22/11/2008
Assinatura do ódio no cérebro
Raiva dirigida a um indivíduo provoca padrão
único de atividade cerebral, revela pesquisa
O ódio deixa sinais inequívocos no cérebro.
É o que mostra uma pesquisa inglesa que mapeou as áreas
cerebrais ativadas em voluntários enquanto viam fotos de desafetos.
Os resultados mostram que existe um padrão único de atividade
no cérebro em um contexto de ódio e que, embora bem diferentes,
esse sentimento e o amor romântico ativam duas estruturas cerebrais
em comum.
Os pesquisadores analisaram a atividade cerebral de
17 homens e mulheres que olhavam fotos tanto de pessoas odiadas –
geralmente um ex-amor ou um adversário do trabalho – quanto
de conhecidos neutros. O efeito provocado pelas fotos dos desafetos
foi a ativação de um conjunto de áreas que formam
o chamado circuito do ódio.
“O estudo mostra que o ódio certamente
tem um efeito na atividade cerebral”, diz à CH On-line
Semir Zeki, do University College London (Reino Unido). “Esse
sentimento tem origem no cérebro, que é o centro de nossas
emoções e da consciência”, completa o pesquisador,
autor principal do artigo que apresenta os resultados do estudo, publicado
em outubro na revista PLoS One.
Algumas áreas que pertencem ao circuito ativado pelo ódio
estão ligadas ao planejamento e à execução
de movimentos – o córtex pré-motor – e à
previsão das ações de outras pessoas – o
pólo frontal.
“Nossa hipótese é que a visão de uma
pessoa odiada mobilize o sistema motor para uma possibilidade de ataque
ou defesa”, avalia Zeki. “A previsão da ação
do outro também seria importante no confronto com uma pessoa
odiada.”
Outra estrutura envolvida no planejamento motor e ativada
pelo ódio é o putâmen direito, também estimulado
pelos sentimentos de medo, desprezo e repugnância. O padrão
cerebral identificado pelos cientistas é distinto do relacionado
a emoções como medo, perigo e agressividade, embora haja
uma parte do cérebro associada à agressividade que é
ativada por todos esses sentimentos.
Amor e ódio
Os pesquisadores já haviam realizado estudos semelhantes em relação
ao amor romântico. A comparação entre os efeitos
do ódio e do amor no cérebro mostrou que duas áreas
– o putâmen e a insula – são ativadas pelos
dois sentimentos.
Zeki destaca que amor e ódio, embora aparentemente
antagônicos, se confundem e interagem em muitos momentos. “O
dia-a-dia providencia exemplos em que essas conflitantes emoções
se entrelaçam”, diz. E exemplifica: “Se um companheiro
nos trai, o ódio resultante é provavelmente muito mais
intenso do que se tivéssemos sido traídos por um estranho”.
Uma diferença encontrada entre os efeitos provocados
pelos dois sentimentos foi o padrão de desativação
de algumas regiões cerebrais. No caso do amor, zonas do córtex
cerebral relacionadas ao julgamento e à razão são
desativadas, o que faz com que o indivíduo seja menos crítico
e exigente em relação à pessoa amada.
Já em situações de ódio,
somente uma pequena região do córtex frontal fica desativada.
“O padrão de desativação encontrado foi muito
mais restrito em comparação ao observado nos estudos sobre
o amor”, afirma Zeki. “A desativação provocada
pelo ódio pode estar relacionada a uma mudança de atenção:
o indivíduo pára de se preocupar com o espaço exterior
e passa a ter uma experiência interna associada com a ansiedade”,
explica.
Os pesquisadores ressaltam que os resultados dizem
respeito ao ódio a um indivíduo. Eles pretendem no futuro
estudar os efeitos cerebrais do ódio contra grupos de pessoas,
seja em função da raça, do gênero ou da opção
política.
Tatiane Leal
Ciência Hoje On-line

O ódio ativa um conjunto específico
de áreas cerebrais, entre elas o putâmen direito (na linha
do alto), o córtex pré-motor (linha intermediária)
e o pólo frontal (linha de baixo. Imagens: PLoS One.
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