01/09/2008
Adriana Prado
Greice Rodrigues
Cilene Pereira
Há uma revolução em curso na medicina
que mudará para sempre a forma de tratar o paciente. Médicos
e instituições hospitalares do mundo todo começam
a incluir nas suas rotinas de maneira sistemática e definitiva
a prática de estimular nos pacientes o fortalecimento da esperança,
do otimismo, do bom humor e da espiritualidade. O objetivo é
simples: despertar ou fortificar nos indivíduos condições
emocionais positivas, já abalizadas pela ciência como recursos
eficazes no combate a doenças. Esses elementos funcionariam,
na verdade, como remédios para a alma – mas com repercussões
benéficas para o corpo. No Brasil, a nova postura faz parte do
cotidiano de instituições do porte do Instituto do Coração
(InCor), em São Paulo, da Rede Sarah Kubitschek e do Instituto
Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), no Rio de Janeiro, três
referências nacionais na área de reabilitação
física. Nos Estados Unidos, o conceito integra a filosofia de
trabalho, entre outros centros, do Instituto Nacional do Câncer,
um dos mais importantes pólos de pesquisa sobre a enfermidade
do planeta, e da renomada Clínica Mayo, conhecida por estudos
de grande repercussão e tratamentos de primeira linha.
A adoção desta postura teve origem primeiro
na constatação empírica de que atitudes mais positivas
traziam benefício aos pacientes. Isso começou a ser observado
principalmente em centros de tratamento de doenças graves como
câncer e males que exigem do indivíduo uma força
monumental. No dia-a-dia, os médicos percebiam que os doentes
apoiados em algum tipo de fé e que mantinham a esperança
na recuperação de fato apresentavam melhores prognósticos.
A partir daí, pesquisadores ligados principalmente a essas instituições
iniciaram estudos sobre o tema.
Hoje há dezenas deles. Um exemplo é um
trabalho publicado na edição deste mês da revista
científica BMC Câncer sugerindo que o otimismo é
um fator de proteção contra o câncer de mama.
“Verificamos que mulheres expostas a eventos
negativos têm mais risco de contrair a doença do que
aquelas que apresentam maiores sentimentos de felicidade e positivismo”,
explicou Ronit Peled, da Universidade de Neguev, de Israel, autor
da pesquisa.
Na última edição do Annals of Family
Medicine – publicação de várias sociedades
científicas voltadas ao estudo de medicina da família
– há outra mostra do que vem sendo obtido. Uma pesquisa
divulgada na revista revelou que homens otimistas em relação
à própria saúde de alguma forma ficaram mais protegidos
de doenças cardiovasculares. Os cientistas acompanharam 2,8 mil
voluntários durante 15 anos. Eles constataram que a incidência
de morte por infarto ou acidente vascular cerebral foi três vezes
menor entre aqueles que no início estavam mais confiantes em
manter uma boa condição física. Provas dos efeitos
da adoção da espiritualidade na melhora da saúde
também começaram a surgir. Nos estudos sobre o tema, a
prática aparece associada à redução da ansiedade,
da depressão e à diminuição da dor, entre
outras repercussões.
A partir de informações como essas,
os cientistas resolveram identificar o que levava a esse impacto. Chegaram
basicamente a duas razões. Uma é de natureza comportamental.
Em geral, quem é otimista, tem esperança e cultiva alguma
fé costuma ter hábitos mais saudáveis. Além
disso, essas pessoas seguem melhor o tratamento.
“Uma postura positiva leva
a gestos positivos. Os pacientes se cuidam mais, alimentam-se bem,
fazem direito a fisioterapia, mesmo que ela seja dolorosa”,
explica a clínica geral carioca Cláudia Coutinho.
A outra explicação tem fundamento biológico.
Está provado que a manutenção de um estado de espírito
mais seguro e esperançoso desencadeia no organismo uma cadeia
de reações que só trazem o bem.
“Se o paciente é otimista, encara um
problema de saúde como um desafio a ser vencido. Nesse caso,
as alterações ocorridas no corpo poderão ser
usadas a seu favor”, explica o pesquisador Ricardo Monezi, do
Instituto de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São
Paulo.
O bom humor, por exemplo, é capaz de promover
o aumento da produção de hormônios que fortalecem
o sistema de defesa, fundamental quando o corpo precisa lutar contra
inimigos. Além disso, o riso provoca relaxamento de vários
grupos musculares, melhora as funções cardíacas
e respiratórias e aumenta a oxigenação dos tecidos.
É esse arcabouço de informações
que permite hoje o uso, na prática, da espiritualidade, do otimismo,
da esperança e do bom humor como recursos terapêuticos
dentro da medicina. Nos Estados Unidos, por exemplo, pesquisadores da
Universidade do Alabama preparam-se para começar a aplicar um
tratamento batizado de “terapia da esperança”.
O sistema consiste em ajudar os pacientes a construir e a manter a esperança
diante da doença.
“O primeiro passo é auxiliá-los
a encontrar um objetivo importante que dê sentido a suas vidas.
Depois, aumentar a motivação para alcançá-lo
e orientálos sobre os caminhos a serem seguidos”, explicou
à ISTOÉ Jennifer Cheavens, da Universidade de Ohio e
participante do grupo que desenvolveu a novidade.
Essa construção é feita com base
em técnicas usadas na terapia cognitivo-comportamental, cujo
objetivo é treinar o indivíduo a pensar e a agir de forma
diferente para conseguir lidar de modo mais eficiente diante de condições
adversas. O treinamento é feito com duas sessões semanais
realizadas durante dois meses. A terapia será usada em portadores
de deficiências visuais e nas pessoas responsáveis por
seus cuidados.
“Acreditamos que ela ajudará muito na
redução da depressão e de outros problemas associados
à perda da visão. Os pacientes ficarão mais motivados
a lutar contra as dificuldades e a participar dos trabalhos de reabilitação”,
explicou à ISTOÉ Laura Dreer, professora do departamento
de oftalmologia da Universidade do Alabama, nos EUA.
No Brasil, a inclusão da ferramenta na prática
médica está mudando a rotina dos hospitais. No Instituto
de Ortopedia, no Rio de Janeiro, por exemplo, o trabalho médico
é acompanhado pelo suporte psicológico, dedicado especialmente
a fortalecer uma atitude mais positiva. O trabalho, claro, não
é simples. Os pacientes costumam ser vítimas de traumas
medulares ocorridos em situações como acidentes ou quedas.
De uma hora para outra, têm a vida totalmente limitada.
“Por isso, precisamos ajudá-los a enfrentar
a nova situação. Eles têm de passar por uma reabilitação
física e emocional”, explica a psicóloga Fátima
Alves, responsável pelo grupo.
E quem faz isso usando o otimismo e a esperança
como armas sai ganhando.
“Mostramos principalmente aos mais descrentes
que a postura positiva no enfrentamento da doença é
um remédio”, afirma Tito Rocha, coordenador da unidade
hospitalar do instituto.
Em breve, eles abrirão um grupo para incentivar
o cultivo da espiritualidade pelos doentes.
Na Rede Sarah, os pacientes são estimulados
a participar de atividades que melhorem o humor e a disposição.
Entre eles, estão o remo, a dança e os jogos.
“No processo de reabilitação,
esses recursos são fundamentais”, afirma Lúcia
Willadino Braga, presidente da Rede Sarah e considerada uma das melhores
neurocientistas do País.
“A doença deixa de ser o foco. Quando isso acontece,
a recuperação é acelerada. O paciente fica menos
tempo internado e retorna às suas atividades mais rapidamente”,
afirma. Constatações semelhantes são obtidas
no InCor, em São Paulo.
Lá, quem está internado
recebe suporte psicológico para não entrar em depressão
– já considerada fator de risco para doenças cardíacas
– e manter o otimismo.
“É preciso dar força
para o espírito para que o corpo se recupere”, afirma
o cardiologista Carlos Pastore, diretor de serviços médicos
da instituição.
Talvez o símbolo mais emblemático do fim
do preconceito da medicina ocidental contra questões relativas
à emoções e espiritualidade seja o que está
acontecendo na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
(USP), a mais tradicional do País. Em novembro, a instituição
sediará um evento para mostrar aos profissionais de saúde
a importância de recursos como a espiritualidade e o bom humor
na recuperação de pacientes. O curso será ministrado
pelo geriatra Franklin dos Santos, professor de pós-graduação
da disciplina de emergências médicas da universidade. No
programa, há um bom espaço para ensinar os médicos
e enfermeiros a usarem essas ferramentas. “Discutimos como isso
deve ser aplicado na prática”, diz o médico, que
tem dado palestras pelas escolas de medicina do País inteiro.
Nos Estados Unidos, também há um esforço
para treinar os profissionais de saúde. Só para se ter
uma idéia, o Instituto Nacional de Câncer americano criou
uma espécie de guia para orientar médicos, enfermeiros
e psicólogos sobre como usar a espiritualidade do paciente a
seu favor. Todo esse interesse é o sinal mais patente de que
a revolução vai durar. Por isso, ninguém deve se
surpreender se quando chegar ao consultório médico for
indagado sobre suas condições de saúde, obviamente,
mas também sobre sua relação com a espiritualidade
ou disposição de esperança. “Questões
como essas devem começar a ser cada vez mais levantadas”,
defende Brick Johnstone, professor de psicologia médica da Universidade
Missouri-Columbia, nos EUA.
A amizade contra a depressão
Bernardete de Araújo, 53 anos
A engenheira paulista viu praticamente desaparecer
a esperança de retomar sua vida normal quando estava no auge
da depressão, há cinco anos. Tinha parado de trabalhar
e vivia sem ânimo. Com a medicação correta e o apoio
dos amigos da Associação Brasileira de Familiares, Amigos
e Portadores de Transtornos Afetivos reencontrou a força que
precisava. “Retomei minha vida”, conta.

O remédio do bom humor
Eliane Furtado, 49 anos
Desde que recebeu o diagnóstico de câncer
no intestino, no ano passado, a consultora de marketing carioca decidiu
que manter o bom humor seria sua grande arma. “Claro que em alguns
momentos eu fiquei triste. Mas resolvi que não me deixaria abater
e que continuaria a rir muito”, lembra ela, autora do livro Câncer:
sentença ou renovação?

Fé em família
Michelle Silvério, 26 anos
Aassistente administrativa ficou 77 dias internada na
UTI, sendo 22 deles em coma profundo. Ela estava com infecção
generalizada. Durante sua internação, a família
se manteve confiante. “Eles mantiveram a fé e a esperança.
Todos os dias se reuniam para orar. E quando saí do coma jamais
duvidei da minha recuperação”, conta Michelle.
Nos braços do otimismo
Jésus Franco, 77 anos
A família do aposentado mineiro é bem
unida. Quando ele descobriu que estava com uma infecção
no intestino e teria de passar por uma cirurgia, recebeu o apoio de
todos e foi embalado por uma corrente de otimismo. “Todos diziam
que eu melhoraria. E torciam para isso”, diz ele, hoje em franca
recuperação.
Fonte: revista Isto é - edição
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