11/05/2007
"Entre e algo
de bom lhe acontecerá"
Enquanto paróquias católicas estão vazias, as igrejas
evangélicas no Brasil se enchem com a promessa de resultados
imediatos
J. Marirrodriga
El Pais
"Entre aqui e algo de bom
lhe acontecerá", diz um cartaz situado junto a uma ponte
percorrida a toda velocidade por milhares de veículos por dia.
O letreiro ergue-se junto a uma imensa tenda de campanha de estrutura
semi-rígida que constitui a Igreja Internacional da Graça
de Deus, no bairro paulistano de Santana. No interior, denominado oficialmente
"Tenda dos Milagres", alinham-se perfeitamente centenas de
cadeiras brancas que quase todos os dias ficam quase totalmente ocupadas
por homens e mulheres que, senão um milagre, buscam pelo menos
"algo de bom".
Depois de duas horas de cânticos, palmas, exclamações
e algumas moedas colocadas na caixa de donativos, os seguidores dessa
confissão pentecostal deixam satisfeitos a tenda e voltam a se
misturar ao tráfego, passando junto ao campanário do Santuário
das Almas, uma paróquia católica vazia nessa hora.
Essa é a situação que Bento 16
pretende reverter com a chamada de atenção ao episcopado
latino-americano que pronunciará no próximo domingo em
Aparecida, a cerca de 200 quilômetros de São Paulo.
"Aqui encontrei solução para meus
problemas", afirma uma idosa que caminhou mais de meia hora para
chegar à tenda e que absorve cada palavra pronunciada do palco
por um bispo vestindo terno e gravata. A mulher, assim como outras centenas
de pessoas, segue atenta aos chamados do oficiante, conhece todas as
canções e deposita moedas quando lhe indicam. Tem filhos
desgarrados, "bons meninos que não encontraram Cristo",
e um marido que prefere o bar ao culto.
Um jovem pastor, impecavelmente vestido, dos cerca de
dez que se espalham pelos corredores, adverte que há conversa
entre os fiéis e indaga amavelmente o que acontece. A cerimônia
pode parecer espontânea, mas o controle é total.
"Temos quatro cultos por semana, realizados à
noite, durante cerca de duas horas, e que reúnem em média
1.500 pessoas. Nos domingos nos reunimos de manhã e à
tarde, e naturalmente vem mais gente", explica Lelis Washington
Marinhos, pastor auxiliar da igreja Assembléia de Deus. Seu templo
é um edifício moderno que se ergue no bairro de Belém,
uma área de fábricas e operários da capital paulista.
Dali se controla a atividade de outros 2 mil templos
menores espalhados por São Paulo. Em frente ao edifício
há uma grande livraria que vende volumes publicados pela editora
de propriedade da Assembléia. O ritual é parecido.
Repetem-se várias vezes frases como "O sofrimento
terminou" ou "Abram as portas para a alegria". Os cânticos,
exortações, testemunhos, também. É claro
que há um grupo de pastores muito bem-vestidos que tratam a todos
com firmeza, mas amabilidade. E a igreja está cheia.
"É óbvio que a Igreja Católica
busca com a visita do papa afirmar-se em uma posição que
está perdendo", opina o pastor Lelis, que concorda com a
hierarquia católica em parte de sua análise. "Muitos
são considerados católicos por tradição
familiar, mas na verdade não praticam." Em um país
onde 98% da população - segundo uma pesquisa publicada
no último domingo - afirmam acreditar em Deus, são cada
vez mais as pessoas que passam para as fileiras evangélicas.
Nos últimos tempos surgiram figuras como
Marcelo Rossi, um padre de batina e guitarra elétrica, transformado
em personagem midiático, ou Antonio Kanter, considerado o chefe
de marketing dos católicos, um militante do Movimento de Renovação
Carismática que afirma que "a Igreja tem 2 mil anos porque
tem o melhor logotipo - a cruz -, o melhor outdoor - a torre do campanário
- e um grande produto - a salvação". Ratzinger pode
não gostar da teologia da libertação, mas resta
ver se aprovará essa nova estratégia.
Fonte:
http://www.elpais.com/
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