20/06/2009
A Dra. Rita Levi-Montalcini, que tem hoje 98 anos,
recebeu o Prêmio Nobel de Medicina há 21 anos, quando tinha
77!!! Ela nasceu em Turím, Itália, em 1909 e obteve o
título de Medicina na especialidade de Neurocirurgia.
Por causa de sua ascendência judia se viu obrigada
a deixar a Itália um pouco antes do começo da II Guerra
Mundial. Emigrou para os Estados Unidos onde trabalhou no Laboratório
Victor Hambueger do Instituto de Zoologia da Universidade de Washington
de San Louis. Em 1951 veio ao Brasil, para realizar experiências
de culturas em vidro no Instituto de Biofísica da Universidade
do Rio de Janeiro, onde, em dezembro do mesmo ano, a pesquisadora consegue
identificar o fator de crescimento das células nervosas (Nerve
Growth Factor, conhecido como NGF). Esta descoberta lhe valeu, em 1986,
o Premio Nobel para a Medicina, junto com Stanley Cohen.

Entrevista no dia 22/12/2005
- Como vai celebrar seus 100 anos?
- Ah, não sei se viverei até lá, e, além
disso, não gosto de celebrações. No que eu estou
interessada e gosto é do que faço cada dia.!- E o que
você faz? - Trabalho para dar uma bolsa de estudos para as meninas
africanas para que estudem e prosperem ... elas e seus países.
E continuo investigando, continuo pensando.
- Não vai se aposentar?
- Jamais! Aposentar-se é destruir o cérebro! Muita gente
se aposenta e se abandona...E isso mata seu cérebro. E adoece.
- E como está seu cérebro?
- Igual quando tinha 20 anos! Não noto diferença em ilusões
nem em capacidade. Amanhã vôo para um congresso médico.
- Mas terá algum limite genético ?
- Não. Meu cérebro vai ter um século...., mas não
conhece a senilidade.. O corpo se enruga, não posso evitar, mas
não o cérebro!
- Como você faz isso?
- Possuímos grande plasticidade neural: ainda quando morrem neurônios,
os que restam se reorganizam para manter as mesmas funções,
mas para isso e conveniente estimulá-los!
- Ajude-me a fazê-lo.
- Mantenha seu cérebro com ilusões, ativo, faz ele trabalhar
e ele nunca se degenera.
- E viverei mais anos?
- Viverá melhor os anos que vive, é isso o interessante.
A chave é manter curiosidades, empenho, ter paixões....
- A sua foi a investigação cientifica...
- Sim e segue sendo
- Descobriu como crescem e se renovam as células
do sistema nervoso...
- Sim, em 1942: dei o nome de Nerve Growth Factor (NGF, fator do crescimento
nervoso), e durante quase meio século houve dúvidas, até
que foi reconhecida sua validade e em 1986, me deram o premio por isso.
- Como foi que uma garota italiana dos anos vinte converteu-se
em neurocientista?
- Desde menina tive o empenho de estudar. Meu pai queria me casar bem,
que fosse uma boa esposa, boa mãe... E eu não quis. Fui
firme e confessei que queria estudar.
- Seu pai ficou magoado?
- Sim, mas eu não tive uma infância feliz: sentia-me feia,
tonta e pouca coisa... Meus irmãos maiores eram muito brilhantes
e eu me sentia tão inferior...
- Vejo que isso foi um estimulo...
- Meu estimulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer,
que estava em África para ajudar com a lepra. Desejava ajudar
aos que sofrem, isso e meu grande sonho.
- E você tem feito..., com sua ciência.
- E, hoje, ajudando as meninas da África para que estudem. Lutamos
contra a enfermidade, a opressão da mulher nos paises islâmicos
por exemplo, além de outras coisas...!
- A religião freia o desenvolvimento cognitivo?
- A religião marginaliza muitas vezes a mulher perante o homem,
afastando-a do desenvolvimento cognitivo, mas algumas religiões
estão tentando corrigir essa posição.
- Existem diferencias entre os cérebros do homem
e da mulher?
- Só nas funções cerebrais relacionadas com as
emoções, vinculadas ao sistema endócrino. Mas quanto
às funções cognitivas, não tem diferença
alguma.
- Por que ainda existem poucas cientistas?
- Não é assim! Muitos descobrimentos científicos
atribuídos a homens, realmente foram feitos por suas irmãs,
esposas e filhas.
- É verdade?
- A inteligência feminina não era admitida e era deixada
na sombra. Hoje, felizmente, tem mais mulheres que homens na investigação
cientifica: as herdeiras de Hipatia!
- A sábia Alexandrina do século IV...
- Já não vamos acabar assassinadas nas ruas pelos monges
cristãos misóginos, como ela. Claro, o mundo tem melhorado
algo...
- Ninguém tem tentado assassinar a você...
- Durante o fascismo, Mussolini quis imitar o Hitler na perseguição
dos judeus..., e tive que me ocultar por um tempo. Mas não deixei
de investigar: tinha meu laboratório em meu quarto...E descobri
a apoptose, que é a morte programada das células!
- Por que tem uma alta porcentagem de judeus entre cientistas
e intelectuais?
- A exclusão estimula entre os judeus os trabalhos intelectivos
e intelectuais: podem proibir tudo, mas não que pensem! E é
verdade que tem muitos judeus entre os prêmios Nobel...
- Como você explica a loucura nazista?
- Hitler e Mussolini souberam como falar ao povo, onde sempre prevalece
o cérebro emocional por cima do neocortical, o intelectual. Conduziram
emoções, não razões!
- Isto está acontecendo agora?
- Porque você acha que em muitas escolas nos Estados Unidos é
ensinado o creacionismo e não o evolucionismo?
- A ideologia é emoção, é
sem razão?
- A razão é filha da imperfeição. Nos invertebrados
tudo está programado: são perfeitos. Nós não.
E, ao sermos imperfeitos, temos recorrido à razão, aos
valores éticos: discernir entre o bem e o mal é o mais
alto grau da evolução darwiniana!
- Você nunca se casou ou teve filhos?
- Não. Entrei no campo do sistema nervoso e fiquei tão
fascinada pela sua beleza que decidi dedicar todo meu tempo, minha vida!
- Lograremos um dia curar o Alzheimer, o Parkinson,
a demência senil?
- Curar... O que vamos lograr será frear, atrasar, minimizar
todas essas enfermidades.
- Qual é hoje seu grande sonho?
- Que um dia logremos utilizar ao máximo a capacidade cognitiva
de nossos cérebros.
- Quando deixou de sentir se feia?
- Ainda estou consciente de minhas limitações!
- O que você faria hoje se tivesse 20 anos?
- Mas eu estou fazendo!!!!
Como vai celebrar seus 100 anos?
Ah, não sei se viverei até lá, e, além disso,
não gosto de celebrações. No que eu estou interessada
e gosto é do que faço cada dia.!
- E o que você faz?
- Trabalho para dar uma bolsa de estudos para as meninas africanas para
que estudem e prosperem ... elas e seus paises. E continuo investigando,
continuo pensando.
- Não vai se aposentar?
- Jamais! Aposentar-se é destruir cérebros! Muita gente
se aposenta e se abandona... E isso mata seu cérebro. E adoece.
Fonte: http://www.radarcultura.com.br/node/24737
Veja abaixo pequena biografia dela :
RITA LEVI-MONTALCINI: A detetive
de nervos
Aos 81 anos, a obstinada italiana, Prêmio Nobel de Medicina,
adora uma investigaçãoseja nos livros policiais que lê,
seja nos laboratórios onde persegue todas as pistas sobre o fator
de crescimento das células nervosas
Por Monica Falcone, de Roma, e Suzana Veríssimo,
do Rio de Janeiro
Naquela manhã de dezembro, de 1986, Rita Levi-Montalcini
acordou, como todos os dias, antes que o relógio marcasse 6 da
manhã. Abriu as cortinas sobre a Bala de Estocolmo e pediu à
camareira do Grand Hotel o desjejum habitualmente frugal, chá
e biscoitos. Diante do espelho, deu aos cabelos cândidos a costumeira
onda, toda para um lado, que emoldura o rosto enrugado muito alvo, sereno,
e ressalta o olhar risonho azul-claro. Finalmente, vestiu um conjunto
de seda pérola, estampado com flores estilizadas, de caimento
perfeito no corpo esguio, quase frágil, como o de um passarinho.
Só assim, aparentemente pronta para um passeio, a elegante senhora
sossegou em um canto, sentando-se na poltrona para folhear um romance
policial de Agatha Christie. Há muito tempo, aprendeu a usar
os livros da escritora inglesa feito um escudo diante da menor ameaça
de tensão. Ela sempre carrega uma aventura do detetive Hercule
Poirot, por exemplo, quando precisa enfrentar uma viagem aérea.
Naquela vez, porém, as peripécias do personagem serviram
para relaxar a leitora que, à noite, receberia o Prêmio
Nobel de Medicina das mãos do rei Carlos Gustavo da Suécia.O
Nobel premiou uma descoberta feita em parte no Brasil dos anos 50, nos
laboratórios do Instituto de Biofísica da Universidade
Federal do Rio de Janeiro: ali, a cientista italiana teve a certeza
da existência do NGF, sigla, em inglês, de fator de crescimento
dos nervos. Trata-se de um fluído produzido pelo próprio
organismo, que, ao tocar as células nervosas, feito uma varinha
mágica, tem a espantosa propriedade de fazê-las crescer.
Hoje, com recursos da Engenharia Genética para
produzir o NGF, sabe-se que sua aplicação clínica,
no futuro, poderá curar uma série de doenças degenerativas
do sistema nervosocomo, aliás, já está começando
a se tentar na Suécia e nos Estados Unidos, para tratar o mal
de Alzheimer, a atrofia dos nervos, e o mal de Parkinson, uma espécie
de atrofia cerebral.
Quando o NGF foi descoberto, porém, poucas pessoas
Ihe deram a devida importância, talvez porque a substância
pudesse ser encontrada em quase todos os tecidos do corpo. Incansável,
Rita continuou colhendo pistas do NGF, determinada a provar que a substância
também está por trás de outras funções
importantes, como a imunológica, ajudando o organismo a vencer
suas batalhas contra agentes nocivos. A história da cientista,
nesse sentido, se parece com os romances que tanto aprecia, com investigações
dignas dos mais perspicazes detetives lutasnão físicas,
é verdade, perseguições implacáveis, como
a dos nazistas pelo fato de ser judia, e, sobretudo, cenas de grande-emoção."No
verão carioca de 1953, o NGF saiu das sombras de maneira triunfal
e grandiosa, como se fosse estimulado pela atmosfera dessa exuberante
manifestação de vida que é o Carnaval do Rio".
descreveu a cientista em sua autobiografia, O elogio da imperfeição.
"Nas vésperas do Natal de 1986, o NGF apareceu de novo em
público, sob a luz dos refletores, na presença dos reis
suecos, de príncipes, de damas em vestidos de gala e cavalheiros
em fraque." Nessa noite, Rita Levi-Montalcini também estava
vestida de gala: usava um longo desenhado pelo refinado e pouco conhecido
estilista romano Roberto Capucci, autor de verdadeiras esculturas em
tecidos. Na verdade, Capucci confeccionou duas roupas para a ocasião,
uma bordô e outra verde com mangas roxas. E por que duas? Porque
a cientista, famosa por sua vaidade, queria escolher o modelo apenas
no dia de receber o prêmio. O requinte da escolhavenceu o vestido
com mangas roxas, sua cor prediletasurpreendeu quem estava acostumado
a vê-la com o avental branco dos laboratórios.Há
sessenta anos, contudo, ninguém imaginaria que aquela jovem,
nascida em Turim, passaria boa parte da vida nesse ambiente. Afinal,
Rita vinha de uma família culta, mas de convicções
vitorianas a respeito do papel da mulher. Na adolescência, ela
teve o mesmo destino de suas duas irmãs, isto é, o chamado
colegial feminino, um curso que não dava acesso à faculdade:
Nina, a mais velha, resolveu se casar; Paola, irmã gêmea
da pesquisadora, dedicou-se à pintura e à escultura. Já
o caminho de Rita foi traçado quando ela completou 22 anos, com
a doença que causou a morte de sua velha babá. Então,
contrariando os princípios paternos, Rita decidiu estudar Medicina.Hoje
em dia, aos 81 anos de idade, a cientista não hesita em se declarar
feminista, na entrevista a SUPERINTERESSANTE, realizada em Castelporziano,
uma antiga reserva de caça nos arredores de Roma. Em um cenário
de bosques, onde javalis pastavam e faisões ciscavam, 21 Prêmios
Nobel se reuniram, em dezembro (1991), para trocar idéias sobre
como estimular a pesquisa nos países da Comunidade Européia.
Ali, Rita mergulhou em lembranças dos tempos de universitária,
quando teve um mestre excepcional, o professor Giuseppe Levi, conhecido
por suas idéias antifascistas. "Ele tinha um método
de trabalho rigoroso, mas seguia de modo apaixonado as pesquisas de
seus alunos", ela recorda.Na mesma época, Giuseppe Levi
orientava três futuros Nobel de Medicina: além da própria
Rita, Renato Dulbecco, premiado em 1975 pela identificação
dos genes desencadeadores do câncer, e Salvador Luria, laureado
em 1969 pela descoberta das características dos genes de vírus
e de bactérias (veja quadro). "Rita trabalhava no laboratório
ao lado do meu", conta Luria. "Por isso, seu Nobel me deixou
particularmente contente, apesar de ter chegado atrasado", opina
o orgulhoso colega. A perseguição anti-semita durante
a Segunda Guerra interrompeu a carreira dos dois jovens pesquisadores
de origem judaica. Luria fugiu de bicicleta, cruzando a fronteira da
Itália. Rita, por sua vez, escondeu-se no quarto, onde improvisou
um laboratório, como uma Robinson Crusoe da ciência.Quando
a perseguição contra os judeus estendeu-se da Alemanha
para a Itália, a família Levi-Montalcini partiu de Turim
para viver refugiada em Florença. Mas, no último período
da guerra após o desembarque dos soldados aliados na cidade,
Rita saiu do esconderijo para socorrer a população florentina
em meio a uma epidemia de tifo. "Só então percebi
que não tinha desprendimento emocional para clinicar", diz
ela. "Por isso, decidi me dedicar à pesquisa."Assim,
em 1951, Rita embarcou para os Estados Unidos, determinada a passar
horas com os olhos grudados no microscópio, observando o desenvolvimento
dos nervos em embriões de galinha. Naquela época, ela
intuía que algo, uma substância qualquer, fazia os nervos
dos embriões crescer, quando lhes enxertava células de
tumores de ratosera ali, no tumor, que devia estar o que batizou de
NGF. Faltava apenas provar cientificamente a sua presença. Rita,
então, pensou em recorrer a uma técnica, que havia usado
nos anos 40, com o professor Giuseppe Levia cultura de tecido. Ou seja,
ao se mergulhar células em um coquetel de nutrientes, elas continuam
vivas e, desse modo, consegue-se observá-las, pode-se dizer,
em plena ação. Essa técnica estava sendo desenvolvida
no Brasil pela cientista alemã Hertha Meyer, que Rita conhecera
em Turim. Hertha também judia, tinha fugido para o Brasil em
1939, sendo acolhida pelo biólogo e biofísico Carlos Chagas
Filho, no Instituto de Biofísica, no Rio de Janeirocidade em
que, por sinal, Hertha morou até morrer, no ano passado."Rita
me escreveu pedindo para estagiar conosco, com uma bolsa da Fundação
Rockefeller", conta Chagas Filho, na sala do Instituto de Biofísica
que hoje leva seu nome, atrás de uma de suas duas mesas de trabalho,
onde muitas vezes ele almoça. No final de 1952, Rita desembarcou
no Rio de Janeiro sob um pé-d'água tropical. "Eu
a encontrei no aeroporto, extrovertida, com uma capa impermeável
e dois ratinhos portadores de tumor no bolso", recorda o professor.
O biofísico levou a estagiária italiana direto ao laboratório,
para colocar os passageiros-clandestinos em gaiolas. Só agora
Rita confessa: "Eu poderia ter feito a cultura de células
nos Estados Unidos. Mas, diante da possibilidade de realizar o sonho
de vir para o Brasil, eu não hesitei". Ela só lamenta
a falta de tempo para visitar outras cidades"nem São Paulo
eu cheguei a conhecer".Um dia depois de chegar, Rita iniciou a
experiência com Hertha Meyer, preparando uma cultura de gânglios
embrionários de pintos com um pedacinho do tumor de ratos. Para
comparar, as duas cientistas também prepararam uma cultura apenas
de gânglios de embriões. Segundo Carlos Chagas Filho, o
resultado surgiu no dia seguinte: "Foi espetacular, pois o gânglio
com células de tumor tinha lançado inúmeras fibras
nervosase nada tinha acontecido com o outro gânglio. É
raro uma experiência ter sucesso logo na primeira tentativa. Mas
nesse caso o êxito era tão evidente, que mandei estourar
uma champanhe Moët et Chandon para comemorar". O Instituto
de Biofísica, embora bem - aparelhado, não dispunha de
um microscópio de fotografia. Por isso, Chagas Filho entrou em
seu automóvel e saiu em busca de um equipamento emprestado. Assim,
Rita conseguiu provar a existência do NGF.Para o professor, hoje
com 80 anos, o episódio marcou o início de uma grande
amizade: "A primeira coisa que faço, quando chego a Roma,
é ligar para Rita", revela o cientista, que antes de deixar
a presidência da Academia de Ciências do Vaticano, há
cerca de dois anos, depois de tê-la exercido por dezesseis, ia
várias vezes por ano à Itália. As viagens, agora,
reduzem-se a dois passeios anuaismas o hábito de telefonar para
a colega permanece. "Ela é uma das mulheres mais femininas
que eu conheço", diz ele, sem esconder a admiração.
Tão logo sabe que o amigo brasileiro está em Roma, Rita
toma seu Alfa Romeo branco, que ela mesma pilota, para ir encontrá-lo.
Invariavelmente, eles jantam juntosou em elegantes restaurantes, como
o do Jardim Borghese, ou no apartamento que Rita divide com a irmã
pintora Paola.Os sustos que Chagas Filho leva no trajeto de carro"ela
dirige muito depressa, como todos os motoristas em Roma"são
compensados pela excelência dos jantares, segundo o professor,
quando são servidos "seis pratos e vinhos deliciosos",
embora Rita só beba água San Pallegrino. Nos encontros,
o assunto costuma ser literatura, o lazer predileto da cientista, que
adora discutir sobre autores italianos modernos, como Umberto Eco e
Alberto Moravia. "Rita também tem um enorme interesse pela
política do país", conta Chagas Filho é conhecida
sua preocupação com os estudantes pobres, para os quais
ela criou uma fundação com o dinheiro de vários
prêmios que já recebeu. "Eu sempre digo aos jovens
que o primeiro truque é não concentrar-se excessivamente
em si próprios, pois isso equivale a fechar-se em um quartinho",
ela ensina. "O segundo truque é buscar com obstinação
o próprio caminho. O medo da opinião alheia não
deve condicionar alguém a tomar uma decisão que, no fundo,
sente ser a escolha errada." Por causa de seu carisma, Rita acaba
de ser convidada a participar de uma campanha de televisão contra
as drogas. Mas nem sempre a pesquisadora teve essa popularidade.Rita
viveu toda a década de 50 nos Estados Unidos. Quando voltou para
a Universidade de Washington, depois do estágio no Rio de Janeiro,
ela conheceu o bioquímico americano Stanley Cohen, com quem,
anos mais tarde, dividiria o Nobel pela investigação do
NGF. Juntos, eles descobriram aos poucos molécula por molécula
que compõe a substância-que os dois cientistas, aliás,
identificaram como uma proteína. Preocupada com a mãe
idosa e com a irmã gêmea, que vivia sozinha, Rita retornou
ao seu país em 1962, quando foi discriminada por muitos cientistas
italianos, por ter passado tanto tempo no exterior. Em 1974, no entanto,
ela foi a primeira mulher a entrar para a Pontifícia Academia
de Ciências do Vaticano, por indicação de Carlos
Chagas Filho Os conhecimentos sobre o NGF permitem a busca de novos
tratamentos para o câncer, o crescimento desenfreado de uma célula,
assim como para uma série de processos degenerativos. "Nos
animais, o NGF é capaz de regenerar células nervosas,
mas não temos provas de que isso ocorre com o homem. Por enquanto,
é apenas uma esperança, esclarece a cientista. Fora prováveis
aplicações clínicas, graças as pesquisas
coordenadas por Rita, hoje se sabe que o NGF é muito mais do
que o responsável pelo crescimento das células nervosas.
Descobriu-se que a substância é capaz de
estimular o sistema imunológico e o endócrino. Algumas
experiências mostram que esse mesmo fator é capaz de condicionar
a agressividade de ratos, o que mostra sua influência até
no comportamento dos seres vivos. Diante de tudo isso, em abril do ano
passado, a inquieta Rita Levi, elaborou uma hipótese: "O
NGF pode ser uma espécie de maestro na orquestra do organismo",
especula, os olhos brilhando de entusiasmo. "Ele parece estar ligando
as funções vitais."
Animada com a tese, ela não pára. Acorda
quando o dia mal amanhece e vai direto para a máquina de escrever.
Ela está sempre escrevendoseja artigos, seja conferências.
Quando era adolescente, eu queria ser escritora, como a inglesa Virginia
Woolf", conta. Em parte, esse sonho não deixou de ser realizado:
sua autobiografia, lançada depois do Nobel, foi um best-seller
nas livrarias italianas. E, agora, Rita aproveita os primeiros meses
do ano para terminar dois livros de divulgação científica
para o público jovem.Depois de escrever algumas folhas, ela pega
o carro e dirige para o Instituto de Biologia Celular do Conselho Nacional
de Pesquisa da Itália. Ali. permanece três ou quatro horas
trabalhando na sua antiga paixão, o NGF, até sair para
o almoço uma dieta espartana, à base de peixes e verduras
cozidas. Às 17 horas, ela volta para o laboratório, onde
fica pesquisando até o anoitecer. A agenda só é
diferente quando a cientista faz conferências fora de Roma, o
que costuma acontecer duas vezes por semana. Rita também é
uma ativa militante pela conservação da memória
da comunidade hebraica italiana, causa para a qual doou parte do dinheiro
recebido com o Nobel. "Apesar disso, não sou religiosa,
ela assume. Minha crença se baseia no respeito à liberdade
individual.De fato, ela não tolera a menor lembrança do
anti-semitismo dos tempos de guerrae um episódio doméstico
recente ilustra bem esse horror. Em seu escritório, entre prateleiras
de livros e plantas. Rita tinha um pôster do líder negro
americano Martin Luther King. Mas, há poucos meses, caiu nas
mãos da insaciável leitora uma biografia de Lutero, o
fundador do protestantismo, que a deixou escandalizada pelo pensamento
anti-semita. Ao chegar no ponto final do livro, a primeira atitude de
Rita foi arrancar a imagem de Luther King da parede. Ainda o considero
uma pessoa muito nobre" esclarece. "Só não quero
esbarrar diariamente com o nome de seu xará."
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