10/01/2011
Pessoas distraídas são mais criativas
- Quem se deixa perturbar por estímulos externos tem maior capacidade
de resolver problemas que os mais concentrados
Quem se deixa perturbar por estímulos externos
tem maior capacidade de resolver problemas que os mais concentrados.
Tendência a dispersão e a fazer associações
inusitadas é comum a criativos e a pessoas com esquizofrenia.
RICARDO BONALUME NETO
DE SÃO PAULO/FOLHA DE SP
Quem diria: se distrair pode ser a melhor maneira de resolver um problema
difícil de forma criativa.
"Distração" costumava ter uma conotação
negativa em estudos médicos; por exemplo, pesquisas que mostram
o maior risco de causar um acidente de carro ao se distrair falando
ao celular.
Mas trabalhos recentes têm demonstrado que a distração
está vinculada à criatividade, especialmente na hora de
resolver problemas complexos.
Só que até certo ponto: em excesso, distração
combina com esquizofrenia -um distúrbio psíquico que pode
incluir alucinações, delírios e fuga da realidade.
Como a distração ajuda a ser criativo e produzir soluções?
Para muita gente, a prática de "dar um tempo", "fazer
uma pausa no trabalho", costuma fazer a resposta para um problema
surgir de repente, como mágica.
É só assistir ao seriado "House" (Universal)
para entender como funciona.
O médico Gregory House e sua equipe são escalados para
diagnosticar e tratar apenas os casos mais cabeludos.
O enredo tem uma fórmula básica. Eles passam três
quartos do programa raciocinando logicamente sobre sintomas, tratamentos
e causas de doenças.
Mas só no fim do episódio, quando House se distrai ou
tem a atenção chamada para algo bizarro, que uma resposta
"clica" no seu cérebro.
EVOLUÇÃO
Ignorar estímulos irrelevantes ao nosso redor é uma conquista
da evolução biológica. Um animal que presta atenção
a tudo e caminha pelos prados distraído acaba não percebendo
o predador até que seja tarde demais.
Essa capacidade de abstrair o ruído inútil é chamada
de inibição latente.
Esquizofrênicos têm inibição latente muito
reduzida; prestam atenção a tudo, e por isso, paradoxalmente,
fogem da realidade. Mas esse traço também caracteriza
pessoas saudáveis e altamente criativas.
Um estudo feito pela equipe de Fredrik Ullén, do Instituto Karolinska,
da Suécia, publicado na revista científica "PLoS
One", apontou que os cérebros dos esquizofrênicos
e o dos criativos têm um sistema semelhante do neurotransmissor
dopamina.
Produzida em várias partes do cérebro, a dopamina tem
funções na transmissão do impulso elétrico
entre as células nervosas, notadamente na cognição,
motivação e nos mecanismos de punição e
recompensa.
"A teoria da dopamina e esquizofrenia vê o distúrbio
como uma forma extrema de criatividade", diz Adam Galinsky, da
Escola Kellogg de Administração da Universidade Northwestern,
EUA.
O pesquisador explica que a dopamina tende a alterar processos cognitivos,
de modo que as associações são mais soltas e as
categorias conceituais são ampliadas.
"Isso pode facilitar a criatividade, mas também levar
a padrões de pensamento desorganizados e anomalias de percepção."
Galinsky e colegas fizeram testes de associação com
94 voluntários que tinham que identificar uma quarta palavra
vinculada a três outras. Alguns passavam por distrações,
outros não. Os distraídos identificaram sequências
de letras como palavras válidas mais rápido.
O estudo foi publicado na revista "Psychological Science"
e afirma que o processo de solução de problemas inclui
tanto a distração quanto um período de pensamento
consciente, sem o qual o problema não tem como ser racionalmente
resolvido.
RADAR
Estudos feitos com universitários nos EUA e no Canadá
pela equipe de Shelley H. Carson, do Departamento de Psicologia de Harvard,
mostraram que aqueles que se distraem facilmente, com o "radar
ligado" para tudo em torno, são mais criativos: os mais
criativos tinham sete vezes menos inibição latente.
O estudo original, publicado em 2003, foi replicado depois.
"Dois outros laboratórios testaram a baixa inibição
latente e descobriam que está associada com criatividade. Nós
também estamos continuando os testes", afirma Carson.
"Há um corpo substancial de pesquisa que indica que
a esquizofrenia está associada com inibição latente
baixa e também com deficits na memória de trabalho",
continua o pesquisador.
Para Carson, comentando o estudo de Galinsky, a pessoa criativa é
capaz de permitir, temporariamente, que o excesso de distrações
seja canalizado em percepção consciente, para fazer conexões
entre os estímulos.
"Mas a pessoa tem a capacidade de alternar entre estados do
cérebro para exercitar maior controle cognitivo e realmente
formular e acessar essas conexões", afirma o pesquisador.
Trabalho criativo causa mais estresse
Criar comerciais de televisão envolve mais criatividade do que
apertar botões em uma fábrica. Ter um trabalho que exige
criatividade costuma ser mais prazeroso, diz o senso comum. Mas os estudos
de dois pesquisadores no Canadá mostraram como o trabalho criativo
causa mais estresse. O trabalhador criativo tem mais risco de sofrer
pressão excessiva e de se sentir sobrecarregado.
Ele também recebe com mais frequência comunicação
ligada a trabalho -e-mails, mensagens de texto, telefonemas- fora do
expediente, concluíram Scott Schieman e Marisa Young, do Departamento
de Sociologia da Universidade de Toronto. O estudo foi feito com base
em uma extensa pesquisa dos hábitos de trabalho dos americanos.
CUSTO ALTO
"É a ideia do "estresse do status mais alto" que
tenho desenvolvido em minha pesquisa", diz Schieman.
A teoria sugere que há custos escondidos para as ocupações
de maior status.
"Embora as condições de trabalho sejam altamente
desejáveis e frequentemente preferidas, elas às vezes
impõem demandas que minam ou desafiam os próprios recursos
que proveem", afirma o pesquisador.
Esses custos poderiam ser definidos como estressantes, diz ele.
"Minha própria pesquisa indica que o trabalho criativo
não se encaixa facilmente em uma agenda de uma semana de trabalho
típica. Esse tipo de trabalho é bagunçado, toma
tempo e não segue uma rotina das 8h às 17h", diz
Shelley H. Carson, da Universidade Harvard, comentando as conclusões
da dupla de Toronto.
"Isso pode colocar pressão na pessoa de quem se espera
uma produção criativa de acordo com prazos", diz
o pesquisador de Harvard.
Sobra também para a família: as linhas de fronteira
entre trabalho, vida pessoal e diversão acabam indefinidas.(RBN)
Fonte - http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd0201201101.htm
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