21/08/2009
Revista Planeta Março/09
Entrevista: Martha Gallego Thomaz
Por: EDUARDO ARAIA
Aos 94 anos, Martha Gallego Thomaz continua
em atividade na Federação Espírita do Estado de
São Paulo e no Grupo Noel, instituição da qual
é fundadora e cujo nome homenageia o compositor Noel Rosa, seu
parceiro espiritual. Sua vasta experiência mediúnica é
abordada nesta entrevista.

Mediunidade é
um tema caro a Martha Gallego Thomaz. Essa fluminense teve sua primeira
experiência do gênero aos 3 anos, em 1918, e desenvolveu
uma extensa carreira na área. Autora de dois livros ditados e
três psicografados, ela ainda dirige trabalhos na Federação
Espírita do Estado de São Paulo, na qual está desde
1956 (é sua médium mais antiga), e no Grupo Noel, casa
que ajudou a fundar em 1977 e que oferece atendimento social e doutrinário
a mais de 3 mil pessoas por mês. Ela fala a seguir sobre sua singular
trajetória mediúnica.
A senhora via espíritos desde cedo. Como aprendeu a lidar
com essa característica? Ela é mais comum do que se imagina?
Ela é muito comum hoje. Tratamos no Grupo, atualmente, três
crianças nessa situação. Isso está no Evangelho
de Mateus: os velhos sonharão sonhos, os jovens terão
vidência...
Em maio de 1918, os espíritos atacaram meu pai. Eu tinha 3 anos
e brincava na sala de casa com minhas irmãs quando entrou um
espírito muito feio, que se aproximou da minha mãe. Meu
pai, que convalescia da gripe espanhola, levantou-se de onde estava
feito uma fera – seu fraco era o ciúme que tinha da minha
mãe. O espírito fez menção de abraçá-la
e meu pai tirou os suspensórios para “bater” nele.
De repente, o espírito percebeu que eu também via tudo.
Aproximou-se, pôs a mão na minha garganta e disse: “Se
contar que estou aqui, te esgano e você morre.”
Meu pai fez vários tratamentos no hospital psiquiátrico
até receber alta. Não contei a ninguém sobre esse
espírito, que me perseguia até na igreja.
Minha mãe só soube dele quando eu tinha 12 anos. Fomos
de Petrópolis para o Rio de Janeiro e uma tia, que frequentava
uma casa espírita, chamou minha mãe para fazer um tratamento
a distância para o meu pai, que estava internado no Hospital da
Praia Vermelha. Minha mãe me levou, e fui morrendo de medo. Lá,
uma senhora, vidente extraordinária, me disse: “Você
está com medo desse bobalhão aí? Ele vem porque
você tem medo. Se você pensar firmemente em Jesus, ele não
vem mais.” Havia um Sagrado Coração de Jesus na
parede e ela me instruiu: “Olhe nele até você o ver
na sua cabeça.” Aprendi a me concentrar assim.
Libertei-me ali. Mas tinha muita vidência, e via coisas boas e
más. Aos 30 anos, os espíritos começaram a tomar
conta de mim quando eu não queria. Certa noite, um deles ficou
olhando para mim, rindo, e caí doente. O médico que meu
marido chamou lhe disse: “Vou dar a ela um remédio para
dormir um pouco, mas os sintomas são de tétano. Passo
aqui às 6 da manhã.” Eram 4 da madrugada. Quando
o médico saiu, o espírito deu uma gargalhada e se foi
– e eu me levantei, sem problema algum.
Meu marido, Íris, era paulista e já tinha um bom preparo
espiritual. Um amigo de trabalho lhe disse que, no Rio de Janeiro, só
encontraríamos espíritos daquele jeito na umbanda. Fomos,
e ali a mediunidade explodiu. Três anos depois, o chefe do terreiro
me disse: “Seu lugar não é aqui. Você está
muito folgada...” Eu, que fui uma menina muito pobre, estava com
carro e motorista. O chefe do terreiro afirmou: “Você vai
sair desta cidade, seu marido vai vender tudo. Quando você vender
a cama para ajudar seu marido a sustentar seus filhos, aí é
que vai entender o que é espiritismo.”
Certa vez, uma médium do terreiro recebeu o espírito de
José de Arimateia, que acompanhava espíritos israelitas
e alemães em visita a trabalhos espirituais no Rio de Janeiro.
Ela falou aramaico, alemão, tudo. O chefe do terreiro me disse:
“Você tem de conhecer o espiritismo. Aqui é como
o primário que você fez na escola. Depois, vá conhecer
o espiritismo.”
Viemos para São Paulo e, depois, fomos para Atibaia (a 65 km
da capital). No centro kardecista de lá, de início eu
era vista de forma diferente, por ter vindo da umbanda; depois, fiquei
amiga de todos. Fundamos lá a Mocidade Espírita, que hoje
está maravilhosa.
Após cinco anos em Atibaia, fui parar na Federação
Espírita do Estado de São Paulo. Um amigo do comandante
Edgard Armond (um dos mais importantes dirigentes da história
da Federação) conheceu nosso trabalho – em Atibaia,
o Noel e nós fizemos várias sessões de efeitos
físicos. Muita gente ia lá para vê-las – e
acabei vindo para São Paulo a fim de me educar...
Quando Noel Rosa surgiu?
Enquanto eu estava no terreiro. Meu organismo não suporta álcool,
mas o Noel me fez tomar cerveja das 8 horas da noite à 1 da manhã.
Antes de ir embora, me disse: “Você não vai sentir
nada.” De fato, não senti. Mas lhe disse: “Nunca
mais me faça isso. Não se aproxime mais de mim.”
Quando ele se aproximou, em Atibaia, avisou: “Não é
para beber nem fumar. Vim para aprender.” Ali, começamos
a trabalhar juntos.
Voltando à Federação, fiz um teste com o comandante.
Ele me disse: “Médiuns iguais à senhora, eu tenho
12. A senhora é ótima médium, mas para fazer sessões
em sua casa.” Respondi: “Esses 12 são melhores que
eu porque têm escola, e eu não.” Ele retrucou: “Então,
vai para a de Aprendizes e a de Médiuns de uma vez.” Eu
me inscrevi, e algum tempo depois ele me chamou para me educar a fim
de fazer parte do Colégio de Médiuns, um grupo de 12 a
14 médiuns que dão orientações especiais
– quando os médiuns comuns e os psicólogos que fazem
o primeiro atendimento não acertam o diagnóstico, o caso
vai para esse grupo. Foram três anos de preparação.
Envergonhei o comandante com minha ignorância. Certa vez, ele
me chamou ao seu gabinete, indicou um dos dois homens ali presentes
e me disse: “A filha desse senhor está com um problema.
Ele vai lhe mostrar o retrato dela. Use sua vidência e veja o
que ela tem.” Vi a foto e disse ao homem: “Sua filha fez
uma operação na barriga. Dos rins saem uns caninhos que
vão dar na bexiga. O caninho da direita está furado.”
O comandante me deu aulas de anatomia por dois anos, porque achava uma
vergonha um médium da Federação dizer que a filha
de um médico tinha “caninhos”...
Trabalhei com o comandante de 1956 a 1967. Quando ele saiu, doente,
me fez herdeira do Colégio. Mas, dos 12 médiuns de então,
o único que ficou fui eu. O comandante me chamou à casa
dele e disse: “Você vai ter de formar o Colégio outra
vez.”
Coordenei o Colégio até uns quatro anos atrás,
e deixei-o com 29 grupos e 120 médiuns. Atualmente, trabalho
só um dia lá, dirigindo um dos grupos, e na área
de Vibração.
Como foi seu contato com Chico Xavier?
Quando eu conseguia me desdobrar
(fazer o corpo espiritual sair do físico), tinha curiosidade
em conhecer o Chico – e ele, muito caridoso, me atendia. Um dia,
um diretor da Federação foi ao Chico porque um de seus
netos estava com problema. O Chico lhe disse: “Procure a Martha,
aquela que recebe o Noel, porque só ela pode dar um jeito no
seu neto.” As indicações se repetiram e a diretoria
da Federação me perguntou por que o Chico mandava me procurarem.
“A senhora o conhece?” Respondi que só por foto.
Fomos a Uberaba em 1960 e o dr. Luiz Monteiro de Barros, presidente
da Federação na época, disse: “Não
vamos entrar no Centro agora. Vamos na hora do Evangelho, para ver se
o Chico reconhece a Martha.” Pedi: “Vamos chegar à
janela só para eu ver se ele é igual ao retrato?”
Quando cheguei, o Chico me chamou: “Marthinha, há quanto
tempo estou esperando por você! Vem cá!”
Fui a Uberaba umas seis vezes. Em cada uma delas, recebi o privilégio
de uma onda de luz. Tenho em casa uma caixa com telegramas e recados
do Chico me estimulando ao trabalho. Eles influenciaram minha vida.
Quando surgiu o Grupo Noel?
Em 1957, muita gente vinha à nossa casa, na Vila Mariana, em
São Paulo, pedir ajuda e orientação. Pessoas que
nos conheciam de Atibaia queriam que fundássemos um grupo. As
famílias Prestes Rosa, Ferrari e Paroni eram as mais entusiasmadas
com a ideia. Os benfeitores disseram: “Se vocês estudarem
juntos durante 20 anos, funda-se o grupo.” Todos foram para a
Federação fazer Escola de Aprendizes, de Médiuns.
Em agosto de 1977, fundamos o Grupo Noel, na Vila Mariana.
O espiritismo brasileiro consolidou-se com ícones como Bezerra
de Menezes e Chico Xavier. Ele ainda depende do carisma de figuras como
essas?
Os espíritas precisam abolir o fanatismo por esses ícones.
Temos ótimos médiuns.
A senhora disse que um bom convívio familiar significa a resolução
de mais de 90% dos problemas que trouxemos...
A família é uma reunião de espíritos que
fazem parte de um mesmo grupo evolutivo. Por exemplo, tenho reencarnado
com aqueles que foram meus ir mãos, cunhados, filhos, etc. até
nos harmonizarmos totalmente.
Quando isso ocorrer, poderemos harmonizar outros grupos. Quando dei
conta da minha família (já tenho tataranetos), pude me
dedicar ao Grupo. Rodeada de amigos, porque sem amigos não fazemos
nada. Nosso Grupo não tem o nome de “Centro Espírita”
– é um grupo de pessoas com o mesmo ideal.
A condição mundial depende das famílias. Podemos
fazer a sociedade melhorar dando exemplo dentro da nossa família.
A atual situação planetária, aliás, está
muito ligada ao lado espiritual. O Evangelho profético de Mateus
mostra que estamos em pleno Apocalipse. Perguntado pelos discípulos
sobre quando a Terra iria melhorar, Jesus disse que chegará um
tempo em que nada ficará oculto – e hoje, com a internet
e os “grampos”, praticamente se sabe de tudo... Jesus também
disse que o começo do fim é quando os filhos começarem
a matar os pais e os pais a matar os filhos. Desde os anos 1990 ouvimos
falar de casos assim. É um momento muito difícil.
Certa vez, alguém pediu ao Chico para perguntar ao seu mentor,
Emmanuel, quando a Terra melhoraria. Emmanuel respondeu que, se os espíritas
fossem unidos, em 2015 teríamos um mundo melhor. Mas, como eles
ainda têm muitas divergências, só teremos paz lá
por 2040... Depende de nós.
Como seguir na ativa aos 94 anos?
Os médiuns derramam sobre os pacientes tratados jarros de fluidos.
Os pacientes não absorvem tudo; o que sobra fica na sala. Quando
os passes terminam, todos os que estão lá se beneficiam.
É por isso que continuo trabalhando: aprendi a respirar esses
fluidos. Na matéria, minha respiração está
péssima, mas com esse reforço dá para manter a
saúde.
Qual é a importância do
pensamento?
Nosso pensamento é matéria fluídica. Ao concentrá-lo
em um desejo por uma pessoa, por exemplo, essa matéria vai ao
encontro dela. Com o pensamento, pode-se mudar a vida de alguém.
Por isso, o desenvolvimento do pensamento não pode ser ensinado
a qualquer um. Os que têm amor no coração, os honestos
não usam a força do pensamento a favor deles mesmos.
Como a senhora avalia sua carreira mediúnica?
Conquistei com ela um enorme conhecimento. Só cursei o primário.
Hoje, estou a par, por exemplo, de física quântica, trago
informações sobre doenças que não se conheciam.
Certa vez atendemos um senhor cujos astrócitos estavam fracos
– algo que não sai em tomografia. Procurei meus amigos
médicos e eles me elucidaram. Os astrócitos alimentam
os neurônios; com eles enfraquecidos, enfraqueceu-se a cabeça.
Foi o trabalho mediúnico que me deu esse conhecimento.
SERVIÇO
Grupo Noel – Rua Domingos de
Mo raes, 1.895/1.905, São Paulo, SP.
Fone: (11) 5571-1014.
E-mail: fale@gruponoel.org.br
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