15/03/2009
ENTREVISTA
AZIM SHARIFF
A religião incentiva o comportamento altruísta
Para psicólogo que trabalha sob óptica da evolução,
crença em Deus promove ajuda mútua, mas só em certas
condições
entrevista feita RAFAEL GARCIA/Folha
de São Paulo
O GRANDE conflito opondo ideologias
laicas e religiosas hoje está na biologia, com o movimento criacionista
tentando impor às escolas o ensino de conceitos do Gênesis
bíblico como alternativa à teoria de Darwin. Um grupo
de psicólogos que trabalha numa frente menos conhecida, enquanto
isso, cria controvérsia por outro motivo: eles tentam usar a
evolução para explicar por que a religião surgiu.
Segundo o canadense Azim Shariff, porém, é justamente
porque ela promove o bem.
Em parceira com o psicólogo Ara Norenzayam, Shrarif
publicou neste ano um estudo na prestigiosa revista "Science".
Os dois defendem a teoria de que a religião surgiu em sociedades
humanas arcaicas porque promove a cooperação dentro de
grupos de pessoas. Experimentos comportamentais, porém, mostram
que isso ocorre mais apenas quando o ato altruísta contribui
para a reputação das pessoas. Em entrevista à Folha
Shariff falou sobre seu trabalho.
FOLHA - Best-sellers como
os do jornalista Christopher Hitchens e do biólogo Richard Dawkins
apontam a religião como fonte de conflito. Seus estudos, porém,
indicam que a crença religiosa dá vantagem evolutiva a
grupos humanos, porque incentiva a cooperação. O que acontece,
então, é justamente o oposto?
AZIM SHARIFF - Eu não diria que é o oposto.
Hitchens e Dawkins estão adotando um ângulo uniformemente
negativo sobre religião. Se você procura algo mais próximo
da verdade, será mais equilibrado. Obviamente, não vai
descobrir que a religião é uma coisa totalmente boa, da
mesma forma que ela não é totalmente ruim. Nós
mostramos que ela promove algum bem, mas apenas quando condições
específicas são cumpridas.
Nossa pesquisa em geral causa reação de desapontamento
tanto entre pessoas contra quanto a favor da religião, porque
ela não diz que ela é má, como Hitchens, e não
diz que a religião é boa, como aqueles que pregam suas
religiões. Nós descobrimos, de fato, que a religião
incentiva o comportamento pró-social, mas não pelas razões
que as pessoas religiosas gostariam de acreditar.
FOLHA - Vocês citam
estudos mostrando que o comportamento cooperativo, pró-social
da religião, existe mais quando o altruísmo ajuda a melhorar
a reputação da pessoa. Isso revela algo cínico
ou egoísta?
SHARIFF - Sim, mas as as razões conscientes
que temos para nossas ações pró-sociais são
muito limitadas. Não temos acesso total às nossas próprias
motivações. As pesquisas das ciências cognitivas
sobre moral apontam que normalmente agimos por motivos egoístas.
Humanos são feitos assim.
Normas culturais não existem por motivos egoístas, mas
são egoístas da perspectiva do grupo. Qualquer ação
nossa é motivada em certa medida por auto-interesse. O fato de
a religião cooptar esse auto-interesse não a torna pior
do que qualquer outra motivação que tenhamos para fazer
o bem.
FOLHA - Seu estudo dá
a entender que a crença em um Deus moral e capaz de punir foi
boa no passado porque ajudou sociedades com uma espécie de "vigilância"
em prol da cooperação. É isso que aconteceu?
SHARIFF - Sim, essa é a teoria que estamos trabalhando.
Antigamente, nas sociedades humanas, quando não havia grandes
sistemas judiciários, a vigilância era limitada. As pessoas
tinham que monitorar a reputação de todas as outras, e
era muito mais fácil para os trapaceiros evitarem ser pegos.
O que a religião fez foi "terceirizar" toda essa vigilância
para um ser onisciente, que poderia vigiar e punir todo mundo. A partir
de então, as pessoas não trapaceariam, ou seriam incentivadas
a não fazê-lo, porque não teriam como escapar de
Deus da mesma forma que escondiam suas trapaças das pessoas comuns.
FOLHA - Como a psicologia
evolutiva busca evidências para saber o que aconteceu no passado,
já que não pode viajar no tempo para saber como as pessoas
pensavam?
SHARIFF - É verdade que as alegações
em psicologia evolutiva são difíceis de comprovar. O que
tentamos fazer é usar evidências de diversas outras áreas
da ciência. Nós combinamos psicologia social experimental
moderna com evidências antropológicas que analisam como
os grupos desenvolveram crenças e rituais no passado, e se isso
contribuiu para sua durabilidade.
Nós argumentamos que sociedades que adotam crenças em
deuses poderosos costuma ser maiores, e duram mais, você precisa
olhar para a história e ver se ela apóia essa tese. E
ela suporta, porque você pode generalizar isso para todos os grupos
ao longo do tempo. Um estudo que mencionamos é sobre comunidades
laicas e religiosas nos EUA. Descobrimos que em comunidades religiosas,
costuma durar mais do que as comunidades laicas.
Olhando o registro histórico, também vemos que grupos
que enfrentaram desafios para estabelecer a colaboração
próxima são mais propensos a adotar crença religiosa,
o que facilita esse tipo de cooperação.
FOLHA - Cristianismo, islamismo
e judaísmo cresceram por possuírem essas características?
SHARIFF - Absolutamente, sim. Mesmo com a maioria das
religiões do mundo não possuindo esses grandes agentes
punitivos, as religiões que o possuem têm a maioria dos
fiéis. Parte disso é pelo modo como elas funcionam. Há
outras coisas sobre o cristianismo e o islamismo, é que são
religiões profetizantes, com iniciativas de disseminação
missionária que as permitem crescer mais rapidamente do que outras
religiões. É um processo de evolução da
religião. Hoje nos EUA partes do cristianismo estão mudando
de acordo com as novas condições sociais em que se encontram.
Veja, por exemplo, o catolicismo, que sempre teve boa parte de sua sustentação
em rituais, em um Deus particularmente rigoroso e no medo do inferno.
Essas coisas estão mudando na para coisas mais alegres e em um
Deus mais amável. A razão para isso acontecer é
que os deveres punitivos da religião não pertencem mais
ela, devido aos grandes sistemas judiciais seculares que existem hoje.
E com as religiões se tornando mais legais com as pessoas, seu
poder de disseminação aumenta ainda mais.
FOLHA - Quando vocês
explicam religião pela seleção natural, o que está
sendo selecionado é o comportamento das pessoas ou as características
genéticas que as tornam mais propensas à crença?
SHARIFF - Eu não acredito que a seleção
genética seja especialmente forte no que se refere à disseminação
das religiões. O que acredito é que exista um processo
de co-evolução entre genes e cultura. Inicialmente você
tem seleção cultural nessas religiões. Alguns estudos
argumentam que pessoas religiosas costumam ter mais filhos, mas eu não
acredito que haja evidências suficientes favoráveis a isso
ao longo da história.
FOLHA - Alguns sociólogos
dizem que o cristianismo lançou as bases morais para o capitalismo.
O consumismo desenfreado com presentes de Natal é hoje um sinal
disso?
SHARIFF - Li algumas coisas a esse respeito, mas nunca
estudei religiões sob aspecto da economia de mercado. É
claro que o Natal é um grande negócio. Se, de fato, ele
estimula as pessoas a se tornarem mais ligadas a suas religiões,
talvez elas fiquem mais generosas. As pessoas realmente dão presentes
às outras no Natal, mas dizer quando isso ocorre por generosidade
ou por uma cultura de comercialismo já é mais difícil.
FOLHA - Cientistas têm
reagido vigorosamente à intromissão da religião
no ensino de biologia, o criacionismo. Religiosos, em contrapartida,
podem questionar aquilo que vocês estão fazendo: usar ciência
da evolução para explicar a religião?
SHARIFF - Sim. A idéia de olhar para a religião
com uma óptica científica é uma coisa que deixa
iradas muitas pessoas religiosas mais fundamentalistas. E o fato de
estarmos usando para isso os processos darwinísticos, em particular,
pode torná-las duplamente iradas. É compreensível
que elas fiquem assim, mas isso faz parte do fato de que nós,
psicólogos, tentamos explicar o comportamento humano para os
humanos. É como se disséssemos "nós sabemos
por que você está fazendo isso melhor do que você
mesmo sabe". E o fato de que tratamos especificamente de religião
certamente incomoda mais.
Tornar a religião um objeto das ciências naturais, não
é uma coisa com a qual as pessoas religiosas se sentem confortáveis.
Mas não podemos deixar isso nos afetar. Temos que tentar nos
comprometer com a verdade o máximo possível. Não
tentamos suavizar nossa linguagem, mas não temos uma agenda específica
de ateísmo a cumprir.
FOLHA - Você tem
recebido muitas cartas com ofensas?
SHARIFF - Eu não diria que são muitas.
Nós recebemos um bocado de reações negativas por
parte de pessoas religiosas, mas muitas pessoas não-religiosas
reagiram negativamente também. O que achei interessante foi a
reação da mídia, que costuma descrever nosso estudo
ou como totalmente pró-religião ou como totalmente contrário.
FOLHA - Como surgiu seu
próprio interesse em psicologia da religião? Você
é religioso ou nasceu eu uma família religiosa?
SHARIFF - Fui educado como muçulmano, mas perdi
meu interesse em religião quando era adolescente. Quando cursei
a graduação é que meu interesse em religião
ressurgiu. O que acho que foi bom, e que me permitiu permanecer mais
neutro em relação ao assunto, é o fato de que eu
não tive um interesse especial em religião antes. Eu não
amava religião mas também não a desprezava.
FOLHA - Você acha
que a religião serve como parte da explicação para
os conflitos no Oriente Médio? Em seu estudo você diz que
a religião favorece cooperação dentro de grupos
mas não entre um grupo e outro?
SHARIFF - O que acontece é que hoje esses grupos
de pessoas acabam tendo contato um com outro muito mais freqüentemente.
No passado, talvez uma pessoa só encontrasse alguém de
uma religião diferente duas ou três vezes na vida. Mas
hoje, especialmente em lugares religiosamente diversos como o Oriente
Médio, isso ocorre muito mais, o que gera muito mais tensão.
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