20/06/2009
As ideias revolucionárias do naturalista
inglês, que nasceu há 200 anos, são os pilares da
biologia e da genética e estão presentes em muitas áreas
da ciência moderna. O mistério é por que tanta gente
ainda reluta em aceitar que o homem é o resultado da evolução
Por Gabriela Carelli
Reportagem da revista Veja
http://veja.abril.com.br/110209/p_072.shtml
Charles Darwin é um paradoxo moderno. Não
sob a ótica da ciência, área em que seu trabalho
é plenamente aceito e celebrado como ponto de partida para um
grau de conhecimento sem precedentes sobre os seres vivos. Sem a teoria
da evolução, a moderna biologia, incluindo a medicina
e a biotecnologia, simplesmente não faria sentido. O enigma reside
na relutância, quase um mal-estar, que suas ideias causam entre
um vasto contingente de pessoas, algumas delas fervorosamente religiosas,
outras nem tanto. Veja o que ocorre nos Estados Unidos. O país
dispõe das melhores universidades do mundo, detém metade
dos cientistas premiados com o Nobel e registra mais patentes do que
todos os seus concorrentes diretos somados. Ainda assim, só um
em cada dois americanos acredita que o homem possa ser produto de milhões
de anos de evolução. O outro considera razoável
que nós, e todas as coisas que nos cercam, estejamos aqui por
dádiva da criação divina. Mesmo na Inglaterra,
país natal de Darwin, o fato de ele ser festejado como herói
nacional não impede que um em cada quatro ingleses duvide de
suas ideias ou as veja como pura enganação. Na semana
em que se comemora o bicentenário de nascimento de Darwin e,
por coincidência, no ano do sesquicentenário da publicação
de seu livro mais célebre, A Origem das Espécies, como
explicar a persistente má vontade para com suas teorias em países
campeões na produção científica?
Para investigar a razão pela qual as ideias de Darwin ainda são
vistas como perigosas, é preciso recuar no passado. Quando o
naturalista inglês pela primeira vez propôs suas teses sobre
a evolução pela seleção natural, a maioria
dos cientistas acreditava que a Terra não tivesse mais de 6.000
anos de existência, que as maravilhas da natureza fossem uma manifestação
da sabedoria divina. A hipótese mais aceita sobre os fósseis
de dinossauros era que se tratava de criaturas que perderam o embarque
na Arca de Noé e foram extintas pelo dilúvio bíblico.
A publicação de A Origem das Espécies teve o efeito
de um tsunami na Inglaterra vitoriana. Os biólogos se viram desmentidos
em sua certeza de que as espécies são imutáveis.
A Igreja ficou perplexa por alguém desafiar o dogma segundo o
qual Deus criou o homem à sua semelhança e os animais
da forma como os conhecemos. A sociedade se chocou com a tese de que
o homem não é um ser especial na natureza e, ainda por
cima, tem parentesco com os macacos. Havia, naquele momento, compreensível
contestação científica às novas ideias.
Darwin havia reunido uma quantidade impressionante de provas empíricas
– mas ainda restavam muitas questões sem resposta.
O primeiro exemplar a sair da gráfica foi enviado a sir John
Herschel, um dos mais famosos cientistas ingleses vivos em 1859. Darwin
tinha tanta admiração por ele que o citou no primeiro
parágrafo de A Origem das Espécies. Herschel não
gostou do que leu. Ele não podia acreditar, sem provas científicas
tangíveis, que as espécies podiam surgir de variações
ao acaso. Pressionado, Darwin disse que, se alguém lhe apontasse
um único ser vivo que não tivesse um ascendente, sua teoria
poderia ser jogada no lixo. O que se encontrou em profusão foram
evidências da correção do pensamento de Darwin em
seus pontos essenciais. Hoje, para entender a história da evolução,
sua narrativa e mecanismo, os modernos darwinistas não precisam
conjeturar sobre o funcionamento da hereditariedade. Eles simplesmente
consultam as estruturas genéticas. As evidências que sustentam
o darwinismo são agora de grande magnitude – mas, estranhamente,
a ansiedade permanece.
Outros pilares da ciência moderna, como a teoria da relatividade,
de Albert Einstein, não suscitam tanta desconfiança e
hostilidade. Raros são aqueles que se sentem incomodados diante
da impossibilidade de viajar mais rápido que a luz ou saem à
rua em protesto contra a afirmação de que a gravidade
deforma o espaço-tempo. Evidentemente, o núcleo incandescente
da irritação causada por Darwin tem conotação
religiosa. A descoberta dos mecanismos da evolução enfraqueceu
o único bom argumento disponível para a existência
de Deus. Se Ele não é responsável por todas essas
maravilhas da natureza, sua presença só poderia ser realmente
sentida na fé de cada indivíduo. Mas isso não explica
tudo. Em 1920, ao escrever sobre o impacto da divulgação
das ideias darwinistas, Sigmund Freud deu seu palpite: "Ao longo
do tempo, a humanidade teve de suportar dois grandes golpes em sua autoestima.
O primeiro foi constatar que a Terra não é o centro do
universo. O segundo ocorreu quando a biologia desmentiu a natureza especial
do homem e o relegou à posição de mero descendente
do mundo animal". Pelo raciocínio do pai da psicanálise,
a rejeição à teoria da evolução seria
uma forma de compensar o "rebaixamento" da espécie
humana contido nas ideias de Copérnico e Darwin.
O biólogo americano Stephen Jay Gould, um dos grandes teóricos
do evolucionismo no século XX, morto em 2002, dizia que as teorias
de Dar-win são tão mal compreendidas não porque
sejam complexas, mas porque muita gente evita compreendê-las.
Concordar com Darwin significa aceitar que a existência de todos
os seres vivos é regida pelo acaso e que não há
nenhum propósito elevado no caminho do homem na Terra. Disse
a VEJA o biólogo americano David Sloan Wilson, da Universidade
Binghamton: "As grandes ideias e teorias são aceitas ou
rejeitadas popularmente por suas consequências, não pelo
seu valor intrínseco. Infelizmente, a evolução
é percebida por muitos como uma arma projetada para destruir
a religião, a moral e o potencial dos seres humanos". Uma
pesquisa publicada pela revista New Scientist sobre a aceitação
do darwinismo ao redor do mundo mostra que os mais ardentes defensores
da evolução estão na Islândia, Dinamarca
e Suécia. De modo geral, a crença na evolução
é inversamente proporcional à crença em Deus. Mas
a pesquisa encontrou outra configuração interessante:
os habitantes dos países ricos acreditam menos em Deus que aqueles
que vivem em países inseguros. Isso pode significar que a crença
em Deus e a rejeição do evolucionismo são mais
intensas nas sociedades sujeitas às pressões darwinistas,
como escreveu a revista Economist.

O medo do inferno
Muito religiosa, Emma, a mulher de Darwin, temia que o marido fosse
para o inferno. Ela dava por certo que iria para o céu e sofria
com a ideia de ficarem separados pela eternidade. À direita,
a casa da família, nos arredores de Londres: nela, Darwin viveu
e trabalhou por quarenta anos - Fotos Latinstock e David Ball/Corbis/Latinstock
A teoria da evolução causa mal-estar em
muita gente – mas só algumas confissões evangélicas
converteram o darwinismo em um inimigo a ser combatido a todo custo.
Como essas reli-giões são poderosas nos Estados Unidos,
é lá que se trava o mais renhido combate dessa guerra
santa. Ciência e religião já andaram de mãos
dadas pela maior parte da história da humanidade. Mas esse nó
se desatou há dois séculos e Darwin foi um dos responsáveis
por esse divórcio amigável, com nítidas vantagens
para ambos os lados.
Desde o ano passado, o bordão entre os criacionistas americanos
é "liberdade acadêmica". A ideia que tentam passar
é que o darwinismo é apenas uma teoria, não um
fato, e ainda por cima está cheio de lacunas e é carente
de provas conclusivas. Sendo assim, não há por que Darwin
merecer maior destaque que o criacionismo. O argumento é de evidente
má-fé. Em seu significado comum, teoria é sinônimo
de hipótese, de achismo. A teoria da evolução de
Darwin usa o termo em sua conotação científica.
Nesse caso, a teoria é uma síntese de um vasto campo de
conhecimentos formado por hipóteses que foram testadas e comprovadas
por leis e fatos científicos. Ou seja, uma linha de raciocínio
confirmada por evidências e experimentos. Por isso, quando é
ensinado numa aula de religião, o gênesis está em
local apropriado. Colocado em qualquer outro contexto, só serve
para confundir os estudantes sobre a natureza da ciência.
A ciência não tem respostas para todas as perguntas. Não
sabe, por exemplo, o que existia antes do Big Bang, que deu origem ao
universo há 13,7 bilhões de anos. Nosso conhecimento só
começa três minutos depois do evento, quando as leis da
física passaram a existir. Os cientistas também não
são capazes de recriar a vida a partir de uma poça de
água e alguns elementos químicos – o que se acredita
ter acontecido 4,5 bilhões de anos atrás. A mão
de Deus teria contribuído para que esses eventos primordiais
tenham ocorrido? Não cabe à ciência responder enquanto
não houver provas científicas do que aconteceu. O fato
é que a luta dos criacionistas contra Darwin nada tem de científica.
Em sua profissão de fé, eles têm o pleno direito
de acreditar que Deus criou o mundo e tudo o que existe nele. Coisa
bem diferente é querer impingir essa maneira de enxergar a natureza
às crianças em idade escolar, renegando fatos comprovados
pela ciência. Essa atitude nega às crianças os fundamentos
da razão, substituindo-os pelo pensamento sobrenatural.
Manda o bom senso que não se misturem ciência e religião.
A primeira perscruta os mistérios do mundo físico; a segunda,
os do mundo espiritual. Elas não necessariamente se eliminam.
Há cientistas eminentes que cr
eem em Deus e não veem nisso nenhuma contradição
com o darwinismo. O mais conhecido deles é o biólogo americano
Francis Collins, um dos responsáveis pelo mapeamento do DNA humano.
Diz ele: "Usar as ferramentas da ciência para discutir religião
é uma atitude imprópria e equivocada. A Bíblia
não é um livro científico. Não deve ser
levado ao pé da letra". A Igreja Católica aceitou
há bastante tempo que sua atribuição é cuidar
da alma de seu 1 bilhão de fiéis e que o mundo físico
é mais bem explicado pela ciência. O Vaticano até
organizará em março o simpósio "Evolução
biológica: fatos e teorias – Uma avaliação
crítica 150 anos depois de A Origem das Espécies".
Em A Origem das Espécies, num raciocínio que cabe em poucas
linhas mas expressa ideias de alcance gigantesco, Darwin produziu uma
revolução que alteraria para sempre os rumos da ciência.
Ele mostrou que todas as espécies descendem de um ancestral comum,
uma forma de vida simples e primitiva. Darwin demonstrou também
que, pelo processo que batizou de seleção natural, as
espécies evoluem ao longo das eras, sofrendo mutações
aleatórias que são transmitidas a seus descendentes. Essas
mutações podem determinar a permanência da espécie
na Terra ou sua extinção – dependendo da capacidade
de adaptação ao ambiente. Uma década depois da
publicação de seu livro seminal, o impacto das ideias
de Darwin se multiplicaria por mil com o lançamento de A Descendência
do Homem, obra em que mostra que o ser humano e os macacos divergiram
de um mesmo ancestral, há 4 milhões de anos.
O embate entre evolucionistas e criacionistas teria causado um desgosto
profundo a Darwin, que era religioso e chegou a se preparar para ser
pastor da Igreja Anglicana. Esse plano foi interrompido pela fantástica
aventura que protagonizou entre 1831 e 1836, em viagem a bordo do Beagle,
um pequeno navio de exploração científica, numa
das passagens mais conhecidas da história da ciência. Aos
22 anos, Darwin embarcou no Beagle para servir de acompanhante ao capitão
do barco, o aristocrata inglês Robert Fitzroy. Durante a viagem,
que se estendeu por quatro continentes, Darwin deu vazão à
curiosidade sobre o mundo natural que o acompanhava desde a infância.
Até a volta à Inglaterra, havia recolhido 1 529 espécies
em frascos com álcool e 3 907 espécimes preservados. Darwin
escreveu um diário de 770 páginas, no qual relata suas
experiências nos lugares por onde passou. No Brasil, visitou o
Rio de Janeiro e a Bahia, extasiando-se com a biodiversidade da Mata
Atlântica – mas ficou horrorizado com a escravidão
e com a maneira como os escravos eram tratados.

O pescoço da girafa
Anterior a Darwin, o naturalista francês Lamarck elaborou a primeira
teoria da evolução. Para ele, o pescoço da girafa
teria esticado para colher folhas e frutos no alto das árvores.
A seleção natural de Darwin explica melhor: em grandes
períodos de seca, só os animais de pescoço mais
longo conseguiam se alimentar, o que favoreceu a reprodução
dos pescoçudos - Frans Lanting/Corbis/Latinstock
Durante a viagem, Darwin fez as principais observações
que o levariam a formular a teoria da evolução pela seleção
natural. Grande parte delas teve como cenário as Ilhas Galápagos,
no Oceano Pacífico. Lá, reparou que muitas das espécies
eram semelhantes às que existiam no continente, mas apresentavam
pequenas diferenças de uma ilha para outra. Chamaram sua atenção,
principalmente, os tentilhões, pássaros cujo bico apresentava
um formato em cada ilha, de acordo com o tipo de alimentação
disponível. A única explicação para isso
seria que as primeiras espécies de animais chegaram às
ilhas vindas do continente. Depois, desenvolveram características
diferentes, de acordo com as condições do ambiente de
cada ilha. Era a prova da evolução. Mais recentemente,
ao estudarem os mesmos tentilhões das Ilhas Galápagos,
grupos de biólogos observaram a evolução ocorrer
em tempo real. Os pássaros evoluíam de um ano para outro,
de acordo com as mudanças nas condições climáticas
da ilha. Darwin, que definiu a evolução como um processo
invariavelmente longo, através das eras, ficaria espantado com
as novas descobertas em seu parque de diversões científico.
Ao retornar à Inglaterra, após a viagem do Beagle, Darwin
foi amadurecendo a teoria da evolução e começou
a escrever A Origem das Espécies dois anos depois, em 1838. Só
publicou o volume, no entanto, após 21 anos. Ele sabia do potencial
explosivo de suas ideias na ultraconservadora Inglaterra do século
XIX – da qual, ele próprio, era um legítimo representante.
Elaborar uma teoria que ia contra os dogmas da Bíblia era, para
Darwin, motivo de enorme angústia. Não colaboravam em
nada os temores de sua mulher, Emma, de que, por causa de suas ideias,
Darwin fosse para o inferno após a morte, enquanto ela iria para
o céu – com isso, eles estariam condenados a viver separados
na vida eterna. Darwin nunca declarou que a Bíblia estava errada.
Manteve a fé religiosa até os últimos anos de vida,
quando se declarou agnóstico – segundo seus biógrafos,
sob o impacto da morte da filha Annie, aos 10 anos de idade.
Após o lançamento de A Origem das Espécies, um
best-seller que esgotou rapidamente cinco edições, os
cientistas não demoraram a aceitar a proposta de que as plantas
e os animais evoluem e se modificam ao longo das eras. Na verdade, essa
ideia chegou a ser formulada por outros cientistas, inclusive pelo avô
de Darwin, o filósofo Erasmus Darwin. A noção de
que a evolução das espécies se dá pela seleção
natural, no entanto, é original de Charles Darwin, e só
foi aceita integralmente depois da descoberta da estrutura do DNA, em
1953. Darwin atribuiu a transmissão de características
entre as gerações a células chamadas gêmulas,
que se desprenderiam dos tecidos e viajariam pelo corpo até os
órgãos sexuais. Lá chegando, seriam copiadas e
passadas às gerações seguintes. Os estudos feitos
com ervilhas pelo monge austríaco Gregor Mendel na segunda metade
do século XIX, mas aos quais a comunidade científica só
deu importância no início do século XX, estabeleceram
a ideia básica da genética moderna, a de que as características
de cada indivíduo são transmitidas de pais para filhos
pelo que ele chamou de "fatores", e hoje se conhece como genes.
Com as ervilhas de Mendel, o processo concebido por Darwin teve comprovação
científica. A descoberta da dupla hélice do DNA, pelos
cientistas James Watson e Francis Crick, em 1953, finalmente esclareceu
o mecanismo por meio do qual a informação genética
é transmitida através das sucessivas gerações.
Hoje, os biólogos se dedicam a responder a questões ainda
em aberto no evolucionismo, como quais são exatamente as mudanças
genéticas que provocam as adaptações produzidas
pela seleção natural. É espantoso que, enquanto
continuam a desbravar territórios na ciência, as ideias
de Darwin ainda despertem tanto temor.
Com reportagem de Leandro Narloch, Paula Neiva e Renata
Moraes
Fonte : http://veja.abril.com.br/110209/p_072.shtml
Evolução - Por que Darwin ainda tem a chave da vida
170 anos depois da viagem na qual revolucionou
a ciência, o naturalista e suas teses continuam atuais
Por Thereza Venturoli e Okky de Souza
O Museu Americano de História Natural, em Nova
York, inaugurou há uma semana a mais completa exposição
já realizada sobre a vida e a obra do naturalista inglês
Charles Darwin, o criador da teoria da evolução das espécies.
A mostra reúne manuscritos originais, fósseis que ilustram
suas teorias e uma coleção de plantas, insetos, lagartos
e tartarugas gigantes sobre as quais ele se debruçou em pesquisas
até sua morte, em 1882. Depois viajará por outras cidades
americanas e pelo Canadá até aportar na Inglaterra, em
2009, quando se comemorarão os 200 anos de nascimento de Darwin.
O significado simbólico da exposição é grande.
Entre os importantes pensadores que ajudaram a moldar a civilização
nos últimos 150 anos, Darwin é aquele cujas idéias
exercem a mais consistente influência na formação
do pensamento moderno. A psicanálise de Sigmund Freud foi colocada
em xeque pelas correntes atuais da psicologia. As teorias econômicas
de Karl Marx naufragaram junto com a experiência comunista. A
relatividade de Albert Einstein permanece como uma idéia de ponta
na física, mas pouca gente entende o significado de suas equações.
Darwin transformou radicalmente a concepção humana da
natureza e da vida. Sem suas teorias, a biologia não teria chegado
às células-tronco e aos alimentos transgênicos e
estaríamos longe de decifrar o genoma humano.
O deslumbramento diante da natureza sempre provocou no homem a indagação
crucial: como surgiu isso tudo? Até meados do século XIX,
a essa pergunta cabia apenas uma resposta aceita pelo senso comum. Todas
as maravilhas da natureza, inclusive o homem, foram criadas por Deus.
A explicação prevaleceu até que, em 1859, Darwin
publicou A Origem das Espécies, o livro que provocou uma revolução
na biologia ao apresentar evidências de que os seres vivos não
surgiram prontos, na forma em que os conhecemos, como diz a Bíblia.
Eles evoluem através dos tempos, sempre se modificando, e em
muitos casos se extinguem. O livro de Darwin afirmava ainda que todas
as espécies teriam se originado de uma única forma básica
de vida que existiu há bilhões de anos. Para completar,
em seu trabalho seguinte, A Origem do Homem, lançado doze anos
depois, o naturalista desnudou a idéia do ser humano como uma
obra especial da natureza. Nele, explicava que os homens têm um
ancestral em comum com os macacos. No comentário do próprio
Darwin, na Inglaterra conservadora da era vitoriana defender teorias
desse quilate era como "confessar um assassinato".
Na época em que Darwin lançou suas teorias, os naturalistas
já desconfiavam que as espécies não permaneciam
imutáveis eternamente mas não conseguiam formular uma
tese satisfatória para explicar como as variações
ocorriam. Darwin solucionou a charada ao elaborar a teoria da evolução
pela seleção natural das espécies. Ele raciocinou
da seguinte forma. Os animais vivem numa luta contínua pela sobrevivência
e pela reprodução. Aqueles com características
que os tornem mais bem adaptados ao ambiente em que vivem têm
maiores chances de vencer essa luta, fugindo dos predadores, encontrando
alimentos com maior facilidade e sobrepujando os rivais na disputa pelo
parceiro sexual. Os vencedores transmitem essas características
a seus descendentes, que por sua vez as passam para as gerações
seguintes. A cada vez que essas características são transmitidas,
ocorrem pequenas mudanças. A acumulação dessas
alterações, ao longo do tempo, pode produzir uma nova
espécie, desde que elas estejam de acordo com as regras da biologia
e sejam adequadas ao meio ambiente.
Ao longo dos últimos 150 anos, os avanços da ciência
confirmaram a teoria de Darwin e mostraram como ela se manteve atual.
A descoberta de novos fósseis reconstituiu a evolução
da vida na Terra. O desenvolvimento da genética mostrou como
funciona a transmissão de características hereditárias
previstas na teoria de Darwin: por meio dos genes que se combinam toda
vez que um ser vivo é gerado. Darwin escreveu que o acaso representa
um papel determinante no processo de seleção natural,
ou seja, as transformações ocorrem nos seres vivos, através
das gerações, de forma aleatória. Sabe-se hoje
que as variações genéticas são realmente
acidentes de percurso que resultam em mutações. Os biólogos
concordam que a seleção natural continua imprescindível
para explicar a vida no planeta. "A conquista de Darwin é
universal, atemporal e deve valer em qualquer lugar do cosmo onde porventura
exista vida", diz o zoólogo britânico Richard Dawkins,
da Universidade de Oxford.
Ao separar Deus da ciência, Darwin abriu caminho para explicar
todos os fenômenos biológicos no contexto da própria
natureza. A principal conseqüência disso é que hoje
a ciência busca sempre as causas primeiras de todos os fenômenos
que analisa. Suas idéias sempre foram combatidas pelos chamados
criacionistas, que crêem na criação do mundo descrita
no Gênesis. O mais recente round dessa briga ocorre atualmente
nas escolas públicas americanas. Muitas delas passaram a apresentar
a teoria de Darwin apenas como uma das explicações possíveis
para a história da vida na Terra. A principal alternativa oferecida
aos alunos é a teoria chamada de "design inteligente".
Segundo seus adeptos, alguns elementos da natureza, como as células
e o olho humano, são construções tão perfeitas
e as diversas partes que as compõem se encaixam de forma tão
engenhosa que elas só podem ter sido criadas por um projetista,
ou seja, uma inteligência superior. Vários estados americanos
já adotaram o ensino do design inteligente, gerando uma interminável
briga nos tribunais com grupos de pais de alunos que discordam de que
a teoria seja ensinada a seus filhos. Os cientistas consideram o design
inteligente uma aberração. "Todo biólogo sabe
que a evolução tem conseqüências importantes
na definição de políticas ambientais, energéticas
e de saúde", disse a VEJA o filósofo Daniel Dennett.
As principais pesquisas de Darwin foram feitas durante uma aventura
que daria um filme. Em dezembro de 1831, então com 22 anos, o
naturalista, filho de um influente médico inglês, embarcou
no navio Beagle para uma viagem em volta do mundo. Ao chegar ao Arquipélago
de Galápagos, no Oceano Pacífico, a 1.000 quilômetros
da costa do Equador, Darwin começou a delinear sua teoria da
evolução. As cinco semanas passadas em meio a tartarugas
gigantes, aves e lagartos exóticos chamaram sua atenção
para o fato de que muitas das espécies eram semelhantes às
que existiam no continente, mas apresentavam pequenas diferenças
de uma ilha para outra. A explicação só podia ser
esta: as primeiras espécies de animais chegaram às ilhas
vindas do continente. Depois, desenvolveram diferentes características,
de acordo com as condições do ambiente de cada ilha. Ou
seja, a evolução seguiu caminhos variados. A descoberta
era fantástica e perturbadora – tão perturbadora
que Darwin, que era religioso e chegou a estudar teologia para ser sacerdote,
levou 21 anos para ter coragem de publicar suas conclusões. De
volta à Inglaterra, ele casou-se com uma prima, Emma, e teve
dez filhos. Segundo seus biógrafos, o golpe final em suas crenças
religiosas foi a morte da filha mais velha, Annie, aos 10 anos. Darwin
morreu dizendo-se agnóstico. Para quem crê na mão
de Deus por trás da criação da natureza, ele continua
a ser uma pedra no sapato. Para a ciência, permanece como um libertador
das amarras do sobrenatural.

ÁRVORE DA VIDA
Rabiscos no caderno de Darwin: todas as espécies se relacionam
"Darwin fascina até seus críticos"
O biólogo Niles Eldredge, curador da exposição
Darwin e do departamento de paleontologia do Museu Americano de História
Natural, de Nova York, é autor, em conjunto com colegas das universidades
de Rochester e Harvard, de uma teoria que desafia certos aspectos das
idéias darwinianas. Intitulada Equilíbrio Pontuado (Punctuated
Equilibrium, em inglês), sustenta que a evolução
se dá em picos rápidos – o que significa alguns
milhares de anos –, intercalados por períodos estáticos.
Eldredge, que já publicou estudos sobre a relação
existente entre a evolução e a extinção
das espécies, atualmente busca, por meio de pesquisas científicas,
integrar padrões repetitivos da vida com a teoria da evolução.
Ele conversou com a repórter Tania Menai em seu escritório,
no Museu Americano de História Natural.
O QUE MAIS FASCINOU O SENHOR NA MONTAGEM DESSA
EXPOSIÇÃO?
A criatividade de Darwin quando ele era jovem. Durante a viagem no Beagle,
ele manteve a mente aberta e observou os sinais da natureza. De volta
à Inglaterra, começou a juntar as peças e formulou
as primeiras idéias sobre a evolução das espécies.
Mesmo as pessoas que discordam das idéias de Darwin são
fascinadas por esse homem.
O LIVRO DE DARWIN SOBRE A EVOLUÇÃO
DAS ESPÉCIES É UMA DAS OBRAS MAIS INFLUENTES DE TODOS
OS TEMPOS. POR QUE ESSE ASSUNTO TANTO NOS FASCINA?
Todos os seres humanos são fascinados pelo tema porque ele nos
faz pensar sobre quem somos e de onde viemos.
QUAL A IMPORTÂNCIA DO TRABALHO DE DARWIN
NA ERA DO DNA, DO GENOMA E DO BIOTERRORISMO?
Se não soubéssemos das possibilidades da evolução
e que ela funciona por mutação e seleção
natural, não teríamos idéia de que devemos nos
preocupar com o surgimento da gripe aviária. Trata-se de uma
nova forma de vírus evoluído, que pode se espalhar de
humano para humano.
COMO O SENHOR VE O DESIGN INTELIGENTE, O CONCEITO
DE QUE A VIDA FOI CRIADA POR UM SER SUPERIOR, SENDO INTRODUZIDO NAS
AULAS DE CIÊNCIAS EM ALGUMAS ESCOLAS PÚBLICAS AMERICANAS?
As escolas devem saber que existem objeções religiosas
à teoria da evolução. Mas não devem ensinar
o Design Inteligente como se fosse ciência de verdade. Esse conceito
não é científico.
A EXPOSIÇÃO PREOCUPOU-SE EM EXPLICAR
QUE "TEORIA NÃO É UM FATO". O QUE SIGNIFICA?
Teorias significam achismos numa linguagem coloquial. Por outro lado,
são o pilar central das explicações dos fenômenos
naturais. Os mecanismos quânticos, as placas tectônicas
e a relatividade são teorias. A evolução também.
DARWIN VISITOU O BRASIL. QUE IMPRESSÃO
ELE TEVE DO PAÍS?
Darwin ficou mal impressionado com a escravidão. Ele via todos
os seres humanos como membros de uma única espécie e considerava
a escravidão inaceitável. Por outro lado, Darwin ficou
maravilhado com a possibilidade de comparar a diversidade da vida existente
nas águas costeiras com a diversidade biológica na floresta
que podia ser vista da praia.
O QUE DARWIN PENSARIA DESSA EXPOSIÇÃO?
Ele era um homem modesto. Talvez ficasse encabulado com a atenção
recebida por sua vida e obra. Se tivesse oportunidade de ver os dias
atuais, Darwin ficaria fascinado com os avanços da ciência,
especialmente a genética e a paleontologia. Acredito que ele
não se surpreenderia, mas certamente ficaria desapontado ao descobrir
que tantos americanos ainda rejeitam sua teoria baseados em argumentos
religiosos.
Origens da Origem
De como Charles Darwin concebeu A Origem das Espécies
e aprofundou suas teses
Por Carlos Graieb
Embora os gênios costumem ser representados como
pessoas "inspiradas", que têm idéias brilhantes
a partir do vácuo, o fato é que quase sempre o inverso
é verdadeiro. Em vez de ser atingidos por um raio fulminante,
homens que entram para a História como luminares trabalham anos
e anos em suas teses revolucionárias. O naturalista inglês
Charles Darwin (1809-1882) é um ótimo exemplo disso. Ele
ficou conhecido como o pai do evolucionismo. Sua teoria diz que as várias
espécies de vida não foram criadas já "prontas",
mas evoluíram no correr das eras, obedecendo ao princípio
da "seleção natural". Quando Darwin é
mencionado, é inevitável que logo em seguida surja o nome
de sua obra-prima, A Origem das Espécies (1859), em que ele condensou
suas idéias pela primeira vez. Mas Darwin não foi autor
de um livro só. Ele trabalhou na teoria da evolução
por vinte anos, antes de publicá-la. E, nos anos que se seguiram
a 1859, continuou apurando seus argumentos. Será que é
importante conhecer os textos que vieram antes e depois de A Origem
das Espécies? É claro que sim, e uma prova em dose dupla
acaba de chegar às livrarias. O Darwin "aprendiz" está
em As Cartas de Charles Darwin (tradução de Vera Ribeiro;
Unesp/Cambridge; 339 páginas; 32 reais), uma excelente coletânea
que cobre os anos de 1825 a 1859. Já o Darwin maduro, que aprofunda
suas teses, está em A Expressão das Emoções
no Homem e nos Animais (tradução de Leon de Souza Lobo
Garcia; Companhia das Letras; 376 páginas; 26 reais), um clássico
traduzido pela primeira vez para o português.
Enquanto escrevia A Origem das Espécies, Darwin se viu atormentado
por uma dúvida: abordar ou não a evolução
humana. Ele sabia que os religiosos atacariam violentamente o livro.
Falar sobre o homem era jogar mais lenha na fogueira. Assim, ele apenas
deixou implícito que os humanos tinham evoluído de ancestrais
primitivos, em vez de ter sido sido criados "à imagem e
semelhança de Deus". Uma discussão minuciosa só
veio bem mais tarde, com os dois volumes de A Descendência do
Homem (1871) e, posteriormente, com A Expressão das Emoções
no Homem e nos Animais. Este último, lançado em 1872,
visava à derrubada de um tabu: o de que apenas os homens podem
externar emoções, pois seu rosto foi esculpido para expressar
"as coisas sutis do espírito". A primeira parte da
argumentação no livvro talvez pareça banal, mas
não era tão fácil de engolir 130 anos atrás.
Observando animais domésticos e selvagens, Darwin demonstra que
a habilidade de expressar emoções não é
algo que torne os humanos especiais, pelo contrário: é
algo que compartilhamos com todos os outros bichos. A segunda parte
do argumento é mais importante. Ela diz que os "movimentos
expressivos" também são fruto da evolução,
ou seja, se consolidaram nas espécies ao longo do tempo. Segundo
Darwin, o fato de as expressões humanas serem as mesmas entre
ingleses e nativos da Polinésia não quer dizer que todos
foram "criados iguais", mas sim que são descendentes
de um mesmo ancestral.
Darwin passou uma década procurando a melhor forma de abordar
"o problema do homem". Foram precisos quase vinte anos para
que ele desse forma à teoria da evolução. No volume
de sua correspondência, há páginas fundamentais
sobre seu método de trabalho, suas dúvidas e certezas.
Em 1844, por exemplo, ele fez suas primeiras confissões a um
colaborador: "Estou quase convencido de que as espécies
não são (isto é como confessar um assassinato)
imutáveis". Mas há muito mais nas cartas: opiniões
políticas, relatos de viagem, intimidades. Por meio delas pode-se
constatar, por exemplo, o ferrenho antiescravismo de Darwin. No campo
das viagens, a mais importante é sem dúvida a que ele
empreendeu a bordo do Beagle, um navio que o trouxe aos trópicos,
onde recolheu amostras de flora e fauna e teve os primeiros lampejos
da teoria da evolução. No trajeto, Darwin passou pelo
Brasil. Aportou na Bahia e no Rio de Janeiro e, em 1º de março
de 1832, fez uma descrição de Salvador, deixando-se contaminar
pelo espírito da terra: "Dá vontade de levar uma
vida sossegada numa região assim". Um dos aspectos mais
curiosos da vida de Darwin foi sua saúde: ele sofria com misteriosas
dores de estômago, tinha tremores e vômitos incontroláveis.
As causas dessa doença nunca foram esclarecidas, mas a epopéia
estomacal está toda registrada nas cartas.
O século XX foi pródigo na derrubada de totens. Karl Marx
veio ao chão com o Muro de Berlim. Sigmund Freud ficou capenga,
pois muitas de suas hipóteses não puderam ser comprovadas.
Mas Darwin resistiu e resiste aos ataques mais duros. Hoje, a maioria
de seus opositores se reúne sob o rótulo do criacionismo.
Eles continuam defendendo a idéia de que Deus criou as formas
de vida tais como elas são. De tempos a tempos, até obtêm
uma vitória política. Em 1999, no Estado americano do
Kansas, impediram por lei que a evolução fosse ensinada
em algumas escolas. Mas, no campo estritamente científico, não
adianta espernear: a biologia é uma disciplina darwinista. A
cada dia surgem novas linhas de estudo ancoradas no darwinismo. Os pesquisadores
podem até discordar em minúcias. Uns dizem que a evolução
é gradual; outros, que ela ocorre em saltos. Mas um ponto ninguém
põe em questão. E ele é justamente a genialidade
de Darwin.
Espírito animal
Em trechos do livro de 1872, Charles Darwin mostra
que a expressão de sentimentos não é prerrogativa
do gênero humano, e sim algo comum a várias espécies.
Alguns exemplos
O medo nos cães
Mesmo o mais fraco dos medos é invariavelmente demonstrado
colocando-se o rabo entre as pernas. Esse gesto é acompanhado
pelo repuxar das orelhas; mas elas não são coladas contra
a cabeça como quando o cão rosna e também não
são abaixadas como quando ele se sente satisfeito e afetuoso.
A afeição nos gatos
Eles se mantêm em pé, de costas levemente arqueadas, cauda
erguida perpendicularmente e orelhas em pé. O desejo de roçar-se
em alguma coisa é tão forte nesse estado de espírito
que eles freqüentemente podem ser vistos roçando-se contra
pés de cadeiras e mesas, ou contra batentes de porta.
A fúria nos cavalos
Os cavalos, quando enfurecidos, jogam suas orelhas para trás,
projetam a cabeça e descobrem parcialmente os dentes incisivos,
prontos para morder. Quando dispostos a dar coices, geralmente, por
hábito, repuxam as orelhas; e seus olhos voltam-se para trás
de maneira peculiar.
O prazer nos macacos
Eles mostram os dentes e soltam uma espécie de risada. Tão
logo sua risada desaparece, uma expressão, que podemos chamar
de um sorriso, passa pelo seu rosto. Ou seja, uma expressão de
satisfação, da mesma natureza que um sorriso incipiente
e semelhante àquela tantas vezes vista no rosto do homem, pode
ser nitidamente reconhecida nesse animal.
Onde Darwin é só mais uma teoria
Nas escolas evangélicas, os alunos aprendem que
o evolucionismo existe, mas que a razão está com a Bíblia
por Carolina Romanini
As escolas brasileiras ligadas a instituições
religiosas sempre ensinaram o criacionismo. Seja nas aulas de religião,
seja nos cultos, os alunos aprendem que Deus criou o mundo e todos os
seres que o habitam. A triste novidade é que, na maioria das
escolas mantidas por confissões evangélicas, o criacionismo
passou a ser ensinado também nas aulas de ciências e de
biologia, dividindo território com o evolucionismo de Charles
Darwin. No fim do ano passado, o Colégio Presbiteriano Mackenzie,
de São Paulo, trocou os livros convencionais de ciências
do ensino fundamental I por apostilas traduzidas da Associação
Internacional das Escolas Cristãs nos Estados Unidos. Com o novo
material didático, até a 4ª série os alunos
da instituição aprendem apenas a versão criacionista
do mundo e da vida. Da 5ª série em diante, Darwin entra
em cena. O evolucionismo passa a fazer parte das aulas de biologia,
mas informa-se aos alunos que, entre as duas teorias, a escola prefere
aquela amparada na Bíblia. "Não viramos criacionistas
do dia para a noite. Nossa escola tem 138 anos, e durante todo esse
tempo fomos criacionistas", diz a professora Débora Muniz,
diretora do Colégio Presbiteriano Mackenzie.
Os adventistas, que mantêm a maior rede de escolas evangélicas
do país, com 130?000 alunos, optaram por outro caminho para ensinar
o criacionismo em sala de aula. Há cinco anos, empreenderam uma
total reformulação nos livros didáticos de ciências
produzidos por uma das 56 editoras mantidas pela igreja. Agora, os livros
contrapõem a teoria bíblica à ciência em
diversos capítulos, deixando claro que consideram que a segunda
nem sempre é verdadeira. No capítulo das origens do universo
e da vida, Darwin é impiedosamente surrado. Diz o texto a certa
altura, tropeçando no português: "Muitos ensinam a
evolução como se ela fosse um fato cientificamente comprovado.
Isso não é verdade e nem honesto, já que não
se podem provar cientificamente as origens da vida". Os criacionistas
sustentam suas posições antidarwinistas alegando que o
criacionismo não se mantém apenas pela fé, mas
também pela comprovação científica. Diz
o professor Nahor Neves de Souza Júnior, do Centro Universitário
Adventista de São Paulo: "As descrições literais
e históricas da Bíblia, incluindo o livro do Gênesis,
estão sendo progressivamente confirmadas pelas mais recentes
descobertas arqueológicas no Oriente Médio".

Em nome do Senhor
Débora Muniz, diretora do Colégio Presbiteriano Mackenzie,
de São Paulo, defende a troca dos livros de ciências convencionais
por apostilas de conteúdo criacionista até a 4ª série,
feita no ano passado: "O evolucionismo é apresentado no
momento certo"
As escolas evangélicas batistas veem com desconfiança
o material didático produzido especialmente para introduzir o
criacionismo nas aulas de ciências – tanto o importado quanto
o preparado por autores brasileiros. Os batistas preferem usar os livros
didáticos convencionais, utilizados também nas escolas
laicas, e introduzir o criacionismo por meio da Bíblia e de livros
de apoio sobre temas religiosos. O Ministério da Educação
não apoia o ensino do criacionismo nas aulas de ciências,
mas não pode proibi-lo. A única exigência do órgão
é que os livros didáticos, mesmo defendendo a teoria bíblica
da criação, apresentem simultaneamente a versão
evolucionista consagrada pela ciência. "Não aprovamos
livro didático que trate do criacionismo apenas. Temos uma posição
muito clara, a de que o criacionismo é para ser lecionado e discutido
na aula de religião", diz Maria do Pilar Lacerda, secretária
de Educação Básica do Ministério da Educação.
Essa conduta é adotada pelas escolas católicas, que evidentemente
sustentam os dogmas bíblicos, mas separam a religião da
ciência. "Sabemos que o criacionismo é uma teoria
de fé e que o evolucionismo é ciência. Não
podemos contrastá-los em sala de aula", diz o paranaense
Dilnei Lorenzi, secretário executivo da Associação
Nacional de Educação Católica.
Nas salas de aula, as escolas evangélicas não chegam a
desqualificar as ideias de Darwin como fraudes. Elas aceitam que os
animais evoluam ao longo das eras, mas não que uma espécie
possa gerar outra completamente diferente, e muito menos que o homem
e os macacos tenham ancestrais comuns. Com relação a outros
aspectos do mundo animal, os evangélicos têm posições
bem mais controvertidas. Os fósseis seriam restos de animais
que morreram durante o dilúvio bíblico, que data de 2400
a.C. Os dinossauros também teriam sido extintos na mesma enxurrada,
e não 65 milhões de anos atrás, como ensinam os
cientistas. Os dinossauros não poderiam ter existido há
tanto tempo – os evangélicos acreditam que o mundo tenha
sido criado em 4004 a.C., data estabelecida no século XVII pelo
bispo irlandês James Ussher.
Os alunos das escolas evangélicas não são necessariamente
seguidores da religião pela qual elas se orientam. Nas escolas
adventistas, por exemplo, 70% dos estudantes não seguem essa
doutrina. Os pais de alunos das escolas evangélicas não
costumam reclamar do fato de seus filhos serem instruídos no
criacionismo em detrimento da ciência. Dizem ter escolhido a escola
por acreditar que ela incute nas crianças valores morais, éticos
e cristãos. "Nossa escola forma verdadeiros cidadãos.
De que adianta o adolescente estar preparado para o vestibular se não
tiver uma boa formação como ser humano?", diz a baiana
Selma Reis Guedes, uma das diretoras do Colégio Batista Brasileiro,
de São Paulo.

Longe do muro
Selma Reis Guedes é a responsável pelo atendimento religioso
de pais e alunos no Colégio Batista Brasileiro, de São
Paulo, que usa livros de ciência convencionais, mas defende o
criacionismo. "Não podemos ficar em cima do muro. Por que
não ensinar criacionismo se é nisso que acreditamos?",
ela diz - Foto - Lailson Santos
À época em que governava o Rio de Janeiro,
Rosinha Garotinho tentou implantar aulas de religião com viés
criacionista nas escolas do estado. Em abril de 2004, a governadora
chegou a declarar publicamente que não acreditava na teoria da
evolução. O projeto causou polêmica, principalmente
entre a comunidade científica, e foi oficialmente implantado,
mas não vingou. A pedido do arcebispo do Rio de Janeiro, dom
Eusébio Scheid, o novo prefeito do Rio, Eduardo Paes, que é
católico, pretende implantar o ensino religioso nas escolas públicas
do município. Segundo fontes da Secretaria da Educação
da prefeitura carioca, no entanto, o mais provável é que
o projeto não saia do papel.
Embora as escolas evangélicas brasileiras procurem conciliar
as ideias darwinistas com o criacionismo, a verdade é que, para
os defensores da versão bíblica da criação
do mundo, a teoria da evolução representa um inimigo a
ser combatido a todo custo. Nos Estados Unidos, a oposição
ao darwinismo se tornou uma guerra que frequentemente chega aos tribunais.
Nos últimos anos, muitas escolas americanas de ensino fundamental
e médio simplesmente subs–tituí-ram os ensinamentos
de Darwin pelo criacionismo nas aulas de ciências e de biologia.
Duas dezenas de estados americanos já criaram leis que obrigam
os colégios a ensinar o criacionismo ao lado da teoria da evolução.
O último deles foi a Louisiana, em junho do ano passado. A manobra
é constantemente motivo de processos judiciais por parte de pais
de alunos – que em geral são derrotados nas decisões
dos juízes.
Os criacionistas americanos se reúnem em organizações
influentes e com forte lobby político. De tempos em tempos eles
aperfeiçoam seu arsenal de argumentos para desqualificar Darwin.
Um dos mais recentes é que certos elementos da natureza são
tão complexos que só podem ter sido criados por uma inteligência
superior. Como o olho humano. No reino animal, um bom exemplo de design
inteligente é o besouro-bombardeiro, chamado de "o besouro
de Deus". Comum em várias regiões do mundo, esse
artrópode é dono de um sistema de ataque que lembra uma
complexa arma militar. Duas bolsas localizadas em seu abdômen
armazenam, separadamente, água oxigenada e hidroquinona, substâncias
que entram em ebulição ao ser misturadas. Diante do predador,
o besouro abre uma câmara de combustão e mistura os dois
líquidos. Depois comprime a bolsa, disparando a solução
tóxica por meio de um jato fortíssimo.
Os evolucionistas explicam que as substâncias que o besouro armazena
são comumente produzidas por artrópodes, como também
são corriqueiras nesses animais as vesículas de reserva
de líquidos. Por acaso, ao longo da evolução, líquidos
e bolsa se concentraram numa determinada espécie. De qualquer
forma, a ideia de que os seres vivos são o resultado de um planejamento
cuidadoso realizado por um designer inteligente não resiste ao
menor exame. Veja o exemplo do engasgo, que pode levar uma pessoa à
asfixia e à morte. Os seres humanos engasgam porque têm
a laringe em posição muito baixa na garganta, se comparada
à dos chimpanzés e à da maioria dos mamíferos.
Esse arranjo adaptativo permite a modulação dos sons e,
por consequência, a fala. É excelente do ponto de vista
da sobrevivência da espécie, mas atrapalha quando se trata
de respirar e comer ao mesmo tempo. Se o homem tivesse tido um designer
mais inteligente, esse problema teria sido evitado com a simples colocação
das tubulações – a da respiração e
a da alimentação – bem distante uma da outra. É
por isso que o biólogo Francisco Ayala, da Universidade da Califórnia,
definiu a seleção natural como o "design sem um designer".
Apoio discreto
Professor e alunos numa aula de ciências no Colégio Cristão,
de Belo Horizonte, de orientação batista: o criacionismo
aparece só em materiais de apoio
- Foto - Nelio Rodrigues
A mais recente estratégia dos criacionistas americanos
para implantar os dogmas da Bíblia nas aulas de ciências
das escolas públicas é sustentar o discurso de que a liberdade
acadêmica deve ser preservada a qualquer custo. O texto da lei
que tornou obrigatório o ensino do criacionismo nas escolas da
Louisiana afirma que é preciso "ajudar os professores a
criar nas escolas um ambiente que promova o pensamento crítico,
a análise lógica e a discussão objetiva das teorias
científicas". Além disso, diz a lei, "deve-se
incentivar os alunos a analisar com objetividade as teorias estudadas".
São sábios conselhos, ninguém duvida. Apenas não
estão a serviço do aperfeiçoamento das instituições
acadêmicas, mas das aspirações dos criacionistas
de universalizar suas ideias nas salas de aula. O conceito de liberdade
acadêmica é o tema central do primeiro filme destinado
a panfletar as ideias criacionistas, Expelled: No Intelligence Allowed,
lançado nos Estados Unidos há dez meses (e massacrado
pela crítica). O filme denuncia uma suposta conspiração
por parte da comunidade científica americana contra o criacionismo.
Uma pesquisa recente da Universidade da Pensilvânia mostrou que,
nos Estados Unidos, um em cada oito professores do ensino médio
apresenta o criacionismo a seus alunos como "uma alternativa cientificamente
válida para a explicação darwinista sobre a origem
das espécies". No Brasil, não existem estatísticas
sobre o assunto, mas, pelo avanço criacionista nas aulas de ciências
das escolas evangélicas, pode-se apostar que os dogmas da Bíblia
estão em alta no meio educacional.
O julgamento do macaco
Em 1925, o professor de biologia John T. Scopes,
de 24 anos, foi julgado por violar a lei que proibia o ensino da teoria
da evolução nas escolas públicas do Tennessee.
"O julgamento do macaco", como ficou conhecido, contrapôs
o promotor William Jennings Bryan, candidato derrotado três vezes
à Presidência dos Estados Unidos, ao advogado Clarence
Darrow e deu visibilidade global ao tema. Scopes foi condenado a pagar
a irrisória multa de 100 dólares, mais tarde revogada.

CONFRONTO NO TRIBUNAL
Spencer Tracy e Fredric March em O Vento Será Tua Herança
A duração do dia do Senhor
"O julgamento do macaco" chegou às
telas do cinema pela primeira vez em 1960, com O Vento Será
Tua Herança. Ao lado, a transcrição de trecho
do debate entre os personagens Henry Drummond (o advogado de defesa
representado por Spencer Tracy) e Matthew Harrison Brady (o promotor
interpretado por Fredric March). Na versão cinematográfica,
a defesa usou a Bíblia para demonstrar a fragilidade das teses
do criacionismo
- veja o diálogo abaixo.
Brady: o bispo Ussher, estudioso da Bíblia, determinou dia e
hora exatos da criação. Deus iniciou a criação
em 23 de outubro do ano 4004 a.C., às 9 horas.
Drummond: no horário da costa leste ou das Montanhas Rochosas?
Não era horário de verão, já que Deus não
criou o sol antes do quarto dia, certo?
Brady: certo.
Drummond: quanto tempo o senhor acha que durou esse
primeiro dia? Vinte e quatro horas?
Brady: a Bíblia diz que foi um dia.
Drummond: não havia sol. Como o senhor sabe quanto
tempo durou? É possível que tenha durado 25 horas, já
que não havia um método para saber?
Brady: é possível.
Drummond: o primeiro dia, tal qual descrito no livro
do Gênesis, poderia ter durado por tempo indeterminado?
Brady: quero dizer apenas que não foi necessariamente
um dia de 24 horas.
Drummond: poderia ter durado uma semana, um ano, 100
anos ou 10 milhões de anos. A Bíblia é um livro.
Um bom livro, mas não o único.
Brady: é a palavra revelada por Deus aos homens
que a escreveram.
Drummond: como o senhor pode saber que Deus não
falou com Charles Darwin?
Brady: Deus ordena que eu me oponha aos ensinamentos
malignos desse homem.
Drummond: Deus fala com o senhor? Diz-lhe o que é
certo e errado?
Brady: sim!
A ciência e a fé já foram unidas
Ensinar Adão e Eva nas aulas de ciências
é treva.
Astrologia é charlatanismo. Mas grandes descobertas científicas
foram feitas por gênios que conviveram bem com ideias religiosas
e até superstições.
O primeiro místico e o primeiro cientista foram
uma mesma pessoa, um Homo sapiens qualquer que, olhando para o céu
noturno há 30.000 anos, viu a lua cheia e se encheu de devoção
e conjecturas. Partes diferentes de seu cérebro processaram à
sua maneira a informação visual captada pelos olhos. Uma
delas, o lobo temporal, registrou aquela luz pálida emanada de
um disco que parecia flutuar no espaço como uma experiência
sublime, inexplicável, superior, poderosa, acachapante, religiosa.
Ao mesmo tempo, outras regiões do cérebro tentavam avaliar
se aquele objeto luminoso oferecia algum perigo, se podia despencar
causando danos, se era comestível, se sua aparição
na abóbada celeste se repetiria ou se poderia ser relacionada
com algum outro fenômeno, como a escassez ou a abundância
de caça. Como sugeriu poeticamente o astrônomo francês
Guillaume Bigourdan (1851-1932), o último Homo sapiens do planeta
será talvez surpreendido pela morte quando entretido com a mesma
lua cheia e – por maiores que sejam sua educação
e treino científico, mais exata sua noção do tamanho,
das distâncias e dos formatos das órbitas – ela lhe
parecerá sublime, inexplicável, superior, poderosa, acachapante,
religiosa. Disse Bigourdan: "Isso é do homem. Contar lunações,
medir órbitas, calcular fre-quências, mas se prostrar extático
diante da imensidão do universo".
Por eras o lado místico e o científico conviveram sem
conflitos na mente humana. Com o excedente econômico trazido pelo
desenvolvimento tecnológico, as sociedades primitivas deram-se
ao luxo de ter indivíduos dedicados a tarefas específicas
– o guardião armado, o sacerdote para aplacar as fúrias
naturais e adivinhar o trajeto dos mamutes, o líder para julgar
e punir quem ferisse as regras de convivência do grupo. Mesmo
depois disso, com as tarefas práticas entregues a certos indivíduos
enquanto outros se dedicavam a magia e rituais, a fé e a razão
continuaram como campos complementares da experiência humana.
As civilizações da Antiguidade, a babilônica, a
chinesa, a persa, a hindu, a grega e a romana, tiravam sua coesão
social e sua força da fusão indelével entre o místico
e o prático. Os engenheiros romanos que projetaram e construíram
o Anio Novus, o maior aqueduto do seu tempo, com 95 quilômetros
de extensão, banharam-se em sangue de touro obedecendo a preceitos
da jus divinum (lei divina) como forma de garantir a proteção
dos deuses para seu extraordinário empreendimento. A Europa medieval
arrastou-se na névoa das crenças, com pouquíssimo
progresso tecnológico. Mas nem o advento do Iluminismo, do Método
Científico ou da Revolução Industrial fez regredir
as crenças, as superstições e o poder das religiões
de moldar o pensamento e o comportamento das pessoas.
O cientista de maior impacto na história, sir Isaac Newton (1643-1727),
ao tempo que mudava o curso do pensamento com suas leis da gravitação
universal e da mecânica clássica, considerava-se melhor
teólogo que astrônomo e via mais possibilidades na alquimia
do que no cálculo infinitesimal. O poeta Alexander Pope escreveu
o epitáfio de Newton: "Nature and nature’s laws lay
hid in night; God said ‘Let Newton be’ and all was light".
(A natureza e as leis da natureza estavam imersas na noite; Deus disse
"Que Newton seja" e tudo se iluminou.) Johannes Kepler (1571-1630),
o mais fenomenal matemático de seu tempo, escondeu por dez anos
o fato de ter confirmado as observações do astrônomo
dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601), descobridor da forma elíptica
das órbitas dos planetas do sistema solar. Escondeu por pavor
de estar cometendo uma heresia contra a visão aristotélica
da Igreja, que, já começando a aceitar a hipótese
heliocêntrica de Copérnico, determinava, porém,
que as órbitas desenhadas por Deus só podiam ser círculos
perfeitos. Na apresentação de sua obra Harmonices Mundi
(Harmonia do Mundo), Kepler se desmancha em mística adoração
pelo Criador em termos que chocariam os cientistas ou qualquer pensador
racional dos dias atuais: "Deixei-me levar pela fúria divina
e roubei os barcos dourados dos egípcios para construir uma casa
adequada ao meu Deus. Mas se isso O contrariar não hesitarei
em queimar meus estudos". Kepler, que também era astrólogo,
atribuía suas descobertas científicas a epifanias –
ou seja, a revelações divinas.

Em nome de Deus
Os astrônomos Kepler e sir Isaac Newton julgavam estar lendo a
mente divina
Fotos Bettmann/Corbis/Latinstock
Essa convivência pacífica entre
o fervor religioso e a capacidade de pensar racionalmente não
duraria muito mais tempo. Logo, a ousadia crescente dos cientistas e
filósofos surgidos a partir de meados do século XVII passaria
a se tornar um estorvo para a Igreja, em especial para a hierarquia
católica. A mais estrondosa trombada, algo que ecoou pelos séculos
até os nossos dias, foi vivida por um leitor e admirador de Kepler,
o físico, matemático e astrônomo nascido em Pisa
em 1564 que se entronizou no panteão da liberdade de pensamento
com o nome de Galileu Galilei. A perseguição empreendida
contra Galileu pelo Santo Ofício eternizou-o como um mártir
da razão que só escapou da morte depois de renegar publicamente
seu apoio à hipótese de Copérnico.
O que Galileu fez para atrair a fúria da Inquisição
católica e por que Kepler e outras grandes cabeças escaparam
ilesos? Galileu investiu diretamente contra as Escrituras e, ao contrário
de Kepler, não esperava que suas descobertas fossem apenas confirmações,
com ligeiras e aceitáveis variações, da verdade
revelada dos livros sagrados e das bulas papais. Não. Galileu
pôs de pé um conjunto de premissas que, de tão revolucionárias,
são as mesmas a presidir todas as experiências científicas
até hoje – o Método Científico. Para que
um experimento fosse científico, ensinou Galileu, entre outras
coisas, ele deveria poder ser repetido por outras pessoas, em outros
lugares e, dadas as mesmas condições, produzir os mesmos
resultados. Simples? Sem dúvida, simples. Mas revolucionário.
Um alquimista jamais se colocaria esses entraves – os ingredientes,
os processos e os saberes da alquimia eram segredos pessoais e intransferíveis
como os de um mágico. Galileu foi também um extraordinário
polemista. Ele refutou com veemência a crença predominante
de que tudo o que Deus queria que os homens soubessem sobre o céu
e a terra estava nos livros sagrados. "As Escrituras ensinam como
chegar ao céu, mas não como ele funciona", escreveu
Galileu, citando um padre e astrônomo de seu tempo. Ele elaborou:
"Não posso aceitar que a visão de Deus sobre astronomia
seja aquela que está na Bíblia. Se aceitar isso, terei
de negar sua infinita perfeição". Galileu pregava
que Deus não falou aos homens sobre astronomia e física
pelas Escrituras, mas por outra linguagem, a da natureza. Graças
a outra dádiva divina, a mente humana, essa linguagem poderia
ser lida com a ajuda da matemática, da observação,
do apego à exatidão das medidas, pelas conjecturas e,
principalmente, pela experimentação, em especial com a
matéria em movimento.

"Não se preocupe tanto com a exatidão
– ninguém vai aceitar tudo isso literalmente."
Se se pudesse fechar o foco sobre um único feito
de Galileu Galilei, ele seria, sem dúvida, o ceticismo na investigação
científica. Os sábios que andaram de mãos dadas
com as crenças religiosas de seus tempos – e Kepler é
o exemplo mais acabado – tinham a convicção de estar
apenas revelando ao mundo a perfeição da mente divina
descrita nas Escrituras ao torná-la acessível aos mortais
por meio de seus livros. Galileu era mais ambicioso. Ele tinha certeza
de que a experimentação científica captaria as
mensagens de Deus diretamente na natureza e, se elas contrariassem as
crenças religiosas, paciência. Kepler se ofereceu para
destruir seu livro. Galileu sugeriu que, quando em choque com a boa
ciência, as crenças religiosas é que deveriam ser
desprezadas. Albert Einstein reagiu como Galileu quando veio a confirmação
empírica de um dos pontos de sua Teoria da Relatividade Geral,
o que estabelecia que a luz também sofre a ação
da gravidade. Informado de que astrônomos internacionais, observando
um eclipse em Sobral, no Ceará, em 1919, haviam constatado a
deflexão da luz das estrelas nas proximidades do Sol, Einstein
rea-giu sem surpresa: "Se a luz não fosse desviada, Deus
estaria errado". Como se vê, a concepção básica
de Galileu ajudou a criar o mundo moderno. Por isso, é inevitável
a sensação de retrocesso quando se vê a multiplicação
das tentativas de ensinar Adão e Eva nas aulas de ciências
das escolas brasileiras – e não por valorizar as Escrituras.
Uma mente poderosa como a do filósofo Giambattista Vico (1668-1744)
usou argumentos de alta elaboração racional para defender
a tese de que, ao investir contra as crenças religiosas e superstições,
o ceticismo científico destruiria os fundamentos da civilização.
Pode-se concordar ou discordar de Vico, mas isso se dará no campo
da razão. O atraso mesmo está na aceitação
literal da Bíblia em questões científicas.
O poder da razão
Giambattista Vico (1668-1744) e Galileu Galilei
(1564-1642) entraram para a história do pensamento com registros
opostos. Galileu como o mártir que quase foi crucificado por
discordar do dogma católico que colocava a Terra no centro do
universo. Vico por defender que, ao enfraquecer a fé e as superstições,
o ceticismo científico era um perigo para a civilização.
O maravilhoso, no caso, é que visões tão opostas
tenham sido ambas exemplos do uso mais requintado da mente humana e
de seu instrumento, a razão.

Bloomimages/Corbis
A revolução sem fim de Darwin
Chega ao Brasil a exposição
que abre as comemorações dos 200 anos de nascimento do
cientista que explicou como a vida evolui na Terra. Ele se tornou um
herói da racionalidade
Gabriela Carelli e Leoleli Camargo
A história da viagem dele é quase tão
conhecida e reverenciada quanto a de Cristóvão Colombo.
O naturalista inglês Charles Darwin iniciou em 1831 uma viagem
pelo mundo a bordo do Beagle, um pequeno navio de exploração
científica. Quando voltou à Inglaterra, cinco anos depois,
ele trazia na bagagem um conjunto de idéias revolucionárias
que mudariam para sempre a geografia da alma humana tanto quanto Colombo
mudou a geografia terrestre. Darwin, como se sabe, é o autor
da teoria da evolução. A histórica viagem de Darwin
é o tema central de uma imponente exposição que
leva o seu nome, inaugurada na semana passada no Museu de Arte de São
Paulo (Masp), e que permanecerá em cartaz até 15 de julho.
A mostra, montada pela primeira vez em 2005, no Museu Americano de História
Natural, em Nova York, reúne reproduções de mais
de 400 itens relacionados ao naturalista e à sua viagem no Beagle,
entre animais, plantas, fósseis e paisagens. A exposição
atrai sobre Darwin a atenção que ele merece como um herói
da razão e um inimigo da superstição e da ignorância
Tamanha foi a força das revelações de Darwin sobre
a origem e a transformação do mundo animal, das plantas
e, em especial, da humanidade, que quase ninguém consegue ter
uma visão muito clara hoje em dia de como se pensavam essas coisas
antes dele. Poucas revoluções tiveram esse poder. A prova
de que a Terra é redonda é uma delas. Parece natural hoje
em dia nos vermos habitando uma esfera que gira sobre o próprio
eixo e em torno do Sol. Mas por milênios se acreditou em uma Terra
plana como um campo de futebol sustentada pelos ombros fortes de um
titã que se apóia sobre os cascos de tartarugas. A evolução
lenta das espécies ao longo das eras formando linhagens que desembocam
nos atuais seres vivos. Isso é o Darwin. Antes dele? Acreditava-se
na versão religiosa segundo a qual por volta do ano 4004 a.C.,
de uma só tacada, Deus criou o homem, a mulher e os demais seres
vivos exatamente como eles são agora. Essa visão pré-darwinista,
que só sobrevive dentro dos círculos religiosos, tem conseguido
ultimamente uma projeção assustadora. À luz desse
retrocesso, relembrar as conquistas de Darwin torna-se um imperativo.
Quando Darwin lançou A Origem das Espécies, em 1859, o
primeiro de seus livros que explicam a teoria da evolução,
cientistas e intelectuais de todos os matizes foram obrigados a se posicionar
diante dos argumentos do naturalista. Apesar do rigor científico
das pesquisas que conduzira, suas conclusões ofendiam a todos.
Conceitos arraigados havia séculos na biologia, como o de que
as espécies não mudam ao longo do tempo, caíram
por terra diante dos argumentos de Darwin. A criação do
mundo como descrita na Bíblia foi desmontada. Entre todas as
suas propostas, a mais difícil de engolir por seus contemporâneos
foi a de que o homem não é um animal superior a todos
os outros e tem ancestrais em comum com os macacos. "A publicação
de A Origem das Espécies destituiu a vida humana de qualquer
superioridade em relação aos animais, enterrou o conceito
de divindade e pôs fim a milhares de anos de irracionalidade na
comunidade científica e em parte da sociedade", disse a
VEJA o filósofo Philip Kitcher, da Universidade Columbia e autor
do livro Living with Darwin (Vivendo com Darwin). Os ataques às
idéias de Darwin prosseguiram por todo o século XX. O
naturalista foi acusado de solapar os valores tradicionais da sociedade
e de defender o determinismo genético. Os sociólogos o
criticavam por reduzir a complexidade social ao resultado de ações
individuais, instintivas e egoístas.
Depois de quase 150 anos da publicação de A Origem das
Espécies, a vitória das idéias de Darwin é
inequívoca. Entre os grandes nomes que revolucionaram a maneira
de pensar, como Karl Marx e Sigmund Freud, Darwin é o único
cujas idéias ainda servem de base sólida para avanços
extraordinários do conhecimento. Até a teoria geral da
relatividade, de Albert Einstein, tem de travar uma queda-de-braço
constante com seus adversários, os teóricos da física
quântica. Darwin só tem inimigos fora da ciência.
O desenvolvimento da genética, a partir do início
do século XX, ajudou a explicar como funciona a transmissão
das características hereditárias. O que Darwin tem a ver
com isso? Muita coisa. A possibilidade de transmissão de características
genéticas de uma geração à seguinte foi
intuída por Darwin, mas ele não viveu o suficiente para
ver esse mecanismo ser demonstrado. "Foi necessário um século
de descobertas para que a teoria da evolução de Darwin
se comprovasse plenamente, em todos os seus aspectos", disse a
VEJA o biólogo David Mindell, da Universidade de Michigan.
O caminho de Darwin até completar suas teorias foi o do estudioso
aplicado. Já a trajetória do homem por trás do
cientista foi acidentada. Embora tivesse começado a escrever
A Origem das Espécies em 1838, ele demorou 21 anos para publicar
o volume. O naturalista sabia que suas idéias cairiam como uma
bomba sobre uma sociedade habituada a buscar a verdade nas páginas
da Bíblia. Em 1844, ele escreveu a um amigo dizendo que divulgar
suas idéias seria "como confessar um assassinato".
Em sua consciência, Darwin – que era religioso – debatia-se
com questões morais aflitivas. Na juventude, pretendia tornar-se
sacerdote. Foi com espanto que viu os geólogos de seu tempo concluir:
que a Terra surgiu há milhões de anos (hoje se sabe que
são 4,5 bilhões), e não há 6.000 anos, como
querem os religiosos. À medida que seus próprios estudos
sobre a evolução das espécies se desenvolviam,
entravam em choque com todos os dogmas religiosos. Diante das idéias
de Darwin, sua mulher, Emma, com quem teve dez filhos, temia que o casal
fosse separado na eternidade – ela subiria aos céus e ele
desceria ao inferno. O naturalista debateu-se com as questões
da fé durante toda a vida. Por fim, declarou-se agnóstico.
As idéias de Darwin, aperfeiçoadas por seus discípulos
ao longo de 150 anos, são hoje um consenso entre os biólogos.
Mas continuam a incomodar o pensamento religioso. Muitas descobertas
da ciência no último século, como o surgimento do
universo através da explosão primordial, o Big Bang, de
alguma maneira se acomodaram em meio aos dogmas da fé. No caso
da gênese humana, é diferente. A teoria de que todas as
formas de vida nasceram da "sopa primeva" e evoluíram
ao longo dos milênios se choca frontalmente com o maior dos dogmas,
o que reza que o homem é a criação suprema de Deus
e foi feito à sua semelhança. Neste início do século
XXI, em que se observa uma busca intensa pela espiritualidade e pelo
misticismo como antídoto às atribulações
da vida moderna, a ira das religiões contra Darwin tem se acirrado.
Nos Estados Unidos, onde 54% dos adultos dizem descender de Adão
e Eva, segundo um levantamento recente do Instituto Harris Poll, menos
da metade das pessoas crêem na teoria da evolução
de Darwin. Muitas escolas americanas, nas aulas de ciências, decidiram
substituir os ensinamentos de Darwin por uma variante do criacionismo
batizada de "design inteligente". Segundo essa teoria, há
elementos na natureza, como o olho humano, que têm uma estrutura
tão engenhosa que só podem ter sido criados por um projetista,
ou seja, um ser superior.
As escolas infantis russas também vêm sendo palco de campanhas
contra o darwinismo. Há poucos meses, manifestando seu apoio
a um grupo de pais de alunos que processou uma escola por manter apenas
a teoria da evolução das espécies no currículo,
o patriarca da Igreja Ortodoxa russa declarou que a teoria de Darwin
é "baseada em argumentos deturpados" e que "não
há provas concretas de que uma espécie possa se transformar
em outra". O episódio que melhor simboliza a resistência
das religiões a Darwin ocorre atualmente no Quênia e envolve
o mais completo esqueleto humano pré-histórico já
descoberto, desenterrado em 1984 e batizado de Turkana Boy. Um dos principais
líderes evangélicos do Quênia, o bispo Boniface
Adoyo, recusa-se a expor o achado arqueológico. Ele alega que
não descende do Turkana Boy nem de algo que se pareça
com ele.
Há um mês, o papa Bento XVI entrou na discussão
ao lançar um livro no qual reflete sobre o surgimento do universo
e do homem. O pontífice afirma que a teoria da evolução
não pode ser provada de modo conclusivo. O papa escreve também
que a forma como a vida se desenvolveu indica uma "razão
divina" que não pode ser explicada apenas por métodos
científicos. Alguns cientistas buscam conciliar Darwin e a fé.
O biólogo americano Francis Collins, um dos responsáveis
pelo mapeamento do DNA humano, é o mais proeminente entre os
devotos de Darwin que assumem também sua fé religiosa.
"Se Deus escolheu usar o mecanismo da evolução para
criar a diversidade de vida que existe no planeta, quem somos nós
para dizer que ele não deveria ter criado o mundo dessa forma?",
argumenta Collins. É provável que o embate entre Darwin
e as religiões nunca arrefeça. A fé humana já
se provou resistente a todos os argumentos da lógica. Por outro
lado, o edifício científico construído por Darwin,
como se pode observar na exposição montada no Masp, é
grande demais para ser renegado.
Darwin em 10 perguntas e respostas
1 O que
Darwin descobriu?
Charles Robert Darwin descobriu que todos os seres
vivos, do mais sábio dos homens ao bacilo unicelular, podem ter
sua linhagem ancestral traçada até o começo da
vida sobre a Terra.
2 Por que isso foi tão
explosivo no tempo de Darwin e por que ainda causa tanta polêmica?
Antes de Darwin a ciência se retorcia em torno da crença
religiosa segundo a qual todos os seres vivos tinham sido criados por
Deus, cabendo aos homens apenas dar-lhes nomes. Nenhum cientista teve
antes de Darwin argumentos e coragem intelectual de se opor à
idéia religiosa da criação. As descobertas eram
pateticamente adaptadas ao dogma religioso. Quando começaram
a ser desenterrados ossos de dinossauros e outros animais extintos,
o sábio francês Georges Cuvier (1769-1832) ofereceu a mais
extraordinária dessas adaptações: "São
ossos de animais que não conseguiram embarcar na Arca de Noé
e morreram no dilúvio bíblico". Darwin quebrou esse
paradigma e chocou-se de frente com a hierarquia religiosa protestante
e católica. Ele o fez de maneira serena mas irrefutável
colocando de pé uma doutrina que se assenta sobre cinco pontos.
3 Quais são as cinco teorias que sustentam
Darwin até os dias atuais?
EVOLUÇÃO – O mundo vivo não
foi criado nem se recicla perpetuamente. Os organismos estão
em um lento mas constante processo de mutação.
O ANCESTRAL COMUM – Todo grupo de organismos descende de um ancestral
comum. Os homens e os macacos atuais, por exemplo, divergiram de um
mesmo ancestral, há cerca de 4 milhões de anos. Todos
os seres vivos, em última instância, descendem de uma simples
e primitiva forma de vida – a chamada "ameba original".
MULTIPLICAÇÃO DAS ESPÉCIES
– As espécies vivas tendem a se diferenciar com a passagem
das eras. Darwin desenhou a primeira "árvore da vida"
em que espécies "tronco" vão dando origem a
outras que saem do veio principal como "galhos".
GRADUALISMO – As populações se diferenciam gradualmente,
de geração em geração, até que as
espécies que seguiram por um "galho" da árvore
da vida não mais pertençam à mesma espécie
do "tronco" e de outros "galhos".
SELEÇÃO NATURAL – É a teoria essencial do
darwinismo. Ela se baseia no fato de que os seres vivos sofrem mutações
genéticas e podem passá-las a seus descendentes. Cada
nova geração tem sua herança genética colocada
à prova pelas condições ambientais em que vive.
A evolução é oportunista e randômica. O que
é isso? Primeiro, o processo evolutivo seleciona (ou seja, mantém
vivos e com mais chance de passar adiante seus genes) os animais e plantas
cujas mutações são mais favorecidas pelo ambiente
em que são obrigados a viver. Segundo, as mutações
ocorrem ao acaso, e não com o objetivo de melhorar as chances
de sobrevivência de quem as sofre. Um exemplo simples: os peixes
primitivos não podiam tirar oxigênio diretamente da água.
Alguns passaram por mutações que os dotaram dessa capacidade.
Esses últimos se adaptaram melhor à vida aquática
e hoje dominam os rios, lagos e oceanos.
4 A evolução
é uma teoria ou uma lei natural? É uma teoria científica.
Como tal, ela pode ser desmontada desde que surja uma única prova
de que ela não funciona. Darwin disse que se alguém lhe
apontasse um único ser vivo que não tivesse um ascendente
sua teoria poderia ser jogada no lixo. Os neodarwinistas são
ainda mais desafiadores: basta que se prove que um único órgão
de um ser vivo (olhos, ouvidos, nadadeiras...) não teve origem
em um proto-órgão (olhos, ouvidos, nadadeiras primitivas)
e toda a teoria darwinista pode ser descartada.
5 Darwin fez tudo sozinho
ou ele é mais um "filho do Iluminismo", como ficaram
conhecidos outros sábios que contestaram dogmas religiosos em
seu tempo?
O que Darwin fez como naturalista é quase miraculoso. Se ele
não tivesse proposto a teoria da evolução, ainda
assim seria lembrado como um dos gênios da humanidade. Seus trabalhos
sobre botânica experimental, psicologia animal e classificação
são obras que ainda hoje são leituras atuais e obrigatórias
para os estudiosos. Muitos pré-darwinistas pavimentaram o caminho
para Darwin, em especial no que diz respeito ao gradualismo. Sábios
gregos e os chineses da Antiguidade admitiam que formas de vida podiam
se transformar com o tempo ou mesmo desaparecer. Alfred Russel Wallace,
contemporâneo de Darwin, desenvolveu de forma independente uma
teoria da evolução. O que fez de Darwin único foi
o rigor de seu método científico, sua capacidade multidisciplinar
e o processo disciplinado de extrair conclusões com base em décadas
de observação.
6 O que os chamados neodarwinistas
acrescentaram ao trabalho original de Darwin?
Muita coisa. Depois do impacto original de suas idéias, Darwin
caiu em um quase-esquecimento. As primeiras duas décadas da ciência
genética no século XX pareciam minar o darwinismo. Se
todas as mutações genéticas descobertas até
então eram mutiladoras (retardamentos, membros atrofiados...),
como as espécies podiam evoluir? Coube a três grandes neodarwinistas
colocar ordem na casa. O primeiro deles foi o americano nascido na Alemanha
Ernst Mayr, que morreu em 2005, aos 100 anos. Mayr mostrou como funciona
a seleção natural. Ele demonstrou que o isolamento era
a chave da questão. Como ambientes isolados colocam pressões
evolucionárias diferentes sobre uma mesma espécie, ela
tende a mutar em diferentes direções até desgarrar
totalmente do plantel original. O segundo foi George Gaylord Simpson,
que desencavou os "ossos velhos", os fósseis, que permitiram
mostrar de maneira cristalina a evolução que produziu
os cavalos atuais. O terceiro foi Theodosius Dobzhansky. Seu trabalho
com moscas de frutas uniu os campos da genética com o darwinismo.
Dobzhansky demonstrou que nem toda mutação é deletéria.
O sucesso da mutação vai depender do ambiente onde o indivíduo
vai viver.
7 Darwin disse que o homem
descende do macaco?
Não. Darwin escreveu que tanto os homens atuais quanto os macacos
atuais tiveram antepassados primitivos. Mas essa tem sido a mais resistente
falsidade sobre o darwinismo.
8 A briga da Igreja com Darwin
vem do fato de ele ter tirado o homem da linhagem dos "anjos decaídos"?
Sem dúvida. Darwin mostrou que a linhagem humana é fruto
de pressões evolutivas em ação por milhões
de anos tanto quanto qualquer outro ser vivo. Sob esse aspecto a humanidade
nada tem de especial.
9 Darwin nunca foi desmentido
em nada?
Em edições posteriores de sua obra A Origem das Espécies...,
Darwin sugeriu que os seres vivos poderiam passar características
adquiridas para seus descendentes. Esse mecanismo, que ele tomou de
empréstimo do francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829),
foi uma clara fraqueza de Darwin. Ele duvidou da seleção
natural como único mecanismo de diferenciação.
Ou seja, pelo menos por alguns anos Darwin acreditou na idéia,
hoje absurda, de que a girafa tem pescoço comprido de tanto se
esforçar para comer as folhas tenras do topo das árvores,
as únicas que sobram em tempos de secas escaldantes.
10 A que se atribui essa fraqueza de Darwin?
Darwin enfrentou cerrada oposição
das instituições científicas tradicionais, além
de descrédito e pressões familiares terríveis.O
pai de Darwin queria que se tornasse um clérigo anglicano, e
não um naturalista. Emma, sua mulher, tinha certeza de que iria
para o céu e Charles, por sua teoria, para o inferno. Ela se
torturava com a idéia de "passar a eternidade" longe
do marido. Nesse ambiente, não é estranho que Darwin tenha
flertado com o mecanismo lamarquista, um processo menos ofensivo aos
dogmas religiosos. No fundo, Darwin sabia que primeiro o pescoço
da girafa cresceu por mutação aleatória, e essa
mutação se mostrou favorável nos períodos
de seca inclemente, de forma que a natureza a selecionou para sobreviver
até os dias de hoje.
O BRASIL AOS OLHOS DE DARWIN

Salvador em gravura do livro de Robert
Fitzroy, capitão do Beagle: para Darwin, a beleza do casario
branco e elegante só perdia para a exuberância da floresta
tropical
Ao aportar no litoral da Bahia em fevereiro de 1932,
na terceira escala de seu périplo a bordo do Beagle, Charles
Darwin ficou extasiado com a vegetação à sua frente.
Anotou em seu diário: "É uma visão das mil
e uma noites, com a diferença de que é tudo de verdade".
Era a primeira vez que o naturalista pisava numa floresta tropical.
Darwin esteve no Brasil por duas vezes, nos trajetos de ida e de volta
de sua viagem de cinco anos. Ao todo, permaneceu cinco meses e meio
no país, tempo suficiente para realizar seus estudos e espantar-se
com os hábitos dos nativos. A começar pelo Carnaval. Em
Salvador, quando viu os foliões tomar as ruas e atirar bolas
de cera cheias de água uns nos outros, achou por bem recolher-se
à tranqüilidade civilizada do Beagle.
Dois meses depois, o navio chegou ao Rio de Janeiro, então capital
do império. No Rio, Darwin foi convidado a conhecer uma fazenda
de café no norte fluminense. Antes da viagem, criticou em seu
diário a demora das autoridades brasileiras em lhe conceder os
documentos necessários para viajar com cavalos. "Mas a perspectiva
de ver matas selvagens cheias de belos pássaros, macacos, preguiças
e jacarés", ele escreveu, "faz um naturalista até
mesmo lamber a poeira das botas de um brasileiro." A excursão
durou quinze dias. No caminho, o explorador só conseguiu se alimentar
de galinha e farinha de mandioca, este último ingrediente, segundo
Darwin, "o mais importante alimento na subsistência do brasileiro".
Na volta ao Rio de Janeiro, Darwin deixou o Beagle e se hospedou num
chalé em Botafogo. Andou pela Floresta da Tijuca, foi ao Jardim
Botânico e ao Pão de Açúcar e coletou centenas
de plantas e insetos. Fez anotações sobre a "falta
de educação" dos brasileiros e a forma como a Justiça
era feita no país. "Se um crime, não importa quão
grave seja, é cometido por um homem rico, ele logo estará
em liberdade. Todo mundo pode ser subornado", escreveu. As observações
mais contundentes de Darwin sobre o Brasil dizem respeito à manutenção
da escravidão e à forma violenta como os escravos eram
tratados. Certo dia, inadvertidamente, foi protagonista de um episódio
dramático. Um escravo conduzia a balsa na qual ele fazia uma
travessia de rio. Tentando se comunicar com ele para lhe dar instruções,
Darwin começou a gesticular e a falar alto. A certa altura, sem
querer, esbarrou a mão no rosto do negro. Este imediatamente
baixou as mãos e a cabeça, colocando-se na posição
que estava habituado a assumir para ser punido fisicamente. "Que
eu jamais visite de novo uma nação escravocrata",
anotou ele ao deixar a
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