14/08/2009
Por Filipe Jahn
Combatido nos discursos,
o preconceito ainda está muito entranhado na sociedade e nas
escolas brasileiras
Uma pesquisa realizada pela Fundação
Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) em 501 escolas públicas
do país, e divulgada em junho deste ano, revelou dados preocupantes
sobre o preconceito no ambiente escolar brasileiro. Das 18,5 mil pessoas
entrevistadas, entre alunos, professores, funcionários e pais,
99,3% demonstram algum tipo de preconceito - étnico-racial, socioeconômico,
de gênero, geração, orientação sexual
ou territorial ou em relação a pessoas com algum tipo
de necessidade especial.
Uma verdade que não se que enxergar:
a escola também consagra preconceitos
De acordo com a pesquisa, os tipos de preconceito que apresentaram maior
abrangência são aqueles relacionados a pessoas com necessidades
especiais (96,5%), seguido por diferenças étnico-raciais
(94,2%), e aqueles relativos a diferenças de gênero (93,5%).
Além disso, assim como o preconceito, percebeu-se entre todos
os públicos-alvo da pesquisa uma predisposição
em manter menor proximidade em relação a determinados
grupos sociais, como homossexuais, pessoas com necessidades especiais
de natureza mental e ciganos.
Cláudia Vianna, professora da Faculdade de Educação
da USP que pesquisa as relações de gênero e sexualidade
na educação, explica que o preconceito é uma disposição
afetiva que pode ou não se transformar em um ato de discriminação.
Só que, no Brasil, muitas vezes o preconceito não chega
a ser explicitado, ou mesmo entendido como tal. Uma das razões
para tanto está no estereótipo disseminado do brasileiro
brincalhão. Ofensas sobre a cor de pele ou a orientação
sexual, por exemplo, são entendidas apenas como traço
típico de uma personalidade nacional. "Mas certamente existe",
adverte Cláudia.
Neutralidade inexistente
Apesar de, em tese, a escola dever desempenhar um "papel neutro"
no processo de transmissão de valores culturais - entenda-se
por neutro o fato de não privilegiar nenhum credo, cultura ou
procedência - e colaborar para a superação de preconceitos,
na prática ela acaba sendo um fator de reforço daqueles
já existentes. Isso porque os professores e autoridades escolares
reproduzem, por meio de gestos, posturas e falas, sistemas de pensamento
e atitudes que são excludentes. Ou seja, os educadores fazem
eco, no ambiente escolar, às imagens negativas e estereótipos
entre os quais muito provavelmente foram socializados.
Há, por exemplo, casos em que professores relacionam
o rendimento escolar de alunas apenas ao esforço e ao bom comportamento,
sem estimular a criatividade ou o potencial para certas matérias
curriculares como matemática. "Essa baixa expectativa sobre
o desempenho escolar de meninas claramente contém um padrão
sexista", afirma Cláudia Vianna. O cientista social Paulo
Neves conta que uma pesquisa de sua autoria verificou que em alguns
casos alunas recorrem à violência como forma de serem respeitadas.
"Mas assim são duplamente repreendidas: por utilizarem uma
forma de agressão para resolver os conflitos e por serem meninas,
portanto utilizando-se de algo considerado contrário à
sua natureza", revela o estudioso.
No artigo "O fracasso escolar de meninos e meninas:
articulações entre gênero e raça", publicado
em 2003, a também professora da Feusp e estudiosa das relações
de gênero Marília de Carvalho coletou informações
sobre a cor atribuída às crianças da quarta série
de uma escola fundamental de São Paulo, a partir de duas percepções:
a dos professores e a dos próprios alunos. Após cruzar
essas informações com o índice de aproveitamento
de cada estudante, constatou-se uma tendência dos professores
em "embranquecer" os melhores e "escurecer" os piores.
Não que as instituições de ensino
sejam as principais responsáveis pela permanência ou não
de práticas discriminatórias, mas elas são parte
fundamental para o entendimento e aceitação da diferença.
Para exercer a função de inserir os jovens no espaço
público, que é aquele em que se dá (ou, ao menos,
em que deveria se dar) a aceitação da diversidade, a escola
precisa se colocar de maneira firme contra as práticas preconceituosas
e discriminatórias. E isso pode começar pela compreensão
das relações existentes nesse ambiente, mostrando suas
fissuras e contradições. "O educador deve estar preparado
afetiva e intelectualmente para interferir nas situações
em que os conflitos emergem", afirma Luiz Alberto Gonçalves,
da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O problema é
que, segundo Gonçalves, a introdução do tema da
diversidade nas escolas ainda é algo recente no país e
muitos professores não têm formação e conhecimento
para mediar apropriadamente essas situações. Só
a partir dos anos 90 as políticas educacionais, por força
das demandas sociais, sobretudo dos grupos excluídos na
sociedade, foram obrigadas a reconhecer que o ambiente escolar brasileiro
é pluricultural e pluriétnico.
Cortando pela raiz
Para enfrentar esses problemas, atualmente o MEC oferece cursos de formação
continuada trabalhando a temática da diversidade e colocou em
vigor a Lei 10.369, de 2003, que torna obrigatória a inclusão
do estudo das "Relações Étnico-Raciais
e o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana".
Só que Luiz Gonçalves entende que essas ações
podem criar a expectativa de que basta introduzir mudanças no
currículo escolar e o problema do preconceito estará resolvido.
Para ele, é preciso mudar a postura do corpo docente frente aos
conteúdos e às relações escolares, assim
como é preciso haver um esforço para construir uma nova
forma de fazer a educação escolar. Combater o preconceito
pressupõe reconhecer o outro na sua diferença e esse reconhecimento
começa no próprio docente. "Muitas crenças
que foram difundidas pelos conteúdos tradicionais terão
de ser questionadas e até banidas", fala.
Já Paulo Neves diz que não basta a escola
desenvolver um trabalho para dias como o da consciência negra
ou das mulheres se, no seu cotidiano, aqueles que pertencem a esses
grupos são discriminados. Por isso, é importante elaborar
um projeto político-pedagógico consistente, em que o estudo
da temática esteja inserido tanto na sala de aula quanto nas
horas de trabalho pedagógico coletivo. Entretanto, deve-se tomar
cuidado para não haver exageros. Muitas discussões sobre
as questões ou a excessiva criação de projetos
acabam por prejudicar a consistência da reflexão dos envolvidos.
"No fim, após passar pela escola, posso continuar acreditando
nos preceitos de minha religião, por exemplo, mas não
posso sair pensando que ela é a única e verdadeira",
explica.
Cláudia Vianna, da USP: reconhecimento
do conflito como ponto de partida
Cláudia Vianna compartilha a tese e entende que caminhar nessa
direção requer o reconhecimento do conflito como pilar
dos projetos coletivos. A partir daí, os professores podem promover
a interação da diversidade, criando ambientes seguros
para que eles e seus alunos possam questionar e refletir os valores
hierarquizantes relacionados ao gênero, raça, classe social
e idade, além de interferir na reprodução de estereótipos,
sem medo do preconceito ou da exclusão. Vianna propõe
também analisar com os alunos as atribuições e
significados dominantes estudando-se os veículos da comunicação.
De fato, a pesquisa da Fipe mostra que o incentivo ao acesso às
mídias pode reduzir o preconceito observado entre os alunos em
relação a todos os temas pesquisados.
Ainda assim, além da sala de aula, o preconceito
deve ser encarado como um problema complexo, que atinge esferas diferentes.
O diretor de Estudos e Acompanhamento das Vulnerabilidades do MEC, Daniel
Ximenes, acredita que qualquer ato desse tipo deve ser combatido via
educação, mas isso não é tarefa somente
da escola. Instâncias como o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal
de Justiça também precisam denunciar e tomar posições.
"No caso da escola, deve haver uma integração com
os órgãos públicos e a comunidade ao seu redor,
com iniciativas e diálogos sendo constantemente estimulados",
completa.
Maus resultados
Um dos pontos mais polêmicos da pesquisa publicada pela Fipe indica
que as ações discriminatórias são um fator
importante para a qualidade no desempenho escolar dos alunos. Utilizando
como base a Prova Brasil de 2007, chegou-se à conclusão
de que existe uma correlação negativa sobre o conhecimento
de ações discriminatórias e as médias dessa
avaliação nas escolas. Ou seja, onde as ocorrências
foram maiores, as notas tenderam a ser menores.
Paulo Neves diz que não há como medir
as consequências dessas atitudes no longo prazo, mas se elas não
forem rechaçadas, acabam se tornando legítimas e prejudicam
não somente o ambiente e o desempenho escolar como a fase em
que crianças e adolescentes estão construindo uma identidade.
"Se não há uma atitude contrária,
a postura é reforçada e um aluno pode entender que é
normal ter o mesmo procedimento", fala.
A pesquisa mostra ainda que a ocorrência de agressões,
simbólicas ou de fato, contra professores e funcionários
é mais nociva ao desempenho escolar dos alunos do que onde essas
ações ocorrem contra os próprios estudantes. O
estudo comparou as escolas em que se tinha conhecimento desse tipo de
ocorrência (designadas como bullying no estudo) contra os dois
grupos, cotejando esse fator com o desempenho na Prova Brasil. A agressão
contra professores e funcionários mostrou-se pior, revelando
que, quando isso acontece, passa a haver uma maior desestruturação
da instituição.
Luiz Gonçalves afirma que tal razão
é evidente, pois os educadores sem boas condições
psicológicas acabam comprometendo o conteúdo a ser ensinado.
Isso também ajuda a confirmar a ideia de que o educador é
um dos profissionais que mais apresentam estresse em decorrência
do trabalho. Segundo dados da Confederação Nacional dos
Trabalhadores em Educação (CNTE), 30% dos afastamentos
em escolas da rede pública do país são resultantes
de estresse e depressão. Outra pesquisa, realizada em 2003 pelo
Sindicato dos Professores de Ensino Oficial do Estado de São
Paulo (Apeoesp), apontou que a depressão atingia então
um em cada quatro professores paulistas. Para 62,4% deles, a violência
escolar era a causa.
Fonte: revistaeducacao.uol.com.br
>>> clique aqui para ver a lista completa
de notícias
>>>
clique aqui para voltar a página inicial do site
topo