25/04/2008
Ignacio Cembrero
Em Doha
El País
Vinte anos depois que o aiatolá
iraniano Khomeini emitiu uma "fatwa" condenando à morte
o escritor indo-britânico Salman Rushdie, por seu livro "Os
Versos Satânicos", o golfo Pérsico continua apreciando
esses éditos islâmicos, que às vezes são
brutais e às vezes extravagantes e perturbadores.
Nas últimas semanas as fatwas surgem como setas.
Uma delas provocou uma violenta polêmica no mundo muçulmano.
Foi pronunciada no final de março pelo clérigo saudita
Abdul Rahman al Barrak, de 75 anos. Nela, exige que dois colunistas
da imprensa se arrependam, ou do contrário "deverão
ser executados como apóstatas do islã e não terão
direito aos rituais do enterro".
O que Al Barrak censura em Abdula Bin Bijad e Yusuf
Abu al Khayl? O fato de terem apoiado em vários artigos publicados
em março no jornal "Al Riad" que os seguidores de outras
religiões monoteístas, como o cristianismo ou o judaísmo,
não devem ser taxados de infiéis como faz o wahabismo,
a versão rigorosa do islamismo que impera na Arábia Saudita.
Para Barrak, ambos incitam assim os muçulmanos a mudar de fé.
A fatwa de Barrak, o clérigo independente com
maior influência na Arábia Saudita, não foi publicada
pela imprensa do reino, mas sim em sites islâmicos. As autoridades
religiosas oficiais, a começar pelo grande mufti Abdelaziz al
Cheikh, guardam silêncio.
Os dois colunistas respondem que a fatwa emana "das
trevas". "Não me impedirá de continuar expondo
minhas convicções", declarou Bin Bijad. Al Khayl,
por sua vez, pretende denunciar o religioso por ameaçá-lo
de morte.
Ambos receberam apoio de uma centena de intelectuais
árabes, que no início do mês redigiram um manifesto
no qual descrevem Barrak como "obscurantista" e o acusam de
querer ostentar o "monopólio do islã" e de "terrorismo
intelectual".
Barrak também obteve apoios, como os de cerca
de 20 religiosos sauditas, em sua condenação aos "artigos
heréticos". Barrak é autor de outras fatwas célebres,
como a que qualifica os xiitas de "heréticos" e outra
que anima a assassinar funcionários dinamarqueses e a escravizar
suas mulheres em reação às polêmicas charges
de Maomé.
As fatwas com condenações à morte
foram algumas vezes lançadas por leigos. Uma delas custou a vida
em 1992 do escritor egípcio Farag Foda. Dois anos depois, o prêmio
Nobel de literatura Naguib Mahfouz ficou gravemente ferido em um atentado
no Cairo.
A sudeste de Riad, em Dubai, o Departamento de Assuntos
Islâmicos emitiu em 7 de abril uma fatwa que proíbe que
hospitais e laboratórios rotulem os tubos com amostras de urina,
sangue ou fezes com os nomes dos pacientes, caso estes tenham ligação
com Deus e o profeta.
O departamento entregou ao Ministério da Saúde
uma lista com 99 nomes que inclui desde Abdala até Abdelrraham,
e sugere substituí-los nos frascos e tubos pelo número
do protocolo médico. Assim se evitará atentar contra o
caráter sagrado desses nomes, explica.
O mais conhecido dos telepregadores árabes, o
egípcio Yussuf Qaradawi, que arenga através da Al Jazira,
a televisão com sede em Qatar, emitiu há alguns dias uma
fatwa de caráter liberal. Ele é um conservador que disse
que os marroquinos poderiam contrair créditos hipotecários
porque seu país é tão pouco muçulmano quanto
os europeus, ao não facilitar o acesso ao financiamento islâmico
(sem juros).
Qaradawi surpreendeu ao declarar que para os muçulmanos
"não é ilícito consumir bebidas que contenham
uma pequena porcentagem de álcool obtido mediante fermentação
natural" do açúcar. Referia-se às bebidas
energéticas para esportistas, cuja gradação não
supera 0,5%.
"Esta fatwa abre caminho para os que querem consumir
bebidas com uma escassa proporção de álcool,
sob o pretexto de que o Corão ou a Suna não estabelecem
a gradação", lamentou o principal jornal do emirado,
"Al Charq".
"O vinho [...] não é senão
a dominação e obra do demônio", reza o Corão.
Os teólogos muçulmanos mais modernos interpretam
que o livro sagrado rechaça a embriaguez, mas não o consumo
moderado de álcool. Sua opinião é minoritária.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Fonte:
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2008/04/23/ult581u2554.jhtm
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