24/10/2008
Frédéric Bobin
Em Islamabad (Paquistão)
Eram três irmãs, com idades de 16 a 18
anos. Hameeda, Ruqqaya e Raheena viviam em Baba Kot, uma aldeia no Baluchistão,
uma província árida situada no sudoeste do Paquistão,
nos confins do Irã e do Afeganistão, lá onde a
terra se resume a areia, pedras e rochas buriladas pelo vento. Elas
morreram enterradas vivas numa vala comum. Foram vítimas de um
"crime de honra" que, pela sua selvageria inédita,
vem assombrando as consciências nestas últimas semanas
por todo o Paquistão, onde a população geralmente
aceita sem problema esses assassinatos que são práticas
costumeiras ancestrais.
Hameeda, Ruqqaya e Raheena foram assassinadas em nome
da tradição. Elas cometeram o crime de querer casar-se
com o homem da sua escolha, e não com os primos que a tribo -
dos umrani - havia indicado para elas. O que aconteceu realmente em
14 de julho, naquele dia funesto em que o crime foi perpetrado? Uma
sucessão de fatos delineou-se em função das indicações
que foram publicadas pela imprensa paquistanesa. Em 13 de julho, as
três jovens mulheres haviam deixado sua aldeia de Baba Kot a bordo
de um táxi, acompanhadas pela sua mãe e por uma tia. O
grupo dirigiu-se na direção de Usta Mohammad, um vilarejo
situado a 80 km, onde Hameeda, Ruqqaya e Raheena queriam comparecer
no tribunal civil local para se casarem com os homens que haviam escolhido.
A escapada revelaria ser breve e, sobretudo, fatal.
Mal haviam chegado a Usta Mohammad, as cinco mulheres foram raptadas
por um comando de homens da tribo umrani que as perseguiam desde a sua
partida. Elas tinham vilipendiado a ordem ancestral, que sujeita as
moças às estratégias matrimoniais do clã,
e, portanto, elas precisavam ser castigadas. Elas foram então
embarcadas á força - sob a ameaça de fuzis - dentro
da van Land Cruiser dos seus seqüestradores, que as conduziram
de volta para a aldeia familiar de Baba Kot. Lá, uma jirga -
assembléia de notáveis - estava à sua espera, solenemente
convocada para decidir sobre as sanções a serem aplicadas
contra elas. Prometeram-lhes uma morte muito especial. Esta seria precedida
por um pavoroso suplício que deveria servir de lição
para todas as outras moças da comunidade.
No dia seguinte, conduzem as cinco condenadas até
a parte central de uma área deserta. Os carrascos da tribo levaram
consigo uma escavadeira. A máquina começa a cavar uma
fossa. Então, o motorista que está nos comandos do buldôzer
aciona a lâmina dentada. Ele a dirige sobre as mulheres que estão
amarradas e alinhadas. A ferramenta funciona como uma faca gigante que
tritura sua carne, seus ossos, seu crânio. Depois disso, uma rajada
de tiros de fuzil as ceifa. A escavadeira empurra então os corpos
martirizados para dentro da vala que se tornaria o seu túmulo.
Elas sangram em abundância, mas, conforme relatarão mais
tarde os jornalistas paquistaneses, elas ainda não haviam sucumbido
aos seus ferimentos quando os torturadores começaram a cobri-las
com areia e pedras.
Mulheres foram enterradas vivas no Baluchistão!
O que saberíamos hoje a respeito deste crime bárbaro se
a sociedade civil paquistanesa, ajudada pelos seus veículos de
comunicação audaciosos e suas associações
feministas inconformadas, não tivesse se mobilizado para evitar
que as supliciadas de Baba Kot fossem enterradas uma segunda vez? A
informação veio à tona em 24 de julho, graças
a um corajoso jornalista local, um correspondente do diário em
língua urdu "Jang", que trabalha na sucursal de Quetta,
a capital do Baluchistão. O artigo não oferece muitos
detalhes e não cita nome algum, mas o seu autor não demora
a receber ameaças de morte por parte da tribo umrani.
Justificativa cultural
A partir daquele momento, é na cidade de Islamabad,
a capital do país, onde muitas mentes esclarecidas já
se mobilizaram, que o combate jornalístico começa a ser
orquestrado. O diário em inglês "The News" se
destaca nessa tarefa. Ele confia para Rauf Klasra, um jornalista de
investigação acostumado com os escândalos financeiros,
a missão de desembaralhar o fio da meada deste "crime de
honra", que uma conspiração do silêncio parece
querer abafar. A polícia do Baluchistão não toma
iniciativa alguma, porque personalidades locais de peso estão
envolvidas no crime. A Land Cruiser que permitiu seqüestrar as
cinco mulheres tinha uma placa oficial que é reservada exclusivamente
para os veículos do governo do Baluchistão.
Segundo apontaram várias testemunhas, o instigador
do assassinato seria Abdul Sattar Umrani, que não é ninguém
mais que o irmão de Sadiq Umrani, o ministro da habitação
do governo do Baluchistão, um respeitado membro do Partido do
Povo Paquistanês (PPP), o partido do clã dos Bhutto que
está atualmente no poder no Paquistão. Por mais que o
movimento que foi liderado durante mais de duas décadas por Benazir
Bhutto (assassinada no final de 2007) se valha de um progressismo teórico
em relação à questão dos direitos das mulheres,
as tramóias e os conluios politiqueiros quase sempre acabam soterrando
os nobres ideais. Acima de tudo, o PPP tenta evitar ofender os chefes
de tribo do Baluchistão, uma província que contribuiu
de maneira decisiva para a eleição, em 6 de setembro,
de Asif Ali Zardari, o viúvo de Benazir, para a presidência
do Estado.
Contudo, o jornalista Rauf Klasra insiste em prosseguir
até o fim a tarefa que lhe foi confiada. "É uma história
de enorme importância, mas eu estava com medo de que ela acabasse
sendo esquecida", explica, "isso porque os nossos dirigentes
políticos fingiam não terem interesse nela". Portanto,
o investigador do "The News" mantém a pressão,
e segue revelando cada novo indício que ele encontra. O seu trabalho
acaba encontrando uma receptividade inesperada no Senado, em 29 de agosto,
quando, respondendo a uma interpelação de uma eleita a
respeito do drama de Baba Kot, Mir Israhullah Zehri, um representante
de um partido nacionalista do Baluchistão, apresenta como argumento
uma justificativa cultural dos "crimes de honra". "Estas
são tradições que remontam a muitos séculos",
argumenta, "e eu sempre lutarei em favor da sua manutenção".
No hemiciclo, protestos são ouvidos por todos os lados. A televisão
filma esta altercação incomum e, assim fazendo, confere
uma dimensão nacional para o caso.
"Tudo mudou de figura a partir do momento em que
os canais de televisão transmitiram este incidente no Senado",
decifra Rauf Klasra. "Num país como o Paquistão,
onde a taxa de analfabetismo é muito elevada (70%), a imprensa
escrita tem pouca repercussão. Uma vez que as emissoras de TV
começaram a cobrir o caso, os dirigentes políticos foram
obrigados a reagirem". O Paquistão deixou de ser verdadeiramente
o mesmo desde que os canais privados floresceram, aproveitando-se da
desregulamentação do setor audiovisual, uma herança
paradoxal do reinado militar (1999-2008) do ex-presidente Pervez Musharraf.
Com isso, o silêncio constrangido deu lugar repentinamente
para a indignação virtuosa. O Senado federal e a assembléia
provincial do Sind adotaram resoluções denunciando o assassinato
coletivo de Baba Kot. Nunca ninguém tinha visto coisa igual na
história do Paquistão! Nunca um "crime de honra"
havia provocado uma emoção tão grande, nas mais
altas esferas do Estado. "Está havendo um verdadeiro processo
de conscientização", admite Rauf Klasra.
As próprias feministas reconheceram que o seu
combate, que era incompreendido e laborioso cerca de quinze anos atrás,
passou a ter uma repercussão crescente na classe política.
"Recentemente, comecei a ser convidada para dar palestras na Escola
da magistratura", comemora Samar Minullah, uma documentarista antropóloga
que se especializou nos "crimes de honra". Daqui para frente,
dois Paquistãos estão frente a frente. O dos pretórios
e dos hemiciclos; e aquele das tribos. Entre os dois, abriu-se uma profunda
vala comum.
Fonte : http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2008/09/29/ult580u3341.jhtm
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