12/02/2008
Declínio do número
de fiéis católicos leva a fechamento de igrejas
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2008/02/12/ult574u8196.jhtm
Fernanda Santos
Em Jamesville, Nova York
The New York Times
Policiais armados removeram o último homem da
igreja católica daqui há 10 dias, colocando sinais de
"Proibida a entrada" nas portas ao saírem e cercando
o perímetro da propriedade com fitas usadas em locais de crime
contando o alerta: "Não ultrapasse". Foi o final de
uma vigília de sete meses dos fiéis na tentativa de manter
a igreja aberta.
"Nos foi dito que se fôssemos até
mesmo ao estacionamento, nós seríamos presos",
disse Mary Cargian, 78 anos, que se casou na igreja, a Saint Mary's,
em 1967 e reza ali desde então.
Por 217 dias, 100 voluntários se revezaram na
ocupação de Saint Mary's, onde as fechaduras foram mudadas
pouco antes do padre celebrar a última missa, em 30 de junho.
Quando a missa chegou ao fim, alguns voluntários permaneceram
e então os ocupantes se revezaram. Eles se reuniam na igreja
aos domingos para orações, continuaram arrecadando doações
e até mesmo fizeram uma apelação junto ao Vaticano,
argumentando que a igreja de 108 anos valia a pena ser salva.
Fiéis rezam no lado de fora da igreja de St. Mary, fechada pela
Diocese de Syracuse
A igreja é uma das 30 que foram fechadas ou
fundidas pela Diocese de Syracuse da Igreja Católica Romana desde
o ano passado, como parte de uma ampla e turbulenta reorganização
que deverá afetar a maioria das 154 paróquias remanescentes
da diocese nos próximos anos.
Ao longo da última década, as dioceses
de todo o país estão consolidando paróquias diante
dos crescentes custos de aquecimento, envelhecimento dos padres e encolhimento
das congregações, provocando protestos sentados furiosos
e outras manifestações em Boston, Chicago e Detroit. Mas
a situação em Syracuse e outras cidades fabris em declínio
no interior de Nova York é mais aguda, já que o número
de católicos encolheu mais depressa que a população
em geral.
"Nós sabíamos desde o início
dos anos 80 que enfrentaríamos uma diminuição
do clero, mas não previmos que o interior de Nova York seria
tão duramente atingido pela perda de empresas, indústrias
e pessoas", disse o padre James P. Lang das paróquias
da Diocese de Syracuse.
"Chegou ao ponto de termos que tomar uma decisão",
ele disse.
"Nós teríamos que gastar nossos recursos mantendo
nossos prédios abertos ou teríamos que nos adaptar a
esta nova realidade."
Três das dioceses do interior, Buffalo, Rochester
e Syracuse, perderam um quarto de suas igrejas. Elas tinham 590 igrejas
em 2005, segundo o Centro para Pesquisa Aplicada no Apostolado, que
monitora esses dados para a Igreja, e atualmente têm 440, disse
a diocese.
As mudanças demográficas que levaram ao
fechamento das igrejas são mais pronunciadas nos Estados do médio
Atlântico, do Alto Meio-Oeste e nos velhos centros industriais
do Nordeste, onde os imigrantes católicos, que antes compunham
uma parcela significativa da força de trabalho, partiram para
o Sul e Oeste desde o início do colapso do setor manufatureiro
nos anos 70.
"É uma questão simples", disse
Chester Gillis, presidente do departamento de teologia da Universidade
de Georgetown.
"Se há menos pessoas doando para a igreja, se torna irreal
- e financeiramente irresponsável - manter o prédio
aberto."
"O que descobrimos é que a maioria destas
paróquias precisa de manutenção e que muitas
delas não estão crescendo", disse Keenan. Os novos
imigrantes católicos que se mudaram para Buffalo e comunidades
vizinhas, a maioria refugiados africanos e do Leste Europeu, "não
são suficientes para compensar as perdas", ele acrescentou.
A Diocese de Rochester, que serve 12 condados, tinha
159 paróquias em 2001; agora tem 136. Apenas na cidade de Rochester,
a diocese fechou metade de suas 30 igrejas entre 1970 e 2004, disse
Doug Mandelaro, o diretor de administração da diocese.
Marilyn Catherine, 59 anos, que vive em Rochester, estava
entre os fiéis que trabalharam por vários meses em 2005
em um plano para fundir quatro igrejas da cidade em uma - em parte
porque as congregações encolheram ao longo dos anos e
em parte por não haver padres suficientes.
As igrejas, em um raio de 8 quilômetros uma da
outra, foram construídas por imigrantes e todas tinham sua própria
personalidade. Uma contava com uma congregação mais idosa,
enquanto outra atendia principalmente aos refugiados da Nigéria
e Sudão. E sem exceção, os fiéis mantinham
uma profunda ligação com os próprios prédios.
Agora, uma congregação poliglota prospera na Saint Monica's,
no 19º Distrito de Rochester.
"Houve muito sofrimento durante esse processo",
disse Catherine, que se mudou de Long Island para Rochester, a cidade
de seu marido, há 30 anos.
"Agora, nós chamamos a nós mesmos de os ressurectos,
porque conseguimos pegar algo que deixou muitos de nós tristes
e criamos uma nova comunidade."
Ao mesmo tempo, a diocese de Rochester abriu sete novas
igrejas nos últimos 30 anos, em cidades suburbanas como Webster
e Pittsford, uma das poucas comunidades do interior com uma renda familiar
média superior a US$ 100 mil e um valor médio de imóvel
acima de US$ 175 mil, segundo um estudo de 2005 do jornal "Business
First", com sede em Buffalo.
"Estas igrejas estão todas prosperando",
disse Mandelaro.
Para muitos fiéis da Saint Mary's aqui em Jamesville,
o fechamento causou confusão. A igreja - construída
por imigrantes irlandeses em 1899 e ampliada 32 anos depois para abrir
espaço para os poloneses, italianos e ucranianos que vieram para
trabalhar na pedreira local - tinha uma congregação
sólida e um fundo saudável que financiava um refeitório
para 1.200 pessoas e um programa popular de ensino religioso, disse
Ciarrai Eaton, presidente do conselho da paróquia.
O primeiro sinal de problemas surgiu em 2001, quando
a diocese transformou Saint Mary's em uma missão, o que significava
que não mais contaria com um padre residente, e pediu aos fiéis
que propusessem formas de lidar com a nova demografia. A congregação
sugeriu que os fiéis administrassem as finanças da igreja
e que um padre visitante celebrasse a missa. Em 2005, alguns membros
fizeram um apelo ao Vaticano; ele ainda não obteve resposta.
Mas Lang, o vigário da diocese, disse que dado
o encolhimento do número de padres da diocese, fazia sentido
fechar Saint Mary's, já que seus fiéis podiam ser atendidos
por outra igreja, a Holy Cross, a menos de 8 quilômetros de distância.
"Foi uma questão de descobrir como melhor
organizar os recursos humanos limitados que temos", ele disse.
A vigília dos fiéis teve início
tão logo a igreja foi fechada.
"Nós tínhamos médicos, contadores,
assistentes sociais, professores - muitas pessoas que estavam
lá nos dias de folga, nos fins de semana, sempre que podiam",
disse Eaton, 28 anos, uma costureira que dormia em Saint Mary às
segundas com seu marido, Fred, e o bebê do casal, Moira.
Danielle E. Cummings, a porta-voz da diocese, disse
que os líderes da diocese primeiro viram a vigília como
uma forma de dar à congregação um "tempo para
lamentar" a perda de sua igreja. Mas, ela reconheceu na entrevista,
permitir que durasse tanto foi um erro. A decisão de parar ocorreu
quando as autoridades da Igreja souberam que um não sacerdote
tinha levado hóstias da comunhão para a igreja.
"Àquela altura nós dissemos: 'Basta,
temos que tirá-los de lá e lacrar a igreja'", disse
Cummings.
Algumas das famílias de Saint Mary's ingressaram
em outras congregações, mas Eaton e várias outras
famílias ainda mantêm a esperança de que sua igreja
será reaberta. Eles continuam se reunindo para orações
aos domingos, na calçada.
"Nós estamos tentando
manter nossa congregação funcionando o mais próximo
do normal que podemos", disse Eaton. "Somos como uma família.
E sabemos que são as pessoas que fazem a paróquia."
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