09/05/2007
Denize Bacoccina
De Brasília
BBC
O economista Marcelo Néri, do Centro de Políticas
Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que
o Estado subsidia as igrejas por meio da isenção fiscal.
“A renúncia fiscal de alguma forma é
um subsídio, porque a igreja faz o que o Estado não
faz”, diz o economista, autor de um estudo que analisa as doações
às igrejas.
Segundo Néri, a isenção fiscal
a entidades religiosas perpetua a influência religiosa nas comunidades
mais carentes, justamente as que mais contribuem com os dízimos.
Dados da Receita Federal mostram que a atividade religiosa
gerou uma receita de R$ 9,1 bilhões em 2004 (último dado
disponível), com uma renúncia fiscal equivalente a R$
554 milhões naquele ano.
“O dízimo é pago principalmente
pelos pobres em áreas onde há forte ausência do
Estado – classes C e D, que vivem nas periferias das grandes
cidades. Com a renúncia fiscal, o Estado não só
subsidia, como incentiva esta atividade”, afirmou em entrevista
à BBC Brasil.
É justamente nestas áreas, diz o economista,
que as igrejas estão crescendo mais.
"Concorrência predatória"
Além de atuarem como substitutos do Estado, Néri
diz que as igrejas fazem concorrência predatória nas áreas
em que atuam, por não pagarem impostos.
“É uma concorrência predatória,
como a do setor informal”, compara.
“Só que, neste caso, com a concordância do Estado”,
afirma.
Como exemplo, ele cita o caso de um salão de
festas de uma igreja e um outro de uma empresa de buffets: o espaço
alugado pela igreja não paga imposto, enquanto o da empresa privada
paga, mesmo que os dois tenham sido alugados com a mesma finalidade
de promover uma festa particular.
“É importante discutir o princípio
da justiça tributária”, diz Néri.
Dízimos
O estudo da FGV, intitulado Economia das Religiões:
Aspectos Locais e Ascenção Social, mostra que os brasileiros
pagaram no ano passado R$ 5,1 bilhões de dízimos e doações
às igrejas no país.
Os que mais contribuem são os evangélicos,
embora tenham a menor renda média. Eles correspondem a 17% da
população brasileira e pagam o equivalente de 66% das
contribuições às igrejas.
Já os católicos, que são 70% da
população, contribuem com 30% dos dízimos.
Os dados apurados pelo economista Marcelo Néri
são parecidos com os dados recebidos pela Receita Federal. De
acordo com a Receita, em 2004 as igrejas e templos receberam doações
no valor de R$ 3,9 bilhões.
Os cálculos do economista, baseados na Pesquisa
de Orçamento Familiar (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE), mostram uma contribuição
nacional de R$ 3,7 bilhões no mesmo ano, com uma média
per capita mensal de R$ 1,76.
Os dízimos são pagos por 10,6% dos
brasileiros, que contribuem cada um com R$ 16,62 em média.
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