15/03/2009
Autora do livro "A Nation
of Wimps", a jornalista norte-americana Hara Estroff Marano investiga
a ascensão da "paternidade invasiva" entre a classe
média nos EUA e seus frutos: crianças exageradamente complacentes
e que não sabem lidar com seus fracassos
DENISE MOTA/Folha de São Paulo
De manhã, colégio. De tarde, aulas de inglês, computação,
ginástica. Essa pode ser a rotina normal de uma criança
ou adolescente de classe média. Adicione a esse cardápio
cursos extracurriculares, como mandarim, horas de estudo intensivo com
professores especializados em exames de admissão das mais importantes
universidades dos Estados Unidos e, se houver tempo livre, sessões
de CDs e DVDs didáticos. Não há espaço para
problemas nem notas baixas - está completa a agenda da criança
vítima do "overparenting".
O termo em inglês corresponde a procedimentos de "paternidade
excessiva" ou "invasiva" e é um fenômeno
que vem se manifestando com vigor - alimentado por uma indústria
de produtos educativos destinados a formar gênios desde os primeiros
meses de vida - em meio às famílias abastadas dos EUA.
Tem como causas tanto fatores de ordem global - as incertezas do panorama
econômico mundial, que exige profissionais cada vez mais capacitados
- quanto debilidades individuais: por exemplo, pais superprotetores
e ambiciosos, em busca de realização pessoal por meio
dos filhos, e outros que almejam simplesmente estar convencidos de que
seus rebentos são melhores do que os do vizinho.
A análise é de Hara Estroff Marano, autora
de "A Nation of Wimps: The High Cost of Invasive Parenting"
(Uma Nação de Fracos: O Alto Custo da Paternidade Invasiva).
Uma das editoras da revista "Psychology Today", a jornalista,
que também escreveu em publicações como "The
New York Times" e "USA Today", investiga de que forma
o excesso de preparação acadêmica e a preocupação
em poupar os filhos dos mais elementares problemas cotidianos levam
a uma geração de pessoas "exageradamente complacentes,
sem resiliência, sem desembaraço, que se ofendem facilmente
e que têm pouca perseverança e tolerância para atingir
objetivos", diz.
Mãe de dois adultos, Marano conversou com a Folha sobre o novo
"patamar de devoção" aos filhos e os objetivos
de seu livro. "Estou preocupada com o futuro. Nenhuma democracia
pode prosperar com indivíduos condescendentes, e nenhuma economia
pode avançar sem inovação e sem que se assumam
riscos".
FOLHA - Que experiência específica
a levou a escrever o livro?
HARA ESTROFF MARANO - Em 2002, escrevi uma reportagem
sobre o fato de as universidades procurarem em níveis extremamente
altos serviços psicológicos e psiquiátricos devido
ao aumento do número de estudantes com profunda depressão
e desordens de ansiedade que incluíam ataques de pânico,
automutilação, disfunções alimentares, excesso
no consumo de álcool e suas consequências. Comecei a perguntar
o porquê. Todo mundo dizia a mesma coisa: os estudantes não
tinham nenhuma habilidade para lidar com problemas e, portanto, eram
facilmente atingidos por qualquer dificuldade ou desafio. E por quê?
Porque seus pais haviam feito tudo por eles. Buscaram tão ansiosamente
o sucesso de seus filhos que pairaram sobre eles todo o tempo e lhes
eliminaram as pequenas agruras da vida. Se, por exemplo, eles esquecessem
um livro em casa, os pais levariam o material correndo para a escola.
Se a criança obtivesse uma nota que decepcionasse os pais, eles
telefonariam para a escola para tentar mudar a má avaliação.
Foi assim que eu descobri o que chamo de "paternidade invasiva".
E decidi escrever sobre isso porque estou preocupada com o futuro de
nossa sociedade, em que estamos alimentando a fragilidade psicológica
em nossos filhos.
FOLHA - Qual a diferença entre os
filhos dos atuais "pais invasivos" e a criança mimada
de décadas atrás?
MARANO - As crianças mimadas, em tese, têm
tudo o que querem. As crianças que têm pais invasivos estão
sob superproteção porque é isso o que os pais delas
querem. Não se permite às crianças dar passos importantes
porque seus pais fazem as coisas por elas, lhes limpam o caminho. Esses
pais trabalham para que seus filhos sejam bem-sucedidos porque a percepção
subjetiva do pai repousa nos êxitos do filho. Há estudos
que mostram que estimular os filhos sem parar é percebido pelas
crianças como uma exigência de perfeição.
FOLHA - Na Ásia, é comum a
existência de crianças treinadas de modo exaustivo para
que sejam excelentes em uma atividade específica. Qual é
a diferença entre essa prática e a paternidade invasiva
ocidental?
MARANO - Uma delas é que as crianças
asiáticas são elogiadas por trabalhar duro. Quando as
crianças norte-americanas se sobressaem, elas são tratadas
como "brilhantes", "talentosas", "espertas",
"atletas naturais". A diferença no tipo de elogio que
elas recebem é importante. O reconhecimento que vem por parte
dos pais ocidentais é dado para que se projete sobre os próprios
pais, mas, mais importante, seus filhos terminam pensando que há
um reservatório de talento neles. O problema é que, quando
essas crianças alcançam um certo nível de dificuldade
ou desafios, desistem, porque acham que não são mais inteligentes.
São crianças avessas ao risco e que preferem o certo ao
duvidoso.
FOLHA - O "overparenting" se deve
mais ao contexto externo (aumento da competitividade no mercado de trabalho
etc.) ou à necessidade dos pais de ter filhos que possam satisfazer
suas ambições?
MARANO - É uma combinação das
duas coisas. O ponto central é que os pais estão usando
os filhos para atingir suas próprias necessidades emocionais.
Isso é extremamente narcisista. Ao mesmo tempo, quando você
analisa de onde vem toda essa ansiedade paterna, você vê
que sua origem está na percepção que pais e mães
têm de que o mundo mudou, de que agora vivemos em um mercado global
e tudo é muito rápido e dinâmico. Há muito
mais incerteza ou, pelo menos, há a percepção de
que tudo é muito mais incerto. É obrigação
de todo pai e toda mãe preparar seus filhos tão bem quanto
possam para a vida. Mas alguns fracassos são importantes porque
nós aprendemos mais com eles do que com o sucesso.
FOLHA - Que tipo de pais tendem a ser invasivos?
MARANO - Os pais que apresentam esse comportamento
são muito conformistas, não confiam em suas habilidades
como educadores e são muito críticos em relação
a outros pais. Um exemplo: hoje em dia não é mais suficiente
que um pai vá ver seu filho jogar futebol; ele tem de comparecer
a todos os treinos. E, se você não fizer isso, é
considerado um pai ou uma mãe negligente. O julgamento de outros
pais é algo novo e ajuda a fortalecer a rápida disseminação
desse tipo de paternidade como o novo padrão de devoção
a seu filho.
Fonte: Folha de São Paulo
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