26/06/2009
Redes sociais dão nova vida à terceira
idade
por Stephanie Clifford
Como muitos idosos, Paula Rice, de Island City, Kentucky,
vem vivendo em crescente isolamento nos últimos anos. Seus quatro
filhos são adultos e vivem em outros Estados, seus dois casamentos
terminaram em divórcios e seus amigos estão dispersos.
Ela passa a maioria dos dias sem conversar com ninguém pessoalmente.
Mas Rice, 73, não é de forma alguma solitária.
Restrita à sua casa depois de um ataque cardíaco sofrido
dois anos atrás, ela começou a freqüentar o site
de redes sociais Eons.com,
uma comunidade online para idosos, e também o PoliceLink.com
(ela trabalhava como atendente do serviço de emergências
policiais). Agora, ela dedica até 14 horas ao dia a conversas
online.
"Eu estava morrendo de tédio", diz.
"O Eons me deu motivos para continuar".
Mais e mais pessoas da geração de Rice
estão aderindo a redes como o Eons, Facebook
ou MySpace, e
isso não é novidade. Entre as pessoas mais velhas que
começaram a usar a internet no ano passado, o número de
visitantes a redes sociais cresceu quase duas vezes mais rápido
do que o índice geral de crescimento no uso de internet nessa
faixa etária, de acordo com o grupo de medição
de audiência comScore. Os pesquisadores que se concentram no estudo
do envelhecimento estão estudando o fenômeno para determinar
se essas redes podem oferecer alguns dos benefícios comuns a
um grupo de amigos reais, mas de uma forma muito mais fácil de
montar e manter.
"Um dos maiores desafios ou perdas que enfrentamos
ao envelhecer, francamente, não se refere à saúde
mas à deterioração de nossa rede social, porque
nossos amigos adoecem, nossos cônjuges morrem, nós nos
mudamos", diz Joseph Coughlin, diretor do Laboratório do
Envelhecimento no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
"O novo futuro da velhice envolve continuar a viver
em sociedade, continuar a trabalhar e continuar conectado", ele
acrescentou. "E a tecnologia terá parte importante nisso
tudo, porque a nova realidade é cada vez mais uma realidade virtual.
Isso nos oferece um caminho para realizar novas conexões, fazer
novos amigos e reconquistar um senso de propósito".
Cerca de um terço das pessoas com idade de 75
ou mais anos vivem sozinhas, de acordo com um estudo conduzido em 2009
pela Associação Americana de Aposentados (AARP). Em resposta
ao número crescente de idosos nos Estados Unidos, o Instituto
Nacional do Envelhecimento está oferecendo US$ 10 milhões
em verbas a pesquisadores que examinam a neurociência e seus efeitos
sobre o envelhecimento.
As redes online podem oferecer às pessoas mais
velhas "um lugar no qual elas se sentem integradas, porque podem
realizar essas conexões e falar com pessoas sem que precisem
pedir mais alguma coisa aos seus amigos ou familiares", disse Antonina
Bambina, socióloga da Universidade do Sul de Indiana que escreveu
um livro sobre as redes sociais como ferramenta de apoio.
Para os familiares de idosos, as redes sociais podem
facilitar um pouco as tarefas. Chris McWade, de Franklin, Massachusetts,
o membro mais jovem de uma grande família, recentemente ajudou
na mudança de seus pais, avós e um tio para comunidades
de aposentados. Disse que passou três anos "atravessando
o país de avião e cuidando das necessidades de muita gente",
e testemunhando o isolamento e a depressão que a velhice traz.
Isso resultou na ideia da MyWayVillage,
uma rede social fundada em Quincy, Massachusetts, em 2006, com a ajuda
de McWade. Ele agora vende o serviço a casas de repouso, e acaba
de concluir programas-piloto em diversas casas de repouso em Illinois
e Massachusetts; ele afirma que já fechou contratos para expandir
o serviço a diversos outros locais.
Cerca de dois anos e meio atrás, Howe Allen,
um corretor de imóveis que vive em Boston, transferiu seus pais
para o River Bay Club, um lar de idosos em Quincy, Massachusetts, no
qual o MyWay está em uso.
A mãe dele morreu pouco depois, mas seu pai,
Carl, conseguiu fazer novos amigos e trocar histórias com pessoas
conhecidas por intermédio da MyWay. O pai dele jamais havia usado
um computador, mas aprendeu rápido; o software inclui sessões
de treinamento para o uso do aparelho. Depois que ele morreu, em dezembro,
o serviço em sua homenagem conduzido na casa de repouso incluía
as fotos que ele tinha subido para o MyWay, trechos de suas recordações
postadas no site e elogios dos amigos que ele conheceu online.
"Foi uma cerimônia muito comovente",
disse Allen. "Era mais do que apenas o uso do computador; o serviço
o afetou de maneiras que ficam bem além da era da eletrônica.
Permitiu que uma pessoa continuasse a crescer como ser humano em uma
idade onde quase todos nós presumimos que as pessoas parem de
crescer".
Em uma segunda-feira recente, Neil Sullivan, um gerente
regional da MyWay, estava fazendo uma palestra diante de cerca de 20
moradores do River Bay Club, na biblioteca do estabelecimento.
Ele veio preparado, com imagens e textos, mas o grupo
queria mesmo conversar sobre suas vidas. Quando Sullivan mostrou uma
foto de um Chevrolet 1950, um morador contou que "tive um Chevy
1957", e outro respondeu que "o meu era um Chevy 1949".
Um homem que estava vestido em um suéter verde limão acrescentou
que "o melhor carro que já vive na vida foi um Dodge Business
Coupe".
Sarah Hoit, co-fundadora e presidente-executiva da MyWay,
disse que, para as pessoas mais velhas, aprender a usar serviços
online não era um fim em si. "Eles desejam um veículo
para conhecer pessoas novas e trocas experiências sobre suas vidas",
disse. "Querem ser estimulados".
Além das sessões semanais, os moradores
do River Bay usam o site para postar histórias com títulos
como "minha vida de enfermeira" ou "eu trabalhei para
a Howard Johnson em Quincy". Sunny Walker, 89, que se recusava
a utilizar uma máquina de escrever elétrica em seu emprego
na secretaria de uma escola porque odiava profundamente qualquer tecnologia,
agora joga online e envia mensagens a amigos pelo site.
"Eu posso dizer sem hesitar que isso é a
melhor coisa para os idosos", afirma. "Representa um desafio
para as suas mentes, se você quer saber a verdade. Foi um desafio
para mim".
Algumas pesquisas sugerem que a solidão pode
ter um efeito de aceleração sobre a demência senil,
e o Dr. Nicholas Christakis, especialista em medicina interna e cientista
social da Universidade Harvard, diz que está considerando conduzir
uma pesquisa para determinar se conexões sociais online serão
capazes de retardar a demência, como as conexões sociais
físicas provaram fazer de acordo com alguns estudos.
"As redes sociais online ajudam a concretizar uma
antiga propensão que temos a nos conectarmos com os outros",
ele afirma.
Essa propensão pode ter origens antigas, mas
os meios utilizados para implementá-la na era da tecnologia são
os mais modernos. Mollie Bourne, proprietária de uma pista de
golfe e moradora em Puerto Vallarta, México, por metade do ano,
se conecta ao Facebook algumas vezes por semana. Ela gosta de ler o
que seus netos escrevem e de ver as fotos que postam, mesmo aquelas
tiradas em bares e festas que as pessoas dificilmente gostariam de exibir
a uma avó.
"Pelo amor de Deus, todos nós agimos exatamente
da mesma maneira quando estávamos na faculdade", ela diz.
"Isso é uma coisa que uma pessoa de 76 anos aprende. Eu
circulei bastante. Vi de tudo. Não é fácil me chocar".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
Terceira idade é novo alvo da tecnologia
por Eric A. Taub
Nos anos 60, a geração baby-boom (os norte-americanos
nascidos depois da Segunda Guerra Mundial) mal podia esperar para sair
das casas de seus pais, como é comum entre os jovens.
Hoje, essa geração está tentando descobrir como
ficar em casa, mesmo que tenham passado da idade em que seus pais se
transferiram a casas de repouso. E diversas empresas estão criando
produtos que, esperam, os ajudem a atingir essa meta.
Eis algumas das coisas pelas quais você pode esperar
quando chegar aos 60 e 70 anos: decifrar conversas em festas se torna
difícil; você sempre se esquece de onde deixou as chaves;
e seus netos pensam que você é um desastre com computadores.
Felizmente, estão surgindo tecnologias que podem
remediar algumas dessas deficiências, e ajudam as pessoas na casa
dos 60 anos a manter suas auto-imagens de perpétua juventude.
"O novo mercado é o da terceira idade",
disse Joseph Coughlin, diretor do AgeLab do Instituto de Tecnologia
de Massachusetts (MIT). "A geração baby-boom oferece
um mercado de perpétua juventude". Segundo Coughlin, 47,
eles "estão à procura de tecnologia que permita que
se mantenham envolvidos, independentes, bem e ativos".
Já que a maioria deles tem filhos crescidos e
que a educação destes está paga, também
é normal que disponham de bastante dinheiro, segundo Coughlin,
e tecnologia seria algo em que estariam dispostos a gastar.
As empresas que obtêm sucesso em comercializar
novas tecnologias a pessoas mais velhas não são as que
criam maneiras tecnológicas de permitir que velhos abram potes
de vidro. Em lugar disso, são aquelas que aprenderam a criar
produtos que superam as barreiras geracionais, oferecendo estilo e utilidade
a uma ampla gama de faixas etárias.
Uma tendência importante para o futuro, segundo
Eero Laansoo, engenheiro especializado em fatores humanos da Ford, será
o carro personalizado, que dá aos motoristas a possibilidade
de mudar cores e fontes de instrumentos para tornar contadores e mostradores
mais fáceis de ler.
O aparecimento de inúmeras tecnologias preventivas
- como detector de ponto cego, alerta de mudança de faixa e sistemas
ACC (que diminui a velocidade de seu carro se você se aproximar
demais de outro veículo) - ultrapassam as barreiras de idade
com seu apelo. Motoristas adolescentes podem usá-las, e elas
também podem dar segurança a motoristas mais velhos com
habilidades motoras diminuindo.
Eis alguns dos produtos de tecnologia atuais criados
para os usuários mais velhos:
Celulares
À medida que se desacelera o crescimento da telefonia móvel
porque quase todo mundo já tem um celular, as operadoras se esforçam
por expandir o mercado se concentrando nas necessidades dos consumidores
mais velhos.
O Jitterbug (www.jitterbug.com),
da Samsung, não parece um celular para a terceira idade até
que as pessoas o abram e encontrem os botões maiores e os dígitos
grandes na tela. Atalhos de um toque permitem chamar números
de emergência com facilidade. As operadoras oferecem o aparelho
aos idosos com anúncios que explicam que os usuários podem
discar os números ou pedir ajuda de uma operadora do serviço
Jitterburg para fazê-lo. A empresa diz que 30% dos usuários
optam por usar os serviços da telefonista.
Os números de telefone podem ser gravados no
Jitterbug ou os consumidores podem solicitar que a empresa faça
isso. Mensagens de texto completas estarão disponíveis
a partir do ano que vem.
Como o Jitterbug é um telefone voltado à
terceira idade, pessoas que não desejam se enquadrar neste grupo
resistem a usá-lo, não importando o quanto ele seja fácil
de usar. O Pantech Breeze, da AT&T, e o Coupe, da Verizon, são
um pouco mais sutis porque se parecem mais com celulares comuns. Eles
são telefones com flip simplificados com botões levemente
grandes, fonte maior e três botões para emergências.
O Breeze inclui conectividade Bluetooth e um pedômetro.
Em outubro, a Clarity (www.clarityproducts.com)
começará a vender o ClarityLife C900, que pode amplificar
a voz dos usuários em até 20 decibéis. O celular
também permite que o usuário conecte diretamente a ele
seu aparelho de surdez. Um botão vermelho pode ser usado para
ligar ou enviar mensagens de texto a cinco números que o usuário
seleciona, e o aparelho poderá ser usado nas redes das operadoras
AT&T e T-Mobile.
Em casa
A iRobot (www.irobot.com), empresa que ganhou fama com o Roomba, um
aspirador de pó robotizado, agora criou o Looj, um sistema que
limpa automaticamente as calhas de uma casa. O aparelho evita que alguém
precise subir escadas repetidamente.
Ainda este ano, a iRobot colocará à venda
o ConnectR, um "robô de visita virtual", que permitirá
que pessoas vejam e conversem umas com as outras a distância.
Com atividades administradas por meio de um site na Internet, o robô
pode ser instruído a visitar todos os aposentos de uma casa para
garantir que seus ocupantes estejam em segurança, a ler uma história
infantil ou a garantir que o Roomba esteja se ocupando devidamente de
seu trabalho como aspirador.
O controle remoto também pode ser expandido de
maneira a realizar certas tarefas domésticas. Controles remotos
universais da Logitech, Philips e Sony também podem controlar
a iluminação de uma sala ou abrir e fechar cortinas automatizadas.
O Reach, da (www.breakboundaries.com),
é uma tela de toque em LCD que não só controla
componentes eletrônicos mas também permite que os usuários
operem um celular, elevem uma cama hospitalar, fechem portas e persianas
e chamem uma enfermeira.
Tome seu remédio
Outro problema de envelhecer é o enfraquecimento da memória.
Há diversos porta-medicamentos automáticos que alertam
verbalmente os pacientes quando chega a hora de tomar um remédio.
O Daily Medication Manager (www.timexhealthcare.com), da Timex, armazena
remédios e pode alertar um usuário a tomá-los até
quatro vezes por dia.
O Med-Time, da American Medical Alert (www.age-in-place.com),
pode ser programado a administrar 28 dosagens diferentes de medicamento,
também por até quatro vezes ao dia. Quando soa o apito,
o usuário vira o aparelho para liberar as pílulas; caso
a dosagem não seja tomada, as pílulas são trancadas
para impedir uma superdosagem.
Os momentos de simples esquecimento podem não
ser passíveis de eliminação, mas seus efeitos podem
ser atenuados.
Para as pessoas que se esquecem de onde deixaram objetos,
o Loc8tor (www.loc8tor.com) pode localizar até sete itens. Uma
pequena etiqueta é afixada ao item, e a unidade principal do
aparelho registra a freqüência da etiqueta para aquele objeto.
Quando a pessoa esquece onde deixou o item, o aparelho pode localizá-lo
em raio de 180 metros, e sons diferenciados apontam para a direção
em que o objeto se encontra.
Obviamente, se a pessoa perder o aparelho, ela pode
não encontrar mais suas chaves. Para evitar esse problema, diversos
fabricantes oferecem sistemas de tranca sem chave que reconhecem impressões
digitais para abrir portas. Produzidos por empresas como a Kwikset e
a 1Touch, os aparelhos, a depender do modelo, podem ser autorizados
a permitir a entrada de até 50 pessoas.
E se você consegue se lembrar de quem são
essas 50 pessoas, é provável que não precise desse
produto ainda.
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
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