08/03/2009
Darfur, no Sudão, cenário
de um genocídio silencioso,
é um lugar sem lei e sem espaço para a misericórdia
divina.
Seria também um lugar sem nenhuma esperança, não
fosse o trabalho humanitário de um batalhão de abnegados
Diogo Schelp, de El Fasher
NO LIMITE DA SOBREVIVÊNCIA
Mãe e filho refugiados no campo de Abu Shouk. Darfur é
beneficiado com o maior programa de distribuição de alimentos
do mundo. Nos últimos anos, a taxa de desnutrição
infantil caiu na região, mas continua acima da linha de emergência
Foto: Jehad Nga/Corbis/Latinstock
Em um mundo em que a corrente de informação
circula ao ritmo de terabytes por segundo e quase tudo o que se quer
saber está, para 1 bilhão de pessoas, a apenas um clique
de distância, como explicar que a tragédia de Darfur seja
invisível? O mundo ignora ou finge ignorar que Darfur, no Sudão,
é cenário de uma guerra de extermínio contra uma
população indefesa. O mesmo mundo que se apieda de um
filhote de urso-polar abandonado pela mãe no zoológico
de Berlim fecha os olhos para as centenas de milhares de crianças
subnutridas dos 130 campos de refugiados de Darfur. O mundo que está
prestes a comemorar o Natal, festa que ultrapassou os limites do cristianismo
para congraçar homens e mulheres de diferentes credos, esquece
que em Darfur a noite de 24 de dezembro será apenas véspera
de mais um dia em que crianças morrerão, homens serão
executados e mulheres, estupradas. Vem sendo assim desde 2003, quando
eclodiu o conflito entre o governo do ditador Omar al-Bashir e rebeldes
dessa região do oeste sudanês. E também quando,
armados pelo governo de Cartum, bandos de facínoras, a pretexto
de combater revoltosos, intensificaram a matança indiscriminada
de cidadãos que não pertenciam à sua etnia "árabe".
A questão étnica que alimenta as atrocidades perpetradas
na região é, por assim dizer, atávica em Darfur
– e nada tem a ver com o tipo de disputa que está na base
dos conflitos modernos. De acordo com uma pesquisa divulgada na semana
passada pelo Instituto para o Estudo de Conflitos Internacionais de
Heidelberg, na Alemanha, os principais motivos de tensões no
mundo, hoje, são os fatores ideológicos (teocracia contra
estado secular, por exemplo) e o separatismo ou busca por autonomia
regional – e tais não são os casos em Darfur. O
que se tem ali é uma guerra que há muito perdeu qualquer
propósito. O que se tem ali é uma matança selvagem,
seja por meio de fuzilamentos sumários, seja por meio da fome
imposta pelo isolamento. Paz, em Darfur, é um conceito demasiado
abstrato, inalcançável até mesmo como metáfora
para as crianças que crescem em campos fétidos e violentos.
A única luz nesse mundo escurecido pela ausência da razão
é proporcionada pelo trabalho das organizações
humanitárias. Os valores universais da civilização,
celebrados por ocasião do Natal, movem os voluntários
em Darfur como os ventos giram os moinhos. Esses abnegados de diferentes
partes do planeta, inclusive do Brasil, mantêm viva a esperança
de que, um dia, a comunidade internacional finalmente dirá um
sonoro basta ao que ocorre no Sudão.
NEGLIGENCIADOS
Refugiada acena para comboio da ONU no campo de Taiba. Mais da metade
das crianças de Darfur em idade escolar não estuda e 1
milhão vive em campos como este, em Darfur do Oeste, onde ONGs
fazem o papel do estado ao prover serviços de saúde e
saneamento
Foto: Evelyn Hockstein/The New York Times
Tomorrow, inshallah: "Amanhã, se Alá
quiser". A frase, parte em inglês, parte em árabe,
é repetida em tom monocórdio nas repartições
públicas do Sudão, como resposta aos estrangeiros que
cobram a autorização do governo para viajar a Darfur,
no oeste do país. A guerra civil na região provocou uma
crise humanitária de proporções épicas.
Quase metade dos 6 milhões de habitantes de Darfur vive em aglomerações
humanas improvisadas, os campos de deslocados internos – ou, simplesmente,
refugiados. Outros 2 milhões de pessoas ainda não deixaram
suas aldeias, mas foram afetadas pela destruição de lavouras
ou pela morte de familiares. A exigência da permissão a
estrangeiros para viajar à zona de conflito é uma tentativa
do governo de sonegar ao resto do mundo dados e imagens dos horrores
cometidos em Darfur. O ditador sudanês Omar al-Bashir, que chegou
ao poder em 1989 em um golpe organizado por fundamentalistas islâmicos,
tem mesmo o que esconder. Com a justificativa de combater rebeldes que
lutam contra o regime, o governo do Sudão bombardeia aldeias
e apóia os janjaweeds, milícias autoproclamadas árabes
cuja missão é limpar Darfur de outras etnias. Ao todo,
já morreram 300000 pessoas. Hoje, os ataques acontecem com menos
intensidade do que no início da guerra, em 2003 e 2004. Mas não
são números que definem um genocídio.
Cinco anos atrás, quando a opinião pública do planeta
começou a ser informada sobre a matança em Darfur, havia
a convicção de que as organizações mundiais
provariam sua capacidade de impedir, às portas do século
XXI, extermínios como os que assolaram a história dos
100 anos anteriores. Hoje, os fatos atestam que tal desígnio
fracassou. Este mês marca o aniversário de sessenta anos
da assinatura da Convenção para a Prevenção
e Punição do Genocídio da Organização
das Nações Unidas, que definiu como crime internacional
a tentativa de destruir a totalidade ou parte de um grupo nacional,
étnico, racial ou religioso. Segundo o texto da ONU, não
é preciso haver assassinatos em massa para que um crime seja
classificado como genocídio. Impor condições de
vida subumanas a um grupo de pessoas semelhantes entre si, com o objetivo
de levar à sua destruição física, também
se enquadra nos critérios da convenção. É
o que ocorre em Darfur. O número de combatentes e civis mortos
de maneira violenta caiu de 4500 em 2006 para 3000 no ano passado. O
genocídio silencioso, no entanto, segue seu curso. Desde o início
deste ano, 300000 pessoas foram obrigadas a deixar suas casas, suas
pequenas lavouras e suas terras. Elas fogem dos ataques a suas aldeias,
do estupro coletivo e da desertificação do Sahel, a faixa
semi-árida ao sul do Deserto do Saara que domina a paisagem local.
IMPROVISO
O campo de Kalma, em Darfur do Sul, foi estabelecido por refugiados
da etnia fur, em 2004, sobre uma tradicional rota de migração
de povos nômades, o que só serviu para aumentar as tensões
étnicas no local. Em 2008, em Darfur, foram registrados mais
de cinqüenta confrontos entre tribos rivais
Foto: Evelyn Hockstein/The New York Times
Vista do alto, Darfur é uma região predominantemente
desértica, entrecortada de leitos secos de rios. Sazonais, eles
só têm água durante três meses por ano, em
média. De perto, a aridez é amenizada pelo colorido dos
panos usados pelas mulheres muçulmanas para se cobrir e pela
existência de uma vegetação esparsa que exibe improváveis
árvores frondosas, como mangueiras. Sob uma delas, na cidade
de El Fasher, capital de Darfur do Norte, rebeldes de uma das facções
do Exército de Libertação do Sudão (SLA,
na sigla em inglês) aproveitam a sombra para conversar sentados
em cadeiras de plástico ou apoiados em seus Kalashnikov, com
os quais dão sua contribuição às atrocidades
da guerra. Cinco vezes ao dia, eles estendem seus tapetes e rezam voltados
para Meca, enquanto o fuzil automático repousa ao lado. Entre
as casas de alvenaria de El Fasher, construídas sobre a areia
fofa, os carros traçam aleatoriamente o percurso das ruas.

AJUDA INTERROMPIDA
Refugiada prepara-se para cozinhar no campo de Kalma. Os ataques de
milícias a veículos de agências humanitárias
fazem com que 3 milhões de pessoas, que dependem de doação
de alimentos para sobreviver, recebam apenas 65% da cota diária
individual recomendável, de 2 100 calorias
Foto: Khaled El Fiqi/EFE
Essa Darfur quente, de natureza hostil, é dividida
em três estados: o já citado Darfur do Norte, o do Sul
e o do Oeste. Juntos, representam quase um sexto do território
do Sudão, o maior país da África. A fé da
maioria da população é o islamismo – a assertiva
vale também para Darfur. Há dezenove etnias no país,
que por sua vez se dividem em seis centenas de tribos distintas. O nome
Sudão tem origem na palavra "negro", em árabe.
"Terra dos negros": era assim que os mercadores e traficantes
de escravos vindos do Oriente Médio – introdutores do islamismo
a partir do ano 1000, em substituição ao cristianismo
– se referiam ao atual território sudanês. Um milênio
de miscigenação fez com que em todas as tribos predominasse
o mesmo tom de pele muito escuro, inclusive naquelas que se definem
como "árabes". A identificação étnica,
hoje, tem mais a ver com hábitos culturais, como o nomadismo,
do que com a aparência física. Desde a independência
do Império Britânico, em 1956, os "árabes"
do norte do país detêm o monopólio do poder político
e econômico, concentrado na capital, Cartum. Negligenciado pelo
centro do poder, o sul, de maioria africana e católica, deflagrou
em 1983 uma guerra de secessão que levaria à morte de
2 milhões de pessoas. Um acordo firmado em 2005 acabou com o
conflito, dando mais autonomia e mais dinheiro aos estados do sul do
país. Foi quando o sul e o norte iniciaram as conversações
de paz, que deflagraram uma nova guerra civil em Darfur, onde havia
décadas tribos majoritárias se sentiam prejudicadas pelos
sucessivos governos corruptos de Cartum. A população da
região, quase toda muçulmana, é formada por dezenas
de tribos, divididas entre as que também se dizem árabes,
em geral nômades e pastoris, e outras de cultura eminentemente
africana, de hábitos sedentários e dedicadas à
agricultura. A violência étnica, que já era parte
do cotidiano local havia séculos, exacerbou-se quando milícias
"árabes" começaram a ser armadas por encrenqueiros
– inclusive externos, como Muamar Kadafi, ditador da Líbia.
Para complicar, grupos armados do Chade, empenhados em derrubar o governo
de seu país, usam a região sudanesa como refúgio.
Os rebeldes de Darfur, no começo da década, eram formados
exclusivamente por membros de etnias como os furs, os zaghawas e os
masalits, que se viram obrigados a se armar para proteger suas terras
dos janjaweeds. O governo sudanês reagiu aos primeiros ataques
dos rebeldes, ampliando assim seu apoio às milícias. Na
prática, isso significou armar os janjaweeds e preparar o terreno
para os seus ataques. Há relatos de aldeias que foram cercadas
pelo Exército sudanês, para que ninguém fugisse
antes de os janjaweeds entrarem, saquearem, matarem indiscriminadamente
e reunirem as mulheres para estupros coletivos. Hoje, os rebeldes provêm
de todas as etnias da região – porque a guerra contra elas
é total. "Em Darfur, os árabes e os africanos se
parecem uns com os outros. Foi a propagação da ideologia
da supremacia islâmico-árabe entre os povos nômades
do deserto que levou negros a matar negros," explica o historiador
Muhammad Jalal, da Universidade de Cartum.
REINÍCIO
Uma mulher tenta reconstruir uma cabana, dias depois de sua aldeia,
em Darfur do Oeste, ter sido bombardeada pela Força Aérea
sudanesa, em fevereiro
Foto: Lynsey Addario/Corbis/Latinstock
A reportagem de VEJA visitou, no mês passado,
cinco campos de refugiados nos três estados de Darfur. As histórias
dos moradores desses campos se repetem com variações ínfimas:
suas aldeias foram bombardeadas; seus familiares, assassinados pelas
milícias; suas mulheres, raptadas e violentadas. Ou: a aldeia
vizinha foi atacada e eles acharam que seriam os próximos. Ou:
houve combates entre rebeldes e janjaweeds, a aldeia foi afetada, suas
lavouras foram queimadas e o gado, roubado. "Meus irmãos
foram assassinados a tiros e minha casa, incendiada pelos janjaweeds",
conta Fatima Adam Abdala, de 30 anos. Na fuga, ela caminhou durante
dois dias até chegar ao campo de Kalma, em Darfur do Sul, onde
vive hoje. Um dos homens responsáveis por proteger a população
civil de ataques como esses é o general Henry Anyidoho, de Gana,
vice-representante especial da Unamid, a força de paz conjunta
da ONU e da União Africana em Darfur. Na tarde de 23 de novembro,
um domingo, Anyidoho recebeu VEJA para uma entrevista em seu contêiner
com ar condicionado no quartel-general da Unamid, em El Fasher. No mesmo
dia, a 100 quilômetros a noroeste dali, uma aldeia foi bombardeada
pela Força Aérea sudanesa, informação que
só chegou ao comando da Unamid 48 horas depois. O episódio
demonstra a impotência dos mecanismos aos quais foi confiada a
tarefa de impedir o genocídio que adentra o século XXI.
A missão de paz integrada por Anyidoho não é omissa.
Ela simplesmente não conta com o contingente e o equipamento
necessários para cumprir seu mandato de impor a paz em Darfur
– à força, se necessário. A resolução
da ONU que criou a Unamid se dispôs a enviar 26.000 homens e 24
helicópteros militares à região. Hoje, há
apenas 9.300 capacetes azuis (a cor das Nações Unidas)
para monitorar um território do tamanho do Paraguai (outros 2.400
devem chegar ainda neste mês). E nenhum helicóptero. Repita-se:
nenhum. Em julho passado, um comboio da Unamid foi pego numa emboscada
por uma milícia com duas centenas de homens armados. No embate,
sete soldados da força de paz morreram. Se houvesse helicópteros
militares, os 22 feridos poderiam ter sido evacuados em vinte minutos.
Como não havia, o resgate levou três horas. Uma missão
de paz depende da boa vontade das nações para receber
soldados e veículos emprestados. "Quem sabe o governo brasileiro
não pode ceder alguns de seus aviões militares da Embraer?",
diz Anyidoho. Ele está acostumado a não ser ouvido. No
início da década de 90, o general ganense de 120 quilos
era o segundo no comando da força da ONU em Ruanda, quando 800000
tútsis foram massacrados por milícias hutus. Anyidoho
e seu chefe, o general canadense Roméo Dal-laire, alertaram a
comunidade internacional sobre a limpeza étnica antes que ela
acontecesse e pediram ao Conselho de Segurança mais soldados
e autorização para impedir a matança. Em vez disso,
foram ignorados e impedidos de interceder no que o presidente americano
Bill Clinton chamou, na ocasião, de "assunto interno de
Ruanda". Anyidoho assistiu impotente ao genocídio.

"Eu entrei para o SLA em 2003, depois que
minha aldeia foi atacada e as milícias cometeram o primeiro estupro
em massa da guerra. Na ocasião, meu irmão foi assassinado
brutalmente na frente da minha mãe. Ela morreu no ano passado
em um campo de refugiados no Chade."
COMANDANTE ADAM ALI WAR, membro de uma das facções
do Exército de Libertação do Sudão (SLA,
na sigla em inglês). Na foto ao lado, Adam está no centro,
entre dois rebeldes do grupo, em El Fasher
Em relação a Darfur, para contrabalançar
a ineficácia da missão de paz propriamente dita, está
em curso uma operação de ajuda humanitária que
atenua as vicissitudes dos refugiados. Graças a ela, a taxa de
desnutrição caiu pela metade nos últimos anos.
Atuam na região dezesseis agências da ONU e 85 ONGs, que
prestam serviços como atendimento de saúde e distribuição
de comida. Para cada 366 habitantes de Darfur, há um trabalhador
humanitário. Entre eles, Mauricio Burtet, de 32 anos, um gaúcho
hiperativo que trabalha em El Fasher como chefe de campo do Programa
Alimentar Mundial (PAM), agência da ONU especializada em distribuição
de comida em situações de emergência. Burtet explica
a dificuldade de trabalhar na região: "As cotas de comida
que conseguimos distribuir a cada pessoa estão abaixo do ideal,
porque nossos carregamentos têm sido roubados e nossos motoristas,
seqüestrados". Só neste ano, 100 caminhões do
PAM desapareceram nas mãos de bandos armados, que ninguém
sabe identificar se são janjaweeds, rebeldes ou um dos grupos
criminosos sem filiação política que proliferam
em Darfur, onde um AK-47 pode ser comprado por 100 dólares. Nos
morros cariocas, custa 120 vezes mais.
As organizações de ajuda e a Unamid enfrentam uma situação
paradoxal em Darfur. Elas estão lá para proteger a população
civil, mas, para atuar, dependem da boa vontade do governo sudanês
– algoz dos refugiados. A Unamid, por exemplo, precisa importar
milhares de toneladas de equipamentos para suas tropas, de material
de escritório a veículos blindados. Com freqüência,
os fiscais do governo sudanês levam meses para liberar os contêineres
da Unamid na alfândega. Os trabalhadores humanitários passam
por dificuldades semelhantes com a burocracia estatal. A atividade das
ONGs ficou ainda mais penosa depois do indiciamento de Omar al-Bashir,
em julho passado, pelo promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional
(TPI), o argentino Luis Moreno-Ocampo. O ditador foi indiciado por genocídio,
crimes contra a humanidade e crimes de guerra em Darfur. Se os juízes
do TPI acatarem a acusação, uma decisão a ser tomada
nos próximos meses, Al-Bashir não poderá mais viajar
a nenhum país signatário do tribunal internacional, incluindo
o Brasil. Ele será preso se o fizer. Com isso, Moreno-Ocampo
criou um motivo a mais para os burocratas sudaneses, afundados em seus
sofás velhos nos prédios públicos decrépitos
de Cartum, repetirem seu mantra: "Tomorrow, inshallah". Não
surpreende que os funcionários da ONU e das ONGs humanitárias
critiquem Moreno-Ocampo, a quem acusam de exibicionismo e de não
pensar nas conseqüências políticas de suas decisões.
"Nunca ouvi dizer que a Argentina tivesse bons advogados",
ironiza o etíope Abdul Mohammed, diretor do departamento político
da Unamid.
SEM CONTROLE
No alto, soldados nigerianos da Unamid em patrulha em El Geneina. Acima,
adolescentes de uma milícia que recebe guarida do regime sudanês
em Darfur e às vezes entra em confronto com rebeldes da região
Foto: Lynsey Addario/Corbis/Latinstock
Para além do destemor, os oficiais da missão
de paz – que se dividem entre militares e policiais – têm
em comum o abatimento. "Temos uma missão impossível",
diz William Caine, um policial inglês aposentado. De dentro do
quartel-general da Unamid em El Fasher, ele aponta para o campo de Abu
Shouk, com cerca de 50000 pessoas, onde os capacetes azuis fazem patrulhas
durante o dia. Não há contingente para fazer o mesmo à
noite, quando ocorrem tiroteios e raptos de mulheres. Entre suas tarefas
está uma paradoxal: treinar a polícia sudanesa dentro
de padrões de respeito aos direitos humanos e tentar estabelecer
um elo de confiança entre essas forças de segurança
e os refugiados. "Como fazer isso se a polícia daqui representa
o mesmo governo que os ataca?", pergunta-se Caine.
Que o digam os refugiados de Kalma, em Darfur do Sul. Na manhã
do dia 25 de agosto, a polícia sudanesa tentou entrar em Kalma,
campo com mais de 80000 pessoas, para procurar por armas e rebeldes.
Trinta e três moradores foram mortos e setenta feridos, incluindo
mulheres grávidas e crianças. "Ainda tenho medo de
que isso possa se repetir", diz Fatima Adam Hamis, de 20 anos,
que teve uma irmã e um sobrinho feridos no episódio. O
psiquiatra Alberto Hexsel, de 54 anos, gaúcho de Passo Fundo,
que passou alguns meses trabalhando para a organização
Médicos sem Fronteiras, estava próximo a Kalma quando
o ataque aconteceu. Ele participou do socorro aos feridos. "Nós
entramos no campo horas depois e, além de muito sangue no local
do massacre, vimos chinelos e sapatos espalhados, deixados para trás
durante a correria", conta Hexsel. Como na maioria dos campos,
os refugiados de Kalma vibraram ao saber que Al-Bashir havia sido indiciado
pelo Tribunal Penal Internacional. Mas, também a exemplo do que
ocorre nos outros campos, não esperam que o ditador seja preso
ou deposto para tentar melhorar sua vida.

"Quando fugi de minha aldeia, caminhei durante
dois dias para chegar aqui. Às vezes, o governo cerca o campo
e passamos cinco dias sem poder sair para trabalhar."
FATIMA ADAM ABDALA, de 30 anos, que vive há cinco no campo de
refugiados de Kalma. Ela não acredita que um dia poderá
voltar para casa
Foto: Evelyn Hockstein
Depois de quatro ou cinco anos morando de maneira improvisada,
os refugiados procuram dar a suas cabanas um aspecto menos precário.
Uma das atividades mais dinâmicas nos arredores dos campos é
a produção de tijolos. Entre Abu Shouk e Al Salaam, em
Darfur do Norte, o terreno ganhou um aspecto de queijo suíço,
com centenas de crateras de onde mulheres, homens e crianças
cortam pequenos blocos de barro. Em Hamadiya, em Darfur do Oeste, próximo
a Jebel Marra, montanha dominada por rebeldes, as acácias e palmeiras
foram derrubadas para alimentar o fogo dos fornos de fabricação
de tijolos. Sobraram alguns poucos baobás, árvores de
caule largo, comuns na savana africana. Com o tempo, as cabanas de palha
ou tendas estão sendo substituídas por casas com paredes
de barro ou tijolo artesanal. Taiba, em Darfur do Oeste, e outros campos
habitados por clãs árabes são uma exceção.
Com medo da guerra, seus moradores abandonaram os hábitos nômades,
mas mantiveram a tradição de viver em cabanas de palha
efêmeras.
Os campos de refugiados são verdadeiras bombas populacionais:
a maioria continua recebendo milhares de pessoas por ano. Elas buscam
desesperadamente um lugar onde possam ter alguma sensação
de segurança, por menor que seja. "A maioria dos campos
está à distância de um dia de caminhada de uma base
da Unamid", diz o diretor de Informação Pública
Kemal Saiki, um argelino que usa um relógio em cada pulso, come
faláfel três vezes por dia e já serviu em meia dúzia
de missões de paz ao redor do mundo. Nos campos, os refugiados
têm condições mínimas de se sustentar por
conta própria, pois não há espaço para plantar
ou manter uma criação numerosa de bodes e camelos. "Tenho
uma pequena plantação a três horas de caminhada
do campo", diz Tigani Bilal Suleiman, de 55 anos, morador de Al
Salaam que consegue com isso obter uma renda equivalente a 2 dólares
por dia. Outros homens tentam algum subemprego nas cidades e as mulheres
recolhem lenha para vender, sob o risco de serem estupradas nos arredores
do campo. "A violência sexual é um problema real em
Darfur, mas o governo quer abafar o assunto, impedindo as ONGs de criar
programas de apoio psicológico às mulheres", disse
a VEJA o subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários,
John Holmes.
"Voltar para minha aldeia natal é
um sonho distante. Mesmo que se firme a paz, não podemos retornar
sem ter condições mínimas de sustento ou serviços
básicos de educação e saúde. Aqui, dou aulas
de inglês, mas preferia ter um emprego em uma agência da
ONU em Darfur."
YUSSUF IBRAHIM, de 25 anos, do campo de Hamadiya. A guerra o obrigou
a interromper a faculdade de direito. Três de seus irmãos
e duas irmãs foram mortos a tiros pelos janjaweeds
Foto: Evelyn Hockstein
O ponto de encontro de trabalhadores de organizações de
ajuda humanitária, funcionários da ONU e jornalistas,
enquanto lutam contra a burocracia montada para impedi-los de ir a Darfur,
é Cartum. A capital do Sudão é uma introdução
eloqüente ao país. O banheiro do Ministério das Relações
Exteriores não tem vaso sanitário, apenas um buraco no
chão. Os diplomatas saem dali e têm de limpar a sola dos
sapatos no tapete vermelho do corredor. Com exceção de
algumas poucas vias principais, as ruas de Cartum são de terra,
inclusive no centro da cidade. Como chove muito pouco – 150 milímetros
por ano, um décimo da média de Brasília –,
isso faz da capital sudanesa um lugar empoeirado e marrom. Nem o fato
de a cidade estar situada junto ao encontro dos rios Nilo Azul e Nilo
Branco salva a paisagem.
Não há muito que fazer na capital. Os canais de
televisão abertos são controlados pelo governo. Os jornais,
censurados. "Todas as tardes, um funcionário da segurança
nacional vem à redação para vetar os artigos que
falem do indiciamento de Al-Bashir, de Darfur ou dos desastres ambientais
causados pela exploração de petróleo", diz
Omuno Otto, membro do conselho editorial do jornal Khartoum Monitor.
Apenas um em cada 126 sudaneses tem acesso à internet. No Brasil,
a média é de um em cada cinco habitantes. Quando podem,
os sudaneses embebedam-se às escondidas, trancados em casa, já
que a lei islâmica pune com chicotadas o consumo de álcool.
Traficantes etíopes oferecem cerveja e uísque nas calçadas
do centro, como se vendessem maconha. Uma garrafa do uísque Johnnie
Walker Red Label sai por 100 dólares no mercado negro, três
vezes mais do que num supermercado brasileiro. Em maio deste ano, o
tédio foi interrompido quando um grupo de rebeldes de Darfur,
o Movimento da Justiça e Igualdade, ocupou por um dia um subúrbio
de Cartum, depois de atravessar 600 quilômetros de deserto. Pela
aparência e falta de infra-estrutura, Cartum faz jus à
condição de capital de um dos países mais pobres
do mundo. O Sudão está logo abaixo do Haiti no ranking
do índice de desenvolvimento humano da ONU. A taxa de mortalidade
infantil sudanesa é uma das quinze mais altas do planeta. O serviço
de saúde gratuito praticamente inexiste. Mesmo o cidadão
mais pobre, quando vai a um hospital público, tem de pagar. As
clínicas particulares parecem cortiços. A qualidade dos
médicos é tão baixa que, com freqüência,
o paciente sai da consulta com três diagnósticos diferentes
e a orientação para fazer tratamento para todos eles,
por garantia.
VISADAS
Mulheres de Hamadiya voltam de mercado na cidade de Zalingei, em Darfur
do Oeste: afastar-se do campo de refugiados é arriscado, por
causa dos estupros freqüentes
Foto: Lynsey Addario/Corbis/Latinstock
As condições de vida dos sudaneses contrastam com os recursos
naturais de seu país. A exportação de petróleo
estimula um crescimento econômico que, no ano passado, foi de
12,4%. Isso faz do país a segunda economia que mais cresce na
África, atrás apenas de Angola. Sob sanção
econômica dos Estados Unidos desde 1997, por apoio ao terrorismo
islâmico e pelo conflito em Darfur, o Sudão está
à margem do sistema financeiro mundial. Todo viajante no país
se torna um cofre ambulante, já que cartões de crédito
não são aceitos e é preciso carregar dinheiro em
espécie. O isolamento aproximou o Sudão da China, hoje
seu maior parceiro comercial e investidor. Os chineses são os
maiores acionistas da principal empresa petrolífera do país
e dominam os contratos na área de infra-estrutura, onde ainda
há tudo por fazer: o Sudão tem apenas 3000 quilômetros
de estradas e ruas asfaltadas, das quais quase metade foi construída
pelo terrorista Osama bin Laden, que viveu em Cartum na década
de 90 a convite do governo. Os interesses econômicos da China
no Sudão deram a Al-Bashir um aliado com poder de veto no Conselho
de Segurança da ONU. Isso explica em parte por que é tão
difícil aprovar resoluções de represália
ao seu governo – outra razão é a ajuda que o Sudão
recebe de países como o Brasil, que se absteve em 2006 numa votação
da ONU que visava a exigir a investigação dos crimes em
Darfur. Quando permite a aprovação de sanções,
a China não as respeita: o país asiático vende
equipamentos militares às forças sudanesas, apesar da
resolução das Nações Unidas que proíbe
o comércio de armamentos com o país africano.
Há um consenso de que a crise humanitária em Darfur só
terá fim com negociações de paz que incorporem
os líderes rebeldes à política nacional, como ocorreu
no acordo que acabou com a guerra civil entre o norte e o sul do país.
Uma tentativa de colocar rebeldes e o ditador Al-Bashir para negociar
está sendo feita pelo governo do Catar, no Oriente Médio.
O problema é que Al-Bashir já descumpriu outros acordos
de cessar-fogo. Por isso, são exigidas do seu governo quatro
provas de confiança. A primeira será admitir que os habitantes
de Darfur foram vítimas de atos criminosos por parte do estado,
cuja obrigação era protegê-los. A segunda será
compensar financeiramente os afetados pela guerra. A terceira será
abolir a divisão de Darfur em três estados, uma medida
adotada na década de 90 para enfraquecer a oposição.
Por fim, mas não nessa ordem, o governo deverá cessar
por completo os bombardeios e iniciar o desarmamento das milícias.
Este será o maior desafio porque, como diz o ditado sudanês,
dar comida ao leão é fácil. Difícil é
tirar. O indiciamento de Al-Bashir irritou o regime militar do Sudão
e atrapalhou o trabalho das organizações internacionais
no país. Mas criou uma oportunidade: Darfur voltou ao centro
das preocupações dos políticos do país e
há uma convicção generalizada de que é preciso
encontrar uma saída para a região. Esse pode ser o primeiro
passo para a paz. Inshallah.

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