21/08/2009
Orquestra neural
Por Alex Sander Alcântara, de Águas de
Lindoia (SP)
Agência FAPESP –
“Para entender o cérebro é preciso entender como
funciona uma orquestra neural." Com essa imagem, o neurocientista
brasileiro Miguel Nicolelis, da Universidade Duke, nos Estados Unidos,
e do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond
e Lily Safra (IINN-ELS), abriu a conferência “Just follow
the music” na 24ª Reunião Anual da Federação
de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), que está sendo
realizada até o dia 22 de agosto em Águas de Lindoia,
em São Paulo.
Ao explicar o título da palestra, relembrou seu
mentor intelectual, o professor César Timo-Iaria (1925-2005),
titular de neurofisiologia da Universidade de São Paulo (USP),
onde Nicolelis se graduou em medicina. “Ele colocava Wagner para
nós ouvirmos e iniciava suas aulas pela astronomia. Quando perguntei
como faria para encontrá-lo na faculdade, respondeu: “Siga
a música”.
Nicolelis foi homenageado na reunião da FeSBE
com o Prêmio Professor Cesar Timo-Iaria. “Para mim tem um
significado fundamental, muito profundo porque é uma homenagem
ao meu orientador de tese, que é um dos maiores neurocientistas
da história do Brasil e do mundo. Timo-Iaria foi um patrimônio
do Brasil, não só um grande cientista mas um grande homem,
grande brasileiro, então é uma honra enorme ser o primeiro
agraciado”, disse à Agência FAPESP.
O neurocientista apresentou ao público as ideias
que nortearam suas pesquisas sobre o cérebro, destacando que
“não existe a ditadura do neurônio único.
O que existe são circuitos”. Essa ideia, conta, vem do
psicólogo canadense Donald Hebb que, em 1949, publicou Organização
do Comportamento, um dos livros “mais citados e menos lidos da
neurociência”.
“Como Hebb não tinha provas experimentais
de suas teorias, porém, a publicação não
teve impacto imediato. Mas sua contribuição foi imensamente
maior. Ele criou uma nova era sem que ninguém percebesse”,
apontou.
Segundo Nicolelis, durante mais de 100 anos o ponto
de vista da neurociência foi o de mandar uma informação
para o cérebro e tentar decodificar o que o cérebro fazia
com aquela informação. Ou seja, a idéia era entender
o funcionamento do cérebro de fora dele. Mandava-se um sinal
(visual ou tático) e tentava-se decodificar o que ocorreu. “Mas
esse ponto de vista está incompleto. É preciso entrar
na perspectiva do cérebro para entendê-lo.”
“Sob essa abordagem, o sinal que eu mandei e que
para mim não tem significado, para você tem um significado
já adquirido antes mesmo de olhar pra ele. Ou seja, o fato de
que você sabe que vai olhar ou tocar alguma coisa, como a sua
história pregressa dominou ou influenciou a definição
da dinâmica do seu cérebro durante toda a sua vida, faz
com que esse evento já tenha um significado para você antes
mesmo que ele ocorra”, explicou.
Em outra palavras, “o cérebro não
é um agente passivo, não é um decodificador de
informação, ele é um modelador de realidade”.
Interface cérebro-máquina
“O que eu estou tentando fazer na minha pesquisa
é mudar o ponto de vista da neurofisiologia para dentro do cérebro
e ver o mundo de lá para fora, em vez de fora para dentro. E
quando fazemos isso, tudo muda, porque quando racionalizamos o cérebro
em casinhas, mostramos nossa maneira cartesiana de ver o mundo. Mas
o cérebro não evoluiu sobre esses preceitos, ele não
evoluiu sobre a lógica das ciências humanas”, disse
o neurocientista, que se denomina um “relativista do cérebro”.
Seu trabalho atesta a ideia de que o cérebro
vai aos poucos se libertando do corpo, ou seja, a ideia segunda a qual
o “cérebro define a nossa percepção do que
é o corpo que o abriga”.
O pesquisador brasileiro exemplifica com estudos feitos
em seu laboratório com animais, como a macaca rhesus Aurora,
que, posicionada diante de um videogame sem joystick, demonstrou destreza
em um jogo mesmo sem usar as mãos, apenas com os impulsos emitidos
pelo cérebro que controlaram um braço robótico.
“O cérebro tem o potencial de se libertar
do corpo e é capaz de condicionar padrões corticais sem
contração muscular. Aurora incorporou o braço robótico
como uma parte do corpo, o que leva a crer que o cérebro pode
simular o desejo motor em uma dinâmica espaço-temporal”,
afirmou.
Uma das hipóteses de trabalho considera que as
funções do cérebro não são definidas
por áreas corticais específicas, mas por interações
distribuídas por múltiplas áreas corticais e subcorticais,
que definem os comportamentos e as funções.
Nicolelis em seu trabalho de pesquisa pretende, além
de explicar comportamentos motores e princípios de funcionamento
dos circuitos neurais, que em breve essa interface cérebro-máquina
possa ser “a base, o coração de algo chamado neuroprótese
cortical que sirva para a restauração das funções
motoras que sofreram algum tipo de lesão”.
“Essa é uma possibilidade: restaurar um
comportamento motor pela leitura da música cerebral”, disse
o cientista, que atualmente elabora um livro sobre o assunto para o
público em geral.
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