27/10/2008
Juliana Rocha Barroso
As histórias de vida são diferentes,
mas muito têm em comum Gilberto Adão da Silva, 54 anos,
e Gilvan Gomes da Paixão, 39. Como milhares de brasileiros, eles
vieram da região Nordeste para fazer a vida na maior metrópole
brasileira: São Paulo.
Gilberto nasceu em Isaías Coelho, no Estado do
Piauí, Gilvan, em Bom Jardim, no Pernambuco. Ambos vieram em
busca, na capital paulista, de uma vida mais digna, mas as dificuldades
e os obstáculos ainda impedem que esse sonho se concretize.
Em São Paulo há mais de 20 anos, Gilberto
mora hoje na República, região central da cidade. Veio
sozinho. “Não tenho família aqui não”,
diz. E explica: “Digo assim, não tenho pai, nem mãe.
Não tenho filho... Só tenho a minha mulher. Casei aqui.”
A mulher de Gilberto é faxineira e quando questionado sobre a
vontade de ter filhos, ele responde: “A situação
tá muito difícil.”
Como outros tantos, ele diz que a vida em sua terra
natal era ruim. Lá, ele trabalhava na roça, puxando enxada
e foice. Só estudou até o segundo ano do Ensino Básico.
“É muito difícil trabalhar na roça, aí
eu vim pra cá, mas não arrumei nada de bom.” Também
como outros tantos, ele quer voltar para sua cidade, apesar de não
se arrepender de ter vindo. “A gente não pode se arrepender
das coisas que faz”, justifica.
Há dez anos, Gilberto trabalhava em uma firma
de obras, mas teve um problema de saúde, em janeiro de 1995.
“Acho que é dilatação no coração.
Meu último emprego de carteira assinada foi em 1993. Passei dos
40 anos e não arrumei mais. Comecei a trabalhar na rua, de camelô,
mas também não deu certo, perdi a mercadoria.”
Na época, ele chegou a morar em albergues. “Mas
na rua nunca fiquei não.” Gilberto também tem problemas
de pressão, o que não o impede de andar o dia todo catando
material, que vende para pagar o aluguel do pequeno cômodo onde
vive com a esposa e comprar o de comer. “Não podia trabalhar
nisso aqui, mas tenho que trabalhar... fazer o quê. Não
arrumei outro.”
Há dois anos ele trabalha com a carroça.
“Ela é minha. Vou andando e decido pra que depósito
vender. Nunca procurei nenhuma cooperativa. A vantagem de trabalhar
sozinho é que a gente ganha o que a gente faz no dia e já
pega o dinheiro. Isso aqui eu tenho que ganhar hoje para comer à
noite.”
Mas nem sempre foi assim. Entre 1988 e 1989, Gilberto
trabalhou em depósito de sucata. Lá, limpava os materiais,
carregava os caminhões... não trabalhava com carroça.
“Trabalhar por conta é melhor porque a gente já
recebe logo, na hora. E trabalho no horário que eu quiser.”
Mas também tem o lado negativo. O piauiense conta
que muitas vezes a polícia pega material e até a carroça,
principalmente das pessoas que ficam dormindo na rua. Para garantir
material com constância em alguns lugares, ele costuma passar
com freqüência, de forma a não dar espaço para
que outro catador faça suas vezes. “Tinha um lugar em que
eu pegava sempre, mas eu fiquei parado uns dois meses, e tinha que pegar
uma vez por semana.”
Ele comentou que a confusão que muitos fazem
entre catadores e pessoas em situação de rua não
o atrapalha na hora de pedir as coisas. Hoje Gilberto não restringe
sua atividade a uma região, anda “por tudo quanto é
lugar”, diz. Ele conta que existe diferença de preço
na hora de vender o material.. “Já é barato, se
eu for vender sem olhar então... Papelão, ferro, se tiver
uma sucata de geladeira melhor ainda, que é mais caro.”
Uma mão lava a outra
Em 1989, aos 17 anos, Gilvan chegou à capital
paulista. Como Gilberto, ele veio sozinho, e também trabalhava
na roça em sua cidade natal. “Meu cunhado era zelador de
um prédio na Santa Cecília e eu comecei a trabalhar fazendo
faxina lá, aí ele me dava um dinheirinho. Ganhava um salário
mínimo e vi que não dava para me sustentar. Então
eu saí para a catação de materiais na rua”,
recorda.
Gilvan conhecia vários carroceiros e percebeu
que eles ganhavam mais que ele. “Eles vinham na portaria do prédio.
Antigamente não era carroceiro, era garrafeiro, agora é
carroceiro mesmo, catador”, explica.
Quando saiu do emprego, começou no primeiro depósito,
onde trabalhou por cinco anos, na Rua Conde de Sarzedas, no bairro da
Liberdade. “Peguei a carrocinha dele. Aí vendia só
para ele”, conta. Dali foi para outro depósito, na Rua
São Paulo.
Gilvan conta que os depósitos eram clandestinos.
“Não tinham nada com a prefeitura. Compravam todo o material
dos carroceiros, vendiam e ganhavam muito dinheiro em cima dos carroceiros”,
lembra, afirmando que já tinha noção de que era
explorado. “Sabia que ele ganhava, se a gente vendia o material
por 20 centavos e ele vendia a 40, ganhava 20 em cima.”
Ele tem quatro filhos, a mais velha, hoje com 15 anos,
foi criada no depósito de ferro-velho. “Minha mulher também
era carroceira e me ajudava a trabalhar na rua com carroça. Agora
ela saiu daqui e foi para as Centrais de Triagem. Mas minhas crianças
todas elas estudam e as professoras ensinam que é importante
separar materiais.”
Há mais de 10 anos Gilvan é um dos associados
da Coorpel (Cooperativa dos Catadores de Papel e Papelão), que,
hoje, fica no Bairro da Luz. O projeto tem como objetivo gerar renda
e fortalecer a cidadania de catadores de materiais recicláveis,
por meio da gestão compartilhada de um núcleo de coleta
seletiva. O trabalho é articulado com o Movimento Nacional dos
Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). A rede, que hoje beneficia
cerca de 100 trabalhadores diariamente, procura trabalhar em parcerias
com o poder público e a sociedade civil.
Gilvan conta que a associação foi aberta
na Rua Nioac, na região Sé. “Lá o espaço
era pequenininho, era um depósito de ferro-velho. Tinha a nossa
sede, para fazer a reunião com a população em situação
de rua e com catadores numa casinha, do lado do Centro Gaspar Garcia,
que foi quem apoiou a gente. Aí, conversando com o rapaz do depósito,
convencemos ele a ir embora e conseguimos alugar o espaço. Mas
quem pagava era o Projeto Contra a Miséria, que sempre apoiou
a gente”, recorda.
Ele destaca o apoio da entidade Centro Gaspar Garcia.
“Eles foram ao depósito, acreditaram em mim e me chamaram.
Aí saímos do depósito e tentamos abrir uma associação
para, vamos dizer assim, tirar os catadores do dono do depósito
e vendermos direto para a empresa e não ser sempre explorado.”
Gilvan apontou um problema que tiveram no começo.
“Antigamente o carroceiro não tinha moradia e para passar
para a associação ele tem que ter a moradia. Então,
o catador que vendia o material para o sucateiro tinha moradia e na
associação não. Aí o pessoal não
queria ir. Foi uma luta pra gente conseguir pessoas. Saia na rua, de
noite, conversando para tentar. A gente chamava a pessoa e explicava
para ela a situação. Como ela é aberta, o cooperado
tem dever de pagar os 10% para a cooperativa, pra pagar água,
luz, tudo dentro da cooperativa a gente tem dever de pagar. Então
tem que contribuir para ela subir, senão ela cai. Mas a gente
conseguiu abrir a associação de catadores, com dois, três,
no máximo. Depois foi entrando mais gente, mais gente, aí
a gente foi crescendo.”
A Coorpel funciona das 8h às 16h, com a presença
de educadores do Centro Gaspar Garcia. “Ninguém aqui na
cooperativa entrou sabendo de muita coisa. Eles aprendem com os carroceiros
e nós aprendemos com os educadores”, diz Gilvan. Ele diz
que o galpão fica aberto para os catadores até as 10h
da noite e explica como funciona o trabalho na associação.
“Tem dois grupos, catador e coleta seletiva. Se o caminhão,
que é da Coorpel, sair para a rua, ele pega o material e traz
para vinte pessoas. Aí é tudo coletivo, é tudo
dividido entre eles. Nós, catadores que vamos pra rua, o que
a gente ganhar é nosso. Vamos dizer, se eu ganhar quinhentos
paus amanhã, é meu. O que eu dou de dinheiro na cooperativa
são os 10% da cooperativa e o resto é meu.”
A associação tem equipamentos como balança
e prensa. O caminhão só é utilizado na coleta seletiva,
que, no geral, trabalham pessoas em situação de rua. Eles,
ao integrar a Coorpel, também precisam pagar os 10% mensais.
“A vantagem de quem trabalha na Coleta Seletiva é não
puxar a carroça”, diz Gilson. Ele conta que qualquer catador
da associação pode mudar de Coleta para carroça
e vice e versa, dependendo apenas da existência de uma vaga para
tal.
Para o catador, a vantagem de trabalhar em cooperativa
comparada ao depósito de sucata é que se vende o material
mais caro. “Se o material vale 50 centavos no depósito,
nós vendemos a 60 na fábrica. Se a gente juntar volume
de material, consegue vender direto para a fábrica. Mas se não
juntar, a gente tem que vender para um intermediário”,
explica.
O dinheiro recebido pelo material coletado é
pago quinzenalmente. “Os catadores avulsos não entram na
cooperativa porque, em primeiro lugar, não têm moradia.
Em segundo lugar, eles tentam entrar, mas no momento não temos
espaço aqui na Coorpel.”
Outro ponto que Gilvan destaca é que tudo é
decidido em conjunto. “Aqui tem 16 catadores. Se um disser que
não quer mais ficar na associação, vai sair numa
boa. No lugar dele vai entrar outro, mas tem que passar com todos os
outros catadores para ver se a gente aceita ele ou não.”
O trabalho organizado e coletivo fez com que Gilvan
se tornasse ainda mais questionador. Hoje, ele debate com a propriedade
de quem já passou por várias experiências sobre
assuntos como a informalidade e a imagem negativa que muitos têm
em relação aos catadores. Para ele, catar material na
rua é algo importante. “É uma profissão.
A população tem que agradecer o carroceiro, porque é
um serviço, é o seu ganha pão. Dali você
leva o sustento dos seus filhos, da sua esposa. Mas tem muita gente
que prefere jogar o material cheio de lixo, comida, um monte de coisa.”
Ele conta que a associação tem apoio do
governo federal, que doou terrenos para os carroceiros das cooperativas
Corpel, Recifan e Copamare. Contudo, foi preciso esperar o alvará
da Prefeitura. O terreno fica perto da estação da Luz,
na Rua Vitória, e na Rua Brigadeiro Tobias, onde serão
construídos prédios que vão servir de moradia para
105 famílias. “Se catador avulso tiver a renda ele pode
entrar com nós. A Caixa Econômica exige a renda. O Lula
apóia muito os catadores, ele veio várias vezes aqui na
casa de oração conversar com os carroceiros. Eu estou
aqui em São Paulo há muito tempo e nunca vi um presidente
vir conversar com os carroceiros e ele veio.”
Ao contrário do apoio do governo federal, Gilvan
diz que a prefeitura está lacrando todos os depósitos.
“Está tentando prender carroça dos carroceiros das
cooperativas. Não entrou até agora aqui porque a gente
tem um apoio muito grande de entidades, senão já tinha
vindo. A prefeitura não quer ver carroceiro em São Paulo.
Quem puxa carroça é burro sem rabo, o que a prefeitura
fala é isso. Se esse prefeito for eleito para mais quatro anos,
nós não vamos ter nada. E em primeiro lugar, ele não
recebe os carroceiros.”
Ele conta que há anos as pessoas ofendiam os
catadores. “Todo mundo chamava o catador de burro, de animal.
E a gente deixa as pessoas falarem, a consciência é deles,
não é sua. Você está limpando a cidade de
São Paulo pra eles.”
Gilvan acha que os catadores devem mandar um projeto
de lei para a Câmara dos Vereadores. “Catar material é
uma profissão, é um serviço, mas até agora
a gente luta e na rua a gente é indigente para a prefeitura.
Têm vários carroceiros que moraram na rua. A gente tem
de apoiar eles, chamar. A gente nunca pode se desfazer das pessoas.”
Para ele, se unidos, os catadores conseguem muitas as
coisas. “Mas, no momento, a prefeitura tem que apoiar mais. Ela
quer apoiar mais as pessoas que estão em situação
de rua e os catadores ela deixa de lado."

Catador independente, aos 54 anos, o piauiense
Gilberto Adão da Silva (na primeira foto) trabalha nas ruas da
capital paulista e caminha mais em busca de preço melhor pelos
materiais que coleta. Já o pernambucano Gilvan Gomes da Paixão
é associado da Coorpel, no Bairro da Luz
(Fotos: Juliana Rocha Barroso)
Serviço:
COORPEL - Cooperativa dos Catadores de
Papel e Papelão
Rua 25 de Janeiro, 274 - Bairro da Luz - São Paulo (SP)
Tels.: (11) 3311-9961 e (11) 3311-9928
gaspargarcia@uol.com.br ou coorpel@uol.com.br
Centro Gaspar Garcia
www.gaspargarcia.org.br
Fonte: Senac / Setor 3 - http://www.setor3.com.br
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