11/07/2009
Sagrado estudo
Diego largou a namorada para ser padre; Gihad vai ser xeque e se casará
com quem seus pais escolherem; Felipe troucou a farra por um futuo como
pastor; Allyne ensina espiritismo, mas escondia sua religião
na escola; Ione é proibida de tocar pessoas em períodos
de aprendizado do candomblé; Prana mudou de nome ao virar monge
hare Krishna e Aron estudou em dois continentes para ser rabino; saiba
por que esses sete jovens querem ser líderes religiosos
Catolicismo
Diego Macedo, 19
A turma do primeiro ano do Seminário Nossa Senhora
da Assunção, que forma padres em São Paulo, tem
11 alunos. Pela média da instituição, quatro deles
devem desistir antes de completarem o curso. O percurso é longo,
soma oito anos: um ano de propedêutico (introdução
religiosa), mais três anos de graduação de filosofia
e quatro anos de faculdade de teologia.
Diego Macedo, 19, diz que não será um dos desistentes,
pois já passou pela crise com a escolha. Certo de sua vocação
desde pequeno, ele decidiu, aos 13, que queria ser mais do que coroinha.
Foi estudar em um colégio preparatório da igreja.
De lá, passou para o centro vocacional da igreja e pelo bispo,
que o aprovou para começar a formação para ser
padre.
Aos 18 anos, porém, Diego se apaixonou por Tati e os planos divinos
cessaram por três meses. O casal sonhava com o casamento e com
filhos, "a Sara e o Miguel".
Percebendo que deveria subir ao altar sozinho, disse à namorada
que queria ser padre. "Ela aceitou, né? Ia fazer o quê?"
Hoje, Diego mora no seminário, onde tem quarto próprio
e é responsável por cuidar da casa e por preparar as missas.
Ganha uma bolsa em dinheiro da igreja, que paga seus estudos. E é
celibatário.
Islamismo
Gihad Mazloum, 17
Gihad Mazloum, 17, está no primeiro ano do curso
para se tornar um xeque -líder religioso do islamismo.
Tem mais três anos pela frente, durante os quais vai precisar
saber de cor as muitas centenas de páginas do Alcorão,
livro sagrado para os muçulmanos, e os ensinamentos do profeta
Maomé (também conhecido como Muhammad).
A tarefa não começou agora. Desde os 12 anos o garoto
estuda em escolas islâmicas de São Paulo, onde mora. Está
seguindo os passos do pai, que é libanês e também
estudou a religião.
"É comum as pessoas me perguntarem se sou feliz assim",
diz o garoto. "Mas a questão não é ser feliz,
é servir a Deus, como minha família me ensinou."
Além de terem tido papel fundamental em despertar nele o interesse
pela religião, seus pais vão cuidar de outra parte importante
de sua vida: a escolha de sua futura esposa -situação
que, segundo Gihad, não o incomoda.
Mas há chateações que vêm de fora, como o
preconceito de quem imediatamente relaciona sua religião com
o terrorismo. "Quando digo que sou muçulmano, sempre tem
alguém que acha que sou parente do Osama bin Laden", diz.
Igreja Batista
Felipe Pereira, 17
Quando Felipe Pereira, 17, terminou o ensino médio,
pensava em ser veterinário ou administrador. Desistiu da primeira
carreira quando o cachorro de um amigo o mordeu. A segunda saiu de perspectiva
quando o pastor da igreja batista que frequenta há cinco anos
disse que a comunidade, em Guarulhos (SP), precisava de um sacerdote
jovem.
Prestou, então, vestibular para teologia. Hoje, é o calouro
mais novo da classe, na Universidade Metodista. A turma, que começou
com 60 alunos, se reduziu a 45 pessoas -das quais só quatro são
mulheres, que também podem ser pastoras.
Felipe ainda não trabalha. Diz que está ansioso para entrar
no Exército e prestar o ano de serviço militar obrigatório.
Assim, poderá bancar a parte da mensalidade que a igreja não
subsidia e que seus pais pagam - com muito gosto.
Dentro de casa, a decisão pelo caminho sagrado foi um orgulho.
Fora, nem tanto. "Alguns parentes disseram que não tem nada
a ver comigo." Os amigos, a maioria de não evangélicos,
não opinam, ele diz.
Mas ajudam na hora em que ele tem desejos que precisa reprimir, como
o de ir para a noitada. E Felipe não sucumbe: "O que vem
adiante é a vontade de Deus".
Espiritismo
Allyne Lopes, 19
Há sete anos, Allyne Lopes, 19, não contava
para nenhum colega de escola que ia a um centro espírita. Tinha
medo de sofrer preconceito, caso eles pensassem que ela tinha o dom
de ver e de receber espíritos. "Receava que dissessem que
eu era macumbeira", conta, rindo.
Apesar de, no espiritismo, haver a possibilidade de uma pessoa entrar
em contato com os espíritos, esse não é o caso
da garota, que não é médium. O papel que ela desempenha
na comunidade espírita é o de coordenar o ensino do espiritismo
a crianças e o de ajudar a administrar o centro que frequenta.
Aos 12 anos, depois de participar de diversos cursos, ela própria
dava aulas aos pequenos. "A caridade é, para mim, o fundamento
mais bonito e forte do espiritismo, e é por isso que eu me dedico
aos alunos carentes."
Atualmente, seus amigos conhecem sua fé e a respeitam, mesmo
quando ela opta por beber água quando saem à noite para
a ir a bares e boates.
Evitar o álcool, porém, não é uma regra
imposta pela religião, mas por si mesma. "Lidamos com o
livre arbítrio. Você sabe o que faz com o seu corpo e eu
sei o que eu faço com o meu."
Candomblé
Ione de Souza, 23
Aos quatro anos de idade, Ione de Souza não pronunciava
quase nenhuma palavra. Depois de ir, em vão, à fonoaudióloga,
foi com a mãe a uma casa de santo, onde ouviu que precisava de
uma "cura espiritual". Iniciou-se no candomblé e saiu
de lá falando.
Passados 13 anos, ela decidiu se tornar mãe de santo: foi morar
com uma ialorixá e ficou 21 dias reclusa, começando o
período de sete anos para aprender a tomar contato com os orixás.
O diálogo com as entidades, que "descem" (incorporam)
nos fiéis, é essencial para um líder da religião
afro-brasileira.
Hoje, Ione pode sair de casa: trabalha como auxiliar de enfermagem e
vai a barzinhos e a noitadas com os amigos.
Só não pode falar palavrões ou ter contato físico
ou sexual se está "de preceito" -período de
aprendizado intenso e de rituais, que podem envolver sacrifício
de animais. Ela diz que o namorado, católico, entende as restrições
sagradas.
Da religião, ganhou calma para lidar com o preconceito. "Um
dia, estava na padaria e gritaram: "Olha lá a macumbeira!".
Eu fiquei calada, aprendi que não posso responder, mas fico triste,
pois as pessoas não sabem o que falam."
Hare Krishna
Prana Natha, 25
É difícil crer que a voz calma de Prana
Natha Das, 25, cantou ska em uma banda antes de entoar mantras hare
Krishna.
Pedro Ramos (seu nome original) já era vegetariano aos 16 e tinha
questões como "para que estou vivo?". Buscou respostas
na filosofia, mas só as achou no "Bhagavad Gita", livro-guia
da religião oriental.
Em meses, Pedro adotou o templo como nova casa, raspou os cabelos e
incorporou um novo nome -o dele significa "servo do senhor do ar
sagrado". Fez tudo como é de praxe entre os novos monges
e monjas.
Outra mudança foi instrumental: trocou a guitarra e o sax por
instrumentos indianos como o harmônio e a miridanga. E foi três
vezes à Índia tocar seu som para louvar Krishna, Deus
em sua crença.
Com doações de pessoas que frequentam os jantares e rezas
do templo, também já conheceu os EUA, parte da Europa,
a Argentina, o Uruguai e o México. Tudo à custa de um
trabalho que dura o dia todo.
Às 3h45, ele se levanta da esteira estendida no chão do
templo onde vive para rezar e dar aulas, e só dorme às
22h30.
Hoje, a vida de Prana está tão ligada à religião
-sua mãe se mudou para o templo há três anos- que
ele precisa pegar calças emprestadas quando quer sair do templo.
Judaísmo
Aron Kurc, 25
A barba longa, sem aparar, esconde a pouca idade
do rabino Aron Kurc, 25. A maturidade que ele demonstra enquanto explica
à reportagem porque decidiu seguir a vida religiosa, também.
Mas o rabinato nem sempre foi uma certeza na vida do rapaz. Aos 16,
ele desistiu de estudar em uma escola judaica (ou "yeshivá").
"Eu não punha em dúvida se eu era judeu ou não,
e sim se deveria seguir as regras do judaísmo."
A vida longe da religião durou pouco. "O que não
me deixava em paz era pensar que não havia nenhum objetivo na
vida, sem religião." Voltou para a escola.
A essa altura do campeonato, Aron já tinha 17 anos e a barba
começava a aparecer em seu rosto. Deixou-a crescer, mesmo que
essa tradição não fosse adotada em casa. "Estudei
as razões místicas para isso, não tenho vontade
de cortar."
Foram três anos de estudos em Israel e mais dois nos Estados Unidos.
Aos 23 anos, retornou ao Brasil como rabino -e fluente em hebraico,
condição para receber o título. Com a ajuda da
família, encontrou uma noiva e se casou. "No judaísmo,
o casamento é aconselhável, e cabe à comunidade
ajudar para que duas pessoas parecidas se encontrem", explica.
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Católico
Sacerdote: Padre (líder de comunidade) e Papa (líder máximo)
Quem pode fazer: Homens com ensino médio completo
Curso: Faculdades de filosofia (três anos) e de teologia (quatro
anos), além de um ano de estudos introdutórios no Seminário
Propedêutico
Tempo de formação: Oito anos
Caminho: Padres de paróquias indicam os jovens interessados à
Pastoral Vocacional. O estudante vive no seminário onde deve
estudar e é responsável pela manutenção
da casa e pela preparação de missas. As visitas às
famílias acontecem nos fins de semana em que não há
atividades nas igrejas locais . São celibatários e, depois
de ordenados, devem morar na paróquia
Quanto custa: A igreja paga os estudos dos jovens que, a partir do segundo
ano, começam também a receber uma remuneração
(côngrua), que aumenta com o tempo de estudo. O curso de teologia
da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica) custa R$590
mensais
Vida profissional: Dedicação exclusiva à religião
Protestante
Sacerdote: Pastor
Quem pode fazer: Homens e mulheres com ensino médio completo
Curso: Faculdade de teologia (quatro anos)
Tempo de formação: Varia de acordo com a denominação.
Algumas igrejas protestantes, como a Igreja Batista Filadélfia,
exigem os quatro anos de faculdade, outras, como a Igreja Metodista,
demoram cerca de 11 anos para formar seus pastores
Caminho: Para começar a faculdade é necessário
prestar vestibular. Procure um pastor protestante ou uma faculdade de
teologia. Quando estudantes, devem trabalhar em comunidades religiosas,
podem namorar e se casar. Algumas igrejas acompanham seus estudantes
por até seis anos depois da graduação, para se
assegurar de que a escolha foi correta
Quanto custa: Algumas igrejas pagam os estudos, outras deixam a responsabilidade
para o estudante ou para a família. Os custos variam de R$268,89
(curso à distância) a R$351,69 (presencial), na Universidade
Metodista
Interessados: www.metodista.br/fateo
Vida profissional: Pode trabalhar fora
Muçulmano
Líder: xeque
Quem pode fazer: Somente homens a partir dos 16 anos. Mulheres podem
se formar para ensinar a religião, mas não poderão
fazer os discursos das orações semanais e só podem
liderar orações caso sejam exclusivamente femininas
Curso: Variam de metodologia e de duração. Cabe ao estudante
decorar o Corão (livro sagrado do islamismo) e os ensinamentos
do profeta Maomé (Muhammad). A formação também
foca a moral
Tempo de formação: Quatro anos de faculdade
Caminho: O jovem interessado deve procurar o curso e ter uma carta de
recomendação de alguma instituição islâmica
ou xeque renomado de seu país de origem. Há faculdades
que dão bolsas e outras que são pagas. Os estudos são
acadêmicos islâmicos e algumas instituições
são internas. Quando uma mulher sai de seu país para estudar
o islamismo ela deve ter algum familiar íntimo masculino para
sua proteção.
Interessados: www.uniaoislamica.com.br; www.wamy.org.br; www.islam.org.br
Quanto custa: Os alunos são convidados para o curso e não
pagam por ele fora do país. Algumas vezes, são responsáveis
pela passagem aérea e alimentação
Vida profissional: Podem ter uma profissão laica ou trabalhar
para a religião e serem remunerados pela comunidade ou por alguma
instituição islâmica
Hare Krishna
Sacerdote: Monge
Quem pode: Todos
Curso: Não há cursos específicos, a formação
do líder se dá pelos ensinamentos passados por outros
líderes espirituais
Tempo de formação: Não há tempo determinado
Regras: Devem morar no templo, se solteiros. Podem ter uma profissão
laica. A castidade é opcional
Interessados: www.harekrishna.com.br
Quanto custa: O estudante é mantido pelo templo onde mora, que
vive de doações e da venda de livros
Vida profissional: Podem trabalhar fora do templo, escolha mais comum
entre os casados
Candomblé
Líder: Babalorixá (pai de santo) e ialorixá (mãe
de santo)
Quem pode fazer: Todos
Curso: Os primeiros ensinamentos duram sete anos e acontecem na casa,
isto é, terreiro ou templo, onde a pessoa foi iniciada
Tempo de formação: Sete anos para se chegar ao grau de
sacerdote
Caminho: O primeiro passo é a iniciação, o interessado
deve procurar por um sacerdote ou uma sacerdotisa para ser orientado.
Enquanto estudam devem morar na casa de santo, frequentar aulas e estudar
a religião, além de respeitar os períodos de preceitos
que impõem limitações de comportamento. Há
sacrifício animal em rituais de iniciação
Quanto custa: Os estudantes podem trabalhar para se manter na casa durante
os períodos de iniciação ou contar com a ajuda
da família e amigos. Não há mensalidade.
Vida profissional: A maioria trabalha fora, mas podem se dedicar exclusivamente
à casa de santo
Judeu
Líder: Rabino (os judeus não precisam de intermediários
na comunicação com HaShem )
Quem pode fazer: Homens, sem limite de idade definido
Curso: A formação pode começar ainda na infância,
dependendo da instituição de ensino, em escolas chamadas
de "yeshivá", mas a formação específica
começa depois do ensino médio. Devem estudar em Israel
ou nos Estados Unidos e fazer um curso específico para o rabinato.
Há algumas instituições "yeshivá"
no Brasil
Tempo de formação: O tempo varia de acordo com o modelo
de ensino. Os conservadores e progressistas, por exemplo, duram cinco
anos, aproximadamente
Caminho: Os alunos devem ser encaminhados pelos rabinos e professores
de escolas judaicas às instituições. Devem saber
hebraico (que é ensinado no início do processo) e cumprir
as tradições judaicas. O casamento é quase imprescindível
ao rabino, principalmente para os que vão trabalhar com aconselhamento
Interessados: www.chabad.org.br
Quanto custa: As famílias que têm condições
financeiras mandam seus filhos para fora do Brasil, as mais pobres contam
com bolsas e com o auxílio da comunidade
Vida profissional: Dedicação exclusiva ao judaísmo
Espiritismo
Líder: Frequentador com características de liderança,
sem posição ou denominação estabelecida
Quem pode participar: Homens e mulheres, sem restrição
de idade
Curso: Não há cursos específicos, a formação
do líder se dá por seus estudos e experiências na
religião
Tempo de formação: Não há tempo determinado
Caminho: A frequência e dedicação aos trabalhos
da casa espírita levam o membro a assumir algumas responsabilidades.
Com o tempo, pode assumir a direção da casa, se os outros
frequentadores estiverem de acordo
Quanto custa: Não há custo
Vida profissional: Tem uma profissão laica
Fontes: cônego JOSÉ
ADRIANO, reitor do Seminário Propedêutico Nossa Senhora
da Assunção; bispo ADRIEL MAIA, Associação
da Igreja Metodista, Terceira Região Eclesiástica); xeque
JIHAD HASSAN HAMMADEH, presidente do Conselho de Ética da União
Nacional das Entidades Islâmicas e da Assembleia Mundial da Juventude
Islâmica; FEB (Federação Espírita do Brasil);
ALBERTO MILKWITZ, diretor institucional da Federação Israelita
do Estado de São Paulo; VAGNER GONÇALVES DA SILVA, antropólogo
da USP, folhateen 29/06/09.
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