15/03/2009
Christopher Maag
Em Cleveland
Há cinco anos, jovens
muçulmanos em todos os Estados Unidos começaram a ler
e a passar adiante a cópia de um livro obscuro chamado "The
Taqwacores", sobre muçulmanos fictícios da cena punk
rock em Buffalo.
"Esse livro ajudou a criar minha identidade",
disse Naina Syed, 14, caloura do colegial em Coventry, Connecticut.
Muçulmana nascida no Paquistão, Naina
disse que passou horas no telefone ouvindo sua irmã mais velha
ler o livro para ela. "Quando eu finalmente li o livro", disse,
"foi uma experiência sensacional".
O livro é "O Apanhador no Campo de Centeio"
dos jovens muçulmanos, disse Carl W. Ernst, professor de estudos
islâmicos na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill.
Depois de brotar da imaginação de Michael Muhammad Knight,
o livro inspirou os jovens muçulmanos rebeldes dos Estados Unidos
a formarem bandas punks de verdade e a construírem sua própria
cultura alternativa.
Agora o sucesso underground do punk muçulmano
resultou num filme independente de baixo orçamento baseado no
livro.
Um grupo de artistas punk que moram numa república
em Cleveland chamada Tower of Treason [Torre da Traição]
ofereceram a casa como set de filmagem. As ruas esburacadas e fachadas
de loja remendadas com tábuas do bairro lembram algumas áreas
de Buffalo. A filmagem aconteceu em outubro e o filme será lançado
no ano que vem, diz o diretor Eyad Zahra.
"Ver esses personagens que costumavam viver apenas
dentro da minha cabeça andando por aí, e pensar em todos
esses jovens vivendo partes do livro, é totalmente surreal",
disse Muhammad Knight, 31, enquanto passeava pelo set de filmagem.
Como parte do set, um músico de punk rock muçulmano,
Marwan Kamel, 23, pintou "Osama McDonald", uma figura com
o rosto de Osama Bin Laden sobre o corpo de Ronald McDonald. Kamel disse
que a pintura era um protesto contra o imperialismo das corporações
norte-americanas e contra o Wahhabismo, a forma mais rígida do
Islã.
Noureen DeWulf, 24, uma atriz que faz o papel de roqueira
no filme, defende a mensagem do roteiro.
"Sou muçulmana e sou 100% americana",
diz DeWulf, "Então posso criticar minha fé e meu
país. Rebeldia? Punk? Isso é totalmente americano".
O título do livro combina as palavras "taqwa",
árabe para "piedade", com "hardcore", usada
para descrever muitos gêneros raivosos de música ocidental.
Para muitos jovens muçulmanos americanos, estigmatizados
por seus colegas depois dos ataques de 11 de setembro e rejeitados tanto
pela reação do governo Bush aos ataques quanto pelo rígido
conservadorismo de muitos líderes muçulmanos, o livro
tornou-se um modelo para suas vidas.
"Ler o livro foi totalmente libertador para mim",
disse Arrej Zufari, 34, professora muçulmana de humanidades na
Faculdade Comunitária de Valencia em Orlando, Flórida.
Zufari disse que ela ouvia música punk durante
a adolescência em Arkansas e descobriu "The Taqwacores"
há quatro anos.
"Ali estava alguém tão frustrado
com o Islã quanto eu", disse ela, "e ele expressou
isso usando bandas que eu adoro, como o Dead Kennedys.
Juntou tudo".
Os personagens muçulmanos do livro incluem Rabeya,
uma riot girl que toca guitarra no palco usando uma burca e lidera um
grupo de orações de homens e mulheres. Há também
Rasiq, um skatista viciado em maconha, e o bêbado Jehangir.
Essas atitudes - tocar música ocidental, mulheres
liderando orações, homens e mulheres rezando juntos, beber
e fumar - são consideradas "haram", proibidas, por
milhões de muçulmanos.
Muhammad Knight nasceu católico irlandês
no norte do Estado de Nova York e converteu-se ao Islã quando
era adolescente. Ele estudou numa mesquita no Paquistão, mas
se desiludiu com o Islã depois de saber das guerras sectárias
depois da morte de Muhammad.
Ele disse que escreveu "The Taqwacores" para
fazer uma ponte entre ser um muçulmano praticante e um jovem
americano revoltado. Ele encontrou validação na vida de
Muhammad, que instruía as pessoas a ignorar seus líderes,
destruir os falsos deuses e seguir apenas a Alá.
Depois de ler o livro, muitos muçulmanos mandaram
e-mails para Knight, pedindo o endereço do próximo show
de punk muçulmano. Quando ficaram sabendo que essas bandas não
existiam, alguns deles criaram suas próprias bandas, como nomes
como Vote Hezbollah e Secret Trial Five.
Uma banda, chamada Kominas, escreveu uma música
chamada "Suicide Bomb the Gap", que se tornou o primeiro hino
do punk rock muçulmano.
"Enquanto muçulmanos, não seremos
honestos se criticarmos os Estados Unidos sem primeiro criticar a nós
mesmos", disse Kamel, 23, que cresceu numa família síria
em Chicago. Ele é o vocalista da banda al-Thawra, "a Revolução"
em árabe.
A mescla entre o Islã e a rebeldia encontrou
ressonância em muitos jovens americanos muçulmanos.
Hanan Arzay, 15, é filha de imigrantes muçulmanos
do Marrocos e mora em East Islip, Nova York. Nos meses após os
ataques de 11 de setembro, os pedestres jogaram ovos e copos de café
na van que a levava para a escola muçulmana, disse ela, e uma
pessoa jogou uma garrafa de vinho, estilhaçando uma janela da
van.
Na escola, seu professor do Alcorão jogava pedaços
de giz nela para pedir traduções literais do livro sagrado,
disse Arzay. Depois de ser expulsa de duas escolas muçulmanas,
ganhou do tio o livro "The Taqwacores".
"Esse livro foi minha salvação",
disse Arzay. "Ele salvou a minha fé".
Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2008/12/26/ult574u9050.jhtm
>>> clique aqui para ver a lista completa
de notícias
>>>
clique aqui para voltar a página inicial do site
topo