26/06/2009
No livro "A Vida Simbólica", a
Vozes publicou textos do volume I das obras completas, que intitulou
"Sobre o Ocultismo".
Nele se encontram os seguintes textos:
- Sobre fenômenos espíritas (conferência
feita na Basiléia em 1905)
Neste texto Jung faz uma breve história do Espiritismo, cita
Swedenborg, as irmãs Fox, Aksakof, admira-se com Crookes, e cita
O Livro dos Médiuns, que leu em alemão, mas considera
as mensagens publicadas por Kardec triviais. Ele reduz os fenômenos
espíritas à esfera do psicológico e critica vigorosamente
os adeptos do Espiritismo. Destaco ainda a percepção de
Jung do Espiritismo como religião e movimento religioso. Ele
narra muito brevemente os estudos que fez com oito médiuns (um
dos quais afirmava ser um "trapaceiro americano" e os demais
pessoas de boa fé).
- Prefácio a "Fenômenos Ocultos" - 1939
O livro que Jung prefaciou publica três de seus trabalhos. Ele
está menos virulento, mas ainda reticente quanto à questão
da imortalidade da alma, que considera ser uma necessidade psicológica
e afirma que o médico deve orientar o seu paciente a observar
a presença ou ausência delas na consciência, da mesma
forma que fala da necessidade do uso de sal na dieta.
- Psicologia e Espiritismo (Prefácio a um livro escrito
por Stewart White - 1948)
Nesse livro o psiquiatra suíço cita Rhine (pesquisador
da Parapsicologia) e discute de certa forma a posição
do autor que defende a existência dos espíritos. Para Jung
os espíritos são "fatores inconscientes personificados".
Dos autores espíritas e estudiosos do Espiritismo, ele cita Zöllner,
Richet, Flammarion, Schiaparelli, Oliver Lodge, e curiosamente Eugen
Bleuler. Vê-se que o tema de alguma forma o fascina, porque mesmo
sendo contrário ele continua a estudar os livros espíritas
e a tentar explicar os fenômenos com sua teoria do inconsciente.
- Prefácio e Contribuição ao livro de Fanny
Moser (1950)
Mais um prefácio a um livro de fenômenos espíritas.
Jung recebe o convite com algum entusiasmo e faz menção
aos trabalhos da "American Society for Psychical Research"
e ao ceticismo da época discutido por Kant duzentos anos antes
da publicação de seu texto. Embora ainda considere que
os fenômenos não provam a imortalidade da alma, Jung aceita
posições da Parapsicologia e deixa ao futuro o alargamento
dos horizontes com relação ao estudo da Psique.
Em seguida ele narra um caso pessoal, em que ele esteve em Londres e
descobriu para sua surpresa que havia se hospedado em um local assombrado.
Ele relata fenômenos, como mau cheiro (que considera alucinatório!!!),
barulho de pingos de água sem chuva ou torneira aberta, sussurros
seguidos a um torpor, sons de batidas, um cão que andaria pelos
cômodos, assustado, duas hóspedes que deixaram o local
com medo das assombrações. No quinto dia ele viu o rosto
de uma senhora sem a parte esquerda que o fixava com o único
olho. Ao voltar, Jung desafiou o Dr. X a dormir uma noite no "quarto
assombrado". Ele escreveu-lhe narrando ter ouvido passos à
noite, ter fechado a porta com a ajuda de uma cadeira apoiada na fechadura,
que se espatifou, sem qualquer ventania, o que o levou a dormir sobre
um caramanchão... O dono da casa terminou demolindo-a e vendendo-a
porque ninguém desejava hospedar-se lá, devido à
fama de assombrada.
Suas explicações aos fenômenos continuam contando
com o apoio da teoria do inconsciente, mas Jung já aceita que
há fenômenos inexplicáveis desta forma e ainda cita
um caso de um parente que viajou e sonhou com um assassinato de uma
mulher no seu quarto de hotel, que realmente havia acontecido.
- Prefácio a um livro de Jaffé (1958)
É um texto rápido no qual o Psiquiatra Suíço
destaca a análise psicológica dos temas próprios
da fenomenologia espírita, mas deixa claramente que a autora
evitou a questão da realidade dos fenômenos e da sobrevivência
da alma, questão esta que parece incomodá-lo.
Quem tiver lido o livro "Memórias, Sonhos e Reflexões",
escrito anos depois, sabe que Jung narrará, próximo da
morte, fenômenos que aconteceram com ele e que ele admite não
ser capaz de explicar com o apoio da teoria do inconsciente.
Este livro mostra bem a trajetória vivida pelo psiquiatra do
ceticismo à dúvida.

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