futuro e acende
o debate sobre a pré-cognição
Começou, oficialmente, a temporada de previsões
futurólogas. Nos meios de comunicação, místicos
dizem o que vai acontecer no primeiro ano do governo Dilma Rousseff.
Também palpitam sobre crises mundiais, catástrofes, namoros
entre celebridades. Nos consultórios, homens e mulheres perguntam
a cartas e a oráculos sobre suas vidas amorosas e profissionais.
Mas, o que antes era apenas uma questão de fé ou curiosidade,
passou a chamar a atenção da ciência. Principalmente
depois de a prestigiada publicação Journal of Psichology
publicar um artigo no qual o pesquisador Daryl Bem,
da Universidade de Cornell, afirmar que, sim, é possível
predizer o futuro.
Depois de aplicar testes com mais de mil pessoas, Bem
concluiu que a mente humana pode se sobrepor ao tempo físico.
O cientista inglês usou uma metodologia semelhante à das
Cartas de Zener, aplicadas em experimentos sobre clarividência,
mas desenvolveu um protocolo próprio. Em um dos testes, 50 homens
e 50 mulheres ficavam em frente a um computador cuja tela estava encoberta
por uma cortina. Eles precisavam então dizer se, quando a cortina
fosse retirada, eles veriam uma tela em branco ou com uma ilustração,
sendo que alguns dos desenhos eram eróticos. “Ao longo
de 100 sessões, 53,1% dos participantes identificaram corretamente
a posição das fotografias eróticas, mais do que
o percentual associado à pura sorte, que é de 50%”,
contou Bem ao Correio.
Outros oito testes semelhantes chegaram a conclusões
parecidas. Bem oferece poucas explicações “Pode
ser algo evolutivo. Por exemplo, a habilidade de antecipar e, portanto,
evitar um perigo confere uma vantagem evolutiva óbvia”,
advoga. Ele também apela para a mecânica quântica,
dizendo que a energia circulante em forma de ondas pode produzir fenômenos
no cérebro. Porém, o cientista diz que é “absurdo”
esperar que, com seu artigo, fosse publicada uma teoria a respeito.
“O que sei é que os dados que obtivemos indicam que é
possível prever o futuro, mas é necessário mais
investigação para explicar solidamente esse fenômeno”,
argumenta.
Apesar de reconhecer que Bem conseguiu extrair estatísticas
que vão ao encontro da futurologia e que seu estudo é
curioso do ponto de vista científico, especialistas procurados
pelo Correio dizem não acreditar em percepções
extrasensoriais (EPS, sigla em inglês).
“Não acho que exista. Mas se muitos
estudos mostrarem que as pessoas conseguem predizer o futuro, se esses
estudos forem bem conduzidos e não houver explicações
alternativas, então acho que a ciência terá de
levar a EPS a sério. Só não acho que estamos
nesse ponto”, diz Nate Kornell, professor de psicologia da Universidade
de Collins.
Ele é bastante conhecido nos EUA pelo blog sobre
memória e cognição Everybody is Stupid Except You,
que significa Todo mundo é estúpido menos você (www.psychologytoday.com/blog/everybody-is-stupid-except-you).
Kornell, que já foi aluno de Daryl Bem, diz que
há diversos exemplos de pessoas que não podem prever o
futuro, conforme tentam fazer os outros acreditarem.
“O público geralmente é enganado
por essas pessoas. Tendemos a lembrar de frases que nos disseram e
que realmente aconteceram e esquecemos quando as predições
deram errado. Além disso, procuramos e acreditamos nas informações
que confirmam aquilo que já acreditamos. Então, se você
acredita em ESP, você vai ver evidências para isso em
um mundo onde ela não existe de verdade”, sustenta. “Prever
o futuro é uma ideia que tem sido incorporada por muitas culturas
e ao longo de muitos séculos. Por que é tão importante
para as pessoas é que não sei”, admite.
Mais estudos
Mesmo cético, Kornell acredita que o ex-professor deu um passo
importante na direção da prova da existência —
ou inexistência — da percepção extrasensorial.
A mesma opinião tem Melissa Burkley, professora do Departamento
de Psicologia da Universidade do Estado de Oklahoma (leia entrevista).
“Estou empolgada com o potencial de futuras
descobertas”, diz. “A beleza do estudo de Bem é
que o experimento não era saber se as pessoas acreditam em
precognição. O que ele fez foi testar se elas eram verdadeiramente
pré-cognitivas”, diz. “Mas mais estudos como esse
devem ser conduzidos para que os cientistas possam separar o que é
um comportamento verdadeiro, e o que é apenas a crença
em um comportamento particular.”
Para Nate Kornell, a experiência precisa ser refeita
por diversos laboratórios.
“O método científico é
perfeitamente capaz de investigar se as pessoas podem ou não
prever o futuro. É bastante simples; você pede para elas
predizerem o futuro e verifica se suas predições estão
corretas. Se sim, e outras explicações não couberem,
então alguém pode concluir que é possível
predizer o futuro”, argumenta. “Por outro lado, um estudo
não é o suficiente para provar que a previsão
do futuro é possível. Para serem convincentes, os resultados
precisam ser replicados”, acredita.
Um dos estudos apresentados por Bem foi recentemente
refeito pelos pesquisadores Jeff Galak Carnegie, da Universidade de
Mellon, de Leif D. Nelson, da Universidade da Califórnia, Berkeley.
O resultado foi contrário ao do obtido pelo cientista inglês.
Os voluntários foram apresentados a uma lista de palavras, que
deveriam decorar. Então, foi pedido que repetissem metade das
palavras da lista. Mais tarde, eles deveriam digitar palavras da lista.
No teste de Bem, eles se lembraram melhor daquelas que, depois, iriam
digitar. Carnegie e Nelson, porém, não encontraram qualquer
evidência de que isso ocorreu.
“O efeito foi nulo”, constata Carnegie.
“Interpreto nossa descoberta como exatamente o que Bem pediu
que a comunidade científica fizesse: um esforço para
provar, ou não, a existência da precognição
usando uma metodologia válida”, diz. “A esperança
dele, e a nossa, é que mais pesquisadores continuem investigando
o tema.”
Sequência
Inventadas pelo parapsicólogo Joseph Banks Rhine em 1920, as
Cartas de Zener são um método que consiste em 25 cartas
contendo cinco desenhos — círculo, cruz grega, estrela
de cinco pontas, quadrados e linhas onduladas. Nos testes, os voluntários
tinham de prever qual a sequência das imagens. O nome Cartas de
Zener é uma homenagem ao cientista Karl Zener, pesquisador da
parapsicologia.
Três perguntas para
- Melissa Burkley, professora do Departamento de Psicologia
da Universidade do Estado de Oklahoma
Em um artigo publicado no site Psichology Today,
a senhora diz que a pesquisa do Dr. Daryl Bem traz mais questionamentos
do que respostas. A senhora acredita que, algum dia, a ciência
vai conseguir provar essa habilidade?
A ciência está constantemente mudando nossa concepção
do que é possível ou impossível. Eu gostaria de
ver mais dados para ter certeza de que essa habilidade realmente existe,
mas o trabalho de Bem é um excelente primeiro passo nessa jornada,
e estou empolgada a respeito de potenciais descobertas futuras.
A previsão do futuro é algo que
podemos encontrar em quase todas as culturas. A própria Bíblia
traz diversos exemplos de oráculos. A senhora acredita que essa
é uma questão mais filosófica do que científica?
Precisamos acreditar que podemos prever o futuro para, assim, controlá-lo?
Só porque a crença na habilidade existe em várias
culturas não significa necessariamente que, de fato, ela exista.
Mas, como você colocou, pode ser que essa universalidade reflita
a forte necessidade humana de controlar e predizer o que há ao
seu redor. Esse motor, geralmente chamado de “motivação
de competência”, nos leva a acreditar em uma variedade de
ocorrências “sobrenaturais”. Por exemplo, um estudo
recente mostrou que pessoas com essa motivação em um nível
alto costumam inferir personalidade a objetos inanimados, como computadores.
Então, nosso desejo de controlar e prever pode nos levar a acreditar
em algumas coisas, como o credo na habilidade psíquica e no controle
da mente.
A senhora acredita que a ciência
poderá nos dar respostas para questões que, até
agora, apenas religiões ou superstições fornecem?
Acredito que a ciência está se movendo nessa direção.
Não apenas a psicologia, mas a física como um todo. Há
similaridades chocantes entre as teorias científicas modernas
e os credos místicos antigos. Tipicamente, tratamos ciência
e religião como forças opostas, mas ambas representam
a busca pelo conhecimento e por respostas, elas apenas discordam do
que é fato ou prova. Acredito que ciência e religião
não têm de ser inimigas, e que cada uma pode fornecer informações
para a outra de forma única.
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