26/06/2009
Por Alex Sander Alcântara
Agência FAPESP –
Os índices de desemprego são um dos mais importantes termômetros
dos custos sociais da crise econômica mundial. Mas é possível
reduzir a complexidade do desemprego para uma taxa, um único
indicador quantitativo? Ou melhor: estar desempregado representa o mesmo
em realidades diferentes?

Livro de Nadya Araujo Guimarães, do Centro
de Estudos da Metrópole, analisa os diferentes contexto do desemprego
em meio à crise econômica mundial em três metrópoles:
São Paulo, Paris e Tóquio (foto: SP.gov.br)
Seguindo um caminho de análise sociológica,
o recém-lançado livro Desemprego, uma construção
social destaca que o desemprego não apenas é um fenômeno
socialmente relevante, como se constitui em um terreno sobre o qual
a abordagem sociológica tem muito a contribuir.
Em uma base comparativa, a obra procura mostrar as formas
pelas quais as mudanças econômicas recentes atingem o mercado
de trabalho em São Paulo, Paris e Tóquio, três metrópoles
que têm vivido intensamente os problemas ligados à oferta
de trabalho.
De acordo com a autora do livro, Nadya Araujo Guimarães,
professora titular do Departamento de Sociologia da Universidade de
São Paulo e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole,
a obra analisa as variações na intensidade e nas significações
com que o fenômeno se apresenta nas distintas realidades.
O livro é resultado de um projeto de pesquisa
desenvolvido no âmbito do Centro de Estudos da Metrópole
(CEM), um dos Centros de Pesquisa Inovação e Difusão
(Cepids) da FAPESP, com sede no Centro Brasileiro de Análise
e Planejamento (Cebrap), e que agora é também um Instituto
Nacional de Ciência e Tecnologia.
“Uma análise sociológica do desemprego
deve estar atenta para o fato de que a sua significação
varia quando se altera o contexto social observado. E, com a mudança
em tal significação, alteram-se as condutas, as políticas
públicas. Esse tipo de olhar é justamente o que especifica
os nossos estudos”, disse à Agência FAPESP.
Assim, vistas apenas as taxas de desemprego tal como
coletadas nos três países, “a convergência
dos critérios de medida, baseados em estatísticas internacionalmente
estabelecidas, induziria a crer que o significado do desemprego não
variaria de um país para outro”, apontou a professora.
“O desemprego, em todos eles, equivaleria à
privação transitória e involuntária de trabalho.
Um só critério a legitimar, em todos os casos, que alguém
sem trabalho pudesse ser objeto do apoio da política pública,
em vez de ser execrado como preguiçoso ou indolente. Em todos
os casos, o desempregado era definido como sendo alguém ‘carente
de ocupação regular’ e ‘empenhado na procura
sistemática de trabalho’”, disse.
Mas o consenso acaba, por exemplo quando se busca estabelecer
critérios para definir o que seria uma ocupação
regular. Para algumas das estatísticas oficiais bastava ter tido
uma hora de trabalho remunerado na semana anterior para retirar o indivíduo
do rol dos desempregados, por se configurar a existência de atividade.
Em outras, os critérios eram mais rígidos.
“Do mesmo modo, como definir a procura sistemática
de trabalho? Qual o marco de tempo a considerar? Algumas estatísticas
oficiais tomam a semana anterior ao levantamento como sendo o tempo
de referência. Outras, o mês anterior. Ou seja, dependendo
dos limites de tempo que se considere, o cômputo dos que estariam
em busca de trabalho poderia variar de modo não desprezível”,
disse Nadya.
A pesquisadora exemplifica ainda citando o caso brasileiro,
que apresenta uma multiplicidade de formas de medir operacionalmente
o desemprego. “Tivemos tantas e tão longas discussões
a respeito que, por quase três décadas conduzimos duas
pesquisas, ambas refinadas e muito cuidadosas (a Pesquisa Mensal de
Emprego e a Pesquisa de Emprego e Desemprego), as quais, por adotarem
critérios diferentes, muitas vezes produziam estatísticas
de desemprego com resultados fortemente discrepantes”, destacou.
Ainda hoje, segundo Nadya, existe entre essas duas pesquisas
uma discrepância em relação à forma como
se mede o “desemprego oculto”, definido como aquele em que
a procura de trabalho convive com a existência de uma ocupação
precária, ou aquele em que dificuldades interpostas até
mesmo pela própria possibilidade de seguir procurando teriam
feito com que o indivíduo momentaneamente parasse de procurar,
embora necessitasse de trabalho.
“Mais ainda: sabemos que – a depender do
modo como a condição de 'desempregado' é reconhecida
em uma sociedade e, sobretudo, da eficácia e atratividade das
medidas de proteção ao desemprego – os indivíduos
podem se sentir estimulados (ou não) à autoclassificação
como ‘desempregados’”, disse.
Por tudo isso, menos que perseguir o movimento tendencial
de taxas, segundo a autora, o livro explora como os destinos ocupacionais
e, sobretudo, como as significações atribuídas
à experiência da perda de trabalho refletem construções
institucionais e modos de definição subjetiva do vivido,
que seriam “imprescindíveis para entender as condutas e
a reprodução das desigualdades e riscos que marcam”
o presente.
Para dar conta da complexidade de uma abordagem sociológica
do desemprego, a pesquisa foi concebida de modo a conciliar técnicas
de análise quantitativa e qualitativa.
“Argui, com o auxílio de técnicas
atualizadas de análise quantitativa e qualitativa, que a fragilização
de antigas normas de emprego vem assumindo formas distintas em cada
um desses contextos, com impactos diversos sobre as trajetórias
e percepções dos indivíduos sob risco do desemprego”,
disse Nadya.
O estudo alia a realização de grandes
enquetes por amostras representativas dos indivíduos economicamente
ativos, observando suas trajetórias ocupacionais em cada uma
das três metrópoles, a longas e cuidadosas jornadas de
entrevistas biográficas, com subamostras dos entrevistados, que
segundo a autora “permitiram recuperar o modo como o vivido adquiria
significado para os sujeitos entrevistados e a maneira pela qual sustentavam
suas condutas face ao mercado de trabalho e à sobrevivência”.
Mesmo em se tratando de realidades diferentes, a socióloga
aponta que a comparação é condição
para elucidar especificidades e para evidenciar que o “desemprego
não significa o mesmo nas diferentes latitudes, nem para a política
pública nem para o modo como é vivido”.
Proteção ou não
O primeiro capítulo discute as possíveis
explicações para os distintos padrões de percurso
dos desempregados nas três metrópoles. Segundo ela, São
Paulo, Paris e Tóquio apresentam distinções em
relação aos sistemas de emprego e de proteção
de trabalho. No caso francês, havia um “sólido, complexo,
eficaz e inclusivo sistema público de proteção
ao desemprego” que se estruturou no curso dos chamados “trinta
anos gloriosos” de expansão capitalista na França
do pós-guerra.
“Esse sistema se assentou sobre uma norma de relação
de assalariamento duradouro e protegido que, ao se universalizar, deu
o tom às relações de trabalho no mercado francês.
A presença dessa sólida proteção estatal
assegurava acesso a direitos que eram também resguardados por
sindicatos fortes. Graças a ela, os desempregados podiam fazer
face aos curtos interregnos de perda de trabalho nas suas longas carreiras
ocupacionais sob contratos duradouros”, explicou a coordenadora
científica do CEM.
No caso da sociedade japonesa, pode-se identificá-la
como um sistema “pujante, conquanto seletivo, e privado de proteção”,
estabelecido durante a vigência do chamado “modelo de emprego
vitalício”, que também se mostrou capaz de prover
relações estáveis de emprego e proteção.
“Todavia, as carreiras ocupacionais construídas,
desde a saída da escola, em uma sorte de casamento entre trabalhador
e firma, ainda que duradouras, dependiam das políticas de gestão
das empresas e eram, por isso mesmo, fortemente segmentadas, beneficiando
os homens, os próprios japoneses e, em certos âmbitos do
mercado de trabalho, a indústria e os serviços modernos”,
disse a autora.
A análise da sociedade brasileira apresenta uma
recente e restrita experiência de proteção ao desemprego,
tão recente que só foi regulamentada na Constituição
de 1988, no curso do processo de redemocratização. “Ainda
assim, os benefícios outorgados eram parcos e de escassa duração,
além de pouco inclusivos”, apontou.
Diante de realidades tão diferentes, que elementos
permitiram aproximar as três realidades? Em primeiro lugar, segundo
Nadya, todas elas enfrentavam, nos anos 2000 (quando a pesquisa teve
início), o desafio de reconstituir as normas de emprego e sistemas
de proteção, com políticas para flexibilizar as
relações de trabalho e revisar as iniciativas de proteção,
“sob o impacto da reestruturação econômica
que vinha ocorrendo desde as décadas antecedentes, no bojo de
uma intensa globalização da vida econômica”.
“Um segundo traço criava o mínimo
denominador comum para a comparação. Era nos grandes mercados
metropolitanos que o fenômeno do desemprego duradouro e de massa
se mostrava particularmente visível. Nesses centros, se desafiava
não apenas a engenhosidade das políticas públicas,
mas a capacidade de absorver o custo político do aumento da pobreza
e da exclusão social, fenômenos correlatos à desocupação”,
disse.
Critérios e definições
O último capítulo, “O desemprego
como experiência biográfica”, com colaboração
dos pesquisadores Didier Demazière e Kurumi Sugita, aborda uma
segunda dimensão do desemprego, a da significação
subjetiva, tecida ao longo dos percursos no mercado de trabalho e “ressignificada
pela interpretação que os indivíduos conferiam
ao vivido em suas biografias individuais”.
De acordo com Nadya Guimarães, este último
capítulo mostra que há, “em meio a formas particulares
e idiossincráticas, formas comuns de conferir significação
à experiência do desemprego que aproximam, por exemplo,
os homens e os diferenciam das mulheres, os operários e os diferenciam
dos chefes, os jovens e os diferenciam dos adultos”.
“As entrevistas biográficas aprofundadas
permitiram coletar discursos que, diferentemente dos materiais provenientes
da aplicação de questionários eram mais livres,
menos enquadrados e menos formatados por perguntas, diretivas e muito
numerosas, enriquecendo o panorama que pode ser descrito a partir dos
questionários inicialmente aplicados”, disse.
Desemprego, uma construção social. São
Paulo, Paris e Tóquio
Autora: Nadya Araújo Guimarães
Editora: Argvmentvm
Ano de publicação: 2009
Páginas: 204
Preço: R$ 35,50
Mais informações: www.argvmentvmeditora.com.br
ou (31) 3212-9444.

Livro de Nadya Araujo Guimarães, do Centro
de Estudos da Metrópole, analisa os diferentes contexto do desemprego
em meio à crise econômica mundial em três metrópoles:
São Paulo, Paris e Tóquio (foto: SP.gov.br)
http://www.agencia.fapesp.br/materia/10683/sociologia-do-desemprego.htm
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