25/04/2008
Robert F. Worth
Em Malula, Síria
Elias Khoury ainda consegue se lembrar dos dias em que
os velhos em sua aldeia em uma encosta falavam apenas aramaico, a língua
de Jesus. Naquela época a aldeia, ligada à capital, Damasco,
apenas por uma longa e sacolejante viagem de ônibus pelas montanhas,
era quase inteiramente cristã, um vestígio de um Oriente
Médio mais velho e mais diverso que existia antes da chegada
do Islã.
Agora Khoury, 65 anos, grisalho e acamado, reconhece
com tristeza que praticamente esqueceu a língua com que conversava
com sua mãe.
"Está desaparecendo", ele disse em
árabe, sentado com sua esposa em uma cama na casa de pau-a-pique
onde cresceu.
"Eu não uso muito do vocabulário
aramaico, de forma que esqueci."

Garoto caminha por rua de Malula, aldeia síria
onde ainda se pode ouvir o idioma aramaico
Malula, juntamente com duas aldeias vizinhas menores
onde o aramaico também é falado, ainda é celebrada
na Síria como uma ilha lingüística única.
No Convento de São Sérgio, em uma colina acima da cidade,
meninas recitam o Pai Nosso em aramaico para os turistas, e livretos
sobre a língua são vendidos nas lojas de presentes no
centro da cidade.
Mas a ilha se tornou menor com o passar dos anos, e
alguns moradores locais dizem temer que não durará. Antes
uma grande população que se estendia pela Síria,
Turquia e Iraque, os cristãos de língua aramaica lentamente
desapareceram, alguns fugindo para o Ocidente, alguns se convertendo
ao Islã. Nas últimas décadas, o processo acelerou,
com grandes números de cristãos iraquianos escapando da
violência e do caos de seu país.
Yona Sabar, um professor de línguas semíticas
da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, disse que hoje,
Malula e suas aldeias vizinhas, Jabadeen e Bakhaa, representam os "últimos
dos moicanos" do aramaico ocidental, que era a língua que
Jesus supostamente falava na Palestina há dois milênios.
Com suas casas antigas situadas em uma fenda dramática
nas montanhas, Malula antes era remota de Damasco, a capital síria,
e os moradores locais passavam suas vidas aqui. Mas agora há
poucos empregos e os jovens tendem a se mudar para a cidade para trabalhar,
disse Khoury.
Mesmo quando retornam, a probabilidade é menor
de falarem aramaico. Os ônibus em Damasco costumavam partir uma
ou duas vezes por dia; agora partem a cada 15 minutos, e com as melhores
estradas a viagem leva cerca de uma hora. O intercâmbio constante
com a cidade grande, sem contar a televisão e a Internet, minou
a separação lingüística de Malula.
"As gerações mais jovens perderam
o interesse" no aramaico, Khoury disse com tristeza.
Sua neta, uma jovem de 17 anos de olhos brilhantes e
calça jeans azul chamada Katya, ofereceu algumas poucas amostras
da língua: "Awafih" para olá, "alloy a
pelach a feethah" para Deus esteja com você. Ela aprendeu
aramaico principalmente em uma nova escola da língua em Malula,
criada há dois anos para manter a língua viva. Ela também
sabe algumas canções e começou a aprender a escrever
-algo que seu avô nunca aprendeu.
Khoury sorri com as palavras, mas lembra de como em
sua infância, há 60 anos, os professores batiam nos estudantes
que empregavam o aramaico em sala de aula, aplicando a política
do governo de "arabização".
"Agora é o contrário", ele
disse.
As famílias falam árabe em casa e mais
provavelmente aprendem o aramaico no centro da língua, onde alguns
estrangeiros também estudam.
No cruzamento central da cidade, um grupo de jovens
em frente a um mercado parecia confirmar a visão pessimista de
Khoury.
"Eu falo um pouco de aramaico, mas mal consigo
entender", disse Fathi Mualem, 20 anos.
John Francis, 20 anos, disse:
"Meu pai escreveu um livro a respeito, mas mal
consigo falar". (Nomes que soam ocidentais são comuns
entre os cristãos na Síria e no Líbano.)
Malula -"entrada" em aramaico - tira
seu nome de uma lenda que evoca a herança religiosa separada
da cidade. Santa Tecla, uma bela mulher jovem que estudou com São
Paulo, teria fugido de sua casa onde atualmente é a Turquia após
seus pais pagãos a perseguirem por causa de sua nova fé
cristã. Ao chegar a Malula, ela encontrou seu caminho bloqueado
por uma montanha. Ela rezou e as rochas se dividiram em duas, com um
riacho fluindo sob seus pés.
Atualmente os turistas sobem e descem o desfiladeiro
estreito por onde a santa teria fugido, com rochas de cor rosada se
erguendo 30 metros acima de uma trilha bastante percorrida. Perto dali,
duas dúzias de freiras vivem no Convento de Santa Tecla, cuidando
de um pequeno orfanato. ("Nós ensinamos o Pai Nosso para
as crianças em aramaico", disse uma freira vestida de preto,
"mas tudo mais é em árabe".) Há um templo
na encosta da montanha onde Santa Tecla teria vivido, com uma árvore
crescendo horizontalmente a partir dali.
Mas até mesmo a identidade cristã da cidade
está desaparecendo. Os muçulmanos começaram a ocupar
o lugar dos cristãos que emigraram, e agora Malula -antes totalmente
cristã- é quase metade muçulmana, disseram os moradores.
A herança lingüística de Malula provocou
algum interesse após o lançamento do filme de 2004 de
Mel Gibson, "A Paixão de Cristo", com sua mistura de
diálogos em aramaico, latim e hebraico. Virtualmente todos na
cidade parecem ter visto o filme, mas poucos disseram tê-lo entendido.
Mas não foi culpa deles: ele incluía dialetos diferentes
de aramaico e a pronúncia dos atores dificultava entender algo,
disse Sabar, o professor de línguas semíticas.
O aramaico também mudou ao longo dos séculos,
assumindo elementos do árabe sírio, disse Sabar.
Mas a maioria dos moradores de Malula acredita que a
língua ancestral de sua cidade ainda é a mesma falada
por Jesus, e que ele a falará quando voltar.
"Nossos pais e avós sempre falavam conosco
nesta língua", disse Suhail Milani, um motorista de ônibus
de 50 anos com rosto enrugado. "Eu espero que não desapareça."
Tradução: George El Khouri Andolfato
Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2008/04/22/ult574u8407.jhtm
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