01/04/2008
O TERREIRO DA CONTRADIÇÃO
UMBANDA ADOTOU RITUAIS DA MACUMBA POR SEREM
MAIS "DRAMÁTICOS" QUE OS DO KARDECISMO, MAS BUSCOU
SE "DESAFRICANIZAR" AO REJEITAR FEITIÇARIAS E MATANÇAS
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História da religião foi marcada
pela hostilização da polícia, da Igreja Católica
e de neopentecostais
MARCELO BERABA
DA SUCURSAL DO RIO do Jornal Folha de São Paulo
A umbanda comemora neste ano seu primeiro centenário.
Reconhecida por sua capacidade de assimilar e misturar rituais, crenças
e símbolos do catolicismo popular, do espiritismo kardecista,
dos cultos africanos, da pajelança indígena, de tradições
orientais e, mais recentemente, do esoterismo, ela continua a perseguir
os mesmos objetivos de quando foi criada: respeito e reconhecimento
social.
A religião ainda é estigmatizada e tem dificuldades de
firmar identidade própria e uma imagem positiva -a maioria dos
brasileiros ouvidos em 2007 pelo Datafolha acha que a umbanda é
coisa do demônio.
Perseguida durante décadas pela polícia, depois pela Igreja
Católica e, mais recentemente, pelos evangélicos neopentecostais,
ela teve seu apogeu entre o final dos anos 1950 e o início da
década de 1980.
Hoje, sofre um pequeno declínio de seguidores, segundo o censo
de 2000, mas está presente em diversos países, é
sacudida por movimentos de revitalização, principalmente
em São Paulo, e influencia outras religiões.
Espiritismo abrasileirado
No dia 15 de novembro de 1908, exatos 19 anos após a Proclamação
da República, o Caboclo das Sete Encruzilhadas se manifestou
numa sessão espírita kardecista em Neves, São Gonçalo,
município fluminense próximo ao Rio, então capital
federal. Foi um escândalo.
A Doutrina Espírita do francês Allan Kardec [pseudônimo
de Hippolyte Léon Denizard Rivail, 1804-1869] tinha seguidores
no Brasil desde 1865.
Embora haja indícios de incorporações de espíritos
de índios e de escravos negros nas diversas formas de macumba
que existiam no Rio de Janeiro do século 19, os kardecistas não
os admitiam por considerá-los espíritos marginais e pouco
evoluídos. Quem recebeu o caboclo indesejado, e logo em seguida
o preto-velho Pai Antônio, foi Zélio Fernandino de Moraes,
um rapaz de 17 anos que se preparava para entrar para a Escola Naval.
Os registros daquele episódio variam conforme a fonte.
Em um dos relatos, reproduzido no livro "Umbanda Cristã
e Brasileira" (J. Alves Oliveira, 1985), o caboclo teria assim
se revelado: "Se julgam atrasados esses espíritos dos pretos
e dos índios [caboclos], devo dizer que amanhã estarei
em casa deste aparelho [o médium Zélio de Moraes] para
dar início a um culto em que esses pretos e esses índios
poderão dar a sua mensagem e, assim, cumprir a missão
que o plano espiritual lhes confiou".
Em 1970, Ronaldo Linares, hoje presidente da Federação
Umbandista do Grande ABC, ouviu a história da revelação
do próprio Zélio (1891-1975). O espírito se apresentou
como caboclo brasileiro e foi contestado por um médium kardecista,
que disse que via nele "restos de vestes clericais".
O caboclo então teria explicado: "O que você vê
em mim são restos de uma existência anterior. Fui padre,
meu nome era Gabriel Malagrida e, acusado de bruxaria, fui sacrificado
na fogueira da Inquisição por haver previsto o terremoto
que destruiu Lisboa em 1755. Mas, em minha última existência
física, Deus concedeu-me o privilégio de nascer como um
caboclo brasileiro".
Quando perguntaram seu nome, respondeu: "Se é preciso que
eu tenha um nome, digam que sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, pois
para mim não existirão caminhos fechados. Venho trazer
a umbanda, uma religião que harmonizará as famílias
e que há de perdurar até o final dos séculos".
A sina da umbanda, desde então, é trabalhar para impedir
que os seus caminhos se fechem. A adoção do 15 de novembro
como marco da criação da umbanda é uma convenção
da década de 1970.
Embora o registro da incorporação seja de 1908, o primeiro
terreiro, o Centro Espírita Nossa Senhora da Piedade, do mesmo
Zélio de Moraes, teria sido criado na década de 1920,
e o estatuto que norteou o seu funcionamento e serviu de referência
para dezenas de outros terreiros umbandistas que seguiram as orientações
ditadas por Zélio é de 1940.
A nova religião nasce de uma aparente
contradição.
De um lado, o desejo de se diferenciar das práticas de feitiçaria
dos cultos de origem africanos considerados primitivos; do outro, a
decisão de abrasileirar os espíritos que se manifestavam
por meio dos médiuns, dando espaço de honra aos índios
e aos escravos africanos e descendentes.
A umbanda deu os seus primeiros passos no mesmo período em que
a sociedade brasileira vivenciava um forte processo de transformação.
A hegemonia econômica da agricultura começava a ceder espaço
para a nascente industrialização, que trazia consigo novas
classes sociais.
A antropóloga norte-americana Diana Brown [leia entrevista na
pág. ao lado], pioneira no estudo da umbanda na década
de 1960, constatou que os fundadores da religião eram majoritariamente
de classe média, insatisfeitos com o espiritismo kardecista que
praticavam e observadores dos centros de macumba que funcionavam nas
favelas.
"Eles passaram a preferir os espíritos e divindades africanos
e indígenas presentes na macumba, considerando-os mais competentes
do que os altamente evoluídos espíritos kardecistas na
cura e no tratamento de uma gama muito ampla de doenças e outros
problemas", escreveu em "Uma História da Umbanda no
Rio" (1985).
Os fundadores achavam os rituais da macumba mais "estimulantes
e dramáticos" do que as sessões de espiritismo, mas
rejeitaram aqueles com matança de animais e incorporação
de espíritos que consideravam diabólicos, como os de Exu.
O esforço inicial foi no sentido de desafricanizar a umbanda
e "purificá-la". É o espiritismo de umbanda,
logo umbanda branca, que adota princípios e ícones do
catolicismo, crenças e compromissos do kardecismo (como a mediunidade,
a reencarnação e a prática da caridade) e adere
à magia e ao culto aos orixás africanos, mas sem a feitiçaria
e as matanças da macumba e da quimbanda.
O desafio inicial era como, ao mesmo tempo, incorporar essas aquisições
e se diferenciar de suas matrizes. O primeiro terreiro mantém
a referência kardecista (Centro Espírita) e homenageia
um ícone católico (Nossa Senhora da Piedade).
Décadas de perseguições
Há um fator objetivo para aqueles médiuns tentarem se
distinguir da macumba.
Apesar da liberdade religiosa conquistada com a República, o
Código Penal de 1890 proibia "praticar o espiritismo, a
magia e seus sortilégios". O código de 1942 ainda
reprimia os "feiticeiros", mas não todos, apenas os
acusados de usarem os seus poderes para o mal, segundo estudos da antropóloga
Yvonne Maggie.
Um parêntese: na interpretação de Yvonne Maggie,
ao combater a feitiçaria, o código de 1890 de alguma maneira
indicava que o Estado e sua elite acreditavam nos poderes sobrenaturais
dos feiticeiros e por isso os perseguiam.
A primeira fase de expansão da umbanda coincide com as mudanças
sociais e políticas ocorridas na década de 1930 e com
a ditadura nacionalista e populista de Getúlio Vargas (1930 a
1945). Segundo Diana Brown, a escolha pela umbanda de símbolos
como os caboclos e pretos-velhos foi influenciada pelo "intenso
nacionalismo do regime de Vargas e pelo seu esforço de criar
uma cultura nacional como base para a unificação do povo
brasileiro".
A valorização dos índios e escravos gerou a idéia
de que a umbanda é a única religião genuinamente
brasileira, o que é contestado por vários estudiosos.
O antropólogo Émerson Giumbelli lembra que na década
de 30, quando a umbanda se consolidou, várias religiões
surgiam ou se afirmavam com o mesmo caráter nacionalista.
Giumbelli cita os casos do kardecismo, com o lançamento em 1938
do livro que tornou conhecido o médium Chico Xavier [1910-2002],
"Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho",
e o Santo Daime, criado no Acre.
Mesmo identificados com as diretrizes do governo Vargas, os umbandistas
foram perseguidos durante o Estado Novo. O Museu da Polícia,
no Rio, guarda uma coleção de cerca de 200 imagens, vestes,
guias e objetos dos cultos apreendidos naquela época.
O acervo, tombado, está guardado em armários de aço
no prédio de 1910 da rua da Relação (centro) onde
funcionou a Polícia Central do Distrito Federal e, na ditadura
militar, o Dops (Departamento de Ordem Política e Social). A
Coleção de Cultos Afros foi durante muitas décadas
identificada como Coleção de Magia Negra.
As primeiras federações umbandistas foram criadas para
enfrentar a discriminação social e a repressão
policial.
Uma vítima famosa da polícia foi Euclides Barbosa (1909-88),
precursor da umbanda em São Paulo. Mais conhecido pelo apelido
de Jaú, poucos pais-de-santo apanharam tanto e foram presos tantas
vezes quanto ele, a ponto de ser considerado por alguns líderes
"o grande mártir" da religião.
Antes de ser pai-de-santo, Jaú se tornou conhecido como zagueiro
do Corinthians (1932-37) e da seleção brasileira que disputou
a Copa de Mundo de 1938 na França.
Um dos idealizadores das festas de Iemanjá no litoral paulista
no final da década de 1950, Jaú foi perseguido durante
anos pela Guarda Civil, e há relatos de torturas e humilhações
públicas que sofreu.
Os anos dourados
A umbanda começou a respirar na década de 1950, mas não
por muito tempo. A redemocratização do país, em
1945, propiciou o ambiente de liberdade religiosa. Em 1953 foram criadas
em São Paulo as duas primeiras federações umbandistas
(no Rio, já existia uma desde 1939, fundada por Zélio
de Moraes). Em 1964, caiu a exigência de registro obrigatório
dos terreiros na polícia, e foi mantido apenas o registro civil
em cartórios públicos.
Levantamento feito pelos antropólogos Lísias Nogueira
Negrão e Maria Helena Concone mostra que, na década de
1940, em São Paulo, apenas 58 terreiros umbandistas se registraram
nos cartórios, para 803 que se declararam espíritas.
Na década de 1950, a proporção se inverteu: 1.025
terreiros se assumiam de umbanda contra 845 centros espíritas
e apenas um terreiro de candomblé. O apogeu ocorreu na década
de 1970, quando foram registrados 7.627 terreiros de umbanda, 856 de
candomblé e 202 centros espíritas.
A perseguição policial arrefeceu, mas não terminou,
com o fim da ditadura de Vargas.
Na década de 1950, eles ganharam um novo inimigo igualmente forte,
a Igreja Católica. A campanha religiosa nos púlpitos e
na imprensa só diminuiu depois do Concílio Vaticano 2º
(1962-65), mas a trégua foi curta. A partir da década
de 1970, eles passaram a ser perseguidos com um vigor ainda maior pelos
seguidores das novas religiões pentecostais.
Os umbandistas têm recorrido à Justiça contra a
intolerância. A ação mais importante, patrocinada
pelo Superior Órgão de Umbanda do Estado de São
Paulo, foi ganha em 2005 na Justiça Federal contra as redes Record
e Mulher, ambas da Igreja Universal, e aguarda manifestação
do Superior Tribunal de Justiça. O Ministério Público
denunciou os programas que enfocaram "de maneira negativa e discriminatória
as religiões afro-brasileiras".
No Rio, a ação das igrejas neopentecostais foi fulminante
nas favelas. No morro Dona Marta, zona sul, funcionaram, até
meados da década de 1980, seis terreiros de umbanda, um de candomblé
e um de espiritismo de mesa. Todos acabaram, e hoje é esse o
número de templos de igrejas neopentecostais.
No censo de 2000, 432 mil brasileiros se declararam umbandistas, uma
queda de 20% em relação ao censo de 1991. A tendência
de queda é real, mas é bem provável que o número
de fiéis seja bem maior porque muitos não se declaram
publicamente por medo ou vergonha. Muitos freqüentadores procuram
os centros para conselhos ou curas, mas não se consideram umbandistas.
Apesar disso, a religião parece forte e renovada em cidades como
São Paulo -segunda capital em número de seguidores, depois
do Rio- e Porto Alegre, matriz da expansão da umbanda para o
Uruguai e a Argentina a partir da década de 1970.
NOVO PRETO VELHO
AUTORA DE OBRA PIONEIRA, A ANTROPÓLOGA AMERICANA
DIANA BROWN AFIRMA QUE A UMBANDA NÃO É KITSCH NEM FOLCLÓRICA,
MAS, SIM, RELIGIÃO DE CLASSE MÉDIA
DA SUCURSAL DO RIO do Jornal Folha de São Paulo
A antropóloga norte-americana Diana Brown
discorda dos que vêem na umbanda um símbolo do subdesenvolvimento
brasileiro. Ela desembarcou no Rio em 1966 e foi morar numa favela,
durante cinco meses, para estudar um movimento que supunha ser de negros
pobres, mas logo descobriu que era uma iniciativa criada e dominada
pela classe média. Pioneira no estudo da umbanda no Brasil, Brown
é professora da Universidade Columbia, em Nova York. Seu livro
"Umbanda - Politics of an Urban Religious Movement", de 1974,
não foi até hoje traduzido para o português. (MB)
FOLHA - Por que decidiu estudar o Brasil
e a Umbanda?
DIANA BROWN - A primeira vez em que estive no Brasil
foi em 1966. Era aluna de antropologia e fazia o doutorado na Columbia.
Naquele tempo, havia muito interesse pelo Brasil e por cursos com professores
como Charles Wagley and Marvin Harris, que fizeram várias pesquisas
no Brasil. Foi assim que tomei conhecimento pela primeira vez do que
chamavam cultos afro-brasileiros. Eu me interessei, estudei português
e li todos os trabalhos que havia na biblioteca, como Nina Rodrigues,
João do Rio, Arthur Ramos, Luiz Costa Pinto, René Ribeiro,
Roger Bastide, Ruth Landes. Naquela época, o departamento de
antropologia da Columbia, como aqueles da maioria das universidades
americanas e brasileiras, estava fortemente influenciada pelo modelo
de modernização. Por esse modelo, as religiões
de influência africana deveriam estar em declínio e desaparecendo
no Brasil. Isso porque, supostamente, faziam parte do setor tradicional
ou atrasado da sociedade, que estava se transformando numa sociedade
moderna. Meus professores diziam que eu só encontraria a umbanda
nos setores menos modernizados, mais pobres e menos escolarizados. Por
isso, me orientaram a situar a pesquisa numa favela. Em 1966, consegui
uma bolsa da Fundação Ford e fui morar e estudar a umbanda
durante cinco meses no Jacarezinho, na zona norte, então uma
das maiores favelas do Rio. No fim da primeira semana, me encontrei
com um general reformado do Exército que era líder de
uma das federações umbandistas. Cada fio da favela que
eu seguia acabava em pessoas da classe média. Assim, resolvi
fazer a pesquisa sobre a classe média na umbanda.
FOLHA - Por que a umbanda, e não
o candomblé ou outra religião?
BROWN - Naquele momento, todo mundo se interessava
pelo candomblé e desprezava a umbanda por ter se misturado com
outras religiões. O puro é que era considerado bom e autêntico.
Ainda hoje persiste essa idéia. Alguns colocam o candomblé
como cultura popular autêntica e a umbanda como kitsch. Não
concordo com isso, acho que a imagem de autenticidade é uma construção
social. Achei e ainda acho a umbanda autêntica. Os umbandistas
me receberam muitíssimo bem, os acadêmicos não.
Alguns diziam: por que você veio estudar a umbanda, que é
um símbolo do nosso subdesenvolvimento? Outra reação
foi a de que a umbanda era uma religião que não valia
a pena estudar, que era folclore. Hoje, a imagem da umbanda mudou, mas
nem tanto. Ela ainda carrega traços dessa vergonha.
FOLHA - Qual era o contexto do surgimento
da umbanda?
BROWN - Havia muito preconceito, mas muita gente a
praticava. A imagem era de classe baixa e ignorante. O grupo que começou
a promover a umbanda branca tinha um background kardecista. Eles se
achavam, por isso, protegidos e legitimados. Mas havia muito preconceito
e perseguição. Embora Getúlio Vargas fosse conhecido
como "pai dos pobres" e "pai da umbanda" e, em 1966,
muitos terreiros que visitei ainda tivessem retratos dele, ficou evidente
que ele deixou a polícia invadir os terreiros e foi tudo muito
brutal.
FOLHA - Qual o papel do Zélio
de Moraes na construção da umbanda?
BROWN - Ele e seu grupo conseguiram promover a imagem
dessa umbanda que foi chamada de umbanda branca. Foi um esforço
para embranquecer e modernizá-la. O papel dele é simbólico,
foi o porta-voz dessa "nova" umbanda.
FOLHA - O fato de ele ter recebido
em 1908 o Caboclo das Sete Encruzilhadas significou uma ruptura com
o kardecismo?
BROWN - Eu não diria isso. Para ele [Zélio
de Moraes] foi uma ruptura, mas era mais uma expressão do ecletismo
que já existia. Foi esse caboclo quem falou para o Zélio
que ele seria o fundador, mas antes já existiam caboclos e a
prática de religiões africanas. Era uma grande mistura.
FOLHA - O Censo 2000 mostrou queda
no número de umbandistas.
BROWN - A expansão da umbanda foi impulsionada
em parte pelo tipo de política populista do período antes
de 1964. Havia procissões enormes em Copacabana e grande envolvimento
de políticos até o final dos anos 1960. Eu imaginava que
continuaria a crescer. Reginaldo Prandi e outros [estudiosos] falam
que houve um contrabalanço e uma tendência a se africanizar.
A imagem de embranquecimento que eu enfrentei era ambígua: era
uma tentativa de se europeizar e se elitizar. É mais do que [uma
questão] racial, era uma metáfora para a vida moderna.
O que significa a África? Eu vejo a africanização
também de maneira ambígua: como uma referência à
herança africana e também como uma metáfora para
o exótico, o autêntico e o poder espiritual. As classes
médias e as elites sempre procuram o que consideram "autêntico"
na cultura popular, como o jazz nos Estados Unidos, o samba ou o Carnaval
no Brasil, que começaram entre os setores pobres e foram se transformando
em coisas da elite.
FOLHA - Você achava que a umbanda
tinha a cara do brasileiro. Ainda acha?
BROWN - Não. Para os fiéis, era uma expressão
forte do nacionalismo cultural. Ela foi promovida, durante um momento
muito freiriano [referência a Gilberto Freire], como a única
religião genuinamente brasileira. Mas esse momento passou, e
essa imagem nunca teve âmbito nacional. No âmbito da cultura
popular, o Carnaval define muito mais o brasileiro do que a umbanda.
FOLHA - O que é umbanda?
BROWN - É uma religião que trata com
espíritos, que são muitos e têm a capacidade de
intervir na vida cotidiana das pessoas. E podem intervir para o bem
ou para o mal. Os rituais celebram os espíritos, que se manifestam
e conduzem os trabalhos de cura e de orientação para os
problemas. A maioria das pessoas que freqüentam a umbanda foi levada
pelo sofrimento. No campo simbólico, você tem dois grupos
subalternos, os índios e os escravizados, que são celebrados
como personagens de alta importância. Há uma mistura com
catolicismo, kardecismo, uma variedade muito grande de práticas,
e há sobretudo uma imagem de caridade. Mas há também
os terreiros que trabalham com Exu e que fazem o que as pessoas querem,
para o bem ou para o mal. São a ala menos aceita pelos umbandistas
declarados, mas talvez seja a mais forte.
FOLHA - Você chegou a simpatizar
com a umbanda?
BROWN - Eu me criei numa família protestante,
mas larguei o protestantismo e não tenho muita crença.
Para mim, a umbanda tem a mesma validade de outras religiões,
talvez um pouquinho mais.
Não posso dizer que acredito nos espíritos, mas também
não posso negar tudo que eu vi acontecer nos terreiros. Seja
qual for a causa, funciona muito bem: ela cura, trata e cuida.
CORAÇÃO DE POMBAGIRA
ESPÍRITO DE MULHER, ESSE EXU FEMININO CULTUADO
NA QUIMBANDA É USADO PARA SOLUCIONAR PROBLEMAS RELACIONADOS AO
AMOR E À SEXUALIDADE
REGINALDO PRANDI
ESPECIAL PARA A FOLHA DE SÃO PAULO
De beleza exuberante e inteligência rara, Elisa
se achava uma mulher sem sorte. Vivia infeliz: todos que a cercavam,
todos a quem amava pareciam sofrer com ela. Uma maldição,
pensava ela. Casada, logo o marido passou a se servir de putas, embora
amasse e desejasse a mulher, que só penetrou uma vez, na primeira
noite. Apesar de seu tremendo desejo por Elisa, só alcançava
a ereção com outras. Ela sofria pelas dores do marido.
Ele a acusava de rejeitá-lo e batia nela.
No começo, nem tudo era sofrimento. Daquela única vez
nasceu Vitória. A menina cresceu bonita e saudável até
os sete anos. Depois começou a definhar. "É a maldição!",
Elisa se culpava. O marido se enterrou de vez nos puteiros, ia chorar
sua desventura no colo das putas. Todas as especialidades médicas
foram consultadas, todas as promessas foram pagas, todas as rezas foram
rezadas.
Consultados médiuns e videntes, cartomantes e benzedeiras, padres,
pastores e profetas, nada. A saúde da menina decaía dia
a dia. Até que Elisa foi bater à porta de mãe Júlia,
famosa mãe-de-santo. "Você nasceu com a beleza de
Oxum e a majestade de Xangô, mas seu coração é
de pombagira", disse-lhe a mãe-de-santo, depois de consultar
os búzios.
A vida recatada de Elisa, seu senso de pudor, sua modéstia, a
repressão de costumes que ela mesma se impunha, a falta de interesse
pelo sexo, tudo isso negava os sentimentos de seu coração,
contrariava sua natureza. A cura, a redenção -dela e dos
seus-, tinha uma só receita: libertar seu coração,
deixar sua pombagira viver. Foi a sentença da mãe-de-santo.
Leve e livre
Ali mesmo, naquele dia e hora, sem saber como nem por quê, Elisa
se deixou possuir por três homens que, no terreiro, tocavam os
atabaques. O prazer foi imenso. Sentiu-se leve e livre pela primeira
vez na vida.
Pensando na filha, voltou correndo para casa e encontrou a menina melhor,
muito melhor: corria sorridente, pedia comida, queria brincar.
No dia seguinte, Elisa voltou ao terreiro. "Seu caminho é
longo ainda", mãe Júlia disse.
Depois a abençoou e se despediu. Um dos homens com quem se deitara
no dia anterior lhe deu um endereço no centro da cidade, um local
de meretrício, que Elisa começou a freqüentar. Passava
as tardes lá, enquanto o marido trabalhava. Voltava para casa
mais feliz e esperançosa, a menina melhorava a olhos vistos.
Para preservar a honra do marido, Elisa se vestia de cigana, cobrindo
o rosto com um véu. O mistério tornava tudo mais excitante.
A clientela crescia. O marido soube da nova prostituta e quis experimentar.
Na cama com a Cigana, o prazer foi surpreendente, muito maior do que
sentira com Elisa e que nunca fora superado com outra mulher. Seria
escravo da Cigana se ela assim o desejasse. Mas a Cigana nunca mais
quis recebê-lo.
A insistência dele foi inútil. "Um dia te mato na
porta do cabaré", ele a ameaçou, ressentido e enciumado.
Ela se manteve irredutível.
Num entardecer de inverno, ele esperou pela Cigana na porta do puteiro
e, na penumbra, lhe deu sete facadas. Assustado, olhou o corpo ensangüentado
da morta estirado no chão e reconheceu, no piscar do néon
do cabaré, o rosto desvelado de Elisa. Um enfarto o matou ali
mesmo.
Longe dali, no terreiro de mãe Júlia, o ritmo dos tambores
era arrebatador. As filhas-de-santo giravam na roda, esperando a incorporação
de suas entidades.
Na gira de quimbanda, exus e pombagiras eram chamados. Os clientes,
que lotavam a platéia, esperavam sua vez de falar de seus problemas
e resolver suas causas. As entidades foram chegando, e o ambiente se
encheu de gargalhadas e gestos obscenos. O ar cheirava a suor, perfume
barato, fumaça de tabaco, cachaça e cerveja. A força
invisível da magia ia se tornando mais espessa, quase podia ser
tocada.
Cada entidade manifestada no transe se identificava cantando seu ponto.
De repente, uma filha-de-santo iniciante, e que nunca entrara em transe,
incorporou uma pombagira.
Com atrevimento ela se aproximou dos atabaques e cantou o seu ponto,
que até então ninguém ali ouvira: "Você
disse que me matava/na porta do cabaré/ Me deu sete facadas/
mas nenhuma me acertou/ Sou Pombagira Cigana/ aquela que você
amou/ Cigana das Sete Facadas/ aquela que te matou".
Mãe Júlia correu para receber a pombagira, abraçou-a
e lhe ofereceu uma taça de champanhe. "Seja bem-vinda, minha
senhora. Seu coração foi libertado", disse a mãe-de-santo,
se curvando.
Pombagira Cigana das Sete Facadas retribuiu o cumprimento e, gargalhando,
se pôs a dançar no centro do salão.
Biografias míticas
Essa é uma história de ficção, mas poderia
não ser. É baseada em relatos que ouvi e li em anos de
pesquisa sobre umbanda e candomblé. Pombagiras são espíritos
de mulheres, cada uma com sua biografia mítica: histórias
de sexo, dor, desventura, infidelidade, transgressão social,
crime.
Pombagira é um exu, um exu feminino. Na concepção
umbandista, o termo exu nomeia dezenas de espíritos de homens
e mulheres que em vida tiveram uma biografia socialmente marginal.
O culto dessas entidades é reunido na quimbanda, uma das divisões
da umbanda, hoje em dia também encontrada em muitos terreiros
de candomblé.
A quimbanda cuida das situações de vida que a moralidade
dos caboclos e pretos-velhos, que compõem a outra divisão
da umbanda, rejeita e reprime.
Pombagira tem múltiplas identidades, cada uma com nome, aparência,
preferências, símbolos, mito e cantigas próprios.
Entre dezenas há: Pombagira Rainha, Maria Padilha, Sete Saias,
Maria Molambo, Pombagira das Almas, Dama da Noite, Sete Encruzilhadas.
Apela-se especificamente às pombagiras para a solução
de problemas relacionados a fracassos e desejos da vida amorosa e da
sexualidade. Pombagira junta e separa casais, protege as mulheres, propicia
qualquer tipo de união amorosa ou erótica, hétero
ou homossexual.
Aspirações e frustrações
Para a pombagira e seus companheiros exus, qualquer desejo pode ser
atendido. Por meio dos pedidos feitos às pombagiras, podemos
entender algo das aspirações e frustrações
de parcelas da população que estão de certo modo
distantes de um código de ética e moralidade embasado
em valores da tradição ocidental cristã.
O culto dá acesso às dimensões mais próximas
do mundo da natureza, dos instintos, das pulsões sexuais, das
aspirações e desejos inconfessos.
Revela esse lado "menos nobre" da concepção
de mundo e de agir no mundo. Umbanda e candomblé são religiões
que aceitam o mundo como ele é e ensinam que cada um deve lutar
para realizar seus desejos.
Por isso, com freqüência são vistas como liberadoras.
Não se crê no pecado nem em premiação ou
punição após a morte. A vida é boa e deve
ser levada com prazer e alegria.
Nessa busca da realização dos anseios humanos mais íntimos,
exus e pombagiras reforçam sem dúvida uma importante valorização
da intimidade, às vezes obscura, de cada um de nós, pois
para os exus e pombagiras não há desejo ilegítimo
nem aspiração inalcançável nem fantasia
reprovável.
REGINALDO PRANDI é professor
de sociologia na USP e autor de "Mitologias dos Orixás"
e "Segredos Guardados" (Cia. das Letras).
CENTRO EXPANDIDO
DISPERSÃO PERMITIU À UMBANDA ENXERTAR-SE
EM OUTRAS CRENÇAS, MAS A PREJUDICOU NO COMPETITIVO MERCADO RELIGIOSO;
SP DESPONTA EM NÍVEL NACIONAL
DA SUCURSAL DO RIO do Jornal Folha de São Paulo
São 18h de uma quinta-feira e a fila que começa
em frente ao sobrado do Belenzinho onde funciona o Colégio de
Umbanda Sagrada Pai Benedito de Aruanda, na zona leste de São
Paulo, já sumiu de vista. O culto começa às 19h,
e nas próximas quatro horas 127 médiuns incorporados com
espíritos de caboclos atenderão gratuitamente a mais de
1.200 pessoas que buscam conselhos e curas.
O colégio de umbanda é hoje um dos pólos de expansão
da religião em São Paulo e no interior do Estado. Além
das giras noturnas, recebe semanalmente cerca de 2.500 alunos nos grupos
de estudo e mantém uma escola onde ajuda a desenvolver a mediunidade
de 250 futuros pais e mães-de-santo.
À frente do projeto está o médium Rubens Saraceni,
56, criador da Umbanda Sagrada e hoje um dos expoentes da religião
em São Paulo, junto com Jamil Rachid, Milton Aguirre e Ronaldo
Linares, todos com 75 anos. Saraceni vem tentando construir um arcabouço
teológico com livros como "Doutrina e Teologia de Umbanda
Sagrada" e "O Código de Umbanda", editados pela
Madras.
Ele escreveu 42 livros, uma boa parte psicografados. O romance "O
Guardião da Meia-Noite" vendeu mais de 150 mil exemplares.
Há outro indício de vitalidade da umbanda em São
Paulo, a Faculdade de Teologia Umbandista. Criada pelo cardiologista
Francisco Rivas Neto, 58, em 2003, é reconhecida pelo Ministério
da Educação e formou em 2007 os primeiros 35 teólogos.
Rivas Neto também é um escritor de sucesso e tem igualmente
uma obra doutrinária. Seu principal livro é de 1989, "Umbanda
- A Proto-Síntese Cósmica" (editora Pensamento),
a base da Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino.
Antes deles, Ronaldo Linares criou, em 1968, um programa de cursos e
já formou mais de 2.700 sacerdotes. Sua principal obra é
o Santuário Nacional da Umbanda, da Federação Umbandista
do Grande ABC, um terreno de 645 mil m2 com áreas da Mata Atlântica
preservadas. É lá que os umbandistas paulistas realizam
suas oferendas religiosas.
Saraceni, Rivas Neto e Linares são indicadores da vitalidade
da umbanda em São Paulo. Todos tentam dotar a religião
de uma base doutrinária que lhe dê status e reconhecimento,
mas a tarefa é difícil.
Parece ser intrínseco à umbanda a dispersão, a
descentralização e a prática sem cânones.
As centenas de federações criadas desde a década
de 1930 também tentaram unificá-la, organizá-la
e normatizá-la, sem êxito. Cada terreiro, tenda ou centro
é uma umbanda. É uma religião aberta, definem seus
seguidores. Quem manda é o chefe do terreiro.
Essa herança cultural ajudou e atrapalhou a umbanda. Reginaldo
Prandi observa que dificultou a sua participação no mercado
religioso, extremamente competitivo e dominado por religiões
mais organizadas e com sólida base econômica. Mas também
é fato que lhe permitiu sobreviver e enxertar-se em outras religiões.
O antropólogo Émerson Giumbelli atribui às fronteiras
fluidas entre o espiritismo e a umbanda e entre a umbanda e o candomblé
a sua vitalidade. Os caboclos e pretos-velhos "umbandizaram"
o candomblé, o Santo Daime e outras práticas de encantados.
Até mesmo algumas igrejas evangélicas hostis adotaram
o descarrego.
A nova umbanda
A umbanda mudou muito nesses cem anos. Ela manteve a essência
criada por Zélio de Moraes - como a crença na mediunidade,
na reencarnação e na força dos orixás e
de entidades espirituais -, mas os rituais e simbologias já
não são os mesmos.
O pioneiro Centro Espírita Nossa Senhora da Piedade, criado por
Zélio de Moraes e hoje dirigido por sua neta, Lygia Marinho da
Cunha, 70, em Cachoeiras de Macacu (RJ), é uma exceção.
Embora tenha sofrido mudanças inevitáveis em seu estatuto
interno, ele permaneceu imune a práticas que acabaram sendo adotadas
pela maioria dos centros.
As mudanças mais visíveis foram o uso dos atabaques no
acompanhamento dos cantos religiosos (antes, os pontos eram só
cantados ou acompanhados por palmas), a incorporação de
novas linhas de entidades "nacionais" (como boiadeiros, baianos
e marinheiros) e o culto aberto aos exus (espíritos demonizados
pelas igrejas católica e evangélicas).
Os centros foram se conformando de acordo com a ênfase que deram
para alguma das matrizes criadoras da religião.
Assim, uns valorizam mais as raízes africanas (umbanda omolokô
e a umbanda traçada ou umbandomblé), outros, o kardecismo
ou o catolicismo popular (umbanda branca e derivadas), outros ainda,
as tradições ocultistas (umbanda esotérica) ou
as pajelanças indígenas (umbanda de caboclo).
Mesmo a origem da palavra umbanda gera polêmica. A tese mais aceita
é a de que veio de uma das línguas faladas por escravos
vindo de regiões como Angola e Congo (bantos) e que significaria
a arte de curar ou feiticeiro. Para a umbanda esotérica, no entanto,
a palavra é derivada de "Aum-ban-dan", que significaria
o conjunto das leis divinas numa "língua dos espíritos".
Novas encruzilhadas
Passados cem anos, os umbandistas que entrevistei para esta reportagem
podem ser divididos, em relação ao futuro da umbanda,
em duas categorias: a dos otimistas e a dos céticos. Encontrei
os mais otimistas em São Paulo, onde a religião tem suas
escolas de formação, teólogos, jornais e uma indústria
própria de objetos religiosos. Os mais céticos estavam
no Rio, onde visitei centros tradicionais empobrecidos.
A médium carioca Adriana Berlinski de Queirós, 27, está
de malas prontas para a Bolívia. Uma singularidade já
lhe causou problemas nos centros em que atuou: ela diz receber o mesmo
Caboclo das Sete Encruzilhadas que em 1908 baixou em Zélio de
Moraes para anunciar a umbanda.
Para os mais tradicionalistas, isso equivale a uma heresia. Para Adriana,
foi o sinal para uma nova missão: deixar o Rio e levar a umbanda
até a China. A Bolívia será apenas a primeira encruzilhada
da nova caminhada. (MB)
Autor de "Mitologias dos Orixás" indica livros úteis
sobre a umbanda
REGINALDO PRANDI
Especial para a Folha
Leia mais sobre a umbanda nos livros:
"Kardecismo e Umbanda", de Candido Procopio
Ferreira de Camargo (ed. Pioneira, 1961)
Um clássico sobre o surgimento da umbanda, suas
características e importância na sociedade contemporânea.
Discorre sobre a doutrina, os rituais, a organização e
a prática terapêutica.
"Entre a cruz e a encruzilhada", de Lísias
Nogueira Negrão (Edusp, 1996)
Trata da formação da umbanda em São
Paulo, identificando suas diferentes etapas e seu dilema ético.
"Candomblé e Umbanda", de Vagner Gonçalves
da Silva (Summus, 2005)
Mostra as semelhanças e diferenças entre
a umbanda e o candomblé, destacando as principais característica
de cada uma.
"Segredos Guardados", de Reginaldo Prandi
(Companhia das Letras, 2006)
Discute as transformações, perspectivas
e dilemas atuais da umbanda e do candomblé diante da competição
entre as religiões afro-brasileiras e demais religiões
no cenário brasileiro.
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