14/08/2009
Por José Luis Barbería
Os jovens enfrentam hoje o risco de um nível
de vida pior que o de seus pais - 54% não têm projetos
nem entusiasmo
Tão preparados e satisfeitos com suas vidas,
e tão vulneráveis e perdidos, nossos jovens se sentem
presas fáceis da devastação do mundo do trabalho,
mas não conseguem vislumbrar uma saída, nem combater esse
estado de coisas.
O dado apareceu há pouco tempo, sem alarde, entre
os resultados da última pesquisa da Metroscopia: 54% dos espanhóis
entre os 18 e 34 anos dizem não ter nenhum projeto pelo qual
se sintam especialmente interessados ou entusiasmados. Surgiu uma geração
apática, desvitalizada, indolente, embalada no conforto familiar?
Os sociólogos detectam a aparição
de um modelo de atitude adolescente e juvenil: a dos nem-nem, caracterizada
por uma rejeição simultânea ao estudo e ao trabalho.
"Esse comportamento emergente é sintomático,
já que até agora era subentendido que se a pessoa não
queria estudar, deveria trabalhar. Me pergunto que projeto de futuro
pode haver por trás dessa postura?", diz Elena Rodriguez,
socióloga do Instituto da Juventude (Injuve).
A crise veio a acentuar a incerteza no seio de uma geração
que cresceu em um âmbito familiar de melhora continuada do nível
de vida e que foi confrontada com a deterioração das condições
de trabalho: precariedade, subemprego, mileurismo [aqueles que vivem
com renda de mil euros], falta de valorização à
formação. As vantagens de ser jovem numa sociedade mais
rica e tecnológica, mais democrática e tolerante, contrastam
com as dificuldades crescentes para se emancipar e desenvolver um projeto
vital de futuro.
E agora como nunca, em séculos, ficou tão
patente o risco de que a qualidade de vida dos filhos da classe média
seja inferior à dos pais.
Esse temor começou a crescer, precisamente, entre
a geração que de forma mais preocupante, sempre acima
de 80%, declara se sentir satisfeita com sua vida. O vírus do
desânimo está minando a natureza vitalista e combativa
dos jovens, ainda que encontremos provas fidedignas individuais e coletivas
de seu consubstancial espírito de superação.
Eis aqui uma mostra de resistência à adversidade
externa, junto à prova de como o discurso consumista resultou
numa armadilha para tantos jovens audazes que acreditaram no maná
do crédito e no crescimento econômico sem fim.
"Não podemos fazer frente às hipotecas",
resume Luis Doña, de 26 anos, pai de uma menina de 15 meses,
presidente da Associação de Defesa dos Hipotecados,
que pretende renegociar a dívida contraída com os bancos
e reclamar a ajuda do goveno.
Levados pelo entusiasmo de haver encontrado um emprego
estável, como vendedor de uma multinacional, ele e sua companheira
adquiriram há quatro anos um crédito hipotecário
de 180 mil euros a pagar em 30 anos para comprar um apartamento.
"Tínhamos que pagar 800 euros por mês,
mas estávamos pagando 600 de aluguel. Há um ano, de
repente, ficamos os dois sem trabalho e o seguro desemprego já
esgotou. Conseguimos que o banco nos cobre apenas os juros da dívida,
mas são 560 euros por mês e não temos isso, porque
não recebemos nada. Desmoralizados? O que estamos é
desesperados e isso que nosso caso não é tão
dramático como o de outras famílias que foram despejadas,
tiveram que se refugiar na casa da mãe ou da sogra."
Eduardo Bericat, professor de Sociologia da Universidade
de Sevilla, acredita que a falta de ilusão deve ser interpretada,
não tanto pelos efeitos da crise, mas pela mudança cultural
produzida anteriormente.
"O modelo de vocação profissional
que implicava um projeto de vida futuro e um destino final conhecido,
com seus esforços e compensações, desapareceu.
Agora, a incerteza se impõe no trabalho e no casal e não
está claro que a dedicação, o compromisso, o
estudo, o título, terão sua correspondente compensação
social e trabalhista", afirma.
Se a pergunta clássica de nossos pais e avós: "E
você, o que vai ser?" perde fundamento, é mais compreensível
que os esforços juvenis respondam, mais do que à ilusão
de um projeto próprio, ao risco de ficar descartado. "Se
não estudo, se não faço esse mestrado..."
Segundo o informe Eurydice, da União Europeia,
só 40% dos universitários espanhóis têm um
trabalho de acordo com seus estudos.
Para os jovens não é emocionalmente rentável
se comprometer com um projeto de vida definido porque pensam que estariam
submetidos a vai-vens contínuos e que dificilmente chegariam
a um lugar seguro.
"Aplicam a estratégia de flexibilizar
os desejos e de reduzir compromissos; nada de esforços exorbitantes
quando o benefício não é seguro. Como o risco
de frustração é grande, preferem não descartar
nada e definirem-se pouco", explica Eduardo Bericat.
A isso, deve-se somar um acusado pragmatismo - nossos
filhos são pouco idealistas -, e o que os especialistas chamam
de "presentismo", a reforçada predisposição
a aproveitar o momento, "aqui e agora", em qualquer âmbito
da vida cotidiana.
De acordo com os estudiosos, essa atitude responde tanto
à sensação subjetiva de falta de perspectivas,
como ao fato de que o alargamento da etapa juvenil convida a não
desperdiçar "os melhores anos da vida" e a combinar
o desfrute hedonista com o investimento em formação.
Apesar da falta de dados sobre o alcance da "síndrome
nem-nem", o professor de sociologia de Sevilla explica
que o pacto implícito entre o Estado, a família e os jovens,
pacto que compromete o primeiro a financiar a educação
e a segunda a se encarregar da manutenção, alojamento
e ócio, faz alguns jovens acreditarem que nas atuais circunstâncias
podem retardar a tomada de responsabilidade.
"Desenvolvem uma atitude niilista porque não
se exige que estejam motivados, nem que assumam responsabilidades
e há redes e guarda-chuvas sociais. Nas convocatórias
para cobrir as vagas de bolsistas, encontro com aspirantes de trinta
e tantos e até quarenta anos, e o curioso é que esses
bolsistas se comportam como bolsistas. É a profecia autocumprida.
Se os chamam de bolsistas e os pagam como tal, acabam se transformando
em bolsistas. O que me preocupa é a infantilização
da juventude", enfatiza.
"Os jovens de agora não são capazes de arriscar,
são conservadores", constata Elena Rodríguez.
A tardia emancipação juvenil espanhola
(bem acima dos 30 anos em média) é, sobretudo, fruto da
instabilidade e precariedade do mercado de trabalho ou consequência
desse suposto conservadorismo? Ainda que a diversidade e pluralidade
da juventude aconselhe fugir das visões unívocas, não
se pode perder de vista que eles não tiveram que vencer os obstáculos
das gerações precedentes.
"Olhamos com descrédito a vida que a sociedade
nos oferece. Nossos pais trabalharam muito e se endividaram pela vida
toda, mas tampouco os vimos muito felizes. Não é isso
o que queremos. Nós temos pouca pressa para nos tornarmos maiores",
explica Letizia Tierra, voluntária de uma ONG.
Em geral, as pessoas que trabalham em associações
de ajuda juvenil tendem a ter crenças divididas, umas acreditam
no copo meio cheio, outras no copo meio vazio.
"No Cimo (Centro de Iniciativas da Juventude)
vemos apatia e falta de ilusão generalizada. Muitos dos 200
mil novos universitários formados a cada ano enfrentam com
pessimismo a busca de emprego. Sabem que há uma grande porcentagem
de vagas para caixas, repositores, armazenistas, balconistas, etc
ocupados por diplomados ou licenciados", afirma Yolanda Rivero,
diretora dessa associação que atende mais de 600 jovens
por dia.
Contudo, descobre também muitos jovens capazes
de se adaptar e assumir desafios e riscos.
"A geração de jovens super qualificados
tem a vantagem de sua formação melhor. Em vista desse
panorama, continuam se formando, viajam, trabalham de garçom
se for preciso, para pagar um mestrado e aproveitam suas oportunidades,
ainda que, isso sim, na casa do pai e da mãe até os
35 anos, pelo menos."
O professor de Psicologia Social Federico Javaloy, autor
do estudo e enquete de 2007 "Bem-estar e felicidade da juventude
espanhola", acredita que nossos jovens não são
apáticos e desiludidos, ainda que o estejam, por contágio
ambiental.
"O que acontece é que eles rejeitaram
o menu de trabalho que oferecemos. O erro é nosso, de nossa
educação e nossos meios de comunicação",
sustenta.
Ainda que as ONG canalizem na Espanha as inquietudes
que os partidos políticos são incapazes de acolher, tampouco
pode-se dizer que a participação juvenil nesse campo seja
extraordinária".
Cerca de menos de 10% dos jovens participa de algum
tipo de associação, na maioria desportiva, mas a porcentagem
dos que participam de ONGs não chega, com certeza, a 1%",
indica o professor de sociologia da Uned, José Felix Tezanos.
Autor do estudo "Juventude e exclusão
social", Tezanos detecta entre os jovens uma atmosfera depressiva,
um processo de dissociação individualista, condensado
na expressão "só sou parte de mim mesmo", e
o enfraquecimento da família.
"Está acontecendo uma grande quebra cultural."
Os componentes identitários dos jovens não
são as ideias, o trabalho, a classe social, a religião
ou a família, mas sim os gostos ou interesses e o pertencimento
à mesma geração e ao mesmo gênero; ou seja:
elementos microespaciais, fracos e efêmeros", diz.
O sociólogo da Uned se pergunta até quando
o colchão familiar aguentará e o que acontecerá
quando os pais que têm seus filhos vivendo em casa se aposentem.
A seu ver, o previsível declínio da classe
média, a falta de trabalhos qualificados - "o bedel
da minha faculdade é engenheiro", diz ele -, a grande
quantidade de bolsas, a baixa natalidade e a defasagem no gasto social
em relação à Europa estão criando uma atmosfera
inflamável que abre a possibilidade de estouros similares aos
da Grécia ou França.
"Podemos assistir ao primeiro processo massivo
de descida social desde os tempos da Revolução Francesa",
prevê.
Mais apocalíptico se manifesta Alain
Touraine no prólogo do livro de José Félix
Tezanos.
"Nossa sociedade não tem muita confiança
no futuro uma vez que exclui aqueles que representam o futuro"
(?) "Pensa-se que os jovens vão viver pior que seus pais",
escreve o intelectual francês.
E acrescenta:
"Avançamos para uma sociedade de estrangeiros
em nossa própria sociedade" (?) "Se há uma
tendência forte, é que teremos um mundo de escravos livres,
por um lado, e um mundo de tecnocratas, por outro" (?) "Os
jovens têm que trabalhar de maneira tão competitiva,
que acabam se desgastando (?) Não estão só desorientados,
é que, na verdade, não há pistas, não
há caminho, não há direita, esquerda, à
frente, atrás".
Ninguém parece saber, de fato, o que substituirá
a velha equação de formação-trabalho-situação
estável, se, como apregoam esses sociólogos, a educação
na cultura do esforço chega a seu fim e grande parte dos empregos
apenas darão para sobreviver.
Ainda que estejamos diante de uma geração
pragmática que não sonhou em mudar o mundo, muitos estudiosos
acreditam que a juventude não permitirá, sem luta, o desaparecimento
da classe média.
"O mundo que iluminou o Iluminismo, a Revolução
francesa e a Revolução industrial está esgotado.
A superprodução e a superabundância material em
estruturas de grande desigualdade social carecem de sentido, é
preciso repensar muitas coisas, construir outra sociedade", afirma
Eduardo Bericat.
As dinâmicas encaminhadas a estabelecer novas
formas de relações pessoais, a busca de uma maior solidariedade
e espiritualidade, mas além dos partidos e religiões convencionais,
as tentativas de combater a crise e de conciliar trabalho e família,
o ecologismo e até o niilismo denotam, a seu juízo, que
algo se move nos sentimentos mais íntimos dessa geração.
"São alternativas que, isoladamente, podem
ser peregrinas, mas que, em conjunto, marcam a busca de um novo modelo
de sociedade", disse o professor. Será possível
que essa juventude supostamente acomodada e refratária à
utopia seja a chamada a abrir novos caminhos?
Fonte: El Pais
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