24/10/2007
Em visita ao Brasil, suíço defende
métodos anticoncepcionais e fim do celibato - vejam abaixo a
entrevista feita pelo jornal Folha de São Paulo
"A Igreja deve tornar a vida das pessoas mais fácil"
A IGREJA deve tornar a vida das pessoas mais fácil,
e não mais difícil. Essa frase condensa as divergências
entre dois dos maiores teólogos católicos do mundo, o
suíço Hans Küng, 79, e o alemão Joseph Ratzinger,
80, o papa Bento 16 -para quem a Igreja deve ser uma comunidade, se
preciso for, de poucos, mas de bons e fiéis.
Nesta entrevista, ele diz que proibir métodos anticoncepcionais
é ser co-responsável por um eventual aborto e que o celibato
de padres é algo medieval. Küng ainda critica a visita do
papa ao Brasil, por impor sua força em estabelecer padrões
de moral sexual.
LEANDRO BEGUOCI
ENVIADO ESPECIAL A SÃO LEOPOLDO (RS)
O teólogo chegou ao Brasil no sábado,
quando concedeu esta entrevista exclusiva cujos principais trechos estão
abaixo. Durante a semana, falará sobre seu tema predileto - a
relação entre religiões e ética mundial-
em sete conferências em seis cidades: São Leopoldo (RS),
hoje, Porto Alegre e Curitiba, amanhã, Brasília na quarta
e na quinta, quando irá à Câmara dos Deputados e
deve se encontrar com o presidente Lula; ainda na quinta vai ao Rio
e a Juiz de Fora (MG), na sexta.
Apesar do encontro cordial que teve com o papa em 2005, a relação
entre Küng e a Igreja Católica ainda não é
estável. Ele não falará em nenhuma PUC (Pontifícia
Universidade Católica). Sua vinda é patrocinada, principalmente,
pela Universidade Federal do Paraná e pelo Instituto Humanitas
da Unisinos, ligado aos jesuítas.
FOLHA - Uma das frases mais conhecidas do sr. diz que
só haverá paz no mundo quando houver paz entre as religiões.
A humanidade precisa de religião para ter paz?
HANS KÜNG - Há muitos argumentos contra a religião.
Um deles é que ela legitima e provoca guerras, preconceitos,
violência. Por outro lado, as religiões também têm
uma função positiva. João Paulo 2º foi contra
a guerra no Iraque. Onde as religiões estiveram favoráveis
à paz, propiciaram a paz. As religiões podem ser instrumentalizadas,
assim como a música.
FOLHA - No início de seu pontificado, Bento 16
sugeriu que o islamismo é uma religião violenta.
KÜNG - Acho que ele sabe que cometeu um erro. Afinal, ele sempre
se ocupou muito pouco do Islã, dedicou todo o seu tempo para
estudar os teólogos católicos. Da mesma maneira que existe
muita violência na história do Islã também
existe na história do cristianismo. O papa aprendeu com o erro.
Na visita à Turquia, visitou a mesquita Azul [a mais importante
de Istambul], onde prestou seu respeito à religião islâmica.
FOLHA - Por que quem não tem religião
deve se preocupar com isso?
KÜNG - Hoje, constatou-se que a religião é um fator
político e que ignorá-la é um erro. Ela mobiliza
milhões de pessoas. Condeno posições extremas.
Uma delas é a religiosidade agressiva. Ela condena a separação
entre Estado e religião, como os islâmicos que procuram
transformar todo o povo muçulmano em extremista e como os imperialistas
da Igreja Católica Romana que querem fazer da Europa, no sentido
de João Paulo 2º, um continente católico, como se
todos os países devessem ser a Polônia.
Outra posição extrema é a excessivamente laicizante.
Alguns franceses laicistas ainda não conseguiram digerir a Revolução
Francesa. Essa é uma das posições tomadas no Parlamento
Europeu por pessoas que se manifestaram contra a menção
ao cristianismo como uma das raízes da Europa. A posição
correta seria a que reconhece a importância da religião,
mas não faz dela um fator de dominação.
FOLHA - O sr. defende a idéia de uma ética
mundial, válida para crentes das mais diversas religiões,
além dos ateus. Essa tese tem receptividade no Vaticano?
KÜNG - O papa também quer o diálogo entre as religiões.
Quando estivemos juntos, discutimos esse ponto. Algo concreto que se
pode fazer, e isso o papa também deseja, é uma nova forma
de associação das lideranças religiosas mundiais
que poderiam, juntas, afirmar princípios éticos comuns.
Essa é a idéia do projeto de ética mundial que
defendo. O princípio básico de que você não
deve fazer ao outro aquilo que não quer que ele lhe faça
é comum a várias religiões e a muitas pessoas não-crentes.
Ainda há quatro princípios importantes. O primeiro é
não matar, e isso não vale só para quando se discutem
questões como a do aborto, mas também para as guerras,
para as favelas do Rio e para a periferia de Berlim. O segundo é
não mentir, o terceiro, não roubar, e o quarto, não
abusar da sexualidade.
Não se vai resolver o problema da violência apenas com
recursos policiais. Devemos mostrar esses princípios nas escolas,
dizendo que eles não vêm de cima para oprimir os jovens,
mas vêm para libertá-los.
FOLHA - Quando o papa esteve no Brasil em maio deste
ano, ele não se reuniu com líderes das igrejas evangélicas
pentecostais. Como construir esse consenso com religiões que
se comportam como rivais?
KÜNG - Seria muito bom que o papa tivesse encontrado os líderes
dessas religiões. Ele teria ouvido, muito provavelmente, quais
são os pontos fracos da Igreja Católica, por que perdeu
tantos fiéis. Como é que se pode pensar que não
vão surgir várias comunidades menores quando, em São
Paulo, há um padre para 200 mil pessoas?
Um fator que dificulta o surgimento de novos padres é exatamente
essa lei medieval do celibato. A Igreja precisa repensar essas coisas.
Quando se toma uma posição de que a missa precisa ser
celebrada segundo os preceitos romanos, acaba sendo muito chato. Por
outro lado, você tem cultos dos pentecostais que são muito
mais animados na sua liturgia, com gestos, canções. Quando
a gente simplesmente imita essa liturgia, não é bom. Mas
aproveitar elementos é bom.
FOLHA - Muitos atribuem a perda de fiéis no Brasil
à teologia da libertação, que teria se preocupado
mais com a pobreza do que com a alma.
KÜNG - A teologia da libertação foi uma das primeiras
que falou de uma participação popular na liturgia. Se
houvesse tido mais espaço para ela na América Latina,
provavelmente teríamos muito menos pentecostais.
Mas, desde o início, fui crítico em relação
à predominância de elementos marxistas na teologia da libertação,
em relação às ilusões de que se poderia
ter uma grande revolução.
FOLHA - Quais são os maiores desafios da Igreja
e deste papa?
KÜNG - O grande desafio da Igreja é não retroceder.
O desafio do pontificado seria trazer novos impulsos para isso. Mas,
até o momento, não aconteceu. Não se pode ignorar
que nós, da Igreja Católica, , estamos em meio a uma grande
crise. Manifestações do papa, como foram feitas no Brasil,
mostram simplesmente a fachada de uma Igreja que nas suas estruturas
mais profundas está em uma situação muito difícil.
FOLHA - O que o sr. tem em comum com Bento 16?
KÜNG - Nós dois sempre servimos à mesma comunidade
de fé cristã e sempre buscamos um cristianismo autêntico.
A diferença se refere principalmente ao método. O papa
defende o modelo romano como o único para todas as igrejas, seja
na China ou na América Latina, o que, para mim, não é
católico, no sentido de católico como algo universal.
Minha opção é por um modelo pautado no Evangelho,
no Novo Testamento, e isso possibilita muito mais o diálogo com
as igrejas pentecostais e protestantes.
FOLHA - Há muitas católicas que fazem
aborto. Que tipo de resposta a Igreja deveria dar a elas?
KÜNG - A solução não está nem em permitir
tudo nem em reprovar tudo. Se o objetivo é evitar o aborto, o
que é muito desejável, então seria preciso favorecer
os métodos anticoncepcionais. Quem proíbe esses métodos
é co-responsável pela existência de tantos abortos.
É tarefa da Igreja encontrar uma posição intermediária
entre o tudo é permitido e o tudo é proibido, para trazer
as pessoas para uma posição intermediária nas suas
vidas. Esse caminho do meio seria, no caso de uma mulher que se vê
diante da questão do aborto, tomar ela mesma a decisão.
Depois, que ela não ficasse sofrendo problemas de consciência
e de culpa, mas se visse satisfeita pela decisão. Mesmo segundo
a teologia moral tradicional, uma consciência que comete um erro
está justificada. A Igreja deve tornar a vida das pessoas mais
fácil, e não mais difícil.
FOLHA - E aos homossexuais?
KÜNG - Também há posições extremas,
ambas erradas. Por um lado, seria um erro ignorar que existem propensões
homossexuais. No que diz respeito à vida individual, não
cabe à autoridade clerical decidir.
Outra posição extrema é a que transforma a homossexualidade
em um motivo de propaganda ou de exibicionismo e, por isso, muitas manifestações
homossexuais não contribuíram em nada para a visão
mais correta desse tema justamente porque se mostram de uma maneira
desavergonhada, que repercute mal na opinião pública.
FOLHA - Há espaço para o debate sobre
esses temas dentro da Igreja?
KÜNG - A verdade última pertence apenas a Deus. É
impossível para qualquer ser humano, desde o fiel mais simples
até o papa, dispor integralmente da verdade. É claro que
existem algumas verdades realmente válidas, como esses princípios
éticos que valem como consenso para toda e qualquer pessoa. Agora,
há várias maneiras para se aplicar uma verdade. É
natural que haja controvérsias sobre isso na Igreja. No que diz
respeito às verdades complexas, não poderia ser simplesmente
resolvido por uma ditadura, mas no debate. Se o papa se pronuncia contra
a ditadura do relativismo, também precisaria ter claro que muitas
pessoas têm muito mais medo é de a ditadura do absolutismo,
que muitas vezes vem de Roma.
FOLHA - Que tipo de relação o sr.
tem com o papa?
KÜNG - Durante o pontificado de João Paulo 2º [1978-2005],
tivemos uma relação muito tensa, ou nenhuma. Eu esperava
muito que Ratzinger reagisse positivamente à carta que lhe enviei
logo depois da sua eleição, pedindo uma conversa aberta,
que João Paulo 2º jamais me concedeu. As nossas relações,
hoje, estão muito mais distensionadas. Ele sabe que não
abro mão de fazer críticas, mas posso fazê-las de
maneira muito mais solidária. A posição dele é
muito diferente da de seu antecessor. Mandei o segundo volume das minhas
memórias para Roma e recebi uma resposta muito amigável.
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