06/05/2008
Divaldo Franco: “O
advento do mundo de regeneração está próximo,
mas não imediato”
http://www.oconsolador.com.br/51/entrevista.html
Para comemorar o primeiro aniversário da
revista "O Consolador", nada melhor que uma entrevista especial
concedida por Divaldo Franco, um amigo dileto que incentivou o projeto
de criação desta revista antes mesmo do seu lançamento,
ocorrido em 18 de abril do ano passado.
Para entrevistá-lo, a direção da
revista contactou seus colaboradores mais diretos e o resultado aqui
está, expresso em 27 questões formuladas pelos confrades
José Passini, Ricardo Baesso de Oliveira, Arthur Bernardes de
Oliveira, Jorge Hessen, José Carlos Munhoz Pinto, Orson Peter
Carrara e Astolfo O. de Oliveira Filho, todos residentes no Brasil,
e as confreiras Elsa Rossi, Claudia Werdine e Katia Fabiana Fernandes,
radicadas na Europa.
A entrevista foi dividida em três blocos: temas
de natureza doutrinária, questões e problemas da atualidade
e assuntos pertinentes ao movimento espírita.
Ei-la, a seguir, na íntegra:
O Consolador – Nossos animais
de estimação ficam por algum tempo numa espécie
de erraticidade, no chamado mundo espiritual, ou são de imediato
encaminhados a uma nova encarnação?
DIVALDO - O egrégio
Codificador do Espiritismo informa-nos que o período em que os
animais se demoram na erraticidade é breve, logo retornando à
reencarnação. Nada obstante, a mediunidade vem demonstrando
que ocorrem períodos mais longos, conforme encontramos narrações
nas obras ditadas pelo Espírito André Luiz ao venerando
médium Francisco Cândido Xavier, assim como Charles à
nobre médium Yvonne do Amaral Pereira. Essas informações
não colidem com a palavra do mestre de Lyon, porque o desdobramento
dos estudos doutrinários estava previsto por ele, ampliando as
informações contidas nas obras básicas.
Recordo-me, por exemplo, de Sultão, o cão
que acompanhava o padre Germano, conforme narrado nas Memórias
do Padre Germano, de Amália Domingo Soler, e da vida de Dom Bosco,
que era defendido por um cão, nas diversas vezes em que atentaram
contra a sua vida.
Pessoalmente, já tive diversas experiências
com animais, especialmente cães desencarnados, que permanecem
na erraticidade desde há algum tempo.
O Consolador – Para haver gravidez,
independentemente do desejo dos pais e do reencarnante, existe necessidade
de autorização das autoridades espirituais?
DIVALDO - Certamente que
sim, porquanto no mapa da reencarnação dos futuros pais
já se encontram delineados os filhos que devem, que podem ou
que queiram ter. Graças a isso, ocorrem as facilidades na concepção
ou os grandes impedimentos que vêm sendo vencidos pela ciência,
através dos tempos, facultando a ocorrência sempre sob
supervisão espiritual.
O Consolador – Você acha
válida a proposta de Kardec pertinente à atualização
periódica dos ensinamentos espíritas, tendo em vista o
avanço da Ciência? Se acha válida, como devemos
implementar essa medida?
DIVALDO - Creio que o pensamento
do preclaro Codificador encontra-se firmado no seu bom senso e na percepção
dos notáveis avanços que teriam a ciência e a tecnologia
do futuro, conforme vem ocorrendo. Em razão disso propôs
que, pelo menos uma vez em cada quarto de século, fosse realizada
uma atualização dos ensinamentos espíritas. Nada
obstante, também me pergunto como isso seria realizado, por exemplo,
na atualidade, com tantas correntes dissonantes em nosso Movimento,
pelo menos no Brasil...
O Consolador – Em sua opinião,
os Espíritos desencarnados mantêm relações
sexuais tal qual se verifica na crosta?
DIVALDO - Conforme a questão
nº 200 de O Livro dos Espíritos, o Espírito é,
em si mesmo, assexuado, sendo-lhe a anatomia uma contribuição
para o fenômeno da procriação. Ao desencarnar, no
entanto, o Espírito mantém as suas tendências, especialmente
aquelas de natureza inferior às quais aferrou-se em demasia,
prosseguindo com as construções mentais que lhe eram habituais.
Como resultado, acreditam-se capazes de intercursos sexuais nas regiões
inferiores onde se encontrem, como efeito da condensação
das energias viciosas no perispírito. Frustrantes e perturbadoras,
essas relações são degradantes e afligentes, porquanto
são mais mentais que físicas, dando lugar a processos
de loucura e de perversão...
O Consolador – Como deve posicionar-se
um casal espírita diante do diagnóstico de anencefalia
no filho que se encontra na fase de gestação.
DIVALDO - Espírita
ou não, o casal que gera um filho anencéfalo e cuja anomalia
é detectada ainda na vida fetal, deve amar a esse Espírito
que irá reencarnar-se com a problemática a que faz jus
em razão de atos praticados anteriormente e que lhe modelaram
a forma atual. A vida fetal não pode ser interrompida, senão
quando a gestante encontra-se ameaçada...
Diversos anencéfalos, mesmo diante dos prognósticos
médicos de que não sobreviveriam ao nascimento, demoram-se
despertando mais amor até o momento em que concluem o período
de que necessitam para a libertação.
O Consolador – Qual deve ser,
à luz do Espiritismo, a posição de uma jovem e
sua família diante de uma gravidez originada de um estupro?
DIVALDO - Embora lamentável
e dolorosa a circunstância traumática da ocorrência,
é dever da jovem e dos seus familiares manterem a gravidez, auxiliando
o Espírito que se reencarna em situação aflitiva
e angustiante. Compreende-se a dor da vítima e dos seus familiares,
no entanto, não se tem o direito de matar o ser reencarnante
que necessita do retorno naquela maneira, a fim de crescer para Deus.
Não raro, esses seres que renascem nessa conjuntura tornam-se
amorosos e profundamente agradecidos àqueles que lhe propiciaram
o recomeço terrestre: a mãe e os familiares.
“A culpa, consciente ou não,
desempenha na depressão um
papel de alta relevância”
O Consolador – Como sabemos,
a depressão é um problema que aflige muitas pessoas nos
dias atuais. Em uma obra espírita recente lemos que a depressão,
em qualquer de suas variantes, é sempre conseqüência
da posição de arrogância cultivada pelo ser na aventura
de superar a si mesmo e aos semelhantes. É verdade essa informação?
DIVALDO - Sem dúvida,
anuímos que não há enfermidades, mas enfermos,
isto é: o Espírito é sempre o incurso no processo
de evolução, trazendo as marcas do passado que se lhe
manifestam como enfermidades ou processos outros degenerativos de que
necessita para resgatar os comportamentos equivocados e infelizes. A
culpa, consciente ou não, desempenha na depressão, entre
outros fatores endógenos e exógenos, um papel de alta
relevância. No entanto, centrar todas as causas na posição
de arrogância do Espírito parece-me algo desproposital.
Esse conceito deve ter as suas raízes na opinião dos estudiosos
que afirmam tratar-se a depressão de um conflito que se deriva
da necessidade de impor-se, de dominar, e, não conseguindo, o
indivíduo tomba na armadilha do grave transtorno.
O Consolador – Se é verdade
que o advento do mundo de regeneração está tão
próximo, qual será a situação dos nossos
amigos terrenos que ainda vivem tão primitivamente em tribos
existentes em muitos lugares do mundo?
DIVALDO - É verdade,
sim, que o advento do mundo de regeneração está
próximo, mas não imediato, e aqueles Espíritos
que ainda se encontram em fase primitiva estão tendo a oportunidade
de despertar para a realidade, dando continuidade ao processo evolutivo
em outro planeta, caso não logrem fazê-lo aqui mesmo, qual
ocorre periodicamente com as grandes migrações de um para
outro sistema, conforme ensina a Doutrina.
O Consolador – Se a Terra está
em evolução, por que ainda tantos crimes hediondos acontecem,
especialmente com crianças? Como explicar tantas atrocidades?
DIVALDO - Vivemos o momento
da grande transição de mundo de provas e de expiações
para mundo de regeneração, que ainda se demorará
ocorrendo por algum tempo na Terra.
É natural que estejam reencarnando-se, neste
período, Espíritos inferiores que estavam retidos em regiões
punitivas desde há muito, em face da crueldade de que são
portadores. Muitos deles fizeram parte das tribos bárbaras que
invadiram a Europa: hunos, godos, visigodos, normandos e que, agora,
estão sendo beneficiados pela oportunidade de optar pelo Bem.
Permanecendo vinculados ao primarismo em que se comprazem, serão
exilados para outros planetas na escala dos mundos inferiores, a fim
de se depurarem, retornando oportunamente, porque “o Pai não
deseja a morte do pecador mas sim a do pecado”, conforte acentuou
Jesus.
As atrocidades que sucedem amiúde, especialmente
com crianças – Espíritos velhos em reencarnação
libertadora – são também um convite à reflexão
das demais pessoas, que marcham indiferentes aos acontecimentos dolorosos
em relação ao seu próximo...
Resgatando os seus graves delitos, esses Espíritos
não necessitariam que outros fossem o instrumento da sua libertação,
pois que a Divindade possui mecanismos especiais que dispensam o concurso
desses infelizes, mas se utiliza do seu estado primitivo para que se
executem as propostas do progresso.
O Consolador – Como você
vê a oficialização do casamento entre homossexuais
e a adoção de filhos por parte deles?
DIVALDO - A questão
é momentosa, em face das ocorrências desse gênero
que não mais podem permanecer ignoradas pela sociedade. O homossexualismo
sempre esteve presente no processo histórico, aceito em um período,
noutro combatido, desprezado em uma ocasião e noutra ignorado,
mas sempre presente... Penso que se trata de uma conquista em relação
aos direitos humanos a legalização de algo que permanecia
à margem, dando lugar a situações graves e embaraçosas.
Quanto à adoção de filhos, penso
que, do ponto de vista psicológico, será gerado algum
conflito na prole em relação à imagem do pai ou
da mãe, conforme o caso, que se apresentará confusa e
perturbadora. O tempo demonstrará o acerto ou o equívoco
de tal comportamento.
O Consolador – Qual deve ser
o posicionamento dos espíritas em relação às
pesquisas com células-tronco embrionárias?
DIVALDO - A reencarnação,
conforme nos ensina a Doutrina Espírita, tem início no
momento da fecundação do óvulo, a partir de cujo
momento passa a existir vida, seja pelo processo biológico natural,
seja in vitro. Qualquer tentativa de interrupção do desenvolvimento
do futuro zigoto, que é o ser humano em formação,
constitui um crime.
As pesquisas com as células-tronco embrionárias
são de resultado ainda incerto, embora se apresentem teoricamente
positivas, porquanto não está comprovado que os resultados
sejam os anelados, mesmo porque existe alto risco como a geração
de tumores, provável rejeição...
Em face dos bons resultados conseguidos com as células-tronco
adultas, é mais válido que se prolonguem as experiências,
com menores riscos e excelentes resultados em doenças como as
leucemias, os Acidentes Vasculares Cerebrais, etc.
Continuando os esforços dos pesquisadores, certamente
hão de surgir outras alternativas tão benéficas
como as que se esperam das células-tronco embrionárias.
“Nunca será demais que os
dirigentes espíritas e todos nós
estejamos vigilantes”
O Consolador – O terrorismo vem
causando muitos males em todos os cantos da Terra. Muitas vidas foram
e continuarão sendo ceifadas em nome do fanatismo religioso.
Como entender que alguém possa morrer e matar em nome de Deus?
DIVALDO - Infelizmente,
o fanatismo de qualquer natureza responde pela predominância da
natureza animal sobre a natureza espiritual do ser (questão 742
de O Livro dos Espíritos), dando lugar a atrocidades inimagináveis.
Entretanto, o suicídio através de bombas e de outras formas
hediondas constitui o mais degradante processo de conduta em relação
à dignidade humana, porque a vida física é sublime
dom concedido por Deus, que ninguém tem o direito de interromper,
porque faculta o desenvolvimento intelecto-moral do Espírito.
Tal comportamento demonstra o estágio primário
em que ainda se reencarnam muitos Espíritos desvairados sem possibilidade
de manter o equilíbrio...
O Consolador – Qual deve ser
a atitude dos dirigentes espíritas relativamente a essa enxurrada
de obras mediúnicas de origem duvidosa que tem infestado o mercado
de publicações espíritas nos últimos tempos?
DIVALDO - Vivemos um momento
de grandes equívocos na sociedade, em face do tumulto que ocorre
em toda parte. Nesse sentido, há uma grande busca por notoriedade,
pela fama... Pessoas imprevidentes, portadoras ou não de mediunidade,
são tomadas de improviso por tais inquietações
e, porque entraram em contato com o Espiritismo, logo se acreditam portadoras
de faculdades extraordinárias, em razão do campo fértil
para a credulidade e tornam-se, de um para outro momento, psicógrafos,
expositores, debatedores de relevo. Nunca será demais que os
dirigentes espíritas e todos nós estejamos vigilantes,
observando as recomendações da Doutrina, mantendo critérios
cuidadosos, a fim de não sermos enganados nem enganarmos a ninguém.
Por outro lado, Espíritos perversos, adversários do Bem,
aproveitam-se do descalabro existente e inspiram pessoas invigilantes,
presunçosas, falsamente humildes, mas prepotentes, tornando-as
portadoras de mensagens destituídas de autenticidade, que geram
confusão e dificuldades no movimento espírita. Alguns
desses descuidados irmãos auto-elegem-se herdeiros de personalidades
históricas e missionários do amor, utilizando-lhes indevidamente
o nome, apropriando-se da sua herança para o exibicionismo no
banquete da fatuidade, o que é realmente lamentável.
O Consolador – Como resgatar
as velhas e boas sessões práticas de doutrinação
de Espíritos desencarnados que tantos benefícios trouxeram
a companheiros em dificuldade, na carne ou fora dela, em face da penúria
de bons medianeiros com que se vêm defrontando nossos Centros
Espíritas?
DIVALDO - Penso que se
torna inadiável o dever de voltarmos à simplicidade e
à humildade, evitando-se as complexidades que ora se apresentam
em torno da mediunidade, exigindo-se estudos úteis, indiscutivelmente,
mas que se prolongam por vários anos, evitando-se o treinamento
edificante e salutar.
Por outro lado, um expressivo número de pessoas
recusa-se a servir de instrumento aos sofredores, aspirando ao contato
com os anjos e serafins, sem recordar-se de que a mediunidade está
a serviço da consolação e da iluminação
de consciências.
No silêncio do anonimato nas instituições
espíritas, sem alarde nem divulgação, devem ser
instalados os grupos sinceros de devotados servidores de Jesus, a fim
de trabalharem em favor da doutrinação dos irmãos
em sofrimento, por cujo meio ascendemos na direção do
Servidor Incessante, que é Jesus.
O Consolador – Como despertar
o interesse de jovens e adolescentes para o estudo da Doutrina Espírita?
DIVALDO - O Espiritismo
é, essencialmente, uma doutrina para jovens e adolescentes, tendo
em vista o seu conteúdo iluminativo, de fácil aplicação
no cotidiano e libertador de tabus e influências perniciosas.
Esclarecendo a mente e confortando o sentimento, o Espiritismo fascina
as mentes juvenis, convidando-as a reflexões demoradas e a comportamentos
saudáveis.
Infelizmente, o exemplo dos pais no lar, nem sempre
compatível com as lições ministradas pela Doutrina
Espírita, constitui um grande impedimento para o estudo e a vivência
dos postulados espiritistas por esses candidatos juvenis.
Tomando conhecimento da filosofia espírita e
da necessidade de aplicação em todos os momentos, os jovens
decepcionam-se no lar, quando verificam a diferença de comportamento
dos pais, no que se refere àquilo em que dizem crer e a maneira
pela qual se conduzem.
Desse modo, o exemplo no lar é de fundamental
importância para o despertamento dos jovens e adolescentes para
o estudo e a vivência do Espiritismo, ao mesmo tempo em que instrutores
jovens e sinceros tornem-se líderes em relação
aos demais membros do grupo juvenil.
O Consolador – Em suas viagens
pelos continentes, qual foi a situação que mais marcou
sua vida?
DIVALDO - As situações
que mais me marcaram nas diferentes viagens ao Exterior foi sempre poder
constatar que nunca nos encontramos a sós. Em momentos muito
difíceis em países onde o Espiritismo era totalmente desconhecido,
não falando o idioma local, sempre fui inspirado a tomar as decisões
acertadas, equacionadas as dificuldades momentâneas que me constituíam
desafios. Jamais me faltou esse concurso dos Espíritos superiores,
que me proporcionaram divulgar a Doutrina Espírita com dignidade
nos mais variados pontos do planeta, deixando sempre marcas positivas,
espaços abertos para os que chegaram ou se apresentarão
depois.
“Espiritizar os indivíduos é
a
tarefa de todos aqueles que
divulgam o Espiritismo”
O Consolador – Temos visto muitas
práticas nas Casas Espíritas que causam dependência
entre os freqüentadores e trabalhadores, com hábitos desnecessários
e muitas vezes místicos. A tolerância fraternal nos solicita
compreender o estágio de instituições e confrades,
uma vez que nós mesmos dela também temos necessidade.
Devemos dizer a esses companheiros sobre a inutilidade de algumas práticas
que possamos presenciar ou nos dedicarmos simplesmente a divulgar o
correto Espiritismo?
DIVALDO - Acredito que
ambas as formas estão corretas. No entanto, considero que o amor
que devemos dedicar à Doutrina esteja acima das conveniências
decorrentes das amizades e escrúpulos na abordagem das dificuldades
que permeiam o nosso Movimento. Não raro, tais comportamentos
inadequados que notamos em diversas Casas Espíritas são
frutos da ignorância, do atavismo ancestral herdado de outras
religiões, que são incorporadas às práticas
espíritas. Desse modo, conversando com lealdade e em particular
com os diretores da instituição, a nós nos cumpre
o dever de orientar corretamente, apresentando a pulcritude do Espiritismo,
de forma que sejam eliminados esses comportamentos doentios.
Como existem também aqueles indivíduos
que se acreditam portadores do conhecimento integral e não aceitam
a contribuição dos outros, ajamos conforme nos recomenda
a consciência espírita, sem nos preocuparmos com as reações
que venham a ocorrer. Como a nossa preocupação não
deve ser a de agradar, mas a de esclarecer espiriticamente as criaturas,
não receemos em ser leais à Codificação,
mesmo quando tenhamos que pagar o ônus da incompreensão
dos menos preparados doutrinariamente...
O Consolador – Muitos centros
incentivam estudos intensos sobre romances e outras obras ditas como
complementares em detrimento das obras da Codificação
espírita. Que conseqüências doutrinárias esse
comportamento poderá acarretar?
DIVALDO - O dever básico
do Centro Espírita é divulgar a doutrina conforme no-la
ofereceu o egrégio Codificador nas obras básicas e na
Revista Espírita entre janeiro de 1858 a março de 1869.
O estudo do Espiritismo deve ser realizado nas obras fundamentais. Aquelas
que são complementares, por mais respeitáveis que se apresentam,
são confirmações e ampliações das
obras básicas nas quais se alicerça a Doutrina Espírita.
Como estudar romances, ditos espíritas, sem o
conhecimento do Espiritismo, ou mergulhar o pensamento no desdobramento
de propostas que são ignoradas na sua estrutura inicial?
Espiritizar os indivíduos, afirma-me o Espírito
Joanna de Ângelis, é a tarefa de todos aqueles que divulgam
o Espiritismo, especialmente na instituição que lhe ostenta
o nome.
O Consolador – Doutrina religiosa,
sem dogmas propriamente ditos, sem liturgia, sem símbolos, sem
sacerdócio organizado e sem rituais, ao contrário de quase
todas as demais religiões, como entender a prática ou
adoção de rituais no Centro Espírita?
DIVALDO - A presença
de quaisquer práticas ritualísticas no Centro Espírita
desfigura-lhe a condição de fidelidade à Doutrina.
Sendo o Espiritismo a religião cósmica do amor, não
existem justificativas para quaisquer comportamentos supersticiosos
e vinculados a outros credos, pois que proporciona a ligação
da criatura com o Criador sem a necessidade de intermediários
humanos ou circunstanciais, de pessoas ou de ritos extravagantes e desnecessários.
O Consolador – Considerando-se
que o Espiritismo é uma religião eminentemente educadora
e que o Espírito reencarna para aperfeiçoar-se, você
não acha que as atividades que visam à evangelização
da criança não têm recebido o apoio na proporção
da importância da tarefa?
DIVALDO - É de lamentar
essa constatação em inúmeros Centros Espíritas.
Acreditam os seus diretores que são imortais no corpo, sem a
preocupação de preparar as novas gerações
para os substituírem, tanto quanto trabalhar a criança,
a fim de produzir uma sociedade feliz, sem vícios nem conflitos,
que o Espiritismo dirime e equilibra.
Esse infeliz comportamento traduz a ignorância
em torno da educação, que mereceu do insigne Allan Kardec,
o nobre educador, páginas de relevante beleza.
Educar a criança de hoje, é dever inadiável,
a fim de não se ter que punir o cidadão do futuro, conforme
o pensamento de nobre filósofo grego...
O Consolador – Nota-se que há
no meio espírita um verdadeiro movimento iconoclasta que tem
tachado pejorativamente de conservadores, de donos da verdade e de censores
todos aqueles que se preocupam com a manutenção do nível
de equilíbrio, de sobriedade, de fidelidade doutrinária.
Será que esse movimento mundial de questionamento de padrões
éticos, que surgiu nas últimas décadas do século
vinte, está chegando ao Movimento Espírita?
DIVALDO - Vivemos o momento
da grande transição e é natural que ocorram fenômenos
dessa natureza, especialmente quando se trata da preservação
dos valores ético-morais da sociedade. O tédio emocional
decorrente da exaustão dos sentidos no gozo da inutilidade e
das paixões subalternas rebela-se contra tudo quanto invita à
reflexão, à preservação do bom, do nobre,
do belo, convidando à rebelião, às mudanças,
na busca de novos estímulos para a sobrevivência daqueles
que se lhe fazem vítimas.
O Espiritismo é doutrina grave e profunda, que
não se adapta às novidades com que muitos desejam mascará-lo,
de modo a permanecerem na futilidade e no sensacionalismo.
Aqueles espíritas sérios que zelam pela
preservação dos valores doutrinários sobreviverão
aos modismos, porque a Doutrina permanecerá conforme a recebemos
de Allan Kardec e dos nobres Espíritos que a Codificaram e a
desdobraram através dos anos.
“O proselitismo, conforme vem
sendo praticado por diversas seitas, tem
sido mais prejudicial do que útil”
O Consolador – Um fato bem peculiar
em grande parte da Europa é a existência de Grupos Espíritas
fundados e mantidos por brasileiros, cujos trabalhadores e freqüentadores
são em sua maioria brasileiros. Poucos grupos conseguiram despertar
nos europeus a vontade de aprender mais sobre a Doutrina Espírita,
no seu tríplice aspecto. O que está faltando?
DIVALDO - Acredito que
essa é a fase inicial, decorrência natural da dificuldade
de alguns grupos ainda não realizarem atividades no idioma do
país em que se encontram. Por outro lado, a falta de livros traduzidos
para os diversos idiomas – e que vem sendo solucionado pelo CEI
com muita eficiência – também contribui para o desinteresse
dos nacionais.
Esse esforço dos brasileiros é valioso
sob todos os aspectos considerados: sustenta-lhes a fé, ajuda
o seu próximo e oferece oportunidade de conhecer o Espiritismo
àquele que, por acaso, se venha a interessar.
Esse fenômeno ocorreu também com o Cristianismo
em Roma, convém lembrar. Ademais, conheço excelentes grupos
na Europa que estão encontrando ressonância entre os nascidos
nos países em que se encontram fixados. Aguardemos, confiantes,
auxiliando esses admiráveis desbravadores.
O Consolador – Como conseguir
estreitar mais estes laços e, por conseguinte, contar com a participação
dos europeus nas atividades espíritas?
DIVALDO - A questão
é delicada, especialmente em se considerando que o Espiritismo
não é doutrina que impõe, mas que expõe.
O europeu, em geral, exceção aos da península ibérica,
onde o Movimento espírita encontra-se muito bem organizado e
difundido, sofreu muitas guerras, experimentou muitas dificuldades,
cansou-se da fé religiosa que lhe foi oferecida e vive um período
de agnosticismo, senão de materialismo, em alguns disfarçado
em postura religiosa vazia de religiosidade...
Com os esforços que vêm sendo envidados
pelas sociedades que estão conseguindo registros oficiais e do
CEI, confiamos que haverá mais estreitamento entre os brasileiros
e os europeus que simpatizam com o Espiritismo.
O Consolador – Quando gostamos
muito de uma coisa, é natural que queiramos compartilhá-la.
Por que evitarmos o proselitismo, se estamos plenamente convencidos
de que o Espiritismo seria tão benéfico e consolador para
todos?
DIVALDO - O proselitismo,
conforme vem sendo praticado por diversas seitas e doutrinas de variada
denominação, tem sido mais prejudicial do que útil,
porque faz adeptos inconscientes, fanáticos, presunçosos...
O Espiritismo não deverá realizar esse
tipo de divulgação, arrastando multidões para as
suas fileiras, considerando os diversos níveis psicológicos
de consciência em que se situam os indivíduos, o que não
permite uma aglutinação na horizontal dos interesses.
É válida a tentativa de elucidar e conquistar
novos adeptos, isto porém se dará no momento quando houver
maior amadurecimento espiritual e moral dos indivíduos, após
saturar-se das paixões dissolventes a que se aferram.
O Consolador – A todo instante
somos colocados diante de situações que exigem nossa imediata
avaliação e inevitável julgamento. Que fazer, no
âmbito profissional ou familiar, para adotar o princípio
cristão sem correr o risco de falharmos por omissão?
DIVALDO - Como nos encontramos
na Terra, torna-se inevitável que participemos dignamente das
imposições vigentes no mundo, avaliando e julgando. Tenhamos
como exemplo as autoridades que devem exercer as suas funções,
os chefes de setores, os responsáveis por atividades que abrangem
grupos humanos e sociais...
O não julgar a que se refere o Evangelho constitui
uma advertência a não pensarmos mal dos outros, a não
concluirmos apressadamente quando não conhecemos os fatos, a
não atirarmos pedras em nosso próximo. Dispondo porém,
de argumentos, de informações e dados, é-nos concedido
o direito de avaliar e de julgar de maneira equilibrada, contribuindo
para a regularização do que esteja errado, a fim de ser
corrigido.
Não podemos concordar com tudo, o que nos pode
empurrar para uma postura hipócrita, pusilânime ou conivente
com o erro...
O Consolador – Qual o melhor
caminho para que desenvolvamos dentro de nós o amor cristão
pelo próximo, a bondade espontânea no coração
e foquemos nossas vidas mais pelos caminhos da solidariedade, essa virtude
ainda tão esquecida?
DIVALDO - Confesso não
conhecer esse melhor caminho. Na minha experiência de uma longa
existência e como decorrência da convivência com os
Espíritos amigos aprendi a compreender o meu próximo,
tentando ser melhor, mesmo que, com dificuldades, permitindo que os
outros pensem de mim o que lhes aprouver, enquanto estarei procurando
pensar o melhor de todos... Tenho aprendido a não revidar o mal
com o mal, e embora sabendo que tenho inimigos – em ambos os planos
da Vida – luto para não ser inimigo de ninguém,
e venho buscando cumprir com o dever com que sou honrado na atual reencarnação.
O Consolador – Há um ano,
quando comemorávamos 150 anos de existência de O Livro
dos Espíritos, foi lançada esta revista, redigida especialmente
para circular na internet. Passados doze meses, que avaliação
você faz da criação da revista e da importância
da internet na difusão do Espiritismo no globo em que vivemos?
DIVALDO - Recordo-me com
imenso júbilo da planificação do primeiro número
da nossa cara Revista eletrônica e acompanhei o seu processo de
crescimento e de qualidade, graças à cooperação
de novos articulistas, entrevistados e a segura direção
dos caros Astolfo e José Carlos.
A internet, como tudo que o homem toca e corrompe infelizmente,
tornou-se veículo de informações incorretas, de
agressões, de desmoralizações, de infâmias,
de degradação e de crime... mas também de grandiosas
realizações que dignificam o gênero humano e preparam
a sociedade para dias mais belos e mais felizes.
Nesse sentido, a Revista vem realizando o seu papel
de difundir o Espiritismo com elegância, nunca se permitindo vulgaridade,
qualquer tipo de arrogância ou de combate inútil, fiel
aos postulados da Codificação, o que me faz recordar os
excelentes artigos da Revue Spirite, fundada e dirigida por Allan Kardec
até a data da sua desencarnação – 31-3-1869
– cujo sesquicentenário comemoramos desde janeiro próximo
passado.
Penso que se Allan Kardec estivesse reencarnado, nestes
dias, utilizar-se-ia da internet com a mesma nobreza com que recorreu
à imprensa do seu tempo na divulgação e defesa
do Espiritismo diante dos seus naturais adversários.
Parabéns à Revista eletrônica, aos
seus diretores e a todos os seus cooperadores.

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