13/04/2007
José Rodrigues
Publicada no Jornal Valor Econômico, no dia 13/04/2007
Caderno Eu & Fim de Semana, pgs 12-14
A livraria do monsieur Dentu,
na loja 13 da Galérie D'Orléans, Palais Royal de Paris,
na manhã de 18 de abril de 1857, apresentou
movimento incomum. Por três francos, estava sendo lançado
"O Livro dos Espíritos", de Allan
Kardec, pseudônimo do professor Denizard Hippolyte Léon
Rivail, após mais de três anos de tratos e investigações,
via mediúnica, com personalidades já mortas. O documento,
iniciado com a pergunta "O que é Deus?", ao completar
150 anos, o tempo de vida da filosofia espírita, trouxe uma temática
que, embora originária de fenômenos naturais, enfrentaria
caminhos tortuosos, até atingir o estágio de aceitação,
pelo menos no Brasil.
A explosão da literatura que trata desses fenômenos
- mais de 8 milhões de livros vendidos em um ano - surpreende
pelo seu volume e explica a entrada nesse mercado de novas editoras,
cujo número já é estimado em 180. "As pessoas
estão mais livres e querem exercitar o raciocínio, buscar
explicações", afirma Wilson Frungilo, presidente
do IDE-Araras (SP), editora que, desde sua criação, em
1963, vendeu quase 7 milhões de livros de Allan Kardec.
Seja pelas repercussões libertárias do
iluminismo ou pelos frutos institucionais que emergiam da Revolução
Francesa, a despeito do golpe de Napoleão III (1851), que fez
retornar o império, Rivail decidiu enfrentar o desafio das "tables
tournantes et les esprits frappeurs" (mesa-branca, numa tradução
livre) que se tornaram comuns nos principais centros europeus. Educado
na escola de Pestalozzi, em Yverdun, Suíça, Rivail teria
apreendido conceitos universalistas de liberdade de crença, algo
que tem atrapalhado a convivência humana e respondido por conflitos
cruentos. Com visão atualizada de seu tempo, poliglota, Rivail
já era conhecido no meio educacional da França. Em 1828,
aos 24 anos, publicou o "Plan Proposé pour l'Amélioration
de l'Educacion Publique".
A tese espírita, baseada na explicação
dos fenômenos, visava a decifrar enigmas de todos os tempos quanto
à sobrevivência pós-morte, enquanto a reencarnação,
parte da lei de evolução, uma das bases do espiritismo,
nivelaria todos em oportunidades de crescimento.
Divulgação
A literatura do ramo coloca o lugarejo de Hydesville,
no Estado de Nova York, em 1848, como ponto de partida de um edifício,
cujo principal mérito ficou por conta da ordenação
e sistematização, entre causas e efeitos, do sobrenatural.
As irmãs Kate, de apenas 11 anos, e Margareth Fox, de 14, foram
protagonistas de "comunicações" de espíritos,
por meio de batidas, os conhecidos "raps". Transpostas para
a Europa, viraram atrações familiares, por meio das mesas
que dançavam.
Aos 50 anos, Rivail foi atraído
para os fenômenos por Fortier, conhecido magnetizador, que lhe
falou sobre "mesas que podiam girar e andar à vontade".
Em um segundo contato, o mesmo interlocutor assegurou-lhe que as mesas
"não somente dançam, mas podem falar. Interrogam-nas
e elas respondem", conforme relato do próprio Rivail, em
documentos publicados em "Obras Póstumas" (Paris, 1890,
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas).
De frívolas, as reuniões com o educador
transformaram-se em sérias. Com o concurso de duas jovens da
família Baudin, Caroline, de 16 anos, e Julie, de 14, que acionavam,
por atribuída ação mediúnica, uma cesta
com lápis à ponta, resultando em escrita sobre uma prancheta,
Rivail passou de professor a investigador. Antes, ele havia dito a Fortier
que só acreditaria na afirmação do amigo vendo
in loco e quando lhe provassem que "a mesa tem cérebro para
pensar, nervos para sentir e pode tornar-se sonâmbula".
Realizadas na casa da Rua Rochechouart, 18, em Paris,
as sessões significaram para Rivail a "revelação
de uma nova lei" que ele prometeu a si mesmo "investigar a
fundo". Logo descobriu que os espíritos, "nada mais
sendo que as almas dos homens, não possuiam nem a suprema sabedoria
nem a suprema ciência". Acrescenta que vislumbrou naqueles
fenômenos "a chave do problema do passado e do futuro da
humanidade. Era uma revolução total nas idéias
e nas crenças existentes".
O resultado foi um livro com 501 questões e igual
número de respostas que o livreiro E. Dentu decidiu publicar,
após cerca de 35 meses de investigações. Dentu
viria a se tornar parceiro de várias outras publicações
do já então Allan Kardec. Uma segunda edição,
em 1860, continha mais que o dobro de perguntas, com abordagem sobre
causas primárias do universo, mundo dos espíritos, lei
morais e esperanças e consolações.
Motivo de proibições desde Moisés,
que no "Deuteronômio" impõe que "nunca exista
entre vós quem consulte adivinhos (...), quem interrogue os mortos",
por pastorais da Igreja Católica, a primeira do cardeal-arcebispo
de Reims, na França, na Quaresma de 1865, a fenomenologia espírita
chega ao século XXI robustecida. Ficam para trás, no Brasil,
a primeira Constituição (1824), que fixava o catolicismo
como religião oficial, ou o Código Penal, de 1890, que
restringia as práticas espíritas.
Fundada em 1884, a Federação Espírita
Brasileira (FEB) vendeu, até 2006, 44 milhões
de livros espíritas. Dona de um catálogo com mais de 400
títulos, só com as obras de Allan Kardec já vendeu
11,5 milhões de exemplares. "Em 2006 colocamos 915 mil livros
para vender e neste ano deveremos chegar a 1 milhão. No primeiro
trimestre vimos um crescimento de 77%, com 228 mil unidades colocadas",
comemora Ílcio Bianchi, diretor da FEB e gerente da revista "Reformador",
publicada de forma ininterrupta desde sua criação, em
1883, um ano antes da atual editora.
"Há alguns anos os livros espíritas
ficavam escondidos nas livrarias. Hoje estão perto dos caixas,
tal a procura", assinala Cléber Galhardi, diretor comercial
da Boa Nova, distribuidora e editora de livros espíritas, instalada
em Catanduva (SP).
A empresa, que vendeu 1 milhão de livros em 2006,
espera crescimento de 7%, em 2007. De "O Livro dos Espíritos",
no ano passado, colocou no mercado 44,8 mil exemplares. Uma enquete
no site da Boa Nova mostra que 16,8% dos consultados lêem de um
a três livros espíritas por ano. Na escala, a maior fica
com os que lêem mais de 12 obras, 43,5%. Esse elevado porcentual
deve explicar a viabilização da empreitada livreira.
O Instituto de Difusão Espírita (IDE)
não fica atrás. Com 180 títulos, 78 deles em espanhol,
vendeu, em 2006, 1,23 milhão de unidades, das quais 60 mil de
"O Livro dos Espíritos". O formato de bolso da editora
custa R$ 5,90.
A Laselva, que tem livrarias em aeroportos e terminais rodoviários
e ferroviários, ostenta cem títulos espíritas,
cerca de 8% de seu catálogo. Em janeiro, vendeu 6 mil livros
do gênero, do total de 120 mil, segundo seu gerente de produtos,
Adriano Santana.
"A apresentação dos livros espíritas
melhorou muito e a mídia, em geral, está alavancando
as vendas", diz.
Essa mídia tem peso quase total das novelas da
TV Globo, pontuadas por aparições de entidades que já
não pertencem a este plano. Em "Páginas da Vida",
apresentada no horário nobre, a personagem Nanda, já morta,
aparecia constantemente aos parentes.
À MODA BRASILEIRA
A contagem de cerca de 30 milhões de simpatizantes
do espiritismo no Brasil, número admitido pela Federação
Espírita Brasileira (FEB), ante 2,4 milhões de adeptos
assinalados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), não revela a existência de uma diferença
entre religiosos e não religiosos, ou laicos, no meio espírita.
Um segmento entende o espiritismo como ciência, filosofia e religião,
enquanto outro, minoritário, ciência, filosofia e moral.
Recente literatura do tema está na praça,
como "Espiritismo à Brasileira", da antropóloga
Sandra Jacqueline Stoll, tese de doutorado na USP (Edusp, 2003), e "Espiritismo
- uma Religião Brasileira", de José Luiz dos Santos
(Átomo, 2004), professor de antropologia, Ph.D. da Universidade
de Londres. Stoll sustenta que a ênfase à ciência
espírita "foi mantida apenas por alguns grupos de elite.
A tendência dominante, porém, consiste em atribuir à
doutrina espírita uma feição essencialmente religiosa.
O papel de Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier, 1910-2001)
nesse contexto não é criação dessa versão,
mas a consolidação, por meio do exemplo de vida, de uma
reinterpretação católica da doutrina espírita".
Como representação dos laicos está
a Confederação Espírita Pan Americana (Cepa), fundada
em 1946. Possui filiados em vários países da América
Latina, no Caribe (Cuba) e mesmo na Espanha, França e Austrália.
"A Cepa é um movimento de idéias,
tem proposta humanista, livre-pensadora, laica e progressista, que
respeita todas as culturas como expressões legítimas
do progresso intelectual e moral dos povos", define Milton Medran
Moreira, advogado, jornalista e escritor, presidente da entidade.
Ele é autor do livro "Direito
e Justiça - Um Olhar Espírita" (Imprensa
Livre, 2004).
O interesse pelo aspecto científico do espiritismo
ganha espaço também na obra "Mecanismos da
Mediunidade - Processo de Comunicação Mediúnica",
do médico sanitarista e mestre em saúde coletiva pela
Unicamp, Ademar Arthur Chioro dos Reis (CPDoc, 2005).
Essa literatura, que busca trazer o além para
o aqui e o agora, fora do segmento de auto-ajuda, tem correspondência
em pesquisas no campo da transcomunicação instrumental,
que trata, entre outros aspectos, da gravação de vozes
diretas de espíritos. O site www.ipati.org, coordenado pela pedagoga
Sônia Rinaldi, reproduz algumas dessas experiências.
"Todo esse empenho tem direção
certa: tirar do homem a incerteza do amanhã, pela comprovação
da imortalidade, e levar o espiritismo ao estágio da influenciação
social", sustenta Moreira.
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