09/12/2007
Por Izabela Moi,
Rits
Em 25 de outubro passado, um incidente diplomático
internacional teve como ator principal a ação de uma ONG
francesa, a Arche de Zoé. Numa operação anunciada
como « evacuação sanitária »
de vítimas do conflito na região do Darfour (Sudão),
17 pessoas foram presas quando tentavam sair do Tchad com 103 crianças
de até 5 anos.
O «incidente», ainda não completamente
resolvido (6 franceses continuam presos no Tchad), mexeu com o país
e fez de novo voltar à cena o debate sobre o setor humanitário,
soberania, direito e dever de ingerência, ONGs e a política
internacional. Para os franceses fundadores da Arche de Zoé,
a missão era clara: levar as crianças a « famílias
de acolhida » para salvá-las da morte certa em Darfour.
Para o presidente do Tchad, sua polícia interpelou uma rede européia
de «tráfico de crianças africanas para servir de
vítimas de pedofilia e transplante de órgãos».
Com zonas sombrias nas informações e versões
de todos os lados, desde o governo francês até os governos
locais, o certo é que nem o Tchad nem o Sudão praticam
a adoção (não há regulamentação
oficial), muito menos leis para a adoção internacional.
Se há boa intenção dos participantes da ONG, deve-se
também considerar a ilegalidade da «evacuação
», que tinha também o apoio da rede internacional Save
Darfour.
Há quase 10 anos, o antropólogo francês
Bernard Hours publicou uma reunião de vários artigos onde
já denunciava o «direito» (ou «dever»,
como a expressão depois foi cunhada por Bernard Kouchner, ex-Médicos
Sem Fronteiras, atual ministro do exterior da França) de ingerência
como parte de uma estratégia maior e fruto da globalização.
Em «L'idéologie humanitaire ou Le spectacle
de l'altérité perdue» (L’Harmattan,
1998), Bernard Hours é diretor de pesquisa no prestigioso
Institut de Recherche pour le Développement (IRD) de Paris, e
professor na École des Hautes Études de Sciences Sociales
(EHESS), fala do surgimento desse “mercado de ajuda internacional”
como a parte visível de um iceberg submerso de intenções
e estratégias não tão transparentes, onde os países
ricos à frente do processo de globalização conseguem
gerenciar crises e instaurar uma moral controladora (ou colonizadora)
nos países em desenvolvimento. Para Hours, o “affaire Arche
de Zoé” é só mais uma das inúmeras
confirmações de sua visão.
Atualmente na China, onde desenvolve um projeto
de estudos sobre ação das ONGs (locais ou não)
no país, Bernard Hours deu esta entrevista à Rits por
email.
Rits – Às vésperas de completar
10 anos, sua crítica à ideologia humanitária parece
mais que atual quando um evento como o da Arche de Zoé ocupa
as primeiras páginas dos jornais no mundo.
Bernard Hours – A atualidade da Arche de Zoé
confirma minhas análises sobre a ingerência occidental.
Kouchner e B.H.Lévy são demagogos que confundem seus desejos
com a realidade. E temos de ouvir a reação de soberanias
ameaças por países como o Tchad, a Rússia…
Mesmo a crítica vinda dos muçulmanos radicais parece dirigir-se
contra esta imposição de uma formula-ocidental-de-democracia-globalizada.
Como salvaguardar as diferenças, as “alteridades”
dignamente, num mundo que se quer cada vez mais homogêneo?
Rits – No livro, você afirma que o mercado
humanitário, principalmente quando a relação estabelece-se
entre ONGs sediadas em países ricos e o trabalho de campo é
feito nos países pobres, não é nada mais do que
uma nova e disfarçada estratégia colonial, com objetivos
novos e também adaptados ao século 21. Pode comentar?
BH – A aventura da Arche de Zoé comprova
que o setor humanitário é potencialmente colonial e paternalista,
mas vejo que a diferença hoje é que a vitima invade a
cena montada pela mídia.
Rits – E o que mudou nessa década?
BH – Minhas idéias mudaram um pouco, mas
o setor humanitário também evoluiu, apesar de ainda continuar
investindo no mesmo caminho. Eles tornaram-se menos radicais e aprenderam
a auto-crítica, inexistente no final dos anos 80. Mas o business
continua sendo a instalação (mise en scène) de
uma moralidade global a partir de direitos humanos afirmados como universais.
Rits – E que diferença se pode fazer entre
os “humanitários” e os “altermundistas”
?
BH – Ambos têm como objetivo moralizar a
globalização, mas usando meios diferentes. Os “altermundistas”
têm uma visão mais politizada, os humanitários são
mais impulsionados pela moral e pela emoção, dizendo-se
“post-políticos”.
Rits – Qual o papel das ONGs locais nesse «
mercado » ?
BH – A questão mais importante é
saber se as ONGs locais são relativamente autônomas, principalmente
em recursos financeiros, ou se elas são apenas braços
operacionais de agências estrangeiras.
Rits – E o que você vislumbra como o futuro
do setor humanitário?
BH – O mercado humanitário vai continuar
se desenvolvendo, se profissionalizar cada vez mais, se auto-regular,
mas também será cada vez mais dependente de financiamentos
internacionais. As causas locais não aparecerão se não
estiverem inscritas numa moral-global.
Rits – O senhor conhece a realidade da América
Latina ou do Brasil?
BH – Não pessoalmente, apenas por
meio de minhas leituras. Mas em minha opinião, a América
Latina é o último continente politizado do planeta –
o resto do mundo preferiu, infelizmente, abolir a política e
passar ao consenso que eu chamo de “post-politique”.
[E esse é assunto de seu ultimo livro, lançado também
pela L’Harmattan, em 2003, “Domination, dépendances,
globalisation : Tracés d'anthropologie politique »]
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