24/10/2007
Os novos profetas do ateísmo são
muito parecidos com os dos séculos XVIII, XIX e XX, que pregavam
que a evolução natural da sociedade levaria a tamanhos
avanços das descobertas científicas que tornariam desnecessárias
as religiões e o próprio conceito de Deus. O proselitismo
ateísta está apenas sendo reciclado em inúmeros
livros lançados nos últimos anos e os argumentos, em geral,
são semelhantes aos defendidos nos tempos em que o filósofo
alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) declarou que Deus estava
morto.
McGrath: "Dawkins trata cientistas
que crêem em Deus como traidores. Mas há muitos cientistas
que acreditam em Deus por crerem que esta é a melhor maneira
de fazer com que o mundo tenha sentido
Mas há uma diferença entre
os velhos e os novos cientistas e filósofos que defendem uma
visão de mundo destituída de Deus: a agressividade. O
exemplo máximo desse tom mais virulento, que considera ignorantes
e obscuros os que ousam crer no sobrenatural, está em Richard
Dawkins, o biólogo autor do best-seller "Deus, Um Delírio"
(Companhia das Letras), com milhares de exemplares vendidos pelos quatro
cantos do mundo. Esta é a opinião de um colega de Dawkins
na Universidade de Oxford, o professor de história da teologia
Alister McGrath, ex-ateu, doutor em biofísica molecular, pesquisador
sênior do Harris Manchester College. Ao lado de Joanna McGrath,
professora de psicologia da religião na Universidade de Londres,
ele escreveu uma resposta ao livro de Dawkins.
Recém-lançado pela Editora Mundo Cristão, "O
Delírio de Dawkins"
é uma contra-argumentação contundente, na qual
McGrath acusa o colega de ingênuo, superficial, leviano e com
uma visão estereotipada das religiões e dos religiosos
em geral. Nele, também rejeita a pretensão do biólogo
de arvorar-se em porta-voz do universo acadêmico científico,
seja ele ateísta ou teísta. "Dawkins trata os cientistas
que acreditam em Deus como traidores", disse McGrath ao Valor.
Verdadeiros cientistas, diz ele, deveriam ser ateus. "Mas há
muitos cientistas que acreditam em Deus por crerem que esta é
a melhor maneira de fazer com que o mundo tenha sentido. E Dawkins se
coloca como um porta-voz dos cientistas, ignorando esses outros colegas.
Muitos na comunidade de cientistas discordam dele. E muitos outros cientistas
ateus estão querendo se dissociar desse tipo de retórica
agressiva e de sua séria simplificação de questões
complexas."
A fúria esnobe de Richard Dawkins contra os que crêem é,
para McGrath, o elemento mais perturbador dessa nova retórica
ateísta. Em seu livro, McGrath vale-se de opiniões pessoais
e das de renomados cientistas, ateus ou não, para desmontar argumentos
considerados frágeis.
Ele cita, por exemplo, um dos mais afamados biólogos evolucionistas
americanos para ilustrar sua idéia sobre a incapacidade da ciência
de oferecer respostas absolutas para os mistérios mais profundos
da existência.
"Já vimos como Stephen Jay
Gould rejeitou qualquer idéia imprudente de igualar excelência
científica e fé ateísta. Com base nas concepções
religiosas dos principais biólogos evolucionistas, Gould observou:
'Ou metade de meus colegas é absurdamente estúpida,
ou então a ciência darwinista é totalmente compatível
com as crenças religiosas convencionais, e, assim, compatíveis
com o ateísmo.'", escreve o cientista de Oxford.
Para McGrath, a questão apresentada por Gould é amplamente
aceita nos meios científicos, mas ignorada por Dawkins em seu
panfleto materialista: a de que a natureza pode ser interpretada tanto
de uma forma teísta quanto ateísta - mas sem impor nenhuma
das duas.
"Ambas as interpretações
representam possibilidades intelectuais genuínas para a ciência.",
afirma McGrath.
Para o teólogo de Oxford, uma das
razões que levam Richard Dawkins a esbravejar contra as religiões
é a associação destas com a política e os
seus conseqüentes impactos na forma de violência e guerras.
Todos precisam lutar contra a violência religiosa, prega Dawkins,
um chamado com o qual Alister McGrath concorda. Mas ele lembra que a
violência não é nem necessária à fé
religiosa e muito menos exclusiva a ela. O ateísmo por si já
promoveu muita destruição de vidas. Ditaduras de direita
e de esquerda produziram tanta violência quanto as religiões,
um fato que Richard Dawkins parece ignorar, afirma McGrath.
"Está claro que Dawkins
é um ateu encerrado numa torre de marfim, desconectado do mundo
real e brutal do século XX. Os fatos são diferentes.
Em seus esforços de forçar a ideologia ateísta,
as autoridades soviéticas destruíram e eliminaram sistematicamente
a maioria das igrejas e dos sacerdotes entre 1918 e 1941-45. As estatísticas
apresentam um quadro terrível."
A violência e a repressão
foram empreendidas na busca de um programa ateísta: a eliminação
da religião. (...) A história da União Soviética
está repleta de incêndios e explosões de inúmeras
igrejas. Sua contestação de que o ateísmo é
livre de violência e opressão, as quais ele associa com
a religião, é simplesmente insustentável e sugere
um significativo ponto cego", escreve McGrath.
Para o professor de Oxford, a real motivação por trás
do livro de Dawkins é a percepção de que o velho
sonho ateu de eliminar a religião simplesmente não vai
acontecer.
"E ele está agora muito
bravo com o fato de que a religião sobreviveu e na verdade
está ganhando força em muitos lugares. Seu livro é
uma última tentativa de virar a maré."
Mas se para alguns cientistas a fé
pode perfeitamente conviver com o darwinismo, que linguagem comum poderia
haver entre a teoria da evolução e o livro do Gênesis?
McGrath afirma que, realmente, a interpretação do primeiro
livro da Bíblia divide os cristãos há eras. Uns
dizem que ele tem que ser interpretado literalmente como um registro
de seis dias de criação. Outros, que se trata de uma apreciação
muito mais complexa sobre como a vida veio a existir sobre a face da
Terra.
"Existe uma linguagem comum, mas
a principal diferença é esta: para Dawkins, o darwinismo
significa que não existe nenhum propósito para a vida.
Para os cristãos, evolução é uma das formas
pelas quais Deus opera os seus propósitos."
Sua interpretação particular
do livro do Gênesis é a de que o livro é melhor
entendido como um relato de que toda forma de vida criada responde a
Deus e é dependente de Deus para sua existência. "Não
o vejo como um relato preciso, cronológico e detalhado de como
a vida apareceu, mas sim como uma afirmação sobre um aspecto
fundamental, o de que existe apenas um Deus e este único Deus
é responsável por trazer à existência a vida
da forma como nós a conhecemos."
Para McGrath, a pergunta que a maioria dos cientistas faz não
é tanto se ciência ainda vai produzir evidências
de que o universo tem um sentido, mas se o universo tem um propósito.
"Acho que Stephen Jay Gould está
certo quando afirma que a ciência simplesmente é incapaz,
pelos seus diferentes métodos, de identificar um propósito
para o universo. Isso não significa que não exista um
propósito, mas que a ciência não tem as ferramentas
necessárias para identificá-lo. Para mim, portanto,
o elemento importante na fé cristã é poder tratar
do propósito da vida por detrás do universo e da vida
em cada indivíduo. Isso não é contradizer a ciência.
É apenas ir aonde a ciência não consegue ir."
> entrevista transcrita pelo
jornal Valor Econômico
>>> clique aqui para ver a lista completa de notícias
>>>
clique aqui para voltar a página inicial do site
topo